Sábado, 22 de Agosto de 2015

 

As “Saias”, a outra grande manifestação da cultura popular campomaiorense, não podia deixar de se dedicar a este tão notável tema que são as Festas do Povo de Campo Maior.

 

Venham ver as nossas festas,

Festas de grande valor;

Ficam no Alto Alentejo,

Vila de Campo Maior.

 

Vem, amigo forasteiro,

Venham ver as nossas festas;

De norte a sul do país,

Não há outras como estas.

 

Se vens às Festas do Povo,

Leva contigo uma flor;

Que este povo habilidoso,

Fez com carinho e amor.

 

Venham a Campo Maior,

Ver o mais lindo jardim;

Tenho corrido mil terras,

Nunca vi ruas assim.

 

Nunca vi ruas assim,

Mas quem seria o pintor?

Foi o povo que as pintou

Com carinho e com amor.

 

Campo Maior minha terra,

E terra dos meus amores;

Setembro Festas do Povo,

As ruas cheias de flores.

 

Foi o povo que as fez,

Com suas mãos carinhosas;

Cada rua é um jardim,

De flores maravilhosas.

 

Todos fizeram flores,

Todos cantaram cantigas;

Eram crianças e velhos,

Rapazes e raparigas.

 

Durante noites e noites,

Toda a gente fez as flores;

Sacrificando o descanso,

Esquecendo mágoas e dores.

 

Mas que ruas tão bonitas,

Já não sei qual a melhor;

Nunca mais esquecerás,

Festas de Campo Maior.

 

Mas que ruas tão bonitas,

Que flores maravilhosas!

São tantas, tantas as ruas,

Qual delas a mais formosa.

 

Novos velhos e crianças,

Numa labuta sem fim;

Transformaram estas ruas,

Num verdadeiro jardim.

 

São ruas cheias de flores,

De cravos, botões e rosas;

Todas feitas em papel

De cores esplendorosas.

 

Esta vila camponesa,

Está enfeitada a rigor;

Com lindas flores de papel

Que são poemas d’amor.

 

Povo de Campo Maior,

Como tu não há igual;

Estas tuas lindas festas,

São únicas em Portugal.

 

Cantar toda a gente canta,

Versos toda a gente faz;

Mas de festas como estas,

Ninguém mais é capaz.

 

Nós cá em Campo Maior,

Somos muito hospitaleiros;

Pomos cadeiras à porta,

P’ra sentar os forasteiros.

 

Numa manhã de Setembro,

A vila acorda mais bela;

E a camponesa sorri,

Debruçada na janela.

 

Durante meses e meses,

Mãos rudes fazem magia;

Transformam papel em flores,

Para nos dar alegria.

 

Vila de Campo Maior,

Terra de grande beleza;

Toda composta de flores,

Pareces uma princesa.

 

O povo que agora canta,

Jamais cantará de novo,

Se um dia se perderem,

As nossas festas do Povo.

 

Campo Maior terra bela,

A terra dos meus amores,

Que bela és enfeitada,

Toda coberta de flores.

 

As tuas Festas do Povo

São no mundo sem rival,

Com toda a sua beleza

Dão fama a Portugal.

 

Olhem bem p’ra a nossa rua,

Não precisou d’arquitecto;

Vejam bem as nossas flores

Reparem no nosso tecto.

 

Primavera é em Abril

Se das estações me lembro,

Mas vem a Campo Maior

Ver Primavera em Setembro.

 

Festas de Campo Maior

Como elas não há igual,

São as festas mais bonitas

Que já vi em Portugal.

 

Campo Maior, terra amada,

De beleza sem igual;

As festas da minha terra

São jardim de Portugal.

 

Campo Maior, terra bela,

Terra de trabalhadores;

De dia vão trabalhar,

À noite fazem flores.

 

Campo Maior tua fama,

Vai para lá das fronteiras;

Tens as festas dos artistas,

E tens boas cantadeiras.

 

Festas de Campo Maior,

Feitas com muito carinho;

Todos dão o seu melhor,

Desde a criança ao velhinho.

