Domingo, 04 de Dezembro de 2016

O estado actual do conhecimento sobre este sítio arqueológico:

O Monte de S. Salvador, zona de habitação e capela privada, situa-se numa pequena elevação na margem direita do Rio Xévora e a cerca de 2 km da fronteira com Espanha. A leitura do processo do IGESPAR permitiu perceber que três zonas de escavação foram abertas: na zona 1, junto à capela, as estruturas da "pars urbana"(1); a zona 2, mais a Sul, que corresponde à continuação da "pars urbana" com tanques em opus signinum (2); a zona 3, mais a Norte, do outro lado da casa do guarda do Monte, uma área funerária.

A villa romana situa-se sob a actual capela do monte, estendendo-se para sudeste, parte tendo já ruído para dentro do rio. A "pars urbana" é constituída por vários compartimentos pavimentados com mosaicos geométricos policromos, distribuídos à volta de um peristilo (3). Esta villa teve várias fases de ocupação, visíveis nos remendos dos mosaicos, nas remodelações das salas, revelando assim uma ocupação de longa duração.

As termas foram encontradas mais a norte, frente à casa do guarda do Monte, aquando de umas obras, mas nunca foram escavadas. A algumas dezenas de metros, a Norte das termas, atrás da casa do guarda do Monte, foram encontradas, adossadas a estruturais murais, quatro sepulturas com características tardias.

Este sítio chamou- nos a atenção por dois motivos: a sobreposição de “uma capela que assenta sobre a abside (4) duma outra construção que poderá corresponder a um possível templo romano ou paleocristão” (Dias, 1988) assim como a presença de sepulturas tardias. Apesar de o material nunca ter sido publicado, as descrições deste nos relatórios apontam para uma datação da villa entre os séculos III e IV d.C. Uma vez que se têm operado vários remendos nos mosaicos assim com reestruturações dos compartimentos, acreditamos que a ocupação se tenha prolongado durante várias décadas ou séculos. A localização da capela sobre uma estrutura em abside não significa que estejamos forçosamente perante uma igreja paleocristã, no entanto o facto de a igreja ter o portal descentrado relativamente à capela-mor pode revelar uma planta condicionada por uma construção anterior de certa importância.

Não longe das termas encontravam-se quatro sepulturas de características cristãs: orientadas E-W, que apresentam planta rectangular:

- A sepultura I era construída com grandes blocos de pedra e tijolos, a cobertura também era constituída por tijolos, o interior forneceu apenas uma pequena bilha de bocal trilobado. Não foi possível estudar esta peça mas a arqueóloga responsável propõe uma datação tardia;

- A sepultura II tinha planta rectangular, as suas paredes e cobertura eram em tijolo;

- Da sepultura III eram apenas visíveis alguns tijolos da cobertura;

- Da sepultura IV que estava já destruída, só foi identificado um alinhamento de tijolos, podendo ser uma sepultura de criança.

Estas sepulturas eram adossadas e tinham sido cortadas por um muro (identificado com muro N1) o que pressupõe que este seria posterior; talvez contemporâneo da igreja? Infelizmente pouco se pode dizer acerca desta villa, a não ser que tem características tardias, podendo ter sido ocupada durante o período visigótico. Os indivíduos lá sepultados já seguiam o ritual cristão da orientação dos túmulos e um deles tinha uma bilha trilobada, como encontramos nas sepulturas de Santo Amarinho da Boa Morte (Castelo de Vide) ou de Silveirona. Tal como em outros sítios do Alto Alentejo, as sepulturas tardias encontram-se perto ou sobre as termas em desuso (Alter do Chão, Herdade dos Pombais no Marvão).

Aqui as escavações não foram suficientes para perceber a que estrutura o muro N1 pertence. Provavelmente é já medieval, mas a área de dispersão das sepulturas é muito próxima de onde foram descobertos os arcos do hipocausto (5) das termas.

(1) Zona residencial; em contraposição, a "pars rustica" era a zona da exploração agrícola. Este tipo de organização das "Villae" romanas aponta para a origem romana do "Monte" alentejano. 

(2) "Opus signinum": era o material de construção usado pelos romanos que consistia em misturar argamassa com pedaços de telhas partidas.

(3) Alpendrada sustentada por colunas que rodeava o edifício.

(4) Estrutura abobadada.

(5) Estrutura subterrânea das termas romanas.

 

In, Mélanie Wolfram, A cristianização do mundo rural no sul da Lusitania.Tese de doutoramento defendida na Faculdade de Letras de Lisboa, em 2011. Anexo 1, pág. 144.



publicado por Francisco Galego às 00:05
Quinta-feira, 01 de Dezembro de 2016

No quadrante SE do distrito de Portalegre encontramos “necropolizações” de espaços

habitados no vicus ou villa de S. Pedro dos Pastores, em Campo Maior.


Frase transcrita  do relatório de uma investigação arqueológica processada no sítio de S. Pedro que apresenta importantes informações sobre este local, como:

- Esta vasta área de São Pedro deverá entender-se como um só sítio de ocupação humana durante o período romano, tardo-romano e alto-medieval que compreende uma zona habitacional (possível villa ou mansio), dita “Defesa de São Pedro” e São Pedro dos Pastores” e uma zona religiosa e funerária na área da “Ermida de São Pedro”. Hoje não é possível observar qualquer vestígio, pois parte foi absorvida pela construção de um bairro de habitação e o resto foi tapado, restando somente um campo abandonado. Foi identificado um núcleo habitacional de época romana, assim como um complexo termal.

- A escavação evidenciou parte das construções integradas numa sequência estratigráfica entre os séculos I e V/VI, bem como numeroso espólio, em depósito na reserva arqueológica de Campo Maior. Os vestígios de construções estavam em óptimo estado de conservação, chegando alguns muros a conservarem ainda 3 metros de altura.

- Uns anos depois foi descoberto mais um conjunto de construções romanas, mas os níveis de utilização e abandono associados a estas estruturas parecem apontar para uma cronologia romana tardia, provavelmente do séc. V. No topónimo das Hortas de São Pedro, foi identificada uma inscrição funerária assim como um tanque revestido a mármore. Esta área pode corresponder a Ad Septem Aras.

No entanto, o que reteve a nossa atenção ao ler os relatórios de escavação de 1992 e 2001, foi a natureza das descobertas e a indicação da proximidade dos vestígios romanos e tardo-romanos (necrópole) junto da Ermida. O sítio de ocupação romana identificado na Defesa de São Pedro compreende um pátio porticado a Sul e a Este, três compartimentos a Norte (A, B e C); no centro do pátio foi descoberta uma espécie de fonte quadrada, todo o conjunto sendo pavimentado por tijoleira. Não se sabe se se trata de termas ou de uma zona agrícola. Este conjunto parece ter sido, porém, abandonado algures durante o século III ou IV, tendo logo a seguir sofrido um incêndio.

Pouco tempo depois, este sítio foi transformado em necrópole, uma vez que os compartimentos e o pórtico foram cortados por doze sepulturas de características tardo-romanas, uma das quais em sarcófago.

In, Mélanie Wolfram, A cristianização do mundo rural no sul da Lusitania.Tese de doutoramento defendida na Faculdade de Letras de Lisboa, em 2011. Anexo 1, pág. 144.

Ou,

In, http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/5678/2/ulsd062156_td_anexo_1.pdf

 



publicado por Francisco Galego às 00:12
Segunda-feira, 28 de Novembro de 2016

A IGREJA, O CONVENTO E O HOSPITAL DE SÃO JOÃO DE DEUS

A estrutura fundamental desta igreja ainda existe. Mas, a igreja propriamente dita, há muito deixou de existir enquanto lugar de culto.

Falamos de um templo que se localizava no quarteirão delimitado pelas ruas de Santa Cruz – uma rua em ângulo recto, em que um dos lados liga o Largo dos Carvajais ao Largo de Santa Cruz e o outro está na continuação da Rua de São João.

Quando, indo pela Rua de Santa Cruz, se vira para ir para a Rua de São João, do lado esquerdo de quem está voltado para Sul, fica um prédio onde, em tempos idos, estavam as instalações do Convento de São João de Deus e o Hospital Militar que lhe ficava anexo. O local da Igreja ainda lá está e é localizável pelo largo portão que dava acesso ao templo. O convento de São João de Deus ou dos frades hospitalários, foi criado por D. João IV após a Restauração da Independência de Portugal em 1640. Este rei, mandando fortificar Campo Maior, tornando a vila uma forte praça de guerra para defesa da fronteira dos ataques de Espanha, durante uma guerra que durou de 1640 a 1668, mandou dotar a guarnição militar dos cuidados hospitalares dos frades da congregação de São João de Deus que se dedicavam a essa missão. Convento e Igreja ocupavam o espaço que ficava entre a Rua S. João de Deus – hoje chamada Rua Vasco Sardinha -, a Rua de Pedroso – hoje chamada Visconde de Seabra – e a Rua de Santa Cruz.

A Igreja e as duas espaçosas enfermarias anexas, ocupavam todo lado do edifício virado para a Rua de S. João. Quando, em 1732, se deu a explosão da Torre de Menagem do castelo onde se instalara o paiol da praça de guerra, a vila ficou em grande parte destruída, tendo a igreja, o convento e o hospital de São João de Deus, sofrido grande destruição. Na eminência de nova guerra, D. João V mandou reparar tudo com grande rapidez. Mas a traça do edifício sofreu grandes transformações.

Com a pacificação geral da Europa depois da derrota de Napoleão Bonaparte e do restabelecimento da paz no Congresso de Viena em 1815, as praças de guerra deixaram de ter tanta importância.

Após a Revolução Liberal de 1820, houve em Portugal um período de guerras civis. Em consequência da guerra civil de 1828-1832, tendo vencido os liberalistas, foram extintas as ordens religiosas masculinas. O cuidado hospitalar dos militares passou para o encargo das autoridades civis. A Congregação de São João de Deus deixou de existir em Campo Maior. A igreja, as antigas instalações do convento e do hospital foram deixadas ao abandono de que resultou a sua acentuada degradação.

Essas instalações acabaram por ser adquiridas pelo Dr. José Maria Fonseca Regala, médico-cirurgião e abastado proprietário que as restaurou e reformulou, tornando-as residência da sua família e instalações de apoio às tarefas das suas actividades como empresário agrícola.

A parte que antes ocupada pela igreja e pelo hospital, tem sido nas últimas décadas usada como instalações de uma empresa comercial. Mas, no interior, são visíveis ainda traços da sua antiga função. Sobretudo no que respeita à Igreja que não sofreu grandes alterações no que respeita à sua traça arquitectónica inicial.



publicado por Francisco Galego às 00:07
Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

A IGREJA DE S. JOÃO BAPTISTA

 

“No ano de 1732, caiu um raio na Torre grande de homenagem e derribou todo o castelo e a maior parte da Vila …” “A igreja do grande precursor S. João Baptista, protector desta Vila, é que se achava derribada, por se lhe fazer outra nova para com mais decência se venerar a sua imagem (1).”

(...)

“Em 18 de Outubro deste presente ano de 1734 se riscaram os alicerces para a nova Igreja deste Santo, com assistência do Engenheiro Mor do Reino, Manuel de Azevedo Fortes e mais engenheiros que havia juntos por ordem de S. Majestade El-Rei D. João o quinto, que os mandou para fortificarem esta Praça. E, com assistência do mestre que há-de fazer a obra e que se chama Sebastião Soares, o qual mandaram vir de Lisboa os mordomos, com o salário de setecentos e vinte réis por dia, enquanto durasse a obra, cuja planta foi aprovada por todos os engenheiros e pessoas que bem o entendem.

E, sendo véspera de S. Simão, 27 de Outubro, se deu princípio à bênção da primeira pedra, que se havia de lançar na dita Igreja, cometendo o cabido de Elvas, sede vacante, esta diligência ao guardião dos Frades de S. Francisco deste Convento, Frei João da Estrela, que levantou essa tarde uma cruz de pau, conforme o cerimonial romano, com assistência de todos os mordomos e do seu Juiz, Estêvão da Gama de Moura e Azevedo. Com timbales (tambores de cavalaria, em metal e de forma semiesférica), trombetas, tambores e repiques de sinos de todas as Igrejas. De noute houve luminárias em toda a Vila.

No dia seguinte, 28 de Outubro, em que a Câmara leva o Santo em procissão pelas ruas, em acção de graças pelo bom sucesso que teve esta Praça o ano de 1712 - quando os castelhanos que a sitiaram e assaltaram sem a renderem,  levantaram o sítio, estava prevenida a pedra e benta, com assistência de toda a comunidade dos frades e mordomos. E, ao chegar o Santo na procissão a este lugar, se assentou a pedra …

(Estêvão da Gama, p. 132 e 133)

........................

“A Igreja acha-se hoje com capela-mor fechada com grades de ferro, duas colaterais, a da parte do Evangelho do Apóstolo S. Bartolomeu e a da Epístola, do Senhor dos Passos. Tem um coro alto e uma só porta principal. Na capela-mor tem uma tribuna com um retábulo de talha dourada, ao moderno.

O Santo está num nicho por baixo da tribuna, com grades de prata, uma vidraça e coberto com um volante (véu?). Expõe-se patente nas festas principais do ano aos romeiros e devotos que o querem ver. Há uma relíquia do mesmo Santo com sua autêntica que veio de Roma., a expensas do Padre Luís Pereira, no ano de 1717, em sua custódia de prata feita mesmo em Roma com seu cristal e são cinzas do mesmo Santo. Tem duas lâmpadas de prata, uma antiga e outra que lhe deu o Infante D. Francisco (irmão de D. João V), pelo bom sucesso das nossas Armas no sítio esta Praça e basta para ficar engrandecida saber-se que foi oferta de sua Real grandeza. O Bispo D. Frey Pedro de Alencastro deixou ao Santo, por seu falecimento, a cruz e o anel episcopal.

Há nesta capela dois jazigos cujos epitáfios dizem assim: “Sepultura do P.e Diogo Galvão Pereira para a sua pessoa somente”.

            O outro contém o seguinte:

            “Aqui jas D. Catherina Theresa da Silva, mulher de Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, mosso fidalgo da Caza de S. MageComendador de S. Miguel de V.ª Boa da ordem de N. Sr. Jezu Christo, Brigadrº de Infantaria e governador desta Praça q a defendeo no anno de 1712. Esta sipultura he própria para eles e seus descendentes. Faleceu em 28 de Abril de 1718.”

            No corpo da igreja há dois jazigos, um junto da porta principal que diz:

“Sipultura de Frey D. Pº Henriques, Señor e Comendador de Vª de Oliveira do Hospital da Ordem de S. João Baptista, para seu corpo somente.”

