Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

 

Porque tenho plena consciência de que a minha afirmação de que considero João Dubraz “o maior escritor campomaiorense de todos os tempos” pode suscitar alguma desconfiança, dúvida ou incredibilidade, resolvi publicar esta série de crónicas com o objectivo de dotar os meus leitores da capacidade de opinarem a este respeito, de modo fundamentado.
Com as oito crónicas anteriores, procurei dar a conhecer alguns dados biográficos e bibliográficos sobre este autor que tanto continua a contribuir para o conhecimento da História de Campo Maior. Puderam os leitores ficar com uma ideia acerca do Homem e da sua Obra.
Pretendo agora dar a conhecer alguns trechos que considero mais significativos, quer pela sua beleza literária, que pelo seu valor informativo. Começo com este belo texto que retirei da 2ª edição das Recordações dos Últimos Quarenta Anos, páginas 5 a 8, nas quais João Dubraz retrata, com grande elegância de estilo, a vila de Campo Maior como ele, que nela sempre viveu, a descrevia há 140 anos.
Actualizei a ortografia e introduzi algumas notas explicativas que me pareceram poder facilitar a compreensão do texto.
 
Vila antiga e praça de armas, da província do Alentejo, Campo Maior demora três léguas ao norte de Elvas, três ao oeste de Badajoz, três ao sul de Albuquerque e quatro a leste de Arronches.
O terreno onde está assente a povoação é alto ao Sul, baixo a Leste e Oeste, erguendo-se um pouco ao Norte. Sobranceiro a todos os lados da vila, na extremidade sul, eleva-se o castelo, forte, vistoso e imponente. Respectivamente às cercanias a praça é baixa e dominada por muitos cerros[1] a Leste, Norte e Oeste, na distância de mil a dois mil metros, o que constitui a sua defesa difícil e perigosa.
Pelo recenseamento geral[2] verificou-se que a população tem quase seis mil almas, volume importante aglomerado e comprimido num espaço comparativamente pequeno. Portanto, sendo certo que não é a mais extensa das vilas do Alentejo, é decerto a mais populosa, porque nenhuma tem tal número de habitantes dentro de muros.
São edifícios notáveis o Castelo, os muros da Praça[3], a Igreja Matriz, a de São João Baptista, o Depósito de Víveres[4] e os Paços Municipais. Entre as construções particulares sobressaem a casa dos Carvajais, a de Albuquerque Barata, a de João de Mello[5] e outras. Em geral, os prédios da vila, com excepções não raras, são pouco elegantes e o aspecto da povoação, conquanto que as ruas sejam regulares, deixa muito a desejar aos que lhe procuram aumentos.
A vila é abundante de água potável e os campos adjacentes, ainda que um pouco secos, são férteis e bem cultivados. Nota-se porém, durante o Estio, uma zona quase circular que tem de diâmetro alguns milhares de metros, cujo centro é o povoado, onde a vista quase só pousa sobre pés de plantas devastadas pelo ceifeiro. Como contrasta então este terreno árido, queimado pelo sol e pelo fogo, repugnantemente feio e incómodo, com os tapetes luxuriantes de verdura e semeados de papoulas que brotam no Inverno e se alindam na Primavera!
O clima é áspero pela deficiência de arvoredo que só abunda a dois e mais quilómetros dos muros[6]. No Inverno desce o termómetro a uma temperatura bastante baixa, elevando-se no Estio a ponto de se tornar o calor quase insuportável. O Verão é pois ardente e feio, o Outono temperado e agradável e o Inverno muito frio mas com dias tão suavemente deleitosos como os que se podem desejar na Primavera. Esta é irregular, ora fria ora quente, ora ventosa ora húmida, sendo as menos vezes as que se diz lhe serem próprias, isto é, suave e amena. Os belos dias de Campo Maior são quase sempre em Janeiro: nesses dias excepcionais o sol resplende sem deslumbrar e o calor dos seus raios, tépidos e voluptuosos, vem tocar-nos com a sensação castamente perfumada de um beijo de criança.
A gente é laboriosa, apaixonada pelo luxo do trajar, um pouco altaneira e imprevidente, geralmente bondosa e tratável. A educação pública e a polícia carecem todavia de cuidados que se não podem preterir.
Essencialmente agrícola, a povoação alimenta-se da uberdade da terra e só dela. Se a agricultura não constituiu exclusivamente outrora o lavor diário dos campomaiorenses, é hoje, e vai continuar a ser, o mais valioso recurso para que podem apelar. Exporta muito trigo, legumes e azeite e, tendo o cultivo da vinha assumido nos últimos anos proporções inesperadas, as bebidas alcoólicas constituem já um grosso rendimento. Também exporta lã e alguma laranja.
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É pouco notável em antiguidades o concelho de Campo Maior. O recinto ameado do castelo, o muro de uma albufeira romana ou mourisca[7], a capela do Salvador, junto ao Xévora, a Praça de Ouguela e alguns alicerces de procedência duvidosa, são por ventura as únicas antiguidades que podem, por agora, motivar investigações arqueológicas.[8]
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Indústrias novas não se têm criado e apenas se pode dizer que certas necessidades, provenientes do progresso da agricultura, foram remediadas. Nessa consideração tenho a construção de duas fábricas de destilação e alguns lagares de moer azeitona.
Os habitantes de Campo Maior são laboriosos, como já se disse, especialmente os camponeses. Em parte alguma está tão garantido o trabalho braçal e não há país onde a existência da máquina viva e pensante de arrotear a terra seja mais cómoda e segura, enquanto lhe não falecem as forças para o trabalho. Vive, porém, tão descuidosa e imprevidente, que a ideia de futuro não lhe imprime a menor ruga. Lida enquanto pode; depois esmola e esmola sem azedume (observa-se), como quem cumpre um fado, a que não há que resistir nem obstar.
Se um dia essas consciências rebeldes de moços arrogantes, que hão-de tornar-se velhos abatidos, pudessem abrir-se à razão, se cada um desses mancebos de constituição atlética, que porventura reputam eternas as forças da juventude, pudesse ser levado a poupar quarenta réis por semana ou, ao menos, cinco réis por cada dia de trabalho, essa quantia tão pequena bastaria para enriquecer o montepio que lhes assegurasse o pão da velhice.[9]
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Tal é a minha terra. Os que a conhecem não rejeitarão o quadro. Os que apenas ouviram falar dela, se lha pintaram diferente amigos ou inimigos, podem, se me quiserem crer, rectificar os seus juízos.
 
