Segunda-feira, 22 de Julho de 2013

(REPOSTO A PEDIDO DE LEITORES E APROVEITANDO PARA MUDAR O TÍTULO...)


Porque em tudo tem de haver momentos de interrupção para descanso, vou fazer uma pausa neste “Além Caia”.

Desejo a todos os que isto lerem, as melhores férias que puderem ter dadas as circunstâncias tão pouco tranquilizantes e propícias em que estamos a viver.

 

 

No passado dia 13, pelas 18.30h, fomos assistir à apresentação da recandidatura do Ricardo Pinheiro à Presidência da Câmara Municipal de Campo Maior. Eu a Júlia tínhamos sido convidados, com lugar reservado para assistir à sessão.

 

Quando estava ali, naquela cadeira, esperando pelos discursos que estavam programados, reparei que na fila à minha frente estava o Arménio, amigo de uma amizade que se começou a construir há quase 35 anos e que eu estava ali para assistir à recandidatura de um dos meus mais recentes amigos, um jovem engenheiro que conheço apenas desde os últimos quatro anos. Comecei então a lembrar como, nós os três, estamos relacionados com o acontecimento que agora ali nos juntava.

 

Há quatro anos atrás, já estivéramos numa sessão semelhante. Nessa altura estava a Júlia, também ela, candidata à Assembleia Municipal, para o mandato que agora vai terminar, tendo renunciado à possibilidade de se recandidatar.

Acho que faz bem. Sai com a consciência plena de ter cumprido exemplarmente com um desempenho de excelência e, por isso mesmo, algo esgotante. Mas, na verdade, nem ela nem eu sentimos gosto no exercício dos cargos políticos com tudo o que eles implicam e sem apreço pelas vantagens que alguns conseguem tirar dessa circunstância.

 

O Ricardo é um exemplo acabado do gosto inato pela acção política. É ver como ele “cresceu” durante os quatro anos do seu primeiro mandato como presidente da Câmara Municipal de Campo Maior. É notável o prazer e a realização pessoal que ele retira deste seu modo que, felizmente não tem mudado, de entender a política como serviço público. E nota-se que o assume em plena consciência e com toda a integridade. Aliás, esse sentimento revela-se quando ele afirma que ainda não se considera um político mas, mais propriamente como alguém que foi escolhido para ser um gestor dos assuntos que implicam o bem comum e a realização do que lhe parece ser o interesse público. Sem o explicitar claramente, faz, à sua maneira, a distinção entre POLÍTICA e politiquice.  

Que os deuses lhe conservem este carácter de integridade ética e de consciência cívica e social que até agora tem mantido, com todo o rigor e com meridiana clareza.

 

Ouvindo-o ontem fui levado a recordar factos em que me vi envolvido há quatro anos atrás.

O Arménio Toscano tinha-me já falado da sua decisão de se candidatar à Presidência da Câmara. Fiquei contente por saber que se tratava de um sonho acalentado por ele desde há muitos anos. Tinha a convicção que ele poderia ganhar e desejava-o, não apenas por amizade, mas porque considerava, como coisa muito urgente e necessária, que Campo Maior devia libertar-se da gestão ruinosa, populista, degradante e demagógica que se instalara na vila, havia já mais de uma década.

Prometi-lhe de imediato toda a colaboração e ajuda que fosse necessária e que estivesse dentro das minhas competências e capacidades.

Passado algum tempo e com o arranque da campanha eleitoral já próximo, o Arménio comunicou-me que tinha tido um sério aviso de problemas cardiovasculares que o colocavam em risco de vida e que os médicos desaconselhavam vivamente que ele persistisse no projecto político em que estava à beira de se envolver. Percebi que a situação era mesmo grave quando me comunicou que ia renunciar a tudo para evitar agravar de forma irremediável as suas condições de saúde.