            O outro está junto da capela de S. Bartholomeu e diz:

“Sipultura de Ruy de Brito de Monrroyo e de sua mulher D. Joanna de Castº Brº e para seus descendentes era de 1679.” (Estêvão da Gama, p. 60)

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(1) A igreja que anteriormente ficava no local da actual, ficara muito danificada pelo bombardeamento da vila durante o cerco de 1712. Estando em processo a sua restaurção, foi fortemente atingida pelos efeitos da explosão de 1732.



publicado por Francisco Galego às 00:03
Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

OS CONVENTOS FRANCISCANOS  DE SANTO ANTÓNIO  E DE S. FRANCISCO

“.... Frey Amador da Sylva, que fundou o convento de Santo António em Campo maior, por  Bula de Alexandre Sexto (Papa desde 1492 a 1503), em que lhe concede faculdade para fundar convento em qualquer parte de Portugal, passada no ano de 1493. E tinha por companheiro Frey Jorge de Payva, natural da mesma vila de Campo Maior e, por esta razão, findaram nela e não em outra parte. E o dito Frey Jorge de Payva foi guardião e no Breve se vê que eram sujeitos somente à Santa Sé Apostólica e que podiam tomar noviços e despedir frades e fazer tudo que bem lhes parecesse.”

 (Estêvão da Gama, p.106)

“… os religiosos de S. Francisco, no ano de 1645 … por se lhe ter demolido o seu convento, a respeito da nova fortificação que El-Rei D. João o 4º mandou fazer para defesa deste Povo, por ser a Praça de maior importância para protecção desta Província ... se acomodaram na Igreja do Castelo os religiosos, porque havia casas contíguas à Igreja de que fizeram celas e nela se mantiveram até ao ano de 1709, em que puderam ocupar o novo Convento que lhes mandou construir D. Pedro II).”

(Estêvão da Gama, p.51)

...“foi grande a violência das minas com que foi demolido o convento dos frades…(1645)”

(Estêvão da Gama, p. 107)

“ Há nesta vila um convento de frades de S. Francisco da Província dos Algarves. Do seu primeiro convento não há notícia certa do ano em que foi edificado. Porém, dizem, era dos melhores da Província, com uma grande cerca e fontes perenes, que ainda hoje se conserva uma com o nome de fonte dos frades[1]. Este convento se demoliu no ano de 1645, a respeito da nova fortificação desta Praça, que foi avaliado pelos engenheiros em sessenta e cinco mil cruzados. Os religiosos se acolheram à Igreja Matriz do Castelo, a qual se  alargou com mais algumas casas contíguas a ela, em que se enclausuraram e assistiram até ao ano de 1709 em que mudaram para o convento novo que, por ordem de D. Pedro o 2º, se edificou por conta da dívida e quantia em que o outro foi avaliado.

            ( O novo convento...) é todo de abóbadas, sem que tenha outra madeira mais que as das portas e janelas. Tem todas as oficinas acabadas e só lhe falta a Igreja para a qual S. Majestade, que Deus guarde, lhe fez mercê de lhe dar uma consignação anual de seiscentos mil réis até que se aperfeiçoasse de todo o dito Convento. Ele está situado na parte mais eminente da Vila, junto ao Baluarte de S. Sebastião, tem cómodo para vinte frades e tem bastante cerca.”

(Estêvão da Gama, p. 61 e 62)

 “No Convento de S. Francisco, que havia muitos anos se achava sem Igreja, esta se tinha feito pelo cuidado do guardião, o padre Frey Fellipe de Santiago que, com esmolas e a sua grande aplicação, a tinha acabado no ano passado (1731).

 (Com a explosão de1732) “Arruinou-se o Convento de S. Francisco, mas não caiu a sua Igreja. Apenas o frontispício dela, algumas celas e a cerca, padeceram grande estrago.”

A Igreja do Convento e a sua cerca constituíram, durante mais de cento e cinquenta anos, um dos lugares de enterramento dos moradores da terra, tornando-se, a partir do século XVII, no maior cemitério da vila.

(Estêvão da Gama, p.s 136 e 138)

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[1] Que depois deu origem à Fonte das Negras.

 



publicado por Francisco Galego às 00:06
Sábado, 19 de Novembro de 2016

IGREJA E HOSPITAL DA MISERICÓRDIA

 

Relação dos morgados, capelas e legados que administra a Santa Casa da Misericórdia de Campo Maior, títulos por que possui a sua aquisição. (Documento existente no arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Campo Maior)

            “Fundada neste Reino de Portugal pela Sereníssima Rainha D. Leonor, Mulher de Sereníssimo Rei Senhor D. João Segundo a Irmandade da Misericórdia, em Agosto do ano de mil quatrocentos noventa e oito, se erigiu e fundou a Irmandade e Casa da Misericórdia de Lisboa que os senhores Reis, Rainhas e Príncipes Regentes deste Reino, concederam muitos e grandes privilégios. Depois foi fundada a Irmandade e Casa da Misericórdia nesta vila de Campo Maior que participa agora de todos os privilégios da Misericórdia de Lisboa por Alvará do Sereníssimo Rei D. Filipe III de 22 de Fevereiro de 1618 registado no Livro dos Privilégios e se rege pelo compromisso da Misericórdia de Lisboa. Dela fundou e erigiu Casa e igreja no Terreiro que agora chamam da Misericórdia Velha onde se conservou até ao ano de 1717 em que se erigiu nova Igreja no lugar aonde hoje existe (…)

            Havia naquele tempo nesta vila um hospital que construíram Diogo Lopes e sua mulher Maria Rodrigues nos anos de 1485 a 1487 pelos testamentos registados no tombo (…) dos quais consta das fazendas de que se compunha que se declaram adiante. Sendo administrador do dito hospital e suas fazendas um Domingo Lopes, este em 25 de Outubro de 1598, dotou este mesmo ao Provedor e Irmãos da Misericórdia desta vila a administração do dito hospital, suas fazendas e rendas pela escritura registada no tombo (…) que Sua Majestade confirmou por alvará de 8 de Junho de 1600.”

"A primeira Igreja da Misericórdia foi construída na primeira metade do século XVI no largo do mesmo nome, hoje Largo Barão de Barcelinhos. Edifício que durante mais de um século e meio foi lugar escolhido para sepultura de algumas das famílias campomaiorenses mais influentes. A referida igreja tinha configuração rectangular, com a frontaria virada para os ‘Cantos de Cima’ e as traseiras para a já então denominada Rua João Rosado e possuía dimensões muito reduzidas. Por esta razão foi mandada demolir nos inícios do século XVIII, sendo erguida em sua substituição a actual, contígua ao hospital ao fundo da Rua do Poço.”

(Rui Vieira, 1999, p. 129 e 130)

"… Assentaram que por estar muito danificada a Igreja e necessitar de se fazer de novo, se demolisse aquela e se edificasse outra junto do hospital para que se pudesse comunicar e serem assistidos os enfermos com os Sacramentos pelo capelão da Casa, o que não se fazia até ao presente porque, como a Igreja era separada, não havia Sacramento nela e vinha o viático da freguesia para os enfermos. E com efeito se demoliu a Igreja velha e se edificou a nova com a porta principal para a Rua de Poço e a porta travessa para a Rua dos Gramáticos. E se acha em termos de se fazerem as abóbadas este mesmo ano. (1722, ano em que Estêvão da Gama envia as “Notícias..” à Academia Real de História) (Sobre a porta principal está inscrita a data de 1725, provavelmente a da conclusão da obra).”

(Estêvão da Gama,  p. 56)



publicado por Francisco Galego às 00:06
Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016

 

A "IGREJA NOVA" (OU MATRIZ)

 

“ No ano de 1574, os vereadores: Thomé Affonço, António de Payva e Jorge do Rego, cavaleiros fidalgos, estes fizeram um acórdão em que se juntou todo o povo e propuseram que a Igreja da Matriz, era velha e muito pequena, em que não cabia o povo, porque quando se fizera não tinha mais de 300 vizinhos e agora passava de mil, se pedisse a El-Rei faculdade para se fazer outra e ao Bispo uma ajuda do custo”. (Estêvão da Gama, p. 121 e122)

“Ano de 1585… Neste ano veio a Provisão para se fazer a Igreja Nova (1), e se assentou ficasse também a Velha (2) e se partissem os fregueses pelo meio, para que houvesse duas freguesias.”

“Ano de 1610… Neste ano se arrematou a obra da Igreja Nova. No ano de 1645,  ainda não  estava aperfeiçoada, faltando-lhe as torres para os sinos e a guarnição por fora de toda ela. Só no ano de 1662 estava a igreja completada. (Estêvão da Gama, p. 123).

(A nova matriz) é um grande templo de três naves, com duas ordens de colunas de pedra a que chamam "gram". Tem três ao comprimento formando, de umas a outras, arcos sobre que se sustentam as abóbadas. Tem de comprimento sessenta e oito côvados e de largura trinta e quatro. A capela-mor é de bastante grandeza, tem tribuna… O retábulo é todo de alvenaria, com colunas retorcidas, cornijas e cimalhas, tudo estucado e pintado e excelente arquitectura. Tem duas capelas colaterais, uma da parte do Evangelho, de Nossa Senhora da Piedade…onde está sepultado o Bispo de Coimbra D. Martinho Afonso Mexia (3),  Para a parte da Epístola está a de Nossa Senhora do Rosário que é dos soldados do Regimento de Infantaria desta mesma guarnição, por cuja conta corre o ornato dela. Estas duas capelas têm mais vão que aquele que ocupam os altares. Tem outras duas nos lados que formam o grande vão do Cruzeiro: uma do Santíssimo Sacramento para a parte do Evangelho…Outra de Nossa Senhora do Rosário, defronte desta…a imagem da Senhora é de formosa escultura. Segue-se a esta capela, já no corpo da Igreja, a de Nª Senhora do Desterro. A esta segue-se uma porta colateral que fica a nascente. Segue-se-lhe outra capela, de Nª Senhora do Carmo e, no fim dela, corre a parede do frontispício em que está a porta principal que fica ao meio-dia. E em cima dela está o coro espaçoso e claro de que se não servem os clérigos por estar sem ornato nenhum e lhe ser mais cómodo rezarem na capela-mor. A esta porta segue-se a Pia Baptismal (4), que é uma casa de bastante grandeza. Segue-se esta parede a outra e logo a capela de S. Miguel e das Almas…e desta se segue outra porta colateral para o poente e a esta a capela de Nª Senhora da Encarnação e a ela a já referida capela do Santíssimo.

Todas estas capelas foram pintadas entre os anos de 1719 e 1720, de excelente pintura dos Mestres Manuel dos Reis e António Pimenta da cidade de Lisboa, ambos discípulos do grande pintor Bacareley.

Há nesta Igreja três sacristias: uma dos clérigos, outra dos Irmãos do Santíssimo e outra de Nª Senhora do Rosário.

A entrada da porta principal é feita por duas ordens de escadas de pedra. Tem um adro muito espaçoso.

A fábrica desta Igreja(5) são umas terras que no presente rendem setenta e cinco mil réis, cuja arrematação fazem os oficiais da câmara e que foram deixadas por uma mulher de que se não sabe o nome, mas que é coisa muito antiga. Desse dinheiro se paga ao organista e o mais se despende nas obras e reparos da Igreja.”

 (Estêvão da Gama, ( p. 47 a 51 e p.s 122 e 123) 

 

 Notas:

(1) No século passado, o povo designava esta igreja como a Igreja Nova, e o largo onde se encontra como Largo da Igreja Nova. Raramente era designada como a Matriz.

(2) A antiga matriz, dentro do castelo.

(3)Este bispo era natural de Campo Maior.

(4) Segundo documentos antigos, esta pia baptismal teria vindo da antiga igreja matriz, no castelo, que fora demolida e nela teria sido baptizada Santa Beatriz da Silva. De facto, esta peça parece esculpida de uma forma que aponta para uma data bastante anterior à da construção desta igreja.

(5) A "fábrica desta Igreja" significa o conjunto de bens que, com os rendimentos que geram, garantem a sustentação das despesas com os seus serviços e obras de conservação e restauração. Numa perspectiva mais jurídica, a Fábrica da Igreja é a entidade que representa oficialmente a mesma, em todos os assuntos de ordem administrativa. A Fábrica da Igreja é normalmente a proprietária dos bens paroquiais afectos ao exercício do culto. tendo a incumbência de  administrar os bens eclesiásticos da paróquia.

 

 Nota Final:  Com a grande explosão da torre de menagem, em 1732, “arruinou-se o coro e o frontispício da Igreja Matriz, algumas das suas abóbadas e colunas, quebraram-se todas as portas e algumas imagens.”(Estêvão da Gama, p. 138).

A Igreja, serviu de escudo ao pequeno número das casas que ficavam perto do grande edifício que susteve a maior parte do chuveiro de pedras da torre. Mas o magnífico templo, que susteve o maior ímpeto do castelo, sofreu algum destroço, destruindo-se todo o frontispício e a abobada do coro que estava sobre a porta principal e que era obra de pedraria e muito forte. Também ficaram danificadas as abobadas das suas três naves e algumas das colunas que são de cantaria. Quebraram-se as portas, tendo as principais sido arrancadas com tal violência que foram parar junto ao altar-mor. Nem as imagens ficaram incólumes de tamanho ímpeto.

Para remediar a ruína (...) mandou D. João V “aplicar a terça do concelho para a reedificação da Igreja Matriz…” (Estêvão da Gama, p. 141)

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Domingo, 13 de Novembro de 2016

IGREJA DO CASTELO

(De Santa Clara)      

( De Nª Sr.ª da Assumpção)

A antiga Igreja Matriz, também designada, primeiro de Santa Clara e depois de N.ª S.ª da Assunção, foi erguida provavelmente na segunda metade do século XIII, no interior da cintura medieval onde se localizava a chamada Vila Velha.

Templo  não alheio às inovações, uma vez que, na segunda metade de Quinhentos, ostentava numa das suas torres um relógio mecânico que cronometrava o tempo ao longo do dia e da noite, ao contrário dos seus antecessores, menos rigorosos e impossibilitados de fornecerem as horas durante a noite, dado que se baseavam na observação da altura do sol para medir a passagem do tempo.

Contudo, em 1574, por ser a igreja muito velha e não caber nela o povo, foi decidida a substituição da antiga Matriz por outra mais ampla e edificada em lugar central.

(Estêvão da Gama, p. 47)

“A primitiva igreja matriz (Igreja de Santa Clara do Castelo) foi no lugar onde hoje se vê o armazém que agora serve de teatro e uniam-se com a igreja as 16 habitações onde estiveram provisoriamente recolhidos, por 64 anos, os frades franciscanos depois da demolição, em 1645, do convento com a invocação de S. António que tinham fora da vila. Só em 1709 passaram elas para o novo (o actual Convento de S. Francisco), onde estiveram até à extinção das ordens religiosas em 1834.”

(João Dubraz, p. 193)

            (Em 1732) “No Convento antigo dos frades de S. Francisco, que era no Castelo e na Igreja que agora era armazém, se descobriu uma imagem do Padre Eterno que havia mais de 400 anos que estava oculta e, principiando a piedade católica a venerá-la, principiou o mesmo Senhor a fazer milagres e a concorrerem romeiros, de sorte que, com as esmolas, se lhe fez uma nova Igreja com boa arquitectura e se estava a aumentá-la e orná-la com tudo o que fosse possível.”