 

 


[1] Cerros = montes ou cabeços. O autor refere-se aos seguintes: Cabeça Gorda, Alto das Queimadas, Cabeça Aguda; Alto de Santa Vitória e Alto do Carrascal.
[2] Os dados demográficos referidos são do primeiro censo da população portuguesa elaborado de acordo com os métodos preconizados pela Estatística, levado a efeito em 1864 e publicado em 1868 com o nome de Estatística Civil. (Dic. Hist. Port., Joel Serrão, Vol. V p. 241)
[3] Praça de guerra ou fortaleza.
[4] O “Assento dos Víveres de Boca” que o povo designa simplesmente por Assento.
[5] Na Rua das Pereiras ou de João Minas.
[6] Por razões de estratégia militar de defesa da praça de guerra, o arvoredo tinha sido eliminado nos terrenos em volta das muralhas e baluartes da povoação.
[7] O autor refere-se à Barragem do Muro, que está hoje bem estudada, sabendo-se que se trata da maior barragem conhecida, construída pelos romanos a sul do Tejo.
[8] Note-se que o autor refere a Capela do Salvador mas não a Ermida da Enxara, nem a ponte romana que lhe fica próxima. Provavelmente porque estariam em ruínas ou porque não fossem visíveis e identificáveis.
[9] De notar as preocupações sociais de João Dubraz numa época em que não existiam ainda quaisquer medidas de previdência social, nem leis definidoras de horários de trabalho ou de protecção dos trabalhadores.
 
 


publicado por Francisco Galego às 19:06
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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