Sexta-feira, 27 de Dezembro de 2013

 

 

 

Era uns anos mais velho do que eu. Mas eramos parentes próximos. A mãe dele e a minha avó, eram irmãs, o que fazia que fossemos primos em segundo grau.

Houve sempre entre nós bastante afecto. Admirava nele a paixão que, desde muito novo, tinha pelas coisas do campo. O meu pai tentou ligá-lo à actividade comercial. Suportou-a por algum tempo, mas nunca se conformou: o campo era o seu destino.

As dificuldades que eram muitas e grandes, levaram-no como a muitos outros da sua geração, a ter que mudar de vida. Depois do serviço militar, candidatou-se à GNR. Na altura eu era estudante em Lisboa e tivemos de novo ocasião de conviver durante o tempo em que ele fez a sua formação como guarda.

Depois cada um seguiu o rumo que o destino ia tecendo. Soube que embarcou para Angola, onde se manteve muitos anos. Regressado e reformado voltou à sua antiga paixão, o campo, fixando residência em Portalegre, onde mantinha a actividade de criar algum gado. Só muito esporadicamente nos víamos, mas a amizade, ainda que distante, manteve-se.

Regressado ontem de Lisboa onde passei alguns dias, um amigo deu-me a notícia que me colheu de surpresa: o José Francisco Toureiro Rúbio morrera no passado dia 24. Eu soubera que tinha adoecido de novo com alguma gravidade. Mas as últimas notícias que soubera davam-no em recuperação e mais animado.

Neste momento, presto-lhe a única homenagem que me parece adequada à estima que tinha por este meu primo. Como uma das coisas que lhe davam prazer era recitar décimas, transcrevo aqui uma dessas composições poéticas que ele muito gostava de dizer e em que ele, de certo modo, traçava o seu auto-retrato.

 

SENHORES QUE ESTÃO PRESENTES

 

                     MOTE

Senhores que estão presentes

Minhas senhoras também

Obrigado a toda a gente

E acho que assim está bem

 

                     I

Obrigado meus amigos

Se acaso me permitem o termo

Eu não sou nenhum enfermo

Nem s´tou no rol dos esquecidos

Sou mais um dos incluídos

Neste grupo de boa gente

E por aqui estar presente

Eu sinto um certo prazer

Por isso lhes quero agradecer

Senhores que estão presentes

 

                     II

Tenho andado por muito lado

Sempre fui bem-sucedido

E eu penso cá p’ra comigo

Sou um homem privilegiado

Mas tenho de ter muito cuidado

Não vá dizer mal de alguém

Porque isso não parece bem

E para que não seja censurado

Por isso o meu muito obrigado

Minhas senhoras também

                     III

 

Junto da nossa juventude

Sou um homem muito feliz

Há um ditado que diz

Goza a vida com saúde

Pois eu tenho essa virtude

Passo a vida alegremente

A reinar com toda a gente

Eu levo o tempo a brincar

Por hoje aqui me encontrar

Obrigado a toda a gente

                     IV

 

Vou estando velho e cansado

Já não estou para me ralar

Agora só penso em passar

O meu tempo em qualquer lado

A falar do meu passado

E que eu me encontro bem

Sem dizer mal de ninguém

Vou bebendo o meu copinho

Acompanhado ou sozinho

E acho que assim está bem

 

 

(José Francisco Rúbio)

 

 

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 15:24
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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