Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

                                                                                                         

            Com o regresso às aulas as escolas ganharam de novo vida. Os pátios voltaram a ressoar com o burburinho das brincadeiras. Naturalmente, invadiu-me uma certa nostalgia. Vieram-me à memória histórias dos meus longos anos de docência, como esta que vou partilhar hoje convosco:

 

 

Partimos muito cedo porque o caminho era longo até Mérida, nosso destino naquela jornada. Para alguns deles, era a primeira oportunidade de atravessarem a fronteira e conhecerem terras e gentes de outro país.

O largo em frente à escola onde nos tínhamos concentrado, estava quase deserto pois ainda faltava muito para o toque da primeira aula. Os alunos ensonados acomodaram-se nos bancos do autocarro. Sabia que o silêncio duraria pouco. A excitação depressa os iria despertar e começariam os cânticos e os chistes do costume. Havia que conceder alguma liberdade pois uma saída do bairro em que estavam confinadas as suas vidas de jovens, era por si motivo de animação. Tinha preparado alguns documentos de apoio mas pensava propor-lhes a sua leitura quando, vencidos pelo cansaço, ficassem mais sossegados.

Reparei no grupo dos indianos: ensimesmados, tinham mergulhado na leitura dos documentos, alheios ao que decorria à sua volta. Se interpelados, sorriam, mas continuavam no seu canto sem se misturarem no ambiente geral.

Como era costume com gente daquelas idades, começaram muito cedo a atacar os farnéis que as mães zelosas lhes tinham acomodado nas mochilas. Mais uma vez reparei no pequeno grupo: esses não comiam nem bebiam. Olhavam a paisagem, trocavam impressões entre eles, quase num sussurro. Não podia deixar de estranhar, pois era grande a sua integração na turma. Aliás, grande parte destes alunos, mantinham-se agrupados quase desde o início da sua vida escolar. Alguns eram companheiros desde o começo da escolaridade. Por outro lado, eram moços de bom trato e não existia entre eles qualquer assomo de segregação ou separatismo.

Circulei um pouco entre aquele grupo a quem me ligava o afecto de vários anos de convívio. Estas viagens eram sempre um bom pretexto para cimentar afectos, alargar o círculo das convivências. E eram também momentos importantes para concretizar e operacionalizar as aprendizagens, por vezes demasiado abstractas, que se conseguiam realizar na sala de aula. Por isso insisti sempre na sua necessidade e interesse, desde que fossem preparadas e executadas com o devido cuidado e com a planificação adequada. Sem isso, facilmente resvalavam para mera excursão, simples passeio, sem metas nem objectivos.

O facto de se dispor de um dia inteiro em contacto com uma ou duas turmas, era uma ocasião única para individualizar mais a relação com aqueles jovens com os quais estava habituado a conviver no espaço e no tempo curtos das aulas, ou nos encontros breves e esporádicos nos corredores.

Tínhamos programado uma paragem para almoço. Os jovens agruparam-se e, como era costume entre eles, logo se estabeleceu um espontâneo e comunitário sistema de trocas. Eu via-me aflito para me livrar de toda a mistura em que se transformaria uma refeição, que pretendia fosse frugal, numa misturada de acepipes e sabores que fariam perigar a minha disposição no resto da viagem.

Nessa altura dei por falta do pequeno grupo que já atraíra a minha atenção no autocarro. Procurando por eles, disseram que não tinham saído. Fui ao seu encontro. Lá estavam, na mesma quietude. Vi que não comiam. Preocupado, pensei que se teriam esquecido de trazer comida. Sentei-me oferecendo do que eu tinha e dizendo que os outros teriam o suficiente para com eles poderem partilhar. Um deles recusou e começou a explicar: que tinham pensado não vir, mas que a minha insistência e explicação os tinha convencido da importância da visita; que não sendo esta um passeio, mas uma sessão para aprender, não havia razão para faltarem.

Um tanto intrigado com aquele discurso, tentei brincar com a situação perguntando se não gostavam também de se divertirem. Que a questão não era essa. Mas que estavam em pleno mês do Ramadão e, por isso, a sua religião lhes impunha certos preceitos e restrições que eles, como bons crentes, tinham de cumprir. Chegada a hora demarcada, poderiam então quebrar o jejum ingerindo os alimentos que traziam para o efeito. Que agradeciam que eu fosse discreto e evitasse explicações junto dos outros pois não queriam tornar-se alvos de chacota, garantia que lhes dei de imediato.