            Quando se deu o rebentamento do paiol que estava na torre grande, “arruinou-se a Igrejinha do Senhor do Castelo, mas a capelinha em que está o Senhor ficou sem lesão.”

(Estêvão da Gama, p.s 136 e 138)

 

 Nota: O primeiro convento - O Convento de Santo António -  localizava-se no actual Campo da Feira, mais ou menos onde estão as instalações comerciais pertencentes à família Garrancho. Note-se também que, a meio da Rua de São Francisco, do lado direito de quem sobe, fica a Ruínha de Santo António que dava acesso ao referido convento, antes de esta rua ter sido cortada pela construção da cortina de muralha que unia o Baluarte de S. Francisco, ao Baluarte da Fonte do Concelho. A ruínha de agora, termina numa escadaria construída para se ter acesso à estrada militar que ficava do lado de dentro da fortaleza, ficando do lado de fora o fosso que foi tapado para construção do terreno que serve de estacionamento e de chão das feiras. Assim, os nomes destas duas ruas, testemunham a existência neste lugar do desaparecido Convento de Santo António, de monges franciscanos, demolido por volta de 1645, devido à necessidade de tornar a vila uma praça de guerra capaz que suster qualquer tentativa de invasão de Portugal por tropas castelhanas, na eminente Guerra da Restauração. Os monges foram provisóriamente instalados no castelo, no lugar da antiga matriz. (1640 - 1668).  



publicado por Francisco Galego às 00:07
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016

 

A Ermida de São João Baptista ou Sâo Joãozinho

 

Segundo Estêvão da Gama de Moura e Azevedo:

 

Das ermidas de que fala o Dr. António Novaiz, não existe ao presente mais do que a de São João Baptista, de cuja imagem se ignora o escultor e, na fé dos moradores, há a tradição de que foi a primeira que se colocou no seu templo milagrosamente. É certo que é escultura digna de reparo, porque todas as que formam os artífices do Baptista são de juvenil parecer, mas esta é de maior idade, e parece que corre com a decadência dos anos querendo a milagrosa Imagem se veja nela prodígio. Porque em todos os homens é tão natural esta velhice que se representa aos seus devotos, não só na matéria, senão na representação.

            É certo pelo que dizem os doutores Novaiz e Varella que, no  tempo da peste, que foi no ano de 1520, os moradores desta vila despejaram as suas casas e fugiram para os campos, fazendo choupanas (choças), para se resguardarem das inclemências, juntando-se a maior parte deles num sítio que ainda hoje conserva o nome das Choças.

            Havia naquele tempo um homem virtuoso que se chamava Gonçalo Rodrigues, hortelão de uma pequena horta que fabricava para sua sustentação. Entregue uma noite ao sono, acordou obrigado por uma grande inclemência de resplendores, parecendo-lhe que a vizinhança do solo o despertava para continuação do seu trabalho. Mas logo divisou que aquelas luzes eram maiores que as naturais e, entre elas, viu um homem que era o divino precursor de Cristo que o chamava para que o fosse portador da boa nova que enviava àquele afligido povo. E, dizendo-lhe quem era, lhe disse também que fosse da sua parte dizer àqueles moradores que se recolhessem porque tinha secado o castigo. E, achando-se o hortelão indigno de lhe darem crédito lhe tirou o Santo um lobinho que tinha na cabeça e lho pôs no peito do pé esquerdo, para que servisse aquele sinal de verdadeiro testemunho do seu recado. Expressando o Santo que os moradores deste Povo nunca mais sentiriam semelhante castigo como aquele que, havia dois anos, experimentavam. E que, por memória da sua poderosa intercessão junto de Deus, queria que lhe fizessem uma Igreja no sítio dos Escovais.

            Foi Gonçalo Rodrigues fazer presente aos moradores deste aparecimento e promessa do Santo e logo se lhe deu crédito, não tanto pelo que pertencia aos ouvidos senão aos olhos, porque ali a fé se não definia.

 

Nota: Desde as suas origens, até há não muito tempo, foi esta ermida local de peregrinação, de pedidos de ajuda e de pagamento de promessas por graças recebidas. Ainda até meados do passado século, em noite de São João, aí se faziam animados festejos - "o Arraial de São Joãozinho", congregando grande parte da população, com bailaricos que começavam pelo meio da tarde e se prolongavam pela madrugada, sendo também muito assistido e participado um leilão de oferendas (as Fogaças).  O dinheiro conseguido  servia  para manutenção do sítio e do culto a "São Joãozinho" maneira carinhosa como o local  era e é, ainda hoje, designado.

Parte da população mantinha também a tradição de ser neste o local que  celebrava o dia de Páscoa, indo até ele para comer o "folar".



publicado por Francisco Galego às 00:02
Segunda-feira, 07 de Novembro de 2016

IGREJA DE SANTA MARIA

            …” para a parte da Ermida de S. Sebastião,  se fundou a segunda igreja de que há memória que se chamava de S. Maria, no reinado de D. Fernando, a qual foi Matriz. (…)

 “Em tempo de El-Rei D. Manuel era o arrabalde já maior que a Vila, estendendo-se para a parte da ermida de S. Sebastião, aonde se fundou a segunda igreja de que há memória que se chamava de Santa Maria, no reinado de El-Rei D. Fernando, a qual foi Matriz. Consta isto pela “Crónica de El-Rei D. João primeiro”, por Fernão Lopes, parte primeira, capítulo CVII, …”e estando fora da vila em uma Igreja que ahy se faz…”        (Estêvão da Gama, p. 43)

           

Esta igreja durou até á aclamação de El-Rei D. João o quarto e se demoliu em Domingo, 24 de Abril de 1644, a respeito da nova fortificação que se mandou fazer e em uma parede se acharam cinco mil réis em vinténs, conforme umas memórias daquele tempo que estão em nosso poder.

(Estêvão da Gama, p.44)

Nota: Depois da Igreja de Santa Maria, foi  construida, dentro do castelo, a Igreja de Santa Clara que passou  a funcionar como Igreja Matriz até que, em sua substituição, foi construida a "Igreja Nova" que, passou a ser Igreja Matriz, até à actualidade.



publicado por Francisco Galego às 17:59
Sexta-feira, 04 de Novembro de 2016

 

A ERMIDA DE S. SEBASTIÃO

Aires Varela, cónego da sé de Élvas e vigário geral do seu bispado, no documento “Sucessos que houve nas fronteiras de Elvas, Campo Maior e Ouguela”, no primeiro ano da Recuperação[1] de Portugal que começou no 1º de Dezembro de 1640 e findou no último de Novembro de 1641”, escreveu:

Campo Maior, lugar de mil e duzentos vizinhos; tem o castelo e a vila velha, que é cousa pouca, situados em uma eminência superior a todo aquele território, bastante murado; mas a vila nova, que é corpo da povoação, está em plano aberto e sem defesa alguma.

O monte de S. Sebastião, que toma o nome de uma ermida deste santo nele fundada, fica a cavaleiro[2] da vila nova. Este lugar faz rosto[3] a Badajoz e Vilar del Rei, com cujos termos parte[4]ora por marcos ora pelo rio Xévora.

(...) Foi Matias de Albuquerque a esta vila; pareceram-lhe bem as trincheiras obradas[5]: ordenou no monte de S. Sebastião um valente baluarte que os daquela vila conseguiram com grande trabalho e gasto.

 

Esta notícia faz referência a uma das mais antigas ermidas da vila de Campo Maior. Na época referida no documento, o seu edifício original terá, provavelmente, sido substituido pelo que chegou até aos nossos dias e que está agora em processo de recuperação.

Foi nesta época e para preparar a defesa do país para a guerra que a Espanha ia iniciar para tentar recuperar o domínio sobre Portugal, que Campo Maior foi dotado de uma fortaleza que a tornou uma das mais importantes praças de guerra para defesa das nossas fronteiras.

Tendo S. Sebastião, pertencido ao exército romano, tornou-se um simbolo de referência para os miliatres. Daí a ermida se ter tornado capela militar, desde meados do séc. XVII até à desativação da praça de guerra, em meados do séc. XIX. A partir daí, foi votada a um abandono que chegou causar a sua  quase total destruição como ainda hoje podemos testemunhar.  

 

[1] Restauração da Independência

[2] Acima de

[3] Tem defronte

[4] Confina, faz fronteira

[5] Construídas



publicado por Francisco Galego às 00:05
Terça-feira, 01 de Novembro de 2016

 

A ERMIDA DE S. PEDRO

(Segundo Estêvão da Gama de Moura e Azevedo)

Dista, esta Ermida, da Povoação de hoje, dois mil passos em terreno plano, com um vale muito fresco, capaz de hortas e pomares com muita água nativa e conserva um chafariz (nome que nos deixaram os mouros) que é do concelho desta vila…

É também ponderável que neste sítio de S. Pedro se apartam vários caminhos e estradas para Mérida, Badajoz, Ouguela, Albuquerque e Arronches.

Numa coluna que estava no alpendre da ermida só se puderam ler as letras de Emeritensis (1), porque as outras foram apagadas pela agressão dos ignorantes do valor destas antiguidades. Há ainda uma outra coluna com parte de uma inscrição.

(…) a Igreja de S. Pedro é uma Ermida feita de paredes de terra e de muito pobre arquitectura sem que tenha demonstração pudesse nunca ter mais avultados princípios. A qual se reedificou nos nossos tempos, porque no da Guerra da Aclamação (2) padeceu grande ruína. As colunas, (grandes pedras que se encontram neste lugar) que ainda se descobrem, mostram que o lugar tinha extensão porque há três anos que, andando um lavrador lavrando uma pequena parcela de terra que está defronte do chafariz, descobriu uma sepultura de que tirou tijolos, para se aproveitar deles, de notável grandeza e qualidade de barro e fica este sítio em bastante distância da Igreja de S. Pedro.

(…) A Ermida de São Pedro …”a qual é de grande romagem dos moradores às quintas-feiras da Quaresma, com indulgência plenária. A Imagem (de S. Pedro) é pintada a fresco na parede em hábito pontifical e se conserva no mesmo estado, como refere o Dr. Novaiz, acrescendo à sua ponderação a circunstância de durante a Guerra da Aclamação, que durou 28 anos, esteve exposta á inclemência dos tempos por se arruinar a Igreja e não teve nenhuma diminuição aquela Imagem, não tendo sido retocada, nem necessitar de nenhum benefício da arte.

Neste sítio estão as colunas de que já se fez menção e outros sinais de edifícios. Há pouco tempo que, a ermitoa que hoje existe, achou uma moeda de ouro de tamanho de uma de seis vinténs, mas muito delgada e com um bocado menos na circunferência. Porém, de uma parte estão as letras bem formadas e se lê nelas Toleto Pios, cuja moeda se acha em poder de Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, Governador desta Praça...”

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 (1) - Referente a Emerita Augusta (Mérida), capital de uma província romana.

(2) - Guerra entre Portugal e Espanha que começou com a Restauração da Independência de Portugal, em 1 de Dezembro de 1640 e terminou com o Tratado de Madrid, firmado em 5 de Janeiro de 1668.

Comentário complementar: Neste local em que se encontra a Ermida de S.Pedro, no cruzamento de estradas criadas no período romano, para ligarem Mérida a outras urbes localizadas no actual território portuguguês, há razões que apontam para a possibilidade de que seria o local de Ad Septem Aras (a), ou seja, o local que servia de apoio aos viajantes, com um templo - lugar sagrado para as oferendas e súplicas de protecção dos deuses -, lugar de repouso -  com água abundante para banhos -, tendo adjacente um cemitério, chão sagrado para sepultar os mortos. A forma, a volumetria do edifício, a sua localização e os vestígios arqueológicos encontrados, justificam que alguns estudiosos tenham feito essa interpretação. Só estudos ponderados poderiam trazer dados que permitiriam confirmar tal suposição. 

(a) À letra, significa "das sete aras", (ou seja,dos sete altares).



publicado por Francisco Galego às 00:09
Sexta-feira, 28 de Outubro de 2016

AS ANTIGAS CAPELAS E ERMIDAS

Antes havia na vila quatro entradas e em cada uma delas uma grande cruz de mármore. O lugar da primeira era junto à Ermida de S. Pedro. O da segunda junto à Ermida de Santa Maria dos Pastores, que ficava à parte esquerda do rastilho da porta deste nome. Esta Ermida veio a ser derrubada. A terceira estava numa encosta vizinha a esta Ermida. A quarta estava num sítio chamado o prado.

(João Mariano, p. 28)

            “…O Dr. Novaes diz, falando nas ermidas que tinha esta Vila, o seguinte:  Espírito Santo, Santa Vitória, Nossa Senhora da Graça que foi antigamente freguesia”. ( Estêvão da Gama, p. 46)

            “O Dr. António Gonçalves de Novaes, faz memória das ermidas que havia nesta vizinhança e eram a de S. Vitória, que hoje se acha totalmente arruinada, mas ainda se conservam algumas paredes da Igreja de Nª Srª da Graça a qual se demoliu totalmente a respeito da fortificação. Havia também outra, a do Espírito Santo, que modernamente se arruinou, dentro da vila.” (Estêvão da Gama, p. 55)

As instalações destinadas a sede do poder local foram ‘arrimadas (exteriormente) ao Muro do Castelo, (…) entre o vão que fazem as duas torres’, próximo de onde, antes do desastre que em 1732 destruiu parte do Castelo e da Vila, existia uma porta de acesso à fortaleza e à Vila Velha. O edifício camarário da época de Quinhentos, erguido na actualmente designada Praça Velha, encostado aos muros exteriores do Castelo, tinha ‘de vão no pavimento cinco varas de largo e tem sua escada de dois lanços e duas salas, uma das audiências e outra das vereações, com quatro janelas rasgadas, uma em sacada e por baixo outras duas casas (…) e junto ao muro se acha um vão em quadro, onde antigamente foi uma ermida chamada do Espírito Santo que hoje não existe.

(Rui Vieira, 1999, p. 135)

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Segunda-feira, 24 de Outubro de 2016

 

            “É Campo Maior uma das praças mais importantes da Província do Alentejo fronteira de Badajoz, sem que, entre uma ou outra, haja rio ou serra que possam impedir as operações de cavalaria. É fronteira a Albuquerque que é a segunda praça da Província da Estremadura.”  (Estêvão da Gama, p. 80)

            “É esta Vila fortificada ao moderno, como uma das praças principais das fronteiras.

O seu recinto se ocupa com o Baluarte de S. João e o de Santa Cruz, entre os quais os fossos que lhe correspondem  são cheios de água, a que chamam o Lago e o Laguinho. Têm estes muita tenca e excelentes pardelhas. Conservam-se todo o ano com abundância de água que recebem do ribeiro da Fonte Nova . Ao Baluarte de S. Cruz se segue uma cortina muito grande e, no remate dela fica-lhe, a cavaleiro, o meio baluarte que chamam do Curral dos Coelhos. A este se segue o que chamam de Lisboa e a ele o baluarte de S. Sebastião entre os quais está a porta da Vila que chamam de Santa Maria. Segue-se o Baluarte da Boa Vista, a este o meio Baluarte de Santa Rosa, que de novo se fabrica, a ele o Baluarte de São Francisco, o Baluarte da Fonte do Concelho e o Baluarte do Picha Torta, cuja cortina fecha a Praça no Baluarte de S. João e nela está situada a porta principal que chamam de S. Pedro.