 

Minha vila alentejana,

Minha terra camponesa;

Tuas festas têm fama,

De tanto gosto e beleza.

 

Cheguem a Campo Maior,

Ao romper da madrugada;

Venha ver as lindas flores,

Destas mãos abençoadas.

 

Por entre flores à janela,

Espreita uma camponesa;

E o forasteiro se espanta,

Ao olhar tanta beleza.

 

Aqui a Campo Maior,

E às suas Festas do Povo;

Vem gente do estrangeiro,

Vem gente do mundo todo.

 

Dizia a minha avozinha,

Com uma grande comoção,

Não deixem morrer as festas,

Mantenham a tradição.

 

Às vezes penso comigo,

E digo de mim p’ra mim,

Mas que força tem o povo,

P’ra fazer festas assim.

                                         

Camponesa, camponesa,

Eu sou de Campo Maior;

Temos as festas mais lindas,

No mundo não há melhor.

 

Vou a fazer umas quadras,

Sempre com frases de novo;

Falando sempre nas festas.

Desta vila e deste povo.

 

Quando se pensou nas festas,

Pensei logo em fazer quadras;

Mas desculpem meus senhores,

Se algumas saem erradas.

                                         

Se algumas saem erradas,

O autor é taberneiro;

Faz quadras, vende vinho,

Assim passa o dia inteiro.

 

Maravilha e perfeição;

Não há festas como estas;

Digo à nova geração:

Não deixem morrer as festas.

 

Raparigas venham ver,

Esta rua tão mimosa;

Enfeitada com verdura,

E com flores cor-de-rosa.

 

Acabámos o trabalho,

Vamos todos p’ra folia;

Vamos ver as outras ruas,

Cantando com alegria.

 

Queremos cantar, ser alegres,

Queremos ter alegria;

Acabada a enramação,

Vamos todos p’ra folia.

                                         

Trabalham ricos e pobres,

Sem se fazer excepção;

É digna de apreciar,

Esta bonita união.

 

Por vezes pensando eu,

Digo de mim para mim,

Mas que força tem o povo,

P’ra fazer uma Festa assim.

 

Do mundo já viste tudo,

Do bom até ao melhor;

Mas Festas é que não viste,

Como as de Campo Maior.

 

Com carinho verdadeiro,

Coração e amor profundo;

Fazemos das nossas festas,

As melhores festas do Mundo.

 

As festas da minha terra,

Vou-tas dizer a cantar,

Tantas noites sem dormir,

Muitos dias sem parar.

 

Não há Festas como estas,

Deste povo sem igual;

Pois ninguém consegue ver,

Nada assim em Portugal.

 

Amigo do seu amigo,

Povo muito hospitaleiro;

P’ras Festas dá o trabalho,

E também dá o dinheiro.

                                         

As flores da minha rua,

Alegram-me o coração;

Só por pensar que as fiz,

Com gosto e satisfação.

 

Com gosto e satisfação,

Fiz flores p’ra minha rua;

Mas olha que a “enramação”

Não é igual à da tua.

 

De beleza sem igual,

São Festas da tradição;

São feitas por este povo,

Que tira da terra o pão.

                                         

Nesta terra alentejana,

Com suas espigas douradas;

Com gente trabalhadora,

De mãos bem calejadas.

 

De mãos bem calejadas,

Fazendo cravos e rosas;

Para criar um jardim,

Nestas ruas tão formosas.

 

Da minha rua eu levo,

Flores a São Joãozinho;

Uma p’ra pôr na bandeira,

Outra para o cordeirinho.

 

Há papoilas e há rosas,

Há de tudo o que é bonito;

Para pormos no altar,

De São João Bendito.

 

Com verdadeiro carinho,

Com amor firme e profundo;

Fizemos das nossas Festas,

As melhores festas do mundo.

 

Minha rua se vestiu,

De cores dignas de se ver;

E diz-me lá com franqueza,

Se não está linda a valer.

 

Se é mais bela ou menos bela,

Todas o são com certeza;

Importa é ver o esforço,

Desta gente camponesa.