Sabia da importância que para ele assumiria o desempenho de tão ambicionado cargo. Por isso, esta situação deixou-me bastante penalizado. Era o fim do sonho de um amigo, mas era também o fim de um projecto sobre o qual eu tinha esperançosa expectativa.

No meu entender, não me parecia que houvesse alguém com capacidade para o substituir com igual vantagem.

De certo modo desinteressei-me do assunto, não porque o desvalorizasse mas porque, analisando racionalmente a questão, entendi que não havia possibilidade de lhe dar solução.

 

Passado algum tempo que não sei quantificar com precisão, estando nós a terminar o nosso almoço em casa, recebi um telefonema de João Manuel Nabeiro que me disse ter uma enorme urgência em nos falar, pedindo que fossemos almoçar com ele. Disse-lhe da dificuldade de corresponder ao convite, mas ele contrapôs que podíamos ir tomar um café e que, enquanto ele almoçava, podia expor-nos o que queria conversar connosco.

Claro que o inesperado da situação nos deixou curiosos e anuímos em fazer o que ele sugeria.

Logo que nos falou da situação em que a desistência do Arménio colocava o PS, á beira do processo de candidatura à autarquia, foi fácil abreviar explicações, dado que nós estávamos já conhecedores desse problema. Resumindo, ele queria que o ajudássemos a encontrar resposta a uma pregunta que se coloca com tal frequência e com tão grande premência aos que se embrenham no processo politico que um dos maiores políticos do século XX – Lenine – a deu como título a uma das suas obras mais significativas: QUE FAZER?

 

Francamente confesso que fiquei de tal modo sem saber como responder a tal questão, que lhe pedi que fosse comendo enquanto eu usaria esse tempo para poder pensar.

Comecei por explicar-lhe que, o facto de ter vivido tanto tempo fora de Campo Maior, me deixava pouco seguro de poder encontrar resposta adequada para o problema que me colocava. Mas que, dadas as circunstâncias, havia uma coisa que não poderia deixar de ser feita:

- Tinham de “IR A JOGO”.

 

Perante a perplexidade que lhe li na expressão, continuei a explicitar o que pretendia dizer: dada a situação difícil em que, a nível local, se colocava de momento o PS, este, sob pena de correr o risco de se “apagar” da cena política durante um tempo, provavelmente bastante longo, teria de se apresentar com candidatos próprios, mesmo que fosse para perder.

A pergunta que se seguiu foi: Pois sim! … Mas, com que “cabeça de lista”?

Eu sabia das dificuldades em que o partido ficara por ter estado tanto tempo dominado por aqueles que, servindo-se dele – dos seus símbolos e das suas estruturas organizativas – tinham aliciado ou afastado os quadros mais significativos do antigo PS local. Além disso, tinham instalado uma maneira de conceber e exercer a acção política que urgia combater e aniquilar. Entendia que era essa a finalidade mais urgente da lista que agora se pretendia apresentar a uma eleição. Tanto mais que se partia em situação de desvantagem, com uma expectativa muito desfavorável, contra adversários que estavam muito implantados, pois dominavam há muito tempo o poder político a nível local. 

Logo a questão do “COM QUEM À CABEÇA? ” tornava-se central dada a sua importância simbólica.

 

Ocorreu-me de repente uma ideia que atirei timidamente para a conversa:

“Mas, se a vossa família tem, nas vossas empresas, o que de melhor existe neste concelho, em termos de “capital humano” e de “massa crítica”, porque não procurar um jovem que pareça competente, convindo mesmo que não tenha experiência política?

Assim, ainda que não ganhe desta vez, ficará treinado e motivado para adquirir saber e experiência para poder vencer numa próxima eleição. Com a vantagem de não estar corrompido ou formatado para uma maneira pouco recomendável de fazer política”.

 

Pareceu-me uma maneira muito adequada para iniciar um projecto novo e uma nova maneira de intervir na vida política local. Havia ainda a vantagem de se tornar difícil para os adversários atacar alguém que, não tendo passado político, não tinha pontos fracos conhecidos que contra ele pudessem ser usados. Por outro lado ainda, parecer-lhes-ia a situação tão frágil que nem precisariam de se empenhar muito para vencerem com grande vantagem.

