Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

 

         

Este texto é uma forma de dar a conhecer e de prestar pública homenagem a Marciano Ribeiro Cipriano, de quem tenho a mais grata e saudosa lembrança pelo carinho com que sempre me tratou, embora fosse duma geração muito distante da minha. Porém, quando se trata de cultura, as diferenças de idade não constituem barreiras.

 Este homem que, numa escrita elaborada e de grande beleza, tanto escreveu em Campo Maior e sobre Campo Maior, pelo seu esforço de autodidacta, pela sua inteligência e pelo seu amor à escrita e à leitura, atingiu um elevado grau de formação cultural. Foi colaborador de vários jornais, sobretudo do Linhas de Elvas, no qual chegou a desempenhar as funções de redactor principal e de director adjunto. Sabendo do meu gosto pelas coisas das letras, teve a amabilidade de me emprestar algumas obras da sua biblioteca pessoal. Guardo na memória a forma cuidadosa e criteriosa como ele sublinhava, anotava e comentava as obras que ia lendo.

Por saber do gosto que meu amigo Francisco Pires Von Gilsa tem pela prosa do nosso conterrâneo, dedico-lhe esta minha crónica “roubada” a um saudoso amigo.

 

CAMPO MAIOR NO S. MATEUS: “EU HEI-DE IR À FÊRA D’ELVAS …”

 

Conta séculos de existência, esta bela e tradicional romaria em honra do Senhor Jesus da Piedade.

Melhores ou piores que os programas dos festejos se apresentem, o que é certo, é a romaria do Parque da Piedade constituir sempre o atractivo máximo dos forasteiros que ali acorrem atraídos pela fama da “Fêra d’Elvas” uns – os de Campo Maior – e pelo S. Mateus os restantes das redondezas.

Para os campomaiorenses – os camponeses como impropriamente os designam – a “Fêra d’Elvas” tem encantos e motivos de uma beleza a um tempo mística e pagã.

Nos seus “balhes” – as típicas e características “saias” – de uma toada arrastada e sempre igual, há ressaibos inconfundíveis de um paganismo quase primitivo. Mas, já no recolhimento e respeito com que buscam as “graças” e as medalhinhas do Senhor Jesus da Piedade se revela toda a mística ingénua e pura de um povo que nasceu para cantar – até mesmo quando os desgostos e as desventuras o punge e atormenta.

Criou raízes nos “camponeses” a “Fêra d’Elvas” e a sua contribuição para o brilho e luzimento das festas é, sem dúvida, das mais típicas e valiosas! E de tal maneira esta romaria entrou nos hábitos e tradições deste povo, que até nos contratos entre trabalhadores “acomodados” e os lavradores entram como “folga” obrigatória três dias pelo S. Mateus.

A “Fera d’Elvas” constitui, por isso, a obsessão constante de todo um ano de lutas e ilusões. Quando entra o mês de Setembro esta obsessão aumenta de intensidade; cresce em entusiasmo, e transforma-se na preocupação diária das suas múltiplas atribulações.

À medida que a grande data se aproxima surge inevitavelmente a pergunta sempre que suas “Marias” se encontram: “vaz à fêra?...” E é todo um rol de confidências e confissões que vão desde a qualidade dos bolos e dos licores baratos – os ganhos não dão para mais – até às blusas e vestidos de tecido barato e vistoso que cada uma guarda religiosamente na arca para estrear no S. Mateus. E, quando o dia “chega” toda a vila se agita! Os “felizes” que podem ir à “Fêra” aprestam os carros alentejanos enfeitando as gordas e anafadas mulas com os estridentes guizos e os mais luzidos cabrestos e artefactos.

A partida faz-se de madrugada porque é preciso chegar ao romper da alva para arranjar um bom lugar.

Contam-se por centenas os típicos carros que em caravana marcham ao longo da fila negra da estrada e as cantigas ao som das pandeiretas – que as moças agitam com habilidade rara – não deixam de ouvir-se em todo o percurso. Os “despiques” e os “desafios” pegam de vez e prolongam-se durante três dias e três noites, lançando ao vento as suas vozes, numa demonstração de alegria e satisfação que gostaríamos de ver sempre estampadas nas caras tisnadas destas belas moças que, por carência de tudo, bem cedo pagam o seu tributo à velhice.

Os menos afortunados, os que enjeitados de tudo, não podem ir à “Fera”, não escondem a sua mágoa e, noite fora, em bailes e descantes por todas as ruas da vila, transformadas em singular prolongamento do S. Mateus – atiram para o ar as suas cantigas nostálgicas e saudosas, num desabafo incontido:

                                               “Se fores á cidade d’Elvas

                                               Vai até à Piedade.

                                               Pois que é a melhor coisa

                                               Que têm lá na cidade.”

… Ou ainda nesta outra quadra reveladora da pena que em seus peitos mina:

                                               “O Senhor da Piedade

                                               Tem vinte e quatro janelas.

                                               Quem me dera ser pombinha

                                               Para poisar numa delas.”

E todas as “cantigas”, velhas como séculos, ricas de colorido e tradição, revelam a dor insofrida dos que ficaram:

                                               “Fêra d’Elvas, Fêra d’Elvas

Fêra d’Elvas da cidade.

Quem me dera estar balhando

No Senhor da Piedade.”

Os que ficaram “espalham cantando” as suas mágoas enquanto nos seus cérebros, excitados e ardentes, desfilam em feérico cortejo as iluminações e o fogo do arraial a que assistiram no último ano que lá foram. Os “felizes”, os que puderam ir, foram levar à cidade vizinha a alegria e a frescura dos seus costumes e das suas típicas “cantigas” que generosamente espalharam em desinteressada oferenda às estrelas brilhantes deste belo céu português que, nas suas cintilações miríficas, parecem fugir-lhe como todas as esperanças com que impiedosamente os iludiram à nascença …

A “Fêra d’Elvas”! O “S. Mateus”! Que fantasmagoria! Que tentação destes obscuros obreiros que a terra consome e confunde numa negrura de desenganos e ingratidões!

- São festejos populares. E o povo, bom e generoso, esquecendo faltas e agravos, desprezos e injustiças que não merece, leva a sua presença e a sua alegria, a sua graça e o seu pitoresco, a uma romaria que, sem ele, seria um cortejo incolor de caras bocejando!

E há senhores que parecem esquecer isto!

O povo, contudo, alegre e prazenteiro, ri e folga, baila e canta as belezas sem par deste Alentejo querido que ele engrandece fertiliza e do qual tira sempre a mais negra e dura fatia …

                                               “Eu hei-de ir à Fêra d’Elvas

                                               P’ró ano se Deus quiser …”

E a promessa fica em suspenso, até “ó ano que vem …

 

(Marciano Ribeiro Cipriano, in página 6 de “Linhas de Elvas”, nº 257 de 20 de Setembro de 1955)

 

 



publicado por Francisco Galego às 15:57
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