 

Assim da noite p’ro dia,

Esta magia apareceu;

Mas ninguém faz uma ideia,

Do trabalhinho que deu.

 

Quem vem de grande lonjura,

Nem que venha descontente,

Em vendo esta loucura,

Fica encantado c’a gente.

 

Eu não sei qual foi o ano,

Em que a festa começou;

Mais foi tal a maravilha,

Que nunca mais acabou.

 

Setembro, cá nesta vila,

Outro mês não há assim;

Trocado com a Primavera,

Transformado num jardim.

 

Uma abelhinha pousou,

Na minha flor de papel;

Coitadinha abalou triste,

Não podia fazer mel.

 

 

Extraído de Francico Pereira Galego – Campo Maior, Cantar e Bailar as Saias,

Livros Horizonte, Lisboa,



publicado por Francisco Galego às 17:55
Quinta-feira, 20 de Agosto de 2015

A "FESTA" NOS ANOS 50

 

1953 - A TENTATIVA DE REGRESSO À ANUALIDADE DAS "FESTAS"

 

Mais uma vez, a intenção da anualidade das festas, aqui fica testemunhada. As festas realizaram-se no ano seguinte, procurando manter o que se julgava ser a tradição praticável mas que, devido a acontecimentos vários, era constantemente interrompida.

As Festas de 1953 atingiram um brilho inesperado, trazendo à memória dos mais velhos as saudosas Festas Grandes de 1927. É que, tal como estas, as "Festas" do princípio dos anos cinquenta, deixam de ser promovidas por instituições e passam de novo a ser organizadas por uma comissão constituída por artífices, como tinham sido até aos finais dos anos vinte.

 

LINHAS DE ELVAS, nº 152, 29 de Agosto de 1953

Festas do Povo em Campo Maior

   Começam no dia 6 e estendem-se até 9 de Setembro, as tradicionais Festas do Povo na vizinha e acolhedora vila de Campo Maior.

   Os quatro dias de festa são preenchidos com atraentes números de que destacaremos: solenidades religiosas em honra de S. João Baptista com procissão, concertos pelas bandas municipais de Campo Maior e 1º de Dezembro de Elvas, quatro corridas de touros à vara larga, arraiais com fogo preso e do ar, bailes, largada de balões e um atraente espectáculo de variedades no dia 6, com os artistas Fernanda Peres, Francisco José, Margarida Amaral, Mimi Muñoz, Noémia Feijó, Eduardo Futre e outros.

   Além destes belos números, teremos ainda o belo espectáculo da ornamentação de todas as ruas pelos seus moradores.

 

LINHAS DE ELVAS, nº 154, 12 de Setembro de 1953

Notícias de Campo Maior – As tradicionais Festas do Povo

   Como tinha sido anunciado, realizaram-se nesta leal e valorosa vila de Campo Maior, nos dias 6, 7, 8 e 9 de Setembro, as populares Festas dos Artistas, este ano a favor da Cantina Escolar e Santa Casa da Misericórdia.

   As ruas vistosas e artisticamente arranjadas, diferentes todas, apresentavam-se bonitas, garridas e mereceram dos milhares de pessoas que as visitaram os mais rasgados e merecidos elogios.

   Efectivamente, é de louvar este esforço colectivo de um povo artista, capaz de realizações desta natureza e levadas a cabo, note-se bem, a expensas particulares.

   Merecia Campo Maior das entidades oficiais protecção eficaz, propaganda verdadeira, tanto mais que estas festas são de acentuado cunho popular. Este espectáculo das ruas floridas é único em todo o país e devia ser conhecido de todos os portugueses. Para tanto, é necessário, propaganda em todos os sentidos, bairrismo extreme, programas mais variados e tudo o mais que se puder fazer, para que ao visitante se proporcionem umas festas de sonho.

   No programa das festas estiveram incluídos os seguintes números a que assistiram imensas pessoas: alvoradas e concertos pelas bandas de Campo Maior e Elvas; festividades religiosas em honra de S. João, padroeiro da vila; bailes populares; vistoso fogo de artifício e ainda um magnífico espectáculo de variedades, conseguido por Guilherme Ruiz e apresentado na Praça da República, também decorada e ornamentada a primor.