 

Pareceu-me que o meu interlocutor tinha ficado entre hesitante e perplexo. Contudo, iria apresentar a minha sugestão. Com surpresa minha, passados poucos dias comunicou-me que seu pai achara interessante a sugestão e que já tinha mesmo um nome que correspondia àquilo que estava em questão. Disse-me o nome de um jovem engenheiro – Ricardo Pinheiro – que eu não conhecia e que por isso me abstive de comentar.

Achei a situação interessante e resolvi acompanhar o processo que, a nível político, se foi tornando um dos casos mais estimulantes em que, quase sem dar por isso, acabei por me achar envolvido.

 

Porque sei que, muitas vezes, não são os que plantaram as árvores os que lhes vêm colher os frutos, devo referir de passagem que foi também João Manuel Nabeiro quem teve a ideia e tomou a iniciativa de convidar a Júlia para liderar o grupo de candidatos do PS à Assembleia Municipal. Segundo os resultados obtidos na votação, poderia ter sido eleita para presidir à mesma assembleia, não fora a inesperada e desleal falha de um dos eleitos ao compromisso previamente assumido.

 

Foi assim que, há quatro anos atrás, no mesmo local onde estávamos reunidos para assistir à apresentação de um jovem que alguns não conheciam e muitos nem acreditavam que pudesse ter sucesso no projecto a que se aventurava, pois que, embora fosse grande a vontade de mudança, a expectativa de sucesso não era muito segura.

E essa fragilidade da nossa expectativa reflectia-se na própria maneira como a sessão de apresentação do candidato fora configurada.

A nível do partido socialista, vieram algumas figuras com algum relevo a nível regional. Mas um figurão da política, a nível regional e nacional, fez questão de nunca acertar no nome do candidato que estava a apresentar, chamando-lhe vários nomes de árvores sem nunca acertar no “pinheiro” que era a árvore certa para o designar. Isto que foi parodiado pela maioria da assistência, tinha efectivamente a intenção de sublinhar a fraqueza do candidato, um jovem de quem não se podia esperar muito pois, de tão desconhecido e inesperado, nem sequer se conseguia fixar-lhe o nome.

Na época também me foi dito que o responsável por uma empresa contratada para dar apoio à candidatura dizia aos seus colaboradores que não valia a pena empenharem-se a fundo porque o caso “Campo Maior” estava condenado à partida a ser “caso perdido”.

Não foi assim pois que, ainda que com grande dificuldade, o jovem engenheiro ganhou ao veterano, sabidão e matreiro, que era considerado o outro candidato.

 

Agora, passados quatro anos, as coisas mudaram de tal modo que o jovem candidato sem estatuto para se lhe fixar o nome, tornou-se um sério candidato que mereceu a presença de uma importante personalidade como a Presidente Nacional do Partido Socialista, Dra. Maria de Belém, por ter sido impossível ao secretário-geral do partido estar presente, por estar envolvido na urgência de resolução da crise que o país atravessa. Mereceu também ter sido entusiasticamente elogiado pelo deputado Pedro Marques que representa, pelo PS, este distrito no Parlamento e que fez questão de sublinhar que considerava o Ricardo Pinheiro um caso notável de sucesso na condução da política a nível autárquico.

 

Sic transit gloria mundi. Maneira erudita de dizer, em latim, que passam muito depressa certas certezas e vaidades mundanas.

Hoje podemos dar como certo que todos os que assistiram a esta sessão saberão de cor o nome do candidato Ricardo Pinheiro. Mas serão muito poucos os que ainda se lembrarão do nome do deputado que, há quatro anos, não conseguiu sequer fixar o nome do candidato que veio apresentar.

 

 

 

 


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publicado por Francisco Galego às 00:20
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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