Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007
               “Viram-se cidades importantes e fadadas para grandes destinos, Elvas por exemplo, (…) não dar às escolas senão um olhar distraído e miseriar-lhes alguns pobres tostões, enquanto outros aformoseamentos lhe consomem muitas centenas de mil réis. (…)
E, comparando, viram-se vilas pobres como Arronches, ainda assim tratarem melhor do que algumas cidades as suas escolas. Reclamar e obter para elas edifício do Estado, reconstruí-lo, mobilá-lo, ainda que com rudeza, confortá-lo, posto que com vicioso sistema. Viu-se inaugurar cursos femininos, embora desfavorecidos, abrir escola nocturna. Se bem que com mobília mal adaptada. E, apesar dos defeitos da forma, apesar de alguns abusos, apesar de certas pequenices aldeãs ali desde longo tempo aclimatadas por deficiências de pessoal, se não existisse a escola-cozinha de Degolados podia ser considerada excepção.
Viram-se vilas como Monforte – terra melhor do que a sua fama – levantar desde os alicerces a escola mais elegante do 4º círculo do distrito, embelezá-la e tratá-la como faria uma grande cidade. È verdade que a escola de Vaiamonte só se conhece que é escola porque tem professor e alunos. E a de Assumar, meio cadeia e meio escola, é espelunca inteira. Também é preciso confessar que em Monforte há aulas sem alunos, como no concelho de Elvas há alunos sem aulas.
Porém, viram-se vilas que, como Campo Maior; progridem devagar mas em tudo. Aí os pais não carecem e ser instados para mandarem os filhos às escolas. Aí os professores não os repelem, antes os atraem. Aí os melhoramentos materiais acompanham sempre as escolas e quase não precisam de ser reclamados. Aí o município tem gasto sempre e continua a gastar com a instrução grossas somas, ora criando gratificações para favorecer e sustentar a escola secundária, ora mandando professores à capital a estudarem o método de Castilho (que se decaiu depois de dois anos de curso nocturno não foi por culpa da câmara), ora consumindo quantias de vulto para os professores se habilitarem no estudo prático do sistema métrico, ora criando cursos nocturnos convenientemente remunerados. Podemos dar testemunho de que, só na mobília da aula de português, latim e francês gastou a câmara há poucos anos mais de 60$000 réis e recentemente foi esta aula transferida para os passos do concelho, custando esta transferência cerca de outros 60$000 réis. E isto sem ser despesa obrigatória porque, como todos sabem, as escolas secundárias estão a cargo do tesouro.
E cuidam que, enquanto a câmara de Campo Maior tratava das suas predilecções pela instrução dos seus conterrâneos, se descuidavam os melhoramentos materiais da vila? Enganam-se. Há seis anos que as obras municipais são quase contínuas. A vila renova-se de dia para dia; a rede nos encanamentos vai-se completando; reconstroem-se as calçadas e plantam-se árvores para embelezamentos e efeitos higiénicos. Concertou-se o cemitério público com certo esplendor; estabeleceu-se a conservatória do registo hipotecário e a estação telegráfica com muita decência; organizou-se a limpeza pública pelo sistema adoptado nos grandes centros populacionais; vai começar a construção de uma estrada para o cemitério e continuar a que deve conduzir a Ouguela, cortando o trato de terra mais rico do concelho.
No ano económico de 1867 a 1868, ou antes, no espaço de tempo que começa a decorrer desde o 1º de Julho do corrente ano, visto que as contas municipais, segundo a nova reforma da administração civil, serão feitas por anos civis, deve o cronista da câmara começar a escrever a história abreviada de Campo Maior desde 1828 a 1868, para ser lançada nos Anais do Município, livro precioso que uma disposição do poder executivo central determinou há muitos anos que exista em cada concelho e que, de facto, em poucos arquivos avulta.
Já se planeiam, pelo menos na mente dos sonhadores, grandes arborizações nas muralhas, nas ruas, nos largos, nos caminhos e trata-se da fundação de uma biblioteca pública, embora criação modesta, mas que seja uma verdade prática.”
 
Democracia Pacífica 31 de Julho de 1867


publicado por Francisco Galego às 12:44
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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