   O vasto e alegre recinto recebeu uma multidão numerosa que foi assistir ao grandioso festival e no qual actuaram os categorizados artistas: Luís Piçarra, Fernanda Peres, Margarida Amaral, Gina Maria, Eduardo Futre, os bailarinos excêntricos Geny e Bel Guerra; Casimiro Ramos e Castro Mota. A locução esteve a cargo de Mimi e Hernâni Muñoz, tendo Guilherme Ruiz, da Comissão das Festas, proferido antes do espectáculo, um caloroso discurso em que evocou as origens remotas das Festas dos Artistas, explicou a sua projecção no campo popular e beneficente e terminou, com muito aplausos, exortando o povo de Campo Maior para que continue a tradição, apresentado estas maravilhas de cor e beleza que são as ruas de Campo Maior, no Alto Alentejo, nestes primeiros dias de Setembro.

   O trabalho dos artistas agradou completamente (excepção feita à orquestra Odeon) não lhe regateando o público fortes aplausos, não obstante a desagradável espera de uma hora que todos sofreram pelo começo do espectáculo.

Não há efeito sem causa…

(…) No que se refere à propaganda das festas, lacuna por demais evidente e clamorosa, é de lamentar que nunca se tivessem convidado os representantes da imprensa a assistirem a algumas das reuniões – e elas foram tantas! – que lhes fornecessem os elementos que os habilitassem a cumprir a sua missão.

   - Missão estimável e que não trazia quaisquer encargos para a organização.

   Tal comportamento trouxe, como era natural, o alheamento compreensível dos representantes dos jornais.

   Além do mais, a sua presença estimularia os organizadores dos festejos, posto que podiam sentir-se amparados por uma colaboração desinteressada e útil…

   Que o programa não este à altura do esforço admirável do povo que ornamentou e transformou em fantástica visão de sonho e beleza as ruas da vila? Não restam dúvidas a ninguém. Nós fomos os primeiros a lamentá-lo. Mas, concluir-se daí e empiricamente que poderia haver o propósito de colocar mal a nossa terra, é atitude que não corroboramos por nos parecer um excesso que a paixão ditou.

   À primeira vista e no auge da paixão, assim parece. Mas, serena e objectivamente, nenhum de nós aceita que assim tenha sido e nem mesmo aqueles que assim pensaram, o aceitam hoje.(…)

   Todavia, a crítica tem de fazer-se e não podemos deixar de referir que é realmente desolador obrigar uma banda que nos visita a efectuar os seu concertos na “cave” – como graciosamente lhe chamaram – do nosso formoso Parque que, diga-se de passagem, exibia feérica iluminação fúnebre; como foi igualmente desoladora a pobreza dos números festivos e, mesmo assim, não cumpridos integralmente.

   Quatro corridas de touros à alentejana e um balão que não subiu, é pouco para festas de tão elevado cunho tradicional e que tanto esforço demandam por parte do povo que lhes dá vida, calor e os encantos duma esplendorosa intuição artística!

   Excluído o excelente espectáculo dos artistas da rádio – que não pode dispensar-se em nossos dias, mas que é incaracterístico por não ter qualquer cunho regionalista – o programa das festas foi, praticamente, inexistente.

   É verdade. Mas acreditamos e, sinceramente o afirmamos, que a Comissão das Festas sentiu como nós a angústia e a tristeza dos comentários e exclamações de muitos forasteiros: “Isto é muito lindo!”… “As ruas são um encanto!”… “Isto é único!”… Mas “além disto o que há mais?!”…

   E, então, voltamos ao princípio: não há efeito sem causa e a Comissão das Festas pode ter sido o efeito de uma causa a que não soube estar atenta…

   E como eles, tal qual nós, são amigos da nossa terra é que quisemos apontar-lhes as falhas, não para os condenar unilateralmente, mas para que apontando os deslizes – que nós próprios podíamos cometer em idênticas circunstâncias – possamos contribuir para uma melhor actuação no próximo ano.