Tem excelentes fossos, bastantes esplanadas, estradas encobertas e, em algumas partes, contra escarpas.

Tem seis revelins, dois fortes, o principal se chama de S. João para a parte do nascente, o outro do Cachimbo, para a parte do meio-dia. E, porque há outra narração que lhe dá diferentes sítios, se põem estes que são os verdadeiros.

Esta fortificação principiou-a D. João IV e a têm continuado a Rainha D. Luísa, El-Rei D. Afonso VI, El-Rei D. Pedro II e El-Rei D. João V que Deus guarde.

Mas, sem embargo de não estar acabada e ter muitas imperfeições, resistiu ao Sítio que lhe moveram os castelhanos em 27 de Setembro de 1712, governando aquele exército o Marquês de Bay e as nossas armas Pedro de Mascarenhas e a Praça, Estêvão da Gama de Moura e Azevedo.”

 

In, Estêvão da Gama de Moura e Azevedo - Notícias da antiguidade, aumento e estado presente da Villa de Campo Maior tiradas de autores, papéis autênticos e tradições antigas e conservadas na memória de seus naturais,



publicado por Francisco Galego às 00:07
Sexta-feira, 21 de Outubro de 2016

O "Assento das Provisões de Boca", de Campo Maior, é um grande edifício militar que tinha como função principal o armazenamento de víveres e de outros produtos destinados a garantir o abastecimento da guarnição da antiga praça militar, permitindo-lhe resistir durante um período alargado de tempo, em caso de cerco.

Segundo dados recolhidos no Arquivo Histórico Militar, o Assento das provisões militares é um dos edifícios mais notáveis desta Vila e, no seu género, talvez o melhor da Província do Além-Tejo, porque as oficinas do Assento, as melhores de toda a Província, se haviam construído debaixo das dimensões adoptadas nos edifícios próprios das Praças de Guerra e foi obra do Tenente Coronel Engenheiro Tomás de Vila Nova e Sequeira.

Em 1801, na eminência da chamada Guerra das Laranjas (20 de Maio a 6 de Junho de 1801) procedeu-se à “reorganização do assento das provisões de boca, mandaram-se aprontar as atafonas[1] para suprir a falta dos moinhos para o caso de o inimigo infestar a campanha. D. José Carvajal, prestou-se a esta importante obra fornecendo as madeiras necessárias.”

Estas atafonas consistiam numa extensa e bem apetrechada área destinada ao fabrico do pão, que contava com a atafona propriamente dita, destinada a transformar os cereais em farinha e uma padaria com área de amassadura e fornos. Outras áreas do assento consistiam em armazéns dos recursos alimentares ou de outros materiais destinados à subsistência da população da vila e da sua guarnição militar em épocas de conflitos, tanto nos casos de cerco da vila, como na manutenção dos exércitos luso-britânicos quando, na Guerra Peninsular, desenvolviam acções nesta região, como aconteceu, por exemplo, no último dos quatro cercos de Badajoz que durou de 6 de Março a 7 de Abril de 1812 e culminou com a conquista da cidade pelo Duque de Wellington, sempre apoiado pelos recursos do assento militar de Campo Maior.

 

SUGESTÕES PARA UM PROJECTO DE REQUALIFICAÇÃO

 

Um projecto para a requalificação deste valioso elemento do património deste concelho deverá visar a consecução de alguns dos compromissos assumidos, explicita ou implicitamente, no programa eleitoral pela equipa que agora assume a gestão do município, designadamente:

1 -    A inclusão de Campo Maior nas rotas turísticas da região em que se insere;

2 -   A promoção e realização de iniciativas no centro histórico combatendo a desertificação do mesmo;

4 -   A criação de um museu centrado no tema Festas do Povo, manifestação maior da cultura campomaiorense.

5 -   A promoção da imagem de Campo Maior em Portugal e no estrangeiro;

6 -   A promoção e dinamização dos museus de Campo Maior;

7 -   A promoção de concursos e de exposições de índole cultural;

8 -   A realização de programas temáticos sobre questões de interesse patrimonial e (ou) cultural;

9 -   A criação do arquivo histórico do concelho de Campo Maior e a disponibilização da sua consulta, em colaboração com a Biblioteca Municipal João Dubraz;

10 -  A organização de cursos sobre a História e o Património locais;

11 -  A organização de sessões de divulgação de aspectos da cultura local;

12 -  A criação e manutenção de um Centro Interpretativo da História de Campo Maior.

 

Para a consecução destas intenções, o antigo Assento Militar apresenta, como grande vantagem, a sua localização num ponto de grande centralidade e de fácil acessibilidade, a acrescentar ao seu indiscutível valor patrimonial.

Um projecto de requalificação deve ser estruturado segundo vectores essenciais, designadamente:

 

  • QUANTO À FINALIDADE

 

 Valorizar aquele que é um dos mais antigos e o melhor conservado, dos elementos do património construído da vila de Campo Maior. No entender de alguns especialistas em arquitectura militar, tratar-se-á de um dos melhores edifícios do género que existe no nosso país.

Apesar das alterações que sofreu ao longo do tempo, é um importante testemunho da função que Campo Maior desempenhou, como uma das mais importantes praças de guerra de guerra que assegurava a defesa da fronteira terrestre, até meados do século XIX. Nessa função se distinguiu e nobilitou em diversas ocasiões críticas para a independência de Portugal.

 

  • QUANTO AOS OBJECTIVOS

 

Os objectivos a definir devem ser estruturados a vários níveis e segundo diversas orientações. Nomeadamente:

 

1 – O nível histórico, o nível cultural, o nível educacional;

2 – A preservação da memória e da compreensão da evolução da

 cultura campomaiorense;

3 – A sistematização e preservação das tradições culturais;

4 – A transmissão do conhecimento à comunidade campomaiorense

e aos que visitam a vila de Campo Maior.

 

  • ÁREAS A PRIVILEGIAR

 

1 – Núcleos museológicos, com destaque para as Festas do Povo;

2 – Eventos culturais como: Mostras, visitas guiadas, exposições;

3 – Centro Interpretativo da História de Campo Maior.

 

 

Esse projecto deverá ser elaborado, estruturado e explicitado de forma adequada para que dele possam derivar projectos parciais e programas de execução viáveis, de acordo com os objectivos traçados e atendendo aos recursos humanos, financeiros e materiais disponíveis para a sua execução.

 

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[1] Processo de moagem dos cereais utilizando a força de animais de tracção para accionar as mós.



publicado por Francisco Galego às 00:09
Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

Frei Manuel de Figueiredo,

 Eremita Augustiniano, cronista da sua província (Ordem), e muito acreditado pregador no seu tempo, de seu nome António Dias da Silva e Figueiredo, foi natural de Campo Maior e morreu no Convento da Graça de Lisboa a 19 de Novembro de 1774.

Estava de visita à sua família quando se deu a explosão do paiol na torre de menagem, provocando uma terrível destuição em Campo Maior. Foi, portanto, testemunho directo do trágico acontecimento que descreveu neste documento por si publicado em Lisboa, com o seguinte título:

“Notícia do lastimoso estrago, que na madrugada do dia 16 de Settembro, deste presente anno de 1732, padeceu a Villa de Campo-Maior, causado pelo incêndio, com que hum raio, cahindo no armazém da pólvora, arruinou as torres do castello, e com ellas as casas da Villa. Escrita por António Dias da Sylva, e Figueiredo, natural da mesma Villa”, Lisboa Oriental, na Officina Augustiniana, 1732

 

“Desde o dia 14 de Setembro começou o céu a dispor-se para este estrago, encapotando-se na primeira noite os ares e fuzilando com alguns relâmpagos os quais, acompanhados de trovões, causaram muito sustos que não passaram de ameaços.

 Chegou enfim a tristíssima noite de dia 15 que havia de reduzir a cinzas aquela máquina que, por quase cinco séculos, resistiu às injúrias do tempo e aos combates da guerra. Principiou com a carranca dos ares a atemorizar os corações, anunciando-lhes com alguns trovões a ruína em que, daí a poucas horas, se haviam de encontrar sepultados. Seriam as 3 horas da madrugada quando, cruzando-se duas trovoadas, uma da parte do Poente, outra da parte do Meio-dia, fizeram despertar com horríveis trovões os moradores. Quase uma hora durou o horror da tormenta em que as duas trovoadas pareciam travar um combate disputando qual delas devia assolar a vila. Até que, unindo as suas forças num horrível estampido, saiu de uma nuvem o fogo que tinha sido concebido por tamanha ira. Caiu o raio na torre maior, ignorando-se de que parte a feriu. Uniu-se o fogo vindo do céu ao da terra quando rebentaram as bombas, granadas e pólvora que se guardava no interior da torre. Havia nela 5.732 arrobas e 6 arráteis de pólvora, 4.816 granadas ordinárias, 830 granadas reais, 711 bombas, 2.575 granadas desatacadas. Tudo isto com o seu impulso deu ruína ao castelo e sepultura à vila.

Ateando-se o fogo do raio em tanta, tão arrumada e tão activa matéria, arrancou dos alicerces a torre de menagem e com ela mais quatro das seis torres pequenas. A este estrago seguiu-se o da vila: primeiro pelo impulso violento da explosão; depois pelo chuveiro de pedras, algumas de notável grandeza, despedidas do castelo arruinado.

Com o repentino abalo e ruína de suas casas, os assustados moradores que ficaram vivos pensaram, cada um deles, que era apenas o seu estrago particular, ou seja, o que um raio tinha feito na sua própria casa. Até que clamando uns por misericórdia, outros por confissão e outros por socorro, entenderam que se não podiam valer uns aos outros porque a ruína era de todos. Mas, no princípio, no meio da confusão e do horror, ignoravam qual tivesse sido verdadeiramente a causa.

O impulso foi tão violento que as casas caíram ao mesmo tempo parecendo que disputavam umas às outras o terreno para se derrubarem. Ficaram arruinadas 840 casas e mesmo as poucas que resistiram ao estrago, tiveram seu dano em telhados e portas. Foi tal o impulso que, mesmo as portas que não estavam voltadas para o castelo, foram violentamente arrancadas das suas ombreiras. Serviu de escudo ao pequeno número das casas que ficaram de pé o grande edifício da Igreja Matriz que susteve a maior parte do chuveiro de pedras da torre. Mas o magnífico templo que susteve o maior ímpeto do castelo, sofreu algum destroço, destruindo-se todo o frontispício e a abobada do coro que estava sobre a porta principal e que era obra de pedraria e muito forte. Também ficaram danificadas as abobadas das suas três naves e algumas das colunas que são de cantaria. Quebraram-se as portas, tendo as principais sido arrancadas com tal violência que foram parar junto ao altar-mor. Nem as imagens ficaram incólumes de tamanho ímpeto.

O mais sensível estrago foi o que padeceu a Igreja, Convento e Hospital de S. João de Deus, onde não ficou casa alguma que não padecesse ruína. Mas o mais lamentável foi o que ofendeu o mais sagrado. Porque, caindo o tecto da Igreja e quebrando o Sacrário onde estava o Santíssimo, se achou a Ambula[1] fora do seu lugar e as formas consagradas caídas em terra e despedaçadas, ainda que juntas debaixo da hóstia grande que ficou inteira.

A Misericórdia e Hospital desta vila também tiveram o seu dano.

Maior dano experimentou o Convento de São Francisco, onde não ficou porta inteira, nem mesmo a mais interior, abrindo grandes roturas nas suas abobadas as muitas e grandes pedras que sobre elas caíram. Arruinou-se também o frontispício da sua Igreja, obra recém acabada, caindo em terra a imagem de Santo António que estava nesse frontispício, tendo caído os pedaços na cabeça de um pobre homem que procurava refúgio no espaço sagrado da Igreja, provocando-lhe a morte.

Como a veneranda imagem do grande Baptista estava depositada na pública capela, que tem nas suas casas o governador desta praça, por estar demolida a Igreja do Santo devido ao projecto de se edificar uma nova, maior e de melhor arquitectura, foi aquela capela a única que foi respeitada pela ira do céu, pois que, caindo grandes pedras nas casas do governador, com grande dano, nem de leve elas ofenderam o lugar onde estava o Santo, ficando ilesa toda aquela numerosa família do governador. Benefício que também experimentaram todos os irmãos que, no presente ano, servem na mesa do Santo.

Confessamos que também a Ermida do invicto Mártir S. Sebastião, que está num baluarte da muralha, não sofreu ruína, mas não é tão notável o prodígio por ficar numa parte para onde não se encaminhou o ímpeto da explosão.

Dentro do próprio castelo, sofreram ruína os “armazéns de outras provisões de guerra” e ainda duas torres que ficaram em pé, sofreram seu dano ficando descoberta uma que conservava em si alguns barris de pólvora, os quais não rebentaram. Também ficou isenta de estrago uma pequena capela que a devoção dos moradores desta vila tinha erigido a uma pintura do Padre Eterno, que se achou quando se demoliu a antiga Igreja que fora matriz desta vila e que depois foi, por alguns anos, ocupada pelos religiosos de S. Francisco. Esta imagem é muito venerada pelos frequentes prodígios que obra.

Ficaram também demolidas as casa da Câmara e a cadeia desta vila.

A fortificação sofreu seu dano, principalmente nas portas da Praça que, sendo fortíssimas, foram arrancadas como impulso da explosão. Tão activa foi ela que, estando três canhões desmontados e quase subterrados junto do reduto,[2] arrancou dois do chão e arrojou-os para fora das muralhas. O mesmo sucedeu a dois morteiros que estavam junto da porta do castelo.

Mesmo à distância de quatro léguas se fez sentir o efeito da explosão pois os moradores de Arronches e Albuquerque deram notícia de terem sentido, nessa hora, um extraordinário abalo nas suas casas.

Observou-se que em todas as boticas que há nesta vila ficaram isentas de estrago, havendo mesmo algumas que não sofreram dano apesar de ter caído o tecto das casas em que estavam. Parece que o Céu, depois de dar o golpe para nossa emenda, teve providência em conservar ilesos os remédios para a cura. Assim se conjectura que, apesar de ter desembainhado a espada, não descarregou o seu golpe com toda a violência. Porque, sem tantos prodígios, não podiam tantos ter escapado com vida no meio da total ruína das suas casas. Apesar de ter havido famílias inteiras em que todos ficaram mortos, foi muito maior o número dos que saíram das mesmas ruínas sem qualquer lesão, causando admiração o modo como, sem advertência, evitaram o perigo.

