Segunda-feira, 31 de Março de 2008
O radicalismo reformista do Setembrismo suscitou muitas resistências dentro das suas próprias fileiras, dando uma força cada vez maior aos que preferiam que o país fosse governado de maneira mais moderada, sem alterações tão rápidas e profundas do Estado e da sociedade.
Foram alguns dos apoiantes iniciais e figuras de proa do Setembrismo, como o duque da Terceira e o próprio ministro da defesa do governo setembrista, Costa Cabral, que organizaram a conspiração palaciana de que resultou na revolta militar de 27 de Janeiro de 1842.
Este golpe provocou uma alteração profunda da situação política. O Partido Setembrista aceitou a Carta e mudou o seu nome para Partido Progressista. Os cartistas ou cabralistas, como usualmente passaram a ser designados, que saíram vitoriosos do golpe de Estado, tornaram-se dominantes.
Foram marcadas eleições para 5 de Junho de 1842 que foram vencidas pelos cabralistas com dilatada vantagem. Houve muitas reclamações acusando de viciação do escrutínio. Aliás, estes processos tornaram-se habituais durante o Cabralismo.
Em Campo Maior o Partido Progressista era muito pequeno, constituído por uma minoria em que predominavam elementos duma classe média intelectualizada, ligada ao comércio e ao funcionalismo, sendo alguns deles militares. Nele se destacava João Dubraz pela sua apaixonada militância.
Os cabralistas dispunham do apoio da família real, de grande parte da população e da maior parte do exército.
Restava aos progressistas a via da conspiração a que alguns dos seus elementos se entregaram de alma e coração, como foi o caso de João Dubraz, em Campo Maior.
Por volta de 1845 a situação política começou a mudar. Costa Cabral, demasiado confiado nos seus apoios políticos, começou a impor mudanças que se tornaram muito impopulares. O descontentamento cada vez mais generalizado que essas medidas provocavam, veio dar novo alento aos progressistas que levaram a efeito várias tentativas de revolta e passaram a apoiar as diversas revoltas populares que espontaneamente começaram a eclodir.
A maior dessas revoltas foi a chamada “Revolta do Minho”, que começou com o movimento espontâneo popular designado por “Maria da Fonte”, em volta da questão da proibição dos enterramentos nas igrejas e da obrigação de serem feitos nos cemitérios, bem como da decisão do governo levar a efeito um levantamento geral do cadastro das propriedades rurais.
Este movimento de revolta alastrou rapidamente a todo o país devido à feição cada vez mais prepotente que o governo de Costa Cabral assumia para impor as suas decisões.
O pequeno mas muito aguerrido grupo de progressistas de Campo Maior, no qual João Dubraz assumira posição de grande relevo, decidiu participar também neste clima geral de revolta.
Foi neste contexto que se deram os acontecimentos que são descritos no texto que a seguir transcrevo e que vos proponho para ajuizarem se há ou não razão para se poder considerar João Dubraz, dentro das características próprias do seu tempo, um escritor de elevado mérito literário. Repare-se no carácter “cinematográfico” da narrativa, que quase nos faz visualizar a situação que nos descreve e que nos transporta para a vivência de um acontecimento de elevado dramatismo.
 
CAMPO MAIOR, 24 DE MARÇO DE 1846 – 5 HORAS DA MADRUGADA.
Passou-se aviso à nossa gente e à hora prefixa estávamos reunidos numa cavalariça de meu pai, no largo da Misericórdia, onde hoje existe uma padaria. Transportámos para ali as armas em golpelhas de palha e por meio de outros disfarces engenhosos. (…) Ressoaram as cinco horas: nunca hora alguma fora tão solene para mim. À primeira badalada irrompemos com a lava de um vulcão, subimos rapidamente a rua do Poço, e aí, caindo ao Seabra uma pistola do cinto, ouviu-se uma detonação. Corremos qual mais por causa do desastroso e chegámos à Praça Velha (…)
A onda revolucionária passou diante da cadeia e desembocou no pequeno largo onde se abre a porta do castelo. O sentinela gritou, mas, tomado de medo, largou a espingarda e fugiu para o corpo da guarda, escondendo-se debaixo da tarimba (…) Entrámos de tropel vitoriando a liberdade e a rainha, e íamos invadir o casão quando vimos que estava lá um destacamento de caçadores: recuámos um pouco desconcertados, ficando diante da porta em montão. Não esperávamos encontrar o destacamento reunido com as armas na mão. Como se via a luta e o sangue foram inevitáveis.
Não posso dizer com certeza de que lado rompeu o fogo; asseveram uns que fomos nós os primeiros, dizem outros que foram os caçadores. Inclino-me à primeira opinião, porque os soldados estavam em grande desordem à nossa chegada. È certo que se ouviu uma detonação e que esta foi seguida de um tiroteio desordenado mas forte. Era horrorosa a gritaria, a situação tremenda: mais de cinquenta homens dentro e fora do casão, vozeavam e faziam fogo a oito passos de distância. Nós estávamos descobertos, os caçadores guarneciam-se detrás de uma pequena construção que há dentro. O fumo envolvia tudo. Nisto desenhou-se ante nós uma figura humana que agitou a espada como quem oferecia render-se: era o oficial. Mas o fogo não descontinuava apesar de muitos gritos para que cessasse. A figura desapareceu e nós avançámos de novo e apoderámo-nos afinal do casão. Tudo isto se passou em menos de três minutos.
O espectáculo que então presenciei foi horroroso, estranho e imponente. No fundo da casa jazia um caçador estendido que ainda agitava uma perna. Os soldados de punham as armas e abraçavam-nos pelos joelhos. Eram recrutas inexperientes, crianças que choravam em face da morte. O casão estava coberto, quase todo, de enxergões, as armas abatidas em desordem e os soldados despojavam-se também das correias que nos entregavam trémulos e chorosos.
(João Dubraz, 1869, p. 80 a 88)
 
Graças a este golpe de audácia, os progressistas ganharam a Praça de Campo Maior. Para que conste, aqui registo os nomes de alguns dos mais destacados participantes neste acontecimento: J. Dubraz que ficou a comandar a companhia de artilharia, João José da Fonseca Seabra a de cavalaria, ficando as companhias de infantaria entregues ao comando de Mariano Ferreira, Epifânio da Mata (amigo de J. Dubraz desde a infância) e João Carlos Gambôa Mello e Minas (outro grande amigo de J. Dubraz). O comando militar da Praça foi entregue a José Velez Caroço que viera com o primeiro reforço de Portalegre e que, para o efeito, foi graduado em major.
 O governo de Costa Cabral caiu. João Dubraz foi nomeado interinamente administrador do concelho. Tinha nessa altura 28 anos de idade.
 


publicado por Francisco Galego às 17:36
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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