   Estas Festas do Povo de Campo Maior podem e devem constituir o nosso melhor cartaz; mas só em boa e leal colaboração poderemos levar o grito álacre desse cartaz através de todos os recantos de Portugal.

   E a crítica construtiva, serena, calma e objectiva é, em nosso entender, o primeiro passo para tão bela jornada.

   Por nossa parte assim o pensamos.

                                                              Marciano Ribeiro Cipriano

 

    1. Nas  Festas, sempre se tinha realizado a Procissão com a Imagem do padroeiro São João Baptista, que percorrerá as principais ruas da vila. No segundo dia, segundo o Programa de 1952, ou no primeiro dia, segundo o Programa de 1953. Mas, nas Festas de 1957, no programa consta, para o primeiro dia, às 10 horas, uma Procissão com a imagem de São João Baptista para a Igreja Matriz, seguida de missa solene e sermão, às 11 horas; às 18,30 horas Grandiosa Procissão com as Imagens dos Padroeiros de Campo Maior, pelas ruas principais desta Vila deslumbrantemente ornamentadas e, às 20 horas, Regresso da Procissão à Igreja de São João Baptista e Bênção Solene do SS. Sacramento, executando o coro e a orquestra cânticos religiosos.

            Repare-se que no ano de 1957 se referem os padroeiros logo, Nª Sr.ª da Expectação e São João Baptista, enquanto que nos anteriores anos de 1952 e 1953, havia apenas referência ao Santo Padroeiro São João Baptista. No entanto, já anteriormente, nos programas das Festas de 1941 e 1944, os programas referiam Procissão com as imagens dos padroeiros das freguesias de Nossa Senhora da Expectação e São João Baptista…

 

             2. As Festas, neste ano de 1957, deram um salto qualitativo no que respeita aos espectáculos programados: as corridas de touros deixaram de se realizar segundo o modelo tradicional à vara larga, dando lugar a espectáculos tauromáquicos com toureiros, forcados e cavaleiros profissionais. Antes e durante as Festas, começava a cuidar-se de organizar diversões que atraíssem os forasteiros, publicitando-as ao mesmo tempo que se recolhiam receitas para a sua realização. Nota-se que a dimensão das Festas crescia de tal modo que, a maneira tradicional de recolher fundos com peditório entre a população, já não era suficiente para fazer frente aos pesados encargos que estas comportavam.

           

            Tudo isto indicia as grandes mudanças socioeconómicas que se estavam a operar na comunidade campomaiorense. A pujança alcançada pelas Festas pode ser explicada por estas transformações. Talvez devamos ainda juntar-lhe uma outra mudança sociológica, já antes referida e que se iria acentuar a partir dos finais dos anos cinquenta: a saída massiva de gente para os grandes centros urbanos, principalmente para a cintura industrial da Grande Lisboa e a emigração para os países em processo rápido de crescimento económico. Essas tendências que tanto se iriam acentuar ao longo dos anos sessenta, marcaram profundamente a vida em Campo Maior.

            Podemos justamente considerar 1957 como o ponto de partida e o momento de viragem, de toda essa importante e significativa transformação. Porém, novos e importantes acontecimentos iriam determinar um novo período de interrupção. Desta vez , as Festas, ficaram por mais seis anos sem realização.

 

               3. No decurso dos anos cinquenta, Portugal conheceu uma importante transformação. Chegava ao fim a ideia de um Portugal país essencialmente agrícola e, com os planos de fomento, o país lançava-se numa política de desenvolvimento industrial que provocou a deslocação de grandes massas de população para as cinturas industriais de Lisboa e do Porto.

            Em 1951, morreu o presidente Carmona, tendo-lhe sucedido na chefia do Estado, o General Craveiro Lopes. Os tempos de unidade dentro da orgânica do Estado Novo tinham terminado, pois as relações de Salazar com o novo Presidente da República, conheceram vários momentos de grande atrito.