Não se pode averiguar o número certo das pessoas que morreram nesta ruínas. Alguns estimam que chegaram a duzentas. As de que temos certa notícia pelo distribuidor da Igreja e que rondam as duzentas, são as seguintes:

- Na Igreja Matriz enterram-se 76 pessoas de comunhão e 28 crianças pequenas;

- No Convento de S. Francisco, 17 crianças pequenas;

- No Hospital de S. João de Deus, 6 soldados e uma criança pequena;

- Na Misericórdia, enterrou-se apenas o seu provedor Francisco Pires Cotão que foi a pessoa principal diante do Regimento de Cavalaria e um sargento de Infantaria;

- Morreu também um religioso de S. João de Deus, chamado Frei José de Santa Catarina, sacerdote, confessor, a quem, partindo-lhe uma pedra a cabeça e lançando-lhe fora os miolos, não rompeu a túnica em que estavam metidos, de sorte que, pondo-lhos outro religioso no seu ligar e unindo-lhe a cabeça, ficou tão composto como se não tivesse lesão alguma; era religioso de vida exemplar;

- No Convento de S. Francisco morreram 3 dos monges que estavam orando no coro – o padre Frei Pedro de S. Boaventura, pregador, que logo ficou morto; o padre pregador Frei António das Chagas, que ainda pôde receber a extrema-unção; o padre confessor Frei António de S. Faustino, a quem uma pedra quebrou ambas as pernas e molestou de sorte que durou poucas horas; ficaram gravemente feridos mais três religiosos da mesma comunidade;

- Morreu também o padre Domingos Gonçalves Pires, mestre de latim nesta vila, de idade de quase70 anos, mas em todos de tão justificado procedimento que, desde menino, se não soube dele nem a mais leve verdura.

- E, fazendo-se reflexão sobre todas as pessoas que morreram, acha-se serem quase todas elas timoratas e de boa consciência. E, observou-se em especial que se achava coberto de cilicio o corpo de uma bem morigerada donzela que morreu nesta desgraça.

Estes são os mortos de que se fez especial memória, mas, fora deles, se enterraram muitos outros, muitos pela piedade de seus parentes e amigos de que se não pode saber o número certo, porque a mesma piedade que o fazia o ocultaria.

Sabe-se contudo (e pode este número acrescentar-se ao dos mortos) que, constando ao Doutor Juiz de Fora que passavam de 20 os mortos que estavam, no segundo dia, no Hospital da vila e que os seus cadáveres tinham corrupção, os mandou conduzir e sepultar à sua custa, a cujo enterro assistiram clérigos castelhanos.

Além disso, teme-se que estejam alguns sepultados nas ruínas das suas casas, como sucedeu a uma menina de tenra idade, a qual, depois de 4 dias foi desenterrada, mas ainda viva que ainda hoje existe.

Os mais gravemente feridos, que ainda hoje se estão curando, são 302, sendo incomparavelmente maior o número dos feridos leves que não chegaram às mão do cirurgião e outros que procuraram remédio nas terras circunvizinhas, buscando amparo de parentes e amigos, cujo número, prudentemente, se conjectura chegar aos 2.000.[3]

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[1] Ambula – recipiente para guardar os santos óleos.

[2] Reduto – recinto fechado dentro de uma fortaleza que servia como último ponto de resistência.

[3] Estêvão da Gama d Moura e Azevedo refere 256 mortos entre pessoas grandes e pequenas e mais de dois mil feridos.



publicado por Francisco Galego às 00:04
Sábado, 15 de Outubro de 2016

Tanto como a cultura dos cereais, principalmente do trigo, o pastoreio era importantíssimo neste concelho, como actividade complementar da sua economia agrária, pois o gado, principalmente o ovino, aproveitava o que ficava como restolho depois das ceifas e os pastos que cresciam nas terras em pousio.

Mas, tendo Campo Maior um território muito pequeno, a sobrecarga da actividade pastoril durante o tempo que decorria entre a sementeira e a colheita das searas, os pastores tinham mesmo que ir procurar pastagens noutras terras, a dezoito e vinte léguas de distância. Deslocavam-se com os seus rebanhos para as terras a norte de Portalegre, nomeadamente os pastos de Niza, todos os anos, entre o começo de Outubro e o final do mês de Março.

Os documentos referem também que da Beira vinham muitos pastores para exercerem a sua actividade em Campo Maior. Vinham na expectativa de que aqui pudessem fazer fortuna, pensando poderem ir adquirindo gado próprio e, um dia, virem a tornarem-se autênticos lavradores, sonho que alguns deles conseguiam tornar realidade.

A existência do livre pastoreio nas terras do termo de Campo Maior, parece não ter levantado problemas até meados do século XVIII. O uso comunitário das pastagens estendia-se a todo o seu território. Não encontramos aqui, como noutros concelhos, documentos que façam qualquer alusão ao hábito de leiloar as pastagens.

Numa notícia de 1758, estava claramente explicitado que o termo de Campo Maior “é todo baldio por conta dos gados”. Mas, por essa altura, começaram a surgir contestações a este regime de pastoreio livre. Uma petição enviada à Corte Suprema em 1755 manifesta a hostilidade dos proprietários das terras à livre utilização dos pastos. 

A tradição da livre pastagem nas terras baldias era costume tão arreigado que as gentes de Campo Maior não possuíam sequer uma reserva comum para os bois. Por isso, desde o começo do século XVII, foi adoptada uma solução que consistia em que cada cultivador deixasse em defeso uma parte da terra que explorava e a que se chamava o remendo. Esta parte era delimitada nos alqueives, por um rego de charrua e era reservada para alimento dos seus animais. Todos os anos tinham de requerer ao juiz de fora, entre 1 de Novembro e 31 de Janeiro, a autorização para traçar o remendo. Estas porções ficavam isentas do dever de livre pastagem, desde o momento que a autorização era concedida, até 31 de Maio.

Esta solução era original, mas, no fundo, só interessava aos lavradores que podiam dispor da terra em regime de permanência. Para os seareiros, classe muito numerosa em Campo Maior, que trabalhavam courelas em regime de arrendamento, ficava apenas a possibilidade de recorrerem às terras comunais reservadas para este efeito. A maior parte da produção de trigo no concelho era garantida pela actividade destes seareiros. Mas, também eles tinham na criação de gado um complemento para compensar os escassos ganhos que obtinham na agricultura nos anos em que era fraca a colheita dos cereais. A estes convinha manter a situação de livre acesso às pastagens segundo a tradição do concelho.

Contudo, a maior parte do território estava dividida em herdades arrendadas aos lavradores e, muitas delas, eram destinadas apenas ao pastoreio de gado ovino. Aos seus exploradores convinha a reserva do direito de pastagens. Por isso lutavam contra o direito de livre pastoreio.

Quando uma provisão de 1788 aboliu o pastoreio livre no termo de Campo Maior, contrariando o que era uma antiga tradição neste concelho, houve uma forte resistência à decisão que passava a permitir que as herdades pudessem ser coutadas e vedadas à livre utilização pelos rebanhos. A população queixava-se de que, em consequência da decisão de 1788, cerca de centena e meia de herdades estavam ao abandono, servindo apenas para apascentar os gados dos proprietários. Daqui resultavam grandes prejuízos em termos de produção e graves problemas sociais porque o pastoreio, exigindo muito menos mão-de-obra do que o cultivo dos campos, lançava na miséria os trabalhadores que, em desespero, recorriam à mendicidade e ao roubo para garantirem a sua magra subsistência. O crescente absentismo dos grandes lavradores foi apontado como o principal factor da crise generalizada que se viveu em todo o Alentejo, em finais do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX.

O pastoreio em grande escala, praticado pelos lavradores nessas herdades, favoreceu a acumulação de vultuosos capitais e o desenvolvimento do grande capitalismo agrário nesta região do Alentejo.

 



publicado por Francisco Galego às 00:07
Segunda-feira, 10 de Outubro de 2016

O pastoreio dos ovinos implicava o comércio da lã e da sua utilização pelas oficinas locais ou para exportação para terras onde estivesse mais desenvolvida a tecelagem. A associação das searas aos rebanhos de ovelhas existia no Alentejo mesmo ao nível das paisagens, tratando-se sem dúvida de duas actividades complementares por causa da rotação de culturas, da utilização dos baldios e do aproveitamento dos restolhos. 

No Alentejo havia pastores que tomavam de arrendamento as herdades apenas para nelas colocarem os seus rebanhos em pastagem, sem as cultivarem. E isto acontecia tanto para os ovinos como para os porcos. Daí as frequentes queixas contra a existência de grandes extensões de terras que ficavam incultas para nelas se praticar apenas o pastoreio. Além da lã os pastores fabricavam os queijos que conseguiam vender, mesmo para Lisboa, onde eram muito apreciados. No distrito de Portalegre havia grandes rebanhos de ovinos com particular incidência nos concelhos de Campo Maior, Fronteira, Ponte de Sor e Gavião.

Segundo um autor anónimo de Campo Maior que enviou relatório para Lisboa, em 1779, cinco pessoas arrendaram 39 das 54 herdades do concelho, tendo uma delas tomado para si nove dessas herdades, não para as cultivar, mas para nelas colocar os seus rebanhos de ovelhas.

No concelho de Campo Maior, que era considerado um dos mais ricos do Alentejo por nele predominarem os solos argilosos, o cura em resposta a um inquérito feito em 1758, queixava-se da pequenez da sua paróquia que ocupava todo o concelho, o qual, por ser tão pequeno, não teria espaço suficiente para o pastoreio. Por isso se tornava necessário ir procurar pastagens fora do concelho.

Em 1775 terá havido tal polémica neste concelho envolvendo as questões do pastoreio que suscitou um inquérito ordenado pela Corte Suprema do Reino, o qual forneceu preciosas informações sobre a situação local. Essas informações não deixam dúvidas quanto à importância dos criadores de gado no concelho de Campo Maior, no século XVIII.

Num outro documento, o notário do concelho pretendendo classificar os signatários de uma petição favorável à manutenção das pastagens em comum, coloca os criadores de gado e os pastores ao mesmo nível dos lavradores, seareiros e carreteiros. O poder desses criadores e pastores era tal que, em 1757, conseguiram obter a abolição de um regulamento municipal que lhes era hostil porque impedia que, quem não tivesse quatro juntas de bois e não cultivasse uma herdade, pudesse beneficiar do pastoreio nos baldios.

A criação de gado ovino terá alcançado tal extensão, que gente pobre vinha para Campo Maior em busca de fortuna, na expectativa de que, começando como pastores, pudessem vir a tornar-se proprietários de rebanhos e, até mesmo, lavradores. O número de cabeças de gado ovino era de 22.782 em 1775; portanto, muito elevado para um concelho de tão pequeno território. Só assim se compreende o vigor das polémicas em torno das pastagens nos baldios. Em 1788 foi aprovado um regulamento que obrigava os de fora a alugarem uma terra para a poderem aproveitar para pastagem. Trinta anos mais tarde houve reclamações contra os excessos da criação de gados atribuindo-os ao direito de cercar os campos e à obrigação de os gados se deslocarem apenas pelas canadas.

Há notícia de que, boa parte destes gados passava para Espanha em contrabando. O autor anónimo do referido relatório avaliava em 60.000 o número de animais que, de Campo Maior, passavam todos os anos para Castela, declarando que colhera esta cifra junto de um castelhano bem colocado e sublinhando que se tratava de animais de vários espécies e não apenas originárias do Alentejo. Em 16 de Maio de 1796 foi tomada uma resolução com um título bem significativo: Aviso destinado a evitar a passagem de gado do Alentejo para Espanha. Tratava-se, sobretudo, de animais destinados ao fornecimento de carnes de borrego e de porco.

De qualquer modo, todas as informações apontam para que se possa concluir que, em Campo Maior e em geral na região de Elvas, a criação de gado ovino ocupava um lugar notável na economia local.

 



publicado por Francisco Galego às 00:08
Quinta-feira, 06 de Outubro de 2016

“Porém duvidamos que a povoação fosse fundada no sítio onde está o castelo. Talvez no sítio de S. Pedro no qual há uma ermida e onde, segundo fontes muito antigas haveria uma fortaleza ou atalaia dos romanos.

Dista a Ermida de S. Pedro da povoação de hoje dois mil passos em terreno plano, com um vale muito fresco, capaz e hortas e pomares, com água nativa e conserva um chafariz que é do concelho desta vila. Estamos persuadidos de que neste campo, por ser o maior que há nestas vizinhanças, fundaram os romanos este povo, obrigados por um acampamento em que se fixaram como sucedeu nas outras mais povoações que fundaram, como é sabido. Neste campo de S. Pedro se acham as ruínas, cimentos, sepulcros, além de colunas. Distante um quarto de légua, conserva-se um muro de pedra e cal que corta um pequeno ribeiro e a que ainda hoje se chama Muro da Represa, que servia para que os gados dos moradores bebessem nele.”

(Estêvão da Gama, p. 30)

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(“A aldeia dos “Luzios”, de finais do século XIII, localizar-se-ia nos terrenos onde, em 1688 se construiu uma fortificação com o objectivo de melhorara a defesa da vila dos ataques dos exércitos invasores, conhecida por Forte de S. João…

A “aldeia de Bartolomeu Joanes” situava-se à beira do actual caminho municipal que conduz ao sítio conhecido por ribeiro da Avelada ou Valada, outrora designado também pelo nome de Alcogonbril, via que surge à distância de cerca de dois quilómetros do núcleo antigo de Campo Maior, no lado esquerdo da Estrada Nacional, que liga esta vila a Degolados e Arronches.

A povoação localizava-se no lado direito do citado caminho municipal, no sentido de quem se dirige para a Avelada e encontrar-se-ia a perto de quatrocentos metros da mencionada Estrada Nacional, em cujas imediações têm surgido, ao longo dos tempos, vestígios de antigas construções.

Nas proximidades da aldeia existia, no ano de 1290, um castelo, então designado por “castelo velho de Campo Maior”, certamente para o distinguir do castelo novo, já então erguido no local onde se encontra.”

 

            (…) certas povoações que, em resultado da aplicação do Tratado de Alcanizes, passaram a estar na primeira linha da raia, como foi o caso particular de Campo Maior.

Ouguela, Campo Maior e, muito provavelmente, Juromenha e Olivença foram, até ao século XIV, aldeias de dimensão e população semelhantemente diminutas, como testemunham certas plantas e desenhos antigos e uma observação atenta dos respectivos recintos medievais permite, ainda nos nossos dia confirmar.

Indício de equivalência, quanto ao número de habitantes e importância económica entre Campo Maior e Ouguela, retirámo-la de uma notícia sobre rendas eclesiásticas que diz que “em 1320 as duas igrejas de Santa Maria de Ouguela e Santa Clara de Campo Maior (Matrizes e únicas freguesias em cada uma daquelas terras, naquele tempo) tinham ambas um rendimento de 600 libras”.

 

In, Rui Rosado Vieira, Bartolomeu Joanes, rico cidadão lisboeta do tempo de D. Dinis, iniciou as suas actividades mercantis em Campo Maior, - Ibn Maruan, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Nº 12, 2002, p. 406 e 407)

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:13
Segunda-feira, 03 de Outubro de 2016

Do século XIII ao Século XVIII

Uma Provisão de D. João III, do ano de 1549, refere que as casas que o concelho tinha e que serviam de Audiências e Câmara que estava dentro da Vila Velha, tinham caído pouco depois do ano 1545. O mesmo documento revela não só a intenção de as autoridades locais mandarem erguer novos edifícios municipais, em substituição dos antigos, já arruinados, como o desejo de os construirem numa praça do lado de fora do castelo. Para tal fim solicitaram do rei autorização para o derrube da parte da barbacã necessária à execução da nova Câmara e da Praça.

