Sábado, 28 de Junho de 2008

 

Desde D. Dinis até ao século XIX, o Castelo de Campo Maior foi desempenhando a sua função de elemento importante para a defesa da fronteira na região onde confluem as bacias do Xévora e do Caia com o  rio Guadiana, região que se tornou, a partir de finais do século XV, o principal canal de invasões para exércitos vindos de Espanha.
A fortaleza que tornou Campo Maior uma das mais importantes praças de guerra de Portugal começou a ser construída em 1644, pouco depois da Restauração da Independência com a aclamação de D. João IV em 1640.
O velho castelo medieval que, durante mais de três séculos, fora elemento essencial de defesa da vila e do reino, foi relegado para o papel secundário de último reduto defensivo, estrutura para armazenamento de equipamentos militares e para acolhimento das guarnições que estacionavam na vila. À nova cintura defensiva constituída pelos baluartes ligados por cortinas, cabia agora, no essencial, a função defensiva.
O antigo castelo que, no século XIV, acolhia nas suas muralhas a quase totalidade da população da vila, tornara-se insuficiente para abarcar os arrabaldes que se foram estendendo para Norte e para Oeste. De tal modo a vila cresceu que a chamada “Vila Velha” foi definhando enquanto uma nova vila se espraiava pelas encostas da colina encimada pelo castelo. Dele ficavam os muros ameados e as torres quadrangulares de que se destacava, pelo volume e pela altura, a portentosa torre de menagem.
Desse antigo castelo muito pouco resta, depois do terrível desastre provocado pela explosão do paiol de munições da praça, que estava sedeado na dita torre de menagem e que, devido a um raio, deflagrou como uma bomba de grande potência, lançando sobre a vila a tremenda chuva de pedras que a danificou na sua quase totalidade e que matou ou feriu uma parte considerável da sua população.
É o castelo, mandado restaurar por D. João V, que João Dubraz descreve e exalta no texto que se segue, e no qual este notável escritor campomaiorense revela o seu afeiçoado apego ao património da sua terra, de que ele assume uma acrisolada e magoada defesa em prol da sua conservação e restauro.
Infelizmente, as suas queixas, revoltas e lamentos ainda possuem tanta actualidade que podiam, com pequenas diferenças, serem produzidas por qualquer campomaiorense nos nossos dias. Bastaria que a revolta e as queixas que João Dubraz faz a respeito do castelo, fossem hoje dirigidas contra o estado em que se encontram alguns muros das cortinas e baluartes da antiga fortaleza de Campo Maior. Podemos também invocar o choque que temos quando, vindos de Espanha pela estrada do cemitério, nos deparamos com o estado de porcaria e de degradação em que se encontram os baluartes de São Sebastião e da Boa Vista. Isto sem contar com a vergonha que sentimos quando os que nos visitam se deparam com estas situações e nos perguntam porque razão se permite que tal aconteça.
Se duvidam do que aqui escrevo, leiam com atenção o texto de João Dubraz que a seguir se transcreve. Porque João Dubraz foi escritor de muitos “recados”; recados tão pertinentes que, ainda hoje, devem ser tomados em consideração; porque, por mais que o tempo mude, haverá sempre homens dispostos em insistir nas maneiras mais erradas de encaminhar as coisas que afectam a vida e o património da comunidade…
“A fortaleza a que se chama castelo contém verdadeiramente dois castelos. A parte maior, moderna, compreendendo dois planos, tem seis torres com plataformas, podendo em cinco delas laborar a artilharia de rodízio; São todas ligadas a parapeitos com canhoneiras. Há também uma torre de vigia no plano superior e é aí a praça de armas[i] e a ermida.
Do lado do Ocidente eleva-se um recinto ameado, com duas torres, ao Norte e ao Sul, resto do primitivo castelo, destruído em grande parte pela famosa explosão do armazém da pólvora em 1732. As ameias, os adarves[ii] e algumas seteiras que restam, estampam nesta construção o selo interessante da Idade Média. Nada, porém, denuncia ali um edifício dos árabes – contra ao que pretendem alguns antiquários[iii]; a lenda da moira encantada poder-se-ia considerar tradição oral transmitida de pais para filhos se a poesia popular não tivesse encantado, em todos os velhos castelos, uma moira mais ou menos formosa. Na verdade, um protesto eloquente contra o fanatismo religioso.[iv]
As torres do velho castelo e a cortina que as liga, produzem um golpe de vista pinturesco e majestoso, que agrada aos viajantes. Porém, o fatal abandono da praça e a ruína ameaçadora desta parte da fortaleza interior, fazem recear que, em breve, mais um montão de pedras históricas ateste o clássico desleixo português.
Que governos são os nossos, tão avessos aos monumentos das antigas eras, que vão achatando o país com as ruínas desses poéticos gigantes da Idade Média?[v]
Sinto uma verdadeira dor de alma todas as vezes que considero o elegante recinto ameado onde se erguem as belas torres de D. Dinis. Esta alcáçova reconstruída e reparada cuidadosamente por gerações menos grosseiramente positivistas que a actual, além de ser para mim respeitável como monumento que é, de grande valor arqueológico, e até mesmo por memorar uma espantosa catástrofe, [vi]cujos vestígios são aí bem visíveis ainda, também está ligada às recordações saudosas da minha mocidade; e de tal modo está casada com elas que eu amo cada uma dessas pedras históricas como lembranças suave das minhas brincadeiras infantis. Sim… da infância – e não só desta – também da puberdade, da juventude, sonhos poéticos, fanatismo nacional, crenças políticas, tudo isto que é o meu passado, torno a ver palpitante e fervente de actualidade, quando visito estes muros seculares.
Mas, todo o castelo cai em ruínas … mãos de bárbaros têm introduzido o camartelo demolidor nos panos respeitados pelos séculos! As ameias das velhas torres têm sido quebradas ou arrasadas, os muros fendidos, os alicerces rasgados, o interior dos armazéns devastado. O vandalismo estúpido e criminoso nada poupa. Dentro de poucos anos, graças ao espírito destruidor que paira sobre os monumentos de Portugal, quando o viajante, na primeira cumeada do oeste, avistar Campo Maior, não verá, como ainda vê, duas vistosas torres feudais que recortam as suas ameias no horizonte; verá, porém, mais uma ruína gigantesca e melancólica, (…)”