            Em 1958, o regime foi submetido a uma dura prova com a candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República. Só à custa de uma acirrada resistência, recorrendo a todos os processos para garantir a sobrevivência política, Salazar conseguiu manter o controlo da situação, fazendo eleger o Almirante Américo Tomás como presidente.

            Mas, logo outra tempestade política se levantou com o movimento de descolonização posto em marcha por todo o Mundo. Em 1961, começou a contestação aberta em todas as parcelas do Império Português. A guerra colonial então desencadeada, causou profundas mudanças nas estruturas sociais, económicas e políticas do país.

            Assim, na viragem para os anos sessenta, começou o processo de transformações que iriam ditar o fim do salazarismo. Portugal, regularmente censurado pelas suas políticas em todas as instâncias internacionais, estava cada vez mais condenado ao isolamento. A proclamação do orgulhosamente sós de Salazar, era mais um grito de desespero de causa do que a afirmação da força de uma convicção.



publicado por Francisco Galego às 09:18
Terça-feira, 18 de Agosto de 2015

Depois da Segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com crescente projecção para lá da fronteira, propiciada pela emigração e, depois, aproveitando a tendência para a globalização, propiciada pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações. As Festas do Povo de Campo Maior foram-se tornando um fenómeno de cultura popular, lugar de grande romaria, apesar de não estarem ligadas a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

Passados que são 122 anos, a vila de Campo Maior decidiu, neste final de Agosto, transfigurar-se de novo para nela renascer um turbilhão de formas e de cores. De uma noite para o dia, tudo se irá transfigurar. Os tectos de cordões de flores protegerão as ruas do esbraseamento do Sol. Cada rua terá procurado encontrar uma maneira nova de se cobrir de ornamentos. Por muitos recantos voltará a aparecer de novo a magia das flores e das ramagens. Haverá rosas, cravos, tulipas e uma miríade de outras flores que, pela sua perfeição, chegarão a confundir-nos de tão bem dissimulado estar o artifício de serem flores de papel.

Perante tamanha beleza, tornar-se-á inevitável o espanto perante uma obra colectivamente realizada. Seremos levados a pensar como terá sido possível gerar este sortilégio, trazido através do tempo por sucessivas gerações de campomaiorenses.

Até quando poderá subsistir tanta magia se vivemos tempos de tão escassos valores e de tão rasteiro pragmatismo?

Provavelmente as Festas do Povo de Campo Maior terão o destino de todos os milagres: existirão até que existam em Campo Maior, mulheres e homens capazes de acreditar que tais milagres podem acontecer.

Como todos os fenómenos sociais, as Festas do Povo de Campo Maior, para garantirem a sua sobrevivência, vão de ter de evoluir, adaptar-se às novas condições da sociedade campomaiorense.

Desde o começo deste modelo, em 1893, vão decorridos 122 anos e as FESTAS DO POVO vão realizar-se, pela 35ª, vez neste ano de 2015.

 



publicado por Francisco Galego às 17:13
Sábado, 15 de Agosto de 2015

 

 

Não é fácil demarcar com rigor a data de começo das Festas do Povo de Campo Maior. Sobre as Festas de Campo Maior, as fontes mais antigas apontam para uma origem ligada ao culto de São João Baptista, o santo patrono que figurava no seu antigo brasão. Todos os anos, no dia 28 de Outubro, realizava-se uma missa solene seguida de uma procissão em honra de São João Baptista, na qual participavam solenemente as autoridades municipais que assumiam a organização e as despesas de uma festa popular com iluminação nocturna das ruas, havendo bailaricos e descantes populares. Estranha data para tal celebração, pois que esse dia era consagrado a outro santo: Era o dia de S. Simão.

Mas, em Campo Maior, importante praça de guerra para a defesa da fronteira, nesta data celebrava-se o fim do Sítio de 1712, em que a vila estivera na eminência de se render por falta de condições para continuar a resistir ao terrível poder de fogo dos invasores. Porém, quando no fim de quase um mês de cerco, a vila já se conformara com a inevitável rendição, as tropas espanholas sitiantes, inesperadamente retiraram. Para a população isto foi um milagre: A divina intervenção, obtida por interferência de São João Baptista, Patrono e Protector de Campo Maior. Daí que o dia ficasse assinalado como feriado municipal e se decidisse que, nesse dia, se fizessem festejos em honra do Santo Precursor de Jesus Cristo.