Em 1550, D. João III autorizou que a Câmara Municipal de Campo Maior arrendasse a defesa do Carrascal por dois anos para que se pudesse fazer um açougue, tal como as Casas da Câmara e das Audiências, na nova Praça. O rei concedeu que se lavrasse e se arrendasse por três anos a defesa do Carrascal, sendo a renda de um ano para o mosteiro de Santo António e o outro para as ditas despesas, pois que, as casas que o concelho tinha, que serviam de Audiências e Câmara e que estavam dentro da vila velha, caíram. Por isso, de acordo com a maior parte do povo e dos homens-bons em Câmara, ordenou que se fizessem as ditas casas junto da Praça ao longo do muro da barbacã, por dentro, porque assim pouparia muito a vila. Foi também decidido que, por debaixo dessas casas ficassem alpendres onde se pudessem vender as coisas da dita vila. Por ordem real foi mandada derrubar a barbacã que estava defronte das ditas obras bem como, sendo necessário, a barreira até ao castelo.

As instalações destinadas a sede do poder local ficaram assim encostadas ao muro do Castelo pelo lado de fora, no vão entre as duas torres, no local onde existia uma porta de acesso à fortaleza e à Vila Velha, antes do desastre que, em 1732, destruir parte do Castelo e da Vila.

O edifício camarário da época de Quinhentos, erguido na actualmente designada Praça Velha, estava encostado aos muros exteriores do Castelo. Um documento da época descreve que tinha de vão no pavimento cinco varas de largo, uma escada de dois lanços e duas salas, uma das audiências e outra das vereações, com quatro janelas rasgadas, uma em sacada e por baixo outras duas casas. Junto ao muro achava-se um vão em quadrado, onde antigamente tinha existido a desaparecida ermida chamada do Espírito Santo.

A antiga Praça, com os Paços do Concelho no seu lado sul, em frente dos quais não faltaria o tradicional pelourinho, o açougue e o touril, no lado norte,  a cadeia a nascente, rodeada de palanques e alpendres sob os quais se instalavam as tendas onde se transaccionavam as mercadorias necessárias à subsistência quotidiana dos campomaiorenses. Esta praça constituiu, desde meados do século XVI às primeiras décadas do século XVIII, o centro político, administrativo, comercial e cívico do concelho do concelho de Campo Maior.

            Segundo a placa que foi trasladada para o arco de acesso à Praça Nova, o edifício da câmara só estaria concluído em 1618, reinando então em Portugal, Filipe III de Espanha.

 

A partir de 1732

            Para acudir ao estado de ruína em que ficou a vila depois do rebentamento da torre de menagem e do castelo em 1732, D. João V mandou “dar o acréscimo do depósito comum e 400 moios de trigo para se fazer uma Praça Nova, as Casas da Câmara, Açougues e Cadeia, nos quintais que há entre a Rua da Canada e a do Manantio, com entradas para estas e para a Rua de S. Pedro, cuja obra se devia desde logo principiar. As Casas do Senado da Câmara, e a residência dos Juízes de Fora foram construídas como obras de nobre arquitectura. Não chegaram porém a acabar-se em conformidade com o plano que delas se delineou e, só por isso, não poderão ser as mais completas da Província do Alentejo.

            O edifício da Câmara ocupa o lado ocidental da Praça Nova. A fachada que dá para a rua de S. Pedro, é de traça muito geométrica com quatro portas ao nível do rés-do-chão e nove janelas, ficando as do lado norte a nível do rés-do-chão  e as do sul a nível do primeiro andar.

            A Biblioteca de Campo Maior esteve instalada em salas do primeiro andar da Câmara. Mais tarde foi instalada no mesmo edifício, mas na rua Major Talaya, na porta a seguir à que foi da PSP onde, até há pouco tempo, esteve o serviço municipal de águas Aí, junto à ombreia do lado esquerdo de quem entra, esteve a inscrição Aula de Latim – Português, depois substituída pela de Biblioteca Municipal. Nos anos 20 do século passado, no primeiro andar da aula de Latim - Português, ficavam duas salas de aula do ensino primário. Mais tarde foram criadas mais duas salas de aula do edifício da Câmara, no rés-do-chão, com entrada pelo arco formado pelas escadarias e com janelas para a rua Major Talaya, ao nível dum primeiro andar.

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Sexta-feira, 30 de Setembro de 2016

Certas ruas foram designadas em função da sua inclinação pois que, sendo ruas de aceso ao castelo e à parte mais alta e antiga da vila, são naturalmente muito inclinadas: Rua da Costanilha; Rua do Quebra-costas. Outras foram nomeadas por determinada função como a Rua do Poço, muito importante antes de se terem construído as fontes para abastecer a vila e a Rua do Forno, também dita de Rua da Fonte de Baixo. Pela mesma razão, o nome dado ao actual Largo do Barata, indicando bem a função que noutros tempos desempenhava.  Era o Largo das Estalagens e depois foi também chamado Largo do Assento por causa do edifício militar que aí foi construído. Basta descer a rua que vai dar a este largo para entender porque sempre lhe chamou o povo Rua do Paço. O actual Palácio do Visconde, onde hoje está instalada a Biblioteca Municipal João Dubráz, pertencera o um antigo bispo da família Mexia,  natural de Campo Maior e, por isso, o seu palácio era designado como o Paço.

Uma rua, no lado oposto da vila, era a Rua da Estalagem Velha que passou a Rua da Poterna quando, pela construção das novas muralhas, passou ir dar a uma pequena porta de acesso à vila, em caso de cerco, um pequeno acesso secreto que era designado por poterna. A construção das novas muralhas determinou o aparecimento de novas ruas como a Rua Nova ou da actual Rua de Santa Beatriz que, por ficar no lugar onde antes estava a cerca baixa do castelo, chamada "Barreira", foi sempre designada pelo povo por a Barreira. A Rua da Soalheira era a que dava acesso à Porta do Sol no primitivo castelo medieval.

Se a Aldeia de Pastor ou Curral dos Coelhos designavam os sítios onde se recolhiam os gados e outra criação dentro dos muros da vila, a Rua dos Quartéis indicava onde ficavam as casas destinadas a abrigo dos militares e de suas famílias quando eram colocados na guarnição incumbida da defesa de Campo Maior.

Com o passar dos tempos outros acontecimentos foram marcando a toponímia campomaiorense. Assim, quando o governo de Lisboa determinou que, pela nova Lei da Administração Civil, se devia fazer a reforma e reestruturação dos concelhos, extinguindo os antigos para os agregar em municípios de maiores dimensões populacionais e territoriais, Campo Maior foi designado como um dos que deviam perder a sua autonomia administrativa para ficar integrado num novo município sedeado em Elvas.

O povo não entendeu que vilas menores e de menor importância como Avis, Niza, e Monforte pudessem ser sedes dos novos concelhos enquanto Campo Maior se via condenado à humilhante condição de paróquia civil do concelho de Elvas. A 13 de Dezembro de 1867, a população declarou-se em revolta de resistência pacífica contra a decisão do governo. Foi nomeada uma comissão de 50 notáveis para irem representar o concelho junto do rei e do parlamento para apresentarem as suas queixas e razões. Revoltas semelhantes eclodiram por todo o país. O rei D. Luís teve de intervir. O governo de Martens Ferrão caiu. Em seu lugar foi constituído como ministro dos negócios do reino, o Conde D’Ávila, que se apressou a revogar a lei que pusera o país em estado geral de revolta.

O povo reunido em comício para comemorar, aprovou a proposta de mudar o nome de algumas ruas para homenagearem alguns dos que intervieram na luta pela salvação do município de Campo Maior: Rua da Canada – Rua 13 de Dezembro, data do começo da revolta; Rua da Canadinha – Rua do Conde de Ávila; Praça Nova – Praça D. Luís I; Largo da Carreira – Largo dos Carvajais; Rua Tenente General – Rua Visconde de Seabra (quando a actual Rua 1º de Maio passou a ser Rua Dr. Oliveira Salazar, o nome de Rua Visconde de Seabra, passou para a Rua de Pedroso); Rua da Cadeia – Calçada do Castelo; Terreiro da Estalagem – Largo do Barata; Terreiro da Misericórdia –Largo Barão de Barcelinhos, título que então usava o futuro visconde de Ouguela; Rua de Nantio – Rua General Magalhães; Rua Direita – Rua Direita da Comissão, em homenagem à comissão de 50 notáveis que tinha defendido o concelho de Campo Maior, em Lisboa.

Sucessivos acontecimentos políticos como a implantação da República, o Estado Novo e o 25 de Abril, determinaram a mudança de nomes de antigas ruas da vila. Mas, em alguns casos, os nomes populares têm conseguido subsistir, ainda que se verifique uma tendência  para, lentamente, irem desaparecendo.

 



publicado por Francisco Galego às 00:05
Terça-feira, 27 de Setembro de 2016

Em certos casos, podemos apontar, com relativo grau de certeza, uma explicação para os  nomes antigos e actuais das ruas do "núcleo histórico" da vila de Campo Maior.

A Rua da Canada e a sua adjacente Rua da Canadinha  deverão o seu nome a terem sido as vias destinadas à circulação dos gados quando entravam ou saíam das povoações, porque sabemos que, em tempos antigos, nomeadamente até ao século XVIII,  quando o pastoreio de gado ovino teve uma grande expansão, se chamavam canadas aos caminhos que desempenhavam essa função. Ora, no que respeita a Campo Maior, terá sido por esse tempo que esses dois caminhos se devem ter tornado ruas. Foi quando a vila, depois da tragédia do rebentamento da torre do paiol da pólvora, em 1732, teve de ser quase completamente reconstruída.

Na sequência da Canada estava a Rua da Fonte de Cima. As duas formam  hoje a Rua 13 de Dezembro. A da Rua da Canadinha, chama-se hoje Rua do Conde D'Ávila. Descendo-a e virando à esquerda chegamos à Rua da Fonte de Baixo, Talvez porque no fim das duas "ruas da fonte"  ficava a chamada  Fonte do Concelho que deu o nome ao forte que no seu lugar foi construido, quando a vila se tornou Praça de Guerra para defesa da fonteira, na Guerra da Restauração.

No seguimento da Rua da Canadinha fica a Rua de S. Francisco que, a meio, tem adjacente do lado esquerdo,  a Ruinha de S. António, cujos nomes testemunham a proximidade do antigo Convento de S. António, dos frades franciscanos, localizado no actual Campo da Feira, que teve de ser demolido para se poder construir, na nova fortaleza, a muralha e que liga os baluartes de S. Francisco e da Fonte do Concelho. No fim da Rua de Francisco, um pouco mais abaixo, ficava o Largo do Chafariz a seguir ao qual estava o Sítio da Poças. Este Largo do Chafaris, era assim chamado porque, quando foi construída a nova muralha que ligava o baluarte de S. Francisco ao Baluarte de Santa Rosa, foi aí construída  uma fonte para abastecimento da população; esta  alimentava um chafariz onde bebiam os animais e deste a água ia alimentar  um tanque para  lavagem de roupas que se localizava em frente, no sítio onde hoje está uma oficina. Seguia-se depois o chamado Sítio das Poças. A fonte foi posteriormente deslocada para o muro do Balurte de S. Francisco virado ao largo do Chafariz.

Do Largo dos Cantos de Baixo, partia a Rua das Pereiras, actual Rua João Minas que ligava ao Canto do Saquete e a Rua das Poças que terminava na  muralha, no chamado Sítio das Poças.

Voltando ao sector norte da vila...

A Rua da Carreira Detrás, depois chamada Rua do Norte, devia estes nomes à sua orientação geográfica e ao facto de, primeiramente, ser apenas uma rua com poucas ou nenhumas casas, geralmente cocheiras, oficinas e instalações de apoio à lavoura, nas traseiras do palácio do governador que tinha a sua fachada principal para o Largo da CarreiraRua da Carreira (correspondendo esta ao troço da actual Rua 1º de Maio, até ao cruzamento  com a Rua da Mouraria de Baixo e com a Rua Mouraria de Cima, (as quais podem dever o nome a terem sido, em tempos muito antigos, um arrabalde onde  vivim os não-cristãos, ou seja, judeus e mouros). O Largo  da Carreira e a Rua da Carreira eram assim chamados porque as diligências que entravam pela Porta de S. Pedro, (também chamada Porta Nova ou Porta da Carreira) iam aí descarregar e embarcar passageiros, correio e mercadorias.

A antiga Rua do Norte ou da Carreira Detrás, voltou a ser designada pelo povo, como a Rua da Carreira quando uma empresa de camionagem, a Vasco da Conceição Painho, no séc. XX, passou a ter aí a garagem donde partiam e onde chegavam os autocarros da carreira.

A Rua de S. Pedro, que ia da Carreira Detrás aos Cantos de Baixo e a Rua Direita que ia dos Cantos de Baixo até à Porta de Santa Maria, são nomes que em muitas terras designavam as vias principais das povoações que ligavam, segundo o eixo Norte-Sul, as portas principais, no caso a Porta de S. Pedro e a Porta de Santa Maria a que o povo sempre teimou chamar Porta da Vila

A Praça Nova, depois Praça de D. Luís I e depois Praça da República, foi construída após a  catástrofe de 1732 e originou  que à antiga praça, junto ao castelo, se passasse a chamar Praça Velha. Do nome desta resultava o nome da rua que lhe dava acesso pelo lado Norte, a Rua da Praça, que também se chamou Rua da Cadeia por ficar no cimo dela a prisão municipal. Esta terminava nos Cantos de Cima, em contraposição aos Cantos de Baixo,  a que se ligava pela  Rua da Misericórdia, a meio da qual ficava o Terreiro da Misericórdia devido a ser à antiga igreja desta instituição, ficar no meio do hoje chamado Largo Barão de Barcelinhos.

Ao troço da actual Rua 1º de Maio entre os Cantos de Cima e o cruzamento com a Mouraria de Baixo e a Mouraria de Cima, chamou o povo Rua do Tenente General. Seria por aí ter morado a figura grada do governador Estêvão da Gama Moura e Azevedo, que teve papel notável na defesa de Campo Maior, durante o Cerco de 1712. A meio desta rua fica o largo a que o povo chamou da Igreja Nova, ou da Matriz, por contraposição à velha Matriz que ficava dentro do castelo.

O nome de algumas ruas como  a Rua do Poderoso (o povo passou a dizer Rua de Pedroso), a Rua de Ramires, Rua de Cigano, Rua das Pereiras, invocam provavelmente o nome de personalidades ou de famílias notáveis da terra que nelas residiam. Já a Rua do Manantio, que o povo simplificou para Rua de Nantio, tem um significado curioso e que, devido à corrupção do nome original, se foi perdendo até se apagar por completo da memória colectiva. Manantio é uma palavra do mesmo radical da palavra manancial (originalmente manantial), que designava um local donde manava, brotava água, logo, uma fonte ou nascente. Talvez fosse o veio que alimentava as fontes do Concelho, das Negras  e a dos Cantos de Baixo.