Aquela inesperada situação pôs-me a pensar. Desagradava-me sobremaneira que eles procurassem esconder algo que lhes era tão importante, que constituía parte integrante da sua identidade, das suas tradições e da sua cultura.

Nesse ano teríamos de abordar o tema do islamismo. Era dos assuntos que abordava com menos à vontade. Uma religião encerra vivências e sentimentos que só se entendem quando experimentados. Quando a não entendemos corremos o risco de a abordar, não com a compreensão mas com os nossos preconceitos. Ora, eu tinha uma soberana ocasião de propiciar a estes jovens uma explicação do islamismo porque viviam intensamente essa religião.

Procurei ficar a sós com eles de novo e expliquei-lhes o meu projecto. Ouviram-me com muito interesse e com visível apreensão. Insisti e prometi ajuda para se organizarem. Afinal ainda faltava muito tempo para chegar a essa matéria e eu também estava muito interessado em aprender com eles. Não tiveram como recusar.

 

Logo após a visita, combinei com eles um plano de trabalho: obras a consultar, documentos de apoio a elaborar, planificação da aula que lhes cabia concretizar. Começaram timidamente, acreditando muito pouco nas suas capacidades para concretizarem o projecto. Ao longo do processo muitas vezes me disseram que a investigação que iam fazendo os levava a descobrirem aspectos da sua crença de que antes não tinham conhecimento esclarecido.

À medida que avançavam foram ganhando ânimo. Foi já com entusiasmo que viram chegado o momento de intervirem.

A turma estava na maior expectativa quando se deu começo a esta aula que saía um pouco da rotina habitual.

Numa breve introdução comunicaram à turma como nascera este projecto e como tinham procedido para o concretizarem. Começaram por explicar como, apesar de serem de origem indiana, eram verdadeiros muçulmanos, termo que significava “submisso a Deus” no árabe, língua em que o profeta Maomé começara a pregar a doutrina que lhe fora revelada por Alá, deus único, verdadeiro criador de tudo o que existe. Como esta crença chegara à Índia, terra dos seus antepassados e como aí se tinha misturado com usos e costumes dessa região. Esclareceram o significado do Ramadão que corresponde a um período de 30 dias, o nono mês do calendário lunar usado pela sua religião. Que o Ramadão celebra a entrega pelos céus aos homens do Corão, guia espiritual que orienta os homens servindo de meio para obterem a salvação. Que durante o Ramadão os muçulmanos devem concentrar-se na sua fé pela contemplação, pela devoção e pela purificação. Por isso, devem abster-se de comer, beber, fumar e ter relações sexuais neste período de jejum. Devem também evitar as más acções e os maus pensamentos como a maledicência, a calúnia, o falso juramento, a mentira, a luxúria, a cobiça, a ganância. Devem frequentar a mesquita para lá rezarem, meditarem e recitarem o Corão. São cinco as orações diárias, havendo ainda a Salat-ul-tarawih oração nocturna.

No final do dia o jejum é quebrado para, depois de rezadas as orações, se fazer uma refeição chamada Iftar. Na manhã seguinte, “quando, à luz do sol, se puder distinguir um fio preto de um fio branco”, os muçulmanos regressam ao jejum.

Falaram da importância das cidades santas, referindo em particular Meca, relatando que já a tinham visitado com as suas famílias. Realçaram a grande importância que o parentesco e as relações familiares têm para os muçulmanos, procurando rezar e preparar as refeições em conjunto, procurando viver em perfeita harmonia.

O grande número de dúvidas, objecções e pedidos de esclarecimento que se seguiu, foram a melhor prova do êxito da iniciativa. Mas o melhor de tudo foi ter visto o legítimo orgulho sentido por estes rapazes por terem assumido com dignidade e frontalidade a sua condição, as suas convicções, a sua cultura e as suas tradições. Todos nós que tivéramos ao privilégio de participar, ficámos mais ricos de conhecimento e mais disponíveis para sermos mais tolerantes e abertos à diferença.

                                                        

 

 



publicado por Francisco Galego às 12:16
Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

 

         

Este texto é uma forma de dar a conhecer e de prestar pública homenagem a Marciano Ribeiro Cipriano, de quem tenho a mais grata e saudosa lembrança pelo carinho com que sempre me tratou, embora fosse duma geração muito distante da minha. Porém, quando se trata de cultura, as diferenças de idade não constituem barreiras.