Esta tradição foi mantida, mas com interrupções mais ou menos longas em períodos de grandes crises como a Guerra Peninsular, no início do século XIX, a Revolução Liberalista de 1820 e as guerras civis que se sucederam até meados desse século. Quase no final do século XIX, com a pacificação da sociedade portuguesa, a tradição foi retomada. Mas, devido à instabilidade meteorológica do mês de Outubro, as Festas foram recuadas para o mês de Setembro.

            Em 1893, um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, resolveu reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João Baptista que se tinham deixado de fazer desde meados do século XIX. Estes jovens eram chamados de “ os artistas” por terem uma “arte” ou ofício não ligado aos trabalhos agrícolas, actividade dominante na população. Daí que essas festas começaram a ser chamadas de Festas dos Artistas. Só mais tarde, já na segunda década do século XX, a designação oficial de Festas em Honra de São João Baptista, foi mudada pela de Festas do Povo, significando que passara a ser toda a população da vila que se envolvia na sua realização.

Desde que a tradição foi reatada em 1893, os jovens que promoveram as Festas, traçaram as linhas fundamentais do projecto que se iria manter durante quase todo o século XX:

- A ornamentação das ruas e a sua iluminação nocturna;

- Um programa festivo do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão;

- As alvoradas, os concertos pelas bandas locais ou convidadas de terras vizinhas;

- As touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo-de-artifício.

 

As Festas do Povo de Campo Maior adquiriram desde cedo certa pujança, a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar, senão todas as suas ruas, pelo menos a maior parte das ruas da povoação. Usando formas elaboradas de decoração e de iluminação, recorrendo, primeiramente a vegetação natural, depois a um material de grande efeito decorativo, o papel, utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados, bandeirolas e flores. Porque estas festas exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer quando a população dispunha de uma situação estável e de condições económicas favoráveis.

            Nos primeiros cinquenta anos, mantiveram-se com uma expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.

 

            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se foram fazendo, consoante as condições para que se pudessem fazer. Por isso, tendo sido concebidas para serem anuais, têm sofrido muitas interrupções ditadas pelas circunstâncias que determinaram a vida da sua população.

 

 



publicado por Francisco Galego às 08:03
Terça-feira, 11 de Agosto de 2015

Os textos que se vão aqui publicar  têm como objectivo explicar como nasceu e como evoluiu uma festa popular de carácter estritamente local que remonta ao século XVIII. Inicialmente era uma celebração religiosa: uma procissão que evocava um milagre. Foi-se tormando uma celebração pagã. Acabou por se tornar num evento duma dimensão que vai para além dos limites da pequena povoação onde nasceu e para além das fronteiras de Portugal.

As hoje denominadas FESTAS DO POVO realizam-se nos finais de Agosto, princípio de Setembro. Não todos os anos e nem sempre se fizeram com periodicidade regular. Consistem em ornamentar as ruas da povoação. No início usavam-se elementos naturais - folhagens e flores. Mas, a partir de inícios do século XX, começaram a ser usados ornamentos em papel. Depois, os ornamentos de papel passaram a imitar, sobretudo, as flores. Essa inclinação para as decorações florais acentuou-se de tal modo que hoje o evento é, por vezes, designado como a FESTA DAS FLORES. As ruas desta vila – Campo Maior – são completamente cobertas de ornamentações feitas de papel que reproduzem uma grande variedade de flores naturais. O recurso ao papel talvez tenha sido a solução própria de um clima de verões muito quentes e muito secos numa região muito no interior de Portugal. De qualquer modo tornou-se notável que as ruas desta vila de dimensão razoável, se tornem por vezes um fantástico jardim em que as flores são o elemento dominante.

 

 



publicado por Francisco Galego às 17:00
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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