 



publicado por Francisco Galego às 00:05
Domingo, 25 de Setembro de 2016

 

O São Mateus tinha tal efeito mobilizador sobre as gentes de Campo Maior que, mesmo os que a Elvas se não  podiam deslocar, o celebravam com bailes e arruadas pelas ruas da vila, nos dias da sua celebração. Não admira, portanto, que tantas quadras, sendo quase sempre as de produção mais antiga, tenham como tema o Senhor da Piedade.

                        

Se eu for ao São Mateus,

Irei balhar c’o meu par;

Mulher que se sabe amada,

'Stá mais disposta a cantar.

 

Eu quero ir ao São Mateus,

Só para te ouvir cantar;

Não vou lá com outro fim,

Estou velho p’ra namorar.

 

Que o Senhor da Piedade,

Tenha de nós compaixão;

E nos dê por caridade,

Um ano farto de pão.

 

As festas do São Mateus,

São as festas da cidade;

Quem me dera andar ballando,

No Senhor da Piedade.

 

Ao Senhor da Piedade,

P’ro ano vou outra vez;

Quero ir agradecer-lhe,

O milagre que me fez.

 

Meu bem vem cantar comigo.

Na Feira do São Mateus;

Cantigas de amor sentido,

São como preces aos céus.

 

Feira d’Elvas, Feira d’Elvas,

Feira d’Elvas da cidade;

Quem me dera estar balhando,

No Senhor da Piedade.

 

São Mateus é romaria,

Como outra outra não há  igual;

Fica à frente de todas,

Neste nosso Portugal.

 

O Senhor da Piedade,

Rescende como a gambôa;

De manhã quando se abre,

O cheiro chega a Lisboa.[1]

 

In, Francisco Pereira Galego – Cantar e Bailar as Saias. Lisboa. 2006

[1] Publicada em Gama, Eurico (1965). O  Senhor Jesus da Piedade de Elvas, Elvas, 1965, pág.326.



publicado por Francisco Galego às 16:28
Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

O São Mateus de Elvas era, até meados do século passado, uma das maiores festividades que os campomaiorenses celebravam. Poupava-se durante meses para se pode ir até à Fêra d’Élvas por volta de 20 de Setembro.

Só os mais pobres, por falta de recursos, e os que cumpriam resguardo por luto ou por doença, ficavam. As carroças partiam uns dias antes ajoujadas de gente, de galinhas, de capazes de comidas e de doçarias confeccionadas para a ocasião. Quem mais depressa chegasse, melhor lugar podia escolher para acampar nos olivais em volta do parque em que estaria montada a feira.

Havia anos, principalmente os mais favoráveis para a agricultura e em que o clima em Setembro era ainda favorável, que Campo Maior quase se despovoava nos dias do São Mateus. Quem não podia ir de carroça, em caravana, ia a pé. Uma manta chegava para aconchego. Quanto ao resto, desde que houvesse dinheiro para a pinga e para o petisco, já se passava a contento.

Campo Maior, anos há que fica completamente deserta, donde admitir-se que se desloquem, pelo menos 3.000 pessoas.[1]

Em 1921, só de Campo Maior vieram às Festas de São Mateus aproximadamente mil pessoas, que se fizeram conduzir em cerca de 200 carros de canudo (churriões) acampando como costumam fazer, no recinto da Senhora da Nazaré, Junto da Ermida, dando ao local uma nota pitoresca e característica.

É curioso registar que as saias novas aparecem nos arraiais do Senhor da Piedade e são cantadas e bailadas pelas simpáticas e morenas camponesas, cuja alegria é contagiante.[2]Procuravam, os de cada terra, ficarem juntos para melhor conviverem. Aliás, a feira era o pretexto para o que mais importava: o convívio de que se ia desfrutar durante os dias que a feira durava. O São Mateus constituía assim as parcas férias de que os menos ricos e os remediados podiam desfrutar. Armados os acampamentos, gozava-se do descanso, da boa comida, da alegre convivência que a ocasião propiciava. De dia dormia-se muito e até tarde, por força de alguns excessos de bebida e porque as noites se prolongavam até de madrugada.

As noites eram para a maioria destes romeiros o melhor que a festa propiciava. Formavam-se grandes bailes de roda, animados pelo cantar e dançar das “saias”. Havia disputas assanhadas, muitas vezes entre grupos de terras diferentes. Surgiam a “modas novas”. Quadras engenhosamente elaboradas ao longo do ano encontravam ali o terreiro adequado para a sua pública exibição. Arranjavam-se e desfaziam-se namoros. De vez em quando, uma ou outra rixa ensombrava a convivência por razões de exacerbado bairrismo, por melindres, ou por imponderadas ofensas à honra ou à dignidade dos presentes.

 

In, Francisco Pereira Galego – Cantar e Bailar as Saias. Lisboa. 2006  

 

[1] Eurico Gama, op. cit. , pág. 239

[2] Eurico Gama, op. cit. , pág. 380

 



publicado por Francisco Galego às 00:00
Terça-feira, 20 de Setembro de 2016

Até meados do século XX, o São Mateus manteve viva esta manifestação da cultura popular tão característica do alto Alentejo: o “bailar e cantar as saias”. Com o desenvolvimento dos transportes motorizados e com as profundas transformações que se deram nas últimas décadas, no mundo rural, romarias como as do Senhor da Piedade e Feira do São Mateus em Elvas, sofreram também grandes modificações.

Noutros tempos este grande acontecimento anual, dava lugar a um intenso convívio, pois, os que vinham de fora, deslocavam-se em carroças ditas de canudo porque eram cobertas por uma protecção de forma cilíndrica, formada por uma estrutura de cana, coberta de uma tela de pano encerado, que protegia os passageiros da chuva e do sol. Com essas carroças, autênticos antepassados das actuais tendas, roulottes, e caravanas, formava-se um vasto acampamento no qual permaneciam, em alegre convívio, pessoas das mais variadas proveniências, algumas por cerca de uma semana. Aí se cozinhava e comia, aí se dormia, aí se cantava e dançava, sobretudo nas madrugadas, pois os bailes só podiam funcionar bem depois que se calava a algazarra dos altifalantes dos tendeiros e as potentes aparelhagens sonoras dos circos e carrosséis.

Para termos uma ideia da importância que esta grande manifestação de cultura popular tinha na transição do século XIX para o século XX, vejamos como decorriam as festividades segundo um texto escrito há mais de cem anos:

“Romaria espantosa aquela que o povo anónimo, principalmente, promove em louvor do Senhor Jesus da Piedade, de Elvas, em Setembro. Romaria inconfrontável de vibração de vida, de massa de gentes, de fervente fé, de acrisolado e ingénuo cristianismo.

            (…) Inunda-se de lés a lés o parque da Piedade. (…) dentro da igreja asfixia-se. Pela escadaria lateral que conduz á casa dos milagres, há um subir e descer constante. São os devotos que ali vão entregar as suas oferendas prometidas por bondade desinteressada ou por via do milagre de Jesus. As paredes desta casa estão pejadas de ofertas: pernas e braços de cera adornados por lacinhos de seda; quadros grotescos, de proporções desequilibradas; fotografias com extensas dedicatórias e limitadas por mirabolantes molduras em madeira ou em tecidos. A tudo acode o Senhor Jesus da Piedade, nos momentos aflitivos: um lobo que ataca um pobre pastor ou viandante; um cão raivoso que procura morder quem passa; aquele que caiu de um andaime à rua; outro que involuntariamente se precipitou de uma ponte ao rio; este que ficou sob a roda de uma carro carregado de trigo; aqueles que estiveram gravemente doentes durante meses, etc. etc.

            (…) Cá fora a atmosfera é densa, da poeira levantada pelos que caminham, se acotovelam, centenas de carros alentejanos, de toldo abaulado, puxados por parelhas de guiseiras barulhentas e cabresto garridos, invadem uma parte do parque, para ali permanecerem durante dois dias, despejando milhares e milhares de festeiros ou romeiros, de Borba, de Vila Viçosa, de Estremoz, de Vila Boim, de Arronches e de Campo Maior. E centenas e centenas de criaturas vêm com os pendões de Varche e de Ana Loura, em cerimonial cauteloso. Bandas e filarmónicas atroam os ares com o sempre agradável hino da Piedade (…) Os comboios vomitam gente de Portalegre, do Crato, de Niza, de Gafete, de Tolosa, de Assumar, de Santa Eulália e, por bandas de Espanha, Badajoz.

            Insuficiente o vasto campo da Piedade para comportar a multidão, magotes deslocam-se para o Rocio, onde a feira de S. Mateus tem lugar. Pela tarde o Rocio e a Piedade são aluviões de pic-nics, são farnéis abundantes que se estendem e se vão devorando por entre uma alegria comunicativa comum, ideal e só perfeita, naquele fugidio momento.

            Pululam os trajes vistosos de camponeses e camponesas, moços cheios de vivacidade, moças sadias e alegres. Estralejam incessantemente os foguetes.”[1]

 

 In, Francisco Pereira Galego – Cantar e Bailar as Saias. Lisboa. 2006  

 

[1] .Paiva, Jerónimo M.S. (1927). “Do Alto Alentejo – Descritivos e factos de há trinta anos” – Beja.Págs. 18 e 19

.

 



publicado por Francisco Galego às 08:30
Sábado, 17 de Setembro de 2016

Desde tempos recuados, cada povoação tinha as suas próprias festas e romarias. Mas, algumas delas, por motivos religiosos, ou pelo brilho das suas realizações, atraíam gente de outras terras, tornando-se famosas como locais de trocas, de diversão e de peregrinação.

No Alto Alentejo, sobressaía entre todas, a feira de São Mateus, em Elvas. A feira de São Mateus remonta ao século XVI, pois, segundo os investigadores, terá começado a funcionar entre 1525 e 1574.[1] Cerca de duzentos anos mais tarde, veio a associar-se-lhe uma peregrinação que, a partir de 1737, se começou a fazer no sítio aonde se veio a construir o santuário do Senhor Jesus da Piedade. Tanto a feira como a romaria, ganharam grande importância entre as gentes do Alto Alentejo, tanto mais que a sua realização, coincidindo com o equinócio do Outono, marcava o período em que se dava por encerrado um ano agrícola e se começavam a tomar as disposições para o arranque do ano agrícola que se ia seguir.

As pessoas, em grande parte as que estavam mais ligadas ao trabalho nos campos, aproveitando a romaria pela devoção, e a Feira de São Mateus por ser local de trocas muito necessárias às actividades agrícolas, deslocavam-se a Elvas para aí permanecerem durante os dias que durava o evento. Os transportes eram, em tempos antigos, difíceis e lentos. Em volta do terreno da feira, formavam-se grandes acampamentos de gentes vinda de quase todas as terras desta região[2].

            A Feira de São Mateus em Elvas e a Romaria ao Senhor da Piedade, tiveram o seu período de maior esplendor entre meados do século XIX e meados do Século XX.

 

In, Francisco Pereira Galego – Cantar e Bailar as Saias. Lisboa. 2006  

 

[1] Gama, Eurico (1965). O  Senhor Jesus da Piedade de Elvas, Elvas. Pág. 217.

[2] Interessante realçar que, entre os romeiros que vinham nas suas carroças acampar, se contavam as gentes de Olivença, dando continuidade à tradição que remontava ao tempo da sua pertença a Portugal.  



publicado por Francisco Galego às 18:25
Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

Na reunião da Assembleia Municipal de Campo Maior, realizada na Freguesia de Degolados em 28 de Fevereiro de 2012, foi apresentada a sugestão de se atribuir o nome de João Dubraz à Biblioteca Municipal de Campo Maior. Essa sugestão foi levada em consideração e deu origem à apresentação de uma proposta que foi aprovada em reunião da Câmara Municipal.

            A razão desta decisão foi fundamentada em documento lido na Assembleia de que se transcrevem as passagens fundamentais:

"Segundo a acta da sessão da CMCM, de 10 de Junho de 1882, foi tomada a resolução de levar a efeito a criação duma biblioteca, por proposta dos cidadãos Dr. José Maria da Fonseca Regala e João Francisco Dubraz, sendo este nomeado seu conservador nessa mesma sessão. À sala de leitura foi dado o nome do Marquês de Pombal por, nesse ano, se comemorar o centenário da sua morte.

(...) Sempre muito devotado às questões culturais e à valorização de Campo Maior, João Dubraz convocou para o dia 9 de Julho de 1882, uma reunião para a constituição da comissão instaladora da Biblioteca Municipal de Campo Maior, na qual participaram algumas das mais proeminentes figuras da sociedade campomaiorense desse tempo.

Em reunião de 9 de Agosto do mesmo ano, por proposta de João Dubraz, todos os presentes concordaram que se iniciasse uma campanha de angariação de livros através do envio de uma circular, da qual foram impressos 350 exemplares que foram enviados a várias entidades. Foi também sugerido que se enviasse uma “respeitosa carta à Exa. Sra. D. Maria Rita Freire de Andrade Carvajal” pedindo-lhe que cedesse os livros existentes no palácio do largo dos Carvajais, que seriam um generoso donativo e que vieram a constituir um importante núcleo para a constituição da biblioteca. Desencadeou-se também uma campanha para angariação de donativos de livros. O próprio João Dubraz, em seu nome e no dos seus quatro filhos, fez um donativo de mais de uma centena de volumes.

Nos primeiros anos, a Biblioteca esteve instalada no edifício da Câmara, numa sala do primeiro andar. Mais tarde, foi instalada no mesmo edifício, mas na rua Major Talaya, no rés-do-chão, na porta abaixo daquela  onde foi o posto da PSP, na sala lado, onde João Dubraz dava aulas e que tinha na porta a inscrição Aula de Latim a qual foi depois substituída pela de Biblioteca Municipal.

João Francisco Dubraz foi o primeiro a exercer o cargo de bibliotecário que passou para seu filho Alfredo Constantino Félix Dubraz e, falecido este em 1918, o cargo passou para sua viúva D. Guilhermina Velez Dubraz.

(…) Estas considerações serviram para fundamentar a razão para esta Assembleia e os membros da Câmara Municipal considerarem a possibilidade de atribuírem à Biblioteca Municipal de Campo Maior o nome de Biblioteca Municipal João Dubraz e fundamentaram esta sugestão nas seguintes razões:

- Por ser costume adoptado por muitas câmaras municipais, atribuírem às suas bibliotecas, os nomes de destacadas figuras da cultura local;

- Porque João Dubraz, além de ter sido um dos elementos que mais contribuíram para a fundação duma biblioteca municipal em Campo Maior, ser efectivamente um dos nomes de maior relevo da cultura campomaiorense, como professor, como jornalista e por ser, provavelmente, o mais importante dos escritores da nossa terra.”