 (In Recordações dos Últimos Quarenta Anos,2ª Ed., p.36 e 36)

 


[i] Local destinado a exercícios, paradas, revistas militares…
[ii] Caminho na parte de cima dos muros das fortalezas, por detrás das ameias.
[iii] A palavra antiquário que hoje se usa para designar os que negoceiam em coisas antigas, aqui significa os que estudam e se interessam pelas coisas do passado.
[iv] As frases finais deste período foram reformuladas para lhes aclarar o sentido que é bastante confuso na versão do autor.
[v] A partir deste parágrafo, este capítulo foi completamente remodelado em relação à 1ªedição desta obra. Nesta, o autor escreveu os seguintes apelos e considerações:
                Senhor ministro da guerra, senhor general da província, senhor engenheiro da 7ª divisão (provavelmente estropio este título), é uma vergonha que caia o formoso castelo de D. Dinis, por causa da miserável economia de algumas moedas. Quem não conserva os monumentos históricos, testemunhas quase vivas do heroísmo das gerações que nos precederam nesta terra, bem merece que, ampliando-se o dito pungente de Garrett, se diga: “Portugal é pequeno, os homens não são grandes”. Mas, dos governos, desses… direi o que são, de hoje a um ano, se o castelo não tiver sido concertado.
Isto tinha o autor escrito no ano anterior, no Folhetim do nº 501 de 4 de Março de 1866, do jornal “A Voz do Alemtejo”, onde pela primeira vez tinha publicado este texto, com o título “Bosquejos à pena V – O Castelo”
Na 1ª edição desta obra, publicada em 1868, acrescentou:
                Decorreu o ano, não se fez o concerto, e qualquer dia desabará a cortina que liga as torres de D. Dinis. Não deve faltar a frase prometida, já que faltou a pedra e cal. Quer saber o leitor o que são os nossos governos? São prodígios de proporção: Se a terra é pequena, os que a governam são… microscópicos.
[vi] O autor refere a reconstrução promovida por D. João V, após a explosão do paiol da pólvora em 1732 que arrasou praticamente o antigo castelo e destruiu grande parte da vila.


publicado por Francisco Galego às 21:09
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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