Domingo, 21 de Janeiro de 2018

Vou tentar recomeçar de maneira a ligar esta nossa conversa, a outra que eu fiz, no passado dia 16 de Setembro, ao apresentar uma obra em dois volumes intitulada – Campo Maior na Obra de João Dubraz – porque, efectivamente, este livro que agora apresento, é o último da trilogia dedicada à Vida e Obra de João Dubraz.

Assim sendo, permitam-me que antes recorde uma frase do filósofo e escritor, Jean Jacques Rousseau, que viveu entre os anos de 1712 e 1778.

Escreveu ele que:

A arte de interrogar é bem mais a arte dos mestres do que a dos seus discípulos; pois é preciso ter já aprendido muitas coisas para saber perguntar aquilo que ainda não se sabe.

Aí têm a razão porque eu fui entendendo que, a arte de ensinar consiste principalmente, em adquirir a capacidade de fazer perguntas para, com as respostas adequadas, podermos adquirir os conhecimentos que nos são necessários.  

Assim, voltando a falar de João Dubraz, coloco hoje novas perguntas:

- Quem foi João Dubraz?

- O que fez de notável?

- Que importância teve a sua acção no tempo em que viveu?

- Que valor têm hoje os seus escritos, para melhor conhecermos a História e a Cultura de Campo Maior?

 

Estas perguntas apontam para o objectivo fundamental da obra que agora apresento que o é de:

- Analisar a imensidade de escritos que João Dubraz produziu, para o podermos conhecer, como homem, como cidadão, como intelectual e, ao mesmo tempo, ficarmos a conhecer os factos mais notáveis da História, da Cultura e das condições de vida, em Campo Maior, no século XIX.

Por isso, como o seu título - Vida e Obra de João Dubraz – indica, a obra que agora apresento, tem como primeiro e mais importante objectivo, tentar responder da maneira mais apropriada, mais completa e mais fundamentada que me for possível, a estas e a outras perguntas que possam ser formuladas.

 

Vou, portanto, avaliar a vida e a obra de alguém que fui conhecendo durante muitos anos, ao ler e analisar os muitos textos que ele tinha escrito e publicado e que eu depois, fui descobrindo e divulgando.

 

Devo, porém, confessar que, quanto mais ia aprofundando o meu conhecimento, mais ia crescendo a minha admiração pelo homem que produzira os textos que eu ia lendo.

 

 

 

 

Chamava-se João Dubraz. Era filho de um comerciante com loja aberta no então chamado “Terreirinho”, vulgarmente conhecido como o “Terreiro”, e que, actualmente, tem o nome oficial de Largo Barão de Barcelinhos. Tendo, desde muito novo, aprendido a ler e a escrever, dedicou-se, com tanto empenho à leitura e ao estudo que, atingiu um nivel impressionante de conhecimentos e de importantes informações em várias e vastas áreas do saber.

Nos seus escritos, não fez qualquer referência aos professores que poderá ter tido. Mas, podemos calcular que, naquele tempo, os seus primeiros professores, terão sido frades do Convento de S. Francisco. Naquela época, os que assumiam a função de ministrar o ensino básico às crianças entre os seis e os doze anos de idade, eram designados como “os gramáticos”. É interessante lembrar que, a pequena rua que liga a Rua Direita ao Largo da Misericórdia, era antes chamada a Rua dos Gramáticos.

É, portanto, muito provavel que, o jovem João Gonçalves Brás – pois este era o seu nome de baptismo – tenha feito o essencial da sua aprendizagem, com esses “gramáticos”. A única indicação que temos é a de que, por volta dos dez anos de idade já saberia ler e escrever razoavelmente. Foi o próprio João Dubraz que, nas suas memórias, deixou disso testemunho. Quanto à sua aprendizagem, podemos também considerar a possibilidade de ter recorrido aos ensinamentos de D. Diego Muñoz Torrero ou de algum dos discipulos que este deixara em Campo Maior.

Este sábio bispo espanhol, que esteve exilado nesta vila, entre os anos de 1823 e 1828, para sobreviver, dava aulas de filosofia, de latim e de francês. Ora, na verdade, João Dubraz tinha um razoável conhecimento em todos estes domínios.

  1. Diego Muñoz Torrero era uma das figuras mais notáveis de Espanha. Ainda muito jovem, fora ordenado sacerdote e, pelo seu valor intelectual, adquiriu tal notabilidade que foi convidado a assumir o lugar de professor catedrático de Filosofia na Universidade de Salamanca, tendo sido depois eleito seu reitor.

Mais tarde, fora escolhido para bispo de Guadix, na província de Granada.

Mas, porque era o tempo da Inquisição e a Igreja era então muito repressiva, o papa Pio VII negou-lhe o beneplácito, impedindo-o de assumir a função episcopal. A razão desta atitude explica-se pelo seu empenhado envolvimento na defesa dos ideais liberalistas, por defender a extinção da Inquisição em Espanha e por se ter destacado na elaboração dos princípios fundamentais da chamada “Constituição de Cádiz”, a primeira constituição liberalista espanhola, aprovada em 1812 e que muito influenciou a Constituição Portuguesa de 1820, a nossa primeira constituição liberalista.

Perseguido pelos absolutistas, quando estes tomaram o poder, D. Diego Muñoz Torrero refugiou-se em Portugal para escapar à prisão e à quase certa condenação à pena de morte.

 

 

Fixou residência em Campo Maior, terra de fronteira, entre 1823 e 1828, ou seja, até que os absolutistas tomaram o poder, em Portugal, tendo-se D. Miguel proclamado rei absoluto. Começou então um tempo de perseguições que originou uma terrível guerra civil, que durou desde 1828 a 1834.

  1. Diego Muñoz Torrero foi então preso e encarcerado na torre-prisão de S. Julião da Barra, no concelho de Oeiras, junto ao Tejo. Em salas subterrâneas que eram por vezes inundadas pelas águas que chegavam a subir até à cintura dos presos, acumulavam-se pessoas de todas as classes e condições sociais. Aí, devido aos maus tratos sofridos, morreu D. Diego Muñoz Torrero, no ano de 1828, tendo sido sepultado, em campa rasa, num