 Este homem que, numa escrita elaborada e de grande beleza, tanto escreveu em Campo Maior e sobre Campo Maior, pelo seu esforço de autodidacta, pela sua inteligência e pelo seu amor à escrita e à leitura, atingiu um elevado grau de formação cultural. Foi colaborador de vários jornais, sobretudo do Linhas de Elvas, no qual chegou a desempenhar as funções de redactor principal e de director adjunto. Sabendo do meu gosto pelas coisas das letras, teve a amabilidade de me emprestar algumas obras da sua biblioteca pessoal. Guardo na memória a forma cuidadosa e criteriosa como ele sublinhava, anotava e comentava as obras que ia lendo.

Por saber do gosto que meu amigo Francisco Pires Von Gilsa tem pela prosa do nosso conterrâneo, dedico-lhe esta minha crónica “roubada” a um saudoso amigo.

 

CAMPO MAIOR NO S. MATEUS: “EU HEI-DE IR À FÊRA D’ELVAS …”

 

Conta séculos de existência, esta bela e tradicional romaria em honra do Senhor Jesus da Piedade.

Melhores ou piores que os programas dos festejos se apresentem, o que é certo, é a romaria do Parque da Piedade constituir sempre o atractivo máximo dos forasteiros que ali acorrem atraídos pela fama da “Fêra d’Elvas” uns – os de Campo Maior – e pelo S. Mateus os restantes das redondezas.

Para os campomaiorenses – os camponeses como impropriamente os designam – a “Fêra d’Elvas” tem encantos e motivos de uma beleza a um tempo mística e pagã.

Nos seus “balhes” – as típicas e características “saias” – de uma toada arrastada e sempre igual, há ressaibos inconfundíveis de um paganismo quase primitivo. Mas, já no recolhimento e respeito com que buscam as “graças” e as medalhinhas do Senhor Jesus da Piedade se revela toda a mística ingénua e pura de um povo que nasceu para cantar – até mesmo quando os desgostos e as desventuras o punge e atormenta.

Criou raízes nos “camponeses” a “Fêra d’Elvas” e a sua contribuição para o brilho e luzimento das festas é, sem dúvida, das mais típicas e valiosas! E de tal maneira esta romaria entrou nos hábitos e tradições deste povo, que até nos contratos entre trabalhadores “acomodados” e os lavradores entram como “folga” obrigatória três dias pelo S. Mateus.

A “Fera d’Elvas” constitui, por isso, a obsessão constante de todo um ano de lutas e ilusões. Quando entra o mês de Setembro esta obsessão aumenta de intensidade; cresce em entusiasmo, e transforma-se na preocupação diária das suas múltiplas atribulações.

À medida que a grande data se aproxima surge inevitavelmente a pergunta sempre que suas “Marias” se encontram: “vaz à fêra?...” E é todo um rol de confidências e confissões que vão desde a qualidade dos bolos e dos licores baratos – os ganhos não dão para mais – até às blusas e vestidos de tecido barato e vistoso que cada uma guarda religiosamente na arca para estrear no S. Mateus. E, quando o dia “chega” toda a vila se agita! Os “felizes” que podem ir à “Fêra” aprestam os carros alentejanos enfeitando as gordas e anafadas mulas com os estridentes guizos e os mais luzidos cabrestos e artefactos.

A partida faz-se de madrugada porque é preciso chegar ao romper da alva para arranjar um bom lugar.

Contam-se por centenas os típicos carros que em caravana marcham ao longo da fila negra da estrada e as cantigas ao som das pandeiretas – que as moças agitam com habilidade rara – não deixam de ouvir-se em todo o percurso. Os “despiques” e os “desafios” pegam de vez e prolongam-se durante três dias e três noites, lançando ao vento as suas vozes, numa demonstração de alegria e satisfação que gostaríamos de ver sempre estampadas nas caras tisnadas destas belas moças que, por carência de tudo, bem cedo pagam o seu tributo à velhice.

Os menos afortunados, os que enjeitados de tudo, não podem ir à “Fera”, não escondem a sua mágoa e, noite fora, em bailes e descantes por todas as ruas da vila, transformadas em singular prolongamento do S. Mateus – atiram para o ar as suas cantigas nostálgicas e saudosas, num desabafo incontido:

                                               “Se fores á cidade d’Elvas

                                               Vai até à Piedade.