Nota: No post que antecedeu o agora apresentado, pretendi mostrar que Elvas possui nomes que, poderiam, com toda a justiça, ser associados à Biblioteca Municipal de Elvas. Não sou elevense. Sou campomaiorense. Por isso, a minha opinião não conta. Mas, pelas mesmas razões que estiveram subjacentes no texto agora apresentado, se eu tivesse que expressar a minha opinião, diria com plena convicção que um nome se me imporia: o de António Tomaz Pires. Também ele esteve, como João Dubraz em Campo Maior, muito ligado à criação da Biblioteca Municipal de Elvas. Isso e a sua enorme estatura intelectual seriam razões fortíssimas para fundamentar essa decisão.

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

 

 Ao longo da História da Cidade de Elvas e da História da Vila de Campo Maior, grandes nomes se destacaram na reconstrução da memória dos seus antepassados. Mas dois são fundamentais e determinantes quando se fala de História Local nestas duas comunidades: referimo-nos a Vitorino de Almada e a João Dubraz. Para além do seu interesse pela História, estes dois grandes vultos possuíam também, uma verdadeira paixão pelo jornalismo.

O primeiro, natural de Elvas, onde nasceu em 21-10-1845  foi, sem dúvida, o mais importante historiador desta cidade. O segundo, nascido em Campo Maior, em 21-01-1818, destacou-se não só na vida cultural da sua vila, mas também como um dos mais importantes colaboradores na imprensa periódica de Elvas, salientando-se como cronista do seu tempo, como activista político e como historiador da sua terra.

Todavia, a forma de participação que tiveram, tanto na imprensa nacional, como na local, foi marcada pelas suas formações e actividades profissionais. Vitorino de Almada, sendo capitão do exército e oriundo de uma família ligada à carreira das armas, evitava tomar partido nas lutas políticas que se fizeram sentir fortemente até perto de meados do século XIX. João Dubraz, pelo contrário, assumia-se plenamente como um empenhado activista político. Esteve preso em Elvas durante cinco meses, devido à sua participação num acto revolta militar, em 1847, na conjuntura revolucionária da “Maria da Fonte” e da “Patuleia”. Era um empenhado defensor de um liberalismo radical e um fervoroso partidário do regime repúblicano.

Mas, em ambos, deve-se, sobretudo destacar nas suas obras, o seu empenho na descoberta e na preservação, da memória histórica das comunidades em que estavam inseridos.           

No caso de João Dubraz, destacam-se  as «Recordações dos Últimos Quarenta Anos” de que - coisa rara naquele tempo - se publicaram duas edições: uma primeira em 1868, logo seguida de uma  segunda em 1869. Trata-se, sem dúvida, duma importante memória descritiva da Vila de Campo Maior, desde as suas origens até final dos anos sessenta do séc. XIX, com particular destaque para  a conjuntura das guerras peninsulares e para os factos e acções durante o período de implatação do Liberalismo na vila de Campo Maior. Como jornalista deixou ampla e diversicada coloboração em quase todos os jornais que, no seu tempo, se publicaram em Elvas e em alguns dos que se publicavam em Lisboa.

No que respeita à actividade como colaborador nos jornais, o mesmo caminho seguiu Vitorino de Almada. Uma parte considerável da sua obra foi também publicada em artigos em jornais como o Elvense, o Gil Fernandes e o Correio Elvense de que foi o redactor principal. Mas não pode deixar de se referir a obra que publicou de 1888 a 1895 - Elementos para um dicionário de geografia e história portuguesa -  que trata dos factos relativos ao concelho de Elvas e aos extintos concelhos de Barbacena, Vila Boim e Vila Fernando -  bem como O manuscrito de Afonso da Gama Palha, sobre a Guerra da Sucessão em Espanha, (Elvas, 1876); o estudo biográfico Francisco de Paula Santa Clara, (Elvas, 1888) e a obra Os quartéis- mestres, (Elvas,1890).

Eis, de forma abreviada, algumas notas sobre dois vultos e duas obras de referência na historiografia portuguesa, no que respeita à História Local: uma referida à vida na cidade de Elvas e outra, uma memória sobre uma vila, Campo Maior, ambas localizadas na zona raiana do Alto Alentejo.

 

NOTA: Este texto pretende ser um gesto solidário, de apoio à justa e necessária campanha que Jacinto César tem vindo a desenvolver em defesa da memória e da cultura da sua cidade. E foi elaborado com base noutro, postado por Arlindo Sena, In,

http://flama-unex.blogspot.com/2009/05/historia-local-ao-longo-da-historia da_6801.html

 



publicado por Francisco Galego às 08:03
Sábado, 10 de Setembro de 2016

TEATRO DAS ANTIGUIDADES D’ELVAS

 Com a história da mesma cidade e descrição das terras da sua comarca, escrito pelos anos de 1644 a 1655 pelo Cónego Aires Varela, com um prólogo de António Thomaz Pires.

 

O castelo de Campo Maior é obra muito antiga e muito forte, tanto por razão do sítio, como pelas torres e muros. Foi fabricado pelos mouros e reparado por El-rei D. Dinis, que lhe levantou a maior torre que nele há e, por esta razão, quiseram alguns atribuir-lhe a honra de edificador.

Os romanos lhe deram o nome, com muita propriedade porque, daquele sítio se descobre o maior campo que há por aquele distrito.

Havia junto ao castelo duas aldeias da jurisdição de Badajoz e que entraram nesta coroa com as de Olivença e Ouguela em troco de Aroche e Aracena. A mais populosa se chamava Joannes, ou por ser Bartolomeu Joannes a principal pessoa da aldeia, ou porque a água que a ela vinha era do seu campo da Valada. Dela se descobrem vestígios. A outra se chamava dos Luzios, nome que conserva o sítio e algumas famílias que passaram a Albuquerque.

Os habitantes destas aldeias viviam de cultivar os campos, respondiam com os dízimos à Sé de Badajoz que reconheciam no espiritual. E assim foram continuando até ao tempo de El-rei D. João I e ainda neste tempo (anos de 1644 a 1655) se conserva naquela Sé uma dignidade com o título de Prior de Campo Maior.

Logo que estas aldeias ficaram pertencendo à coroa portuguesa, abandonaram os sítio e aproximaram-se do castelo pelas comodidades que daí lhes resultavam, fugindo às rigorosas leis castelhanas, sujeitando-se às piedosas leis portuguesas.

Em favor destes novos moradores, com muita consideração e, sem dúvida, com a aprovação dos moradores de Elvas, desuniu El-rei D. Dinis este castelo de sua jurisdição para o honrar com o título de vila. Foi crescendo pela bondade dos ares, abundância das águas e fertilidade do terreno, até chegar a ser uma das mais populosas do reino. Desta sua origem resulta que, quando alguém quer chalacear com os de Campo Maior, chame à vila Campo Joannes.

São os naturais desta vila robustos, de grandes forças e igual valor, são duros e contentam-se com pão e água. As famílias antigas desta vila são os Vaz, Vicente, Rego, Prioreço, e Galvão. Depois vieram de fora os Mexia, Videira, Pereira, Sequeira, Fouto, Carrascosa, e Carrasco.

Entre a gente do povo conservam-se algumas palavras castelhanas e outras compostas de ambas as línguas, daí que não sejam nem portuguesas, nem castelhanas. E o mesmo acontece quanto aos costumes.

As mulheres que sempre deitam mão aos que favorecem a sua liberdade, mesmo as nobres, quando lhes parece, andam vestidas ao uso de Castela.(…)

Nesta vila apareceu uma imagem de São João Baptista e lhe fabricaram uma igreja que é venerada pelos naturais da vila e frequentada pelos que o não são, pelos muitos milagres que Deus por ela opera. Crê-se que, por intercepção deste santo, nunca tocou mal contagioso neste lugar, mesmo quando todos os lugares vizinhos ardiam em peste.

Afirma a tradição e confirma a pintura do retábulo que, o homem a que esta imagem apareceu, tinha na cabeça um lobinho e, duvidando de lhe darem crédito, lhe disse o santo que serviria de testemunho que, naquele mesmo momento, o lobinho que tinha na cabeça lho mudasse para o pé, o que logo aconteceu. E, assim ficou acreditado o homem e respeitado o Santo. O homem chama-se Gonçalo Rodrigues. Dele há descendência e se conserva uma horta do prazo[1] da mitra, em que se entra por sucessão de sangue. Estava nesta horta quando lhe apareceu a imagem de S. João Baptista, e afirmam que essa imagem é a que é venerada hoje naquela ermida.

A causa deste milagre foi que os moradores da vila estavam há anos a habitar no campo, devido à grande corrupção do ar que a todos matava. Ao que parece, pela intercepção deste grande Santo, de que já antes os de Campo Maior eram grandes devotos, foi Deus servido de lhes levantar o castigo. Três vezes apareceu o Santo a este hortelão, sempre entre chamas de fogo: a primeira, na sua choça; a segunda numa fogueira; a terceira, junto a um regato, onde lhe falou como atrás se disse. Também se afirma que, a fonte chamada de S. João que deu o nome à horta, nasceu milagrosamente aos pés do Santo e, por ser fonte milagrosa, a sua água faz milagres.

No tempo de El-rei D. João I era alcaide do castelo Paio Roriz Marinho que teve voz por Castela e que depois foi morto por Martim Vasquez de Elvas. A Pio Roriz sucedeu Gil Vasquez de Barbuda de quem a Crónica de El-rei D. João I diz estas palavras: Partiu El-rei de Monção e veio a Lisboa, deixou aí a rainha para ir cercar Campo Maior, um bom lugar do seu reino entre Tejo e Odiana, que tinha voz pelo rei de Castela. E estava nela por alcaide Gil Vasquez de Barbuda, primo  do mestre Dom Martin Annes. Estando El-rei sobre esta vila, vieram de Badajoz os mestres de S. Tiago e de Calatrava com muita gente da Andaluzia para a socorrer. Houve muitas escaramuças. Porém, El-rei combateu a vila de tal sorte que a tomou pela força e, dezoito dias depois, tomou os castelo por pleitearia.

 

 

 

[1] Prazo = aforamento



publicado por Francisco Galego às 00:08
Segunda-feira, 05 de Setembro de 2016
  1. ANTÓNIO CARVALHO DA COSTA, COROGRAFIA PORTUGUEZA E DESCRIPÇAM TOPOGRAFICA DO FAMOSO REYNO DE PORTUGAl ... Braga, 2ª ed.1868, 1ª ed. 1706 – 1712

 

Cap. VI – Da Villa de Campo Mayor (p. 366 a 368)

 

Campo Maior foi povoação de 1.200 vizinhos. Hoje, por causa das guerras com Castela, acha-se com 850 , com casas muito nobres e limpas, cujos apelidos são Vaz, Galvão, Mexia e Sequeira, que a vieram povoar.

Foi ganha aos mouros na era de 1219, pela família dos Peres naturais de Badajoz; estes deram a vila à fábrica da Igreja de Santa Maria do Castelo, sendo bispo de Badajoz D. Pedro Peres, que lhe deu por armas Nª Sr.ª e um cordeiro com um circulo à roda que diz: Sigillum Capituli Pacensis.

Depois, no reinado de D. Dinis que lhe fez o castelo na parte mais alta do terreno para o lado de Elvas, havendo controvérsia entre os moradores sobre o lugar para onde haviam de estender a povoação, ajustaram que para o maior campo, de que resultou ter por nome Campo Maior.

Tem uma freguesia da invocação de Nª Srª da Expectação, que se edificou no tempo de D. Sebastião de Matos, bispo de Elvas, com um prior e dois vigários para administração dos sacramentos e rezarem em coro com os outros beneficiados: são benefícios simples e muito ténues.

Tem um convento da invocação de Santo António, de frades franciscanos, que vivem no castelo desta vila enquanto se acaba o convento que se lhes funda por ordem do sereníssimo rei D. Pedro II. Servem-se os padres da Igreja que antigamente foi matriz desta vila, a qual foi deixada pelos clérigos no ano de1645, sendo dela prior Fernando Gil Castelo. A primeira fundação deste convento foi junto às casas para o lado das Poças e que foi mandado derrubar por causa das guerras com Castela.

Tem outro convento de frades de São João de Deus, com título de Hospital del-Rey, onde se curam os soldados e mais gente de guerra da guarnição da Praça.

Tem Casa da Misericórdia com seu hospital.

Tem três ermidas (pois as mais estão extintas):

- uma de São João Baptista, em que o Santo é muito venerado pelos muitos milagres que Deus Nosso Senhor faz por sua intercepção;

- outra do Mártir S. Sebastião, imagem muito selecta e de singular beleza;

- a de S. Pedro que fica fora dos muros e na qual está o Santo pintado na parede com tal perspectiva que parece olhar para todas as direcções. Segundo a tradição, estando feita a ermida, entram nela dois forasteiros e, depois, quando se ausentaram, os naturais acharam a imagem pintada em fresco com dois cardeais ao lado. Esta pintura ainda hoje existe.

Foram baptizados na pia da antiga matriz desta vila, o Beato Amadeu que instituiu a Ordem dos Amadeus em Itália (o seu nome secular fora João de Menezes e Silva, filho segundo de Ayres Gomes da Silva, alcaide de Campo Maior e Ouguela) e D. Isabel de Menezes, filha de D. Pedro de Menezes, Conde de Viana e primeiro Capitão de Ceuta e irmão de D. Diogo da Silva, primeiro Conde de Portalegre. E D. Beatriz da Silva, que instituiu a Ordem da Conceição em Castela, irmã do dito João Menezes da Silva que  passou a Castela com a rainha D. Isabel, filha do Infante D. João, quando esta foi casar com El-rei D. João II de Castela. Foi canonizada como Santa Beatriz

Foi também natural desta vila o bispo Martinho Afonso Mexia que nela tem muitos sobrinhos e dilatada família; foi primeiro bispo de Viseu e depois de Coimbra e Vice-rei deste reino.

É esta vila muito abundante de trigo, cevada e legumes, com muitos montes no termo onde vivem os lavradores.

Dista da cidade de Elvas três léguas para Norte, meia légua do Rio Caia que nasce na Serra de São Mamede, junto ao Rio do Sete, termo da vila de Marvão e que corre pelo meio dos soutos de Alegrete e junto de Arronches, vindo a servir de linha de divisão entre esta vila de Campo Maior e a cidade de Elvas. Com as águas do Caia regam-se muitas hortas e pomares e moem muitos moinhos. É rio de muitas pedras e, por essa razão, o peixe que cria é tido como sendo melhor que os dos outros rios.

Entre as muitas hortas que tem esta vila, é muito nomeada a Horta de São João Baptista pelo aparecimento que nela fez o santo a Gonçalo Rodrigues, homem virtuoso e pelo milagre que com ele usou em lhe tirar um lobinho que tinha na cabeça e passar-lho para o pé esquerdo, a fim de convencer os moradores a voltarem às suas casas de que se tinham retirado por causa da peste, a qual já tinha cessado como lhe afirmara São João Baptista.



publicado por Francisco Galego às 00:04
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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