                                               Pois que é a melhor coisa

                                               Que têm lá na cidade.”

… Ou ainda nesta outra quadra reveladora da pena que em seus peitos mina:

                                               “O Senhor da Piedade

                                               Tem vinte e quatro janelas.

                                               Quem me dera ser pombinha

                                               Para poisar numa delas.”

E todas as “cantigas”, velhas como séculos, ricas de colorido e tradição, revelam a dor insofrida dos que ficaram:

                                               “Fêra d’Elvas, Fêra d’Elvas

Fêra d’Elvas da cidade.

Quem me dera estar balhando

No Senhor da Piedade.”

Os que ficaram “espalham cantando” as suas mágoas enquanto nos seus cérebros, excitados e ardentes, desfilam em feérico cortejo as iluminações e o fogo do arraial a que assistiram no último ano que lá foram. Os “felizes”, os que puderam ir, foram levar à cidade vizinha a alegria e a frescura dos seus costumes e das suas típicas “cantigas” que generosamente espalharam em desinteressada oferenda às estrelas brilhantes deste belo céu português que, nas suas cintilações miríficas, parecem fugir-lhe como todas as esperanças com que impiedosamente os iludiram à nascença …

A “Fêra d’Elvas”! O “S. Mateus”! Que fantasmagoria! Que tentação destes obscuros obreiros que a terra consome e confunde numa negrura de desenganos e ingratidões!

- São festejos populares. E o povo, bom e generoso, esquecendo faltas e agravos, desprezos e injustiças que não merece, leva a sua presença e a sua alegria, a sua graça e o seu pitoresco, a uma romaria que, sem ele, seria um cortejo incolor de caras bocejando!

E há senhores que parecem esquecer isto!

O povo, contudo, alegre e prazenteiro, ri e folga, baila e canta as belezas sem par deste Alentejo querido que ele engrandece fertiliza e do qual tira sempre a mais negra e dura fatia …

                                               “Eu hei-de ir à Fêra d’Elvas

                                               P’ró ano se Deus quiser …”

E a promessa fica em suspenso, até “ó ano que vem …

 

(Marciano Ribeiro Cipriano, in página 6 de “Linhas de Elvas”, nº 257 de 20 de Setembro de 1955)

 

 



publicado por Francisco Galego às 15:57
Terça-feira, 18 de Setembro de 2007
Tempos houve em que cada povoação tinha as suas próprias festas e romarias. No Alto Alentejo, sobressaía entre todas a Feira de São Mateus, em Elvas. O São Mateus de Elvas era até meados do século passado, uma das maiores festividades que os campomaiorenses celebravam. Poupava-se durante meses para se pode ir até à Feira d’Elvas por volta de 20 de Setembro.
Só os mais pobres, por falta de recursos, e os que cumpriam resguardo por luto ou por doença, ficavam. As carroças partiam uns dias antes ajoujadas de gente, de galinhas, de cabazes de comidas e de doçarias confeccionadas para a ocasião. Quem mais depressa chegasse, melhor lugar podia escolher para acampar nos olivais em volta do parque em que estaria montada a feira. Quem não podia ir de carroça, em caravana, ia a pé. Uma manta chegava para aconchego. Quanto ao resto, desde que houvesse dinheiro para a pinga e para o petisco, já se passava a contento.
Armados os acampamentos, gozava-se do descanso, da boa comida, da alegre convivência que a ocasião propiciava. De dia dormia-se muito e até tarde, por força de alguns excessos de bebida e porque as noites se prolongavam até de madrugada.
            As noites eram para a maioria destes romeiros o melhor que a festa propiciava. Formavam-se grandes bailes de roda animados pelo cantar e dançar das “saias”. Havia disputas assanhadas, muitas vezes entre grupos de terras diferentes. Surgiam a “modas novas”. Quadras engenhosamente elaboradas ao longo do ano encontravam ali o terreiro adequado para a sua pública exibição.
O Senhor da Piedade,
Tem vinte e quatro janelas;
Quem me dera ser pombinha,
Para pousar numa delas.
 
As festas do São Mateus,
São as festas da cidade;
Quem me dera andar bailando,
No Senhor da Piedade.
 
Feira d’Elvas, Feira d’Elvas,
Feira d’Elvas da cidade;
Quem me dera estar bailando,
No Senhor da Piedade.
 

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publicado por Francisco Galego às 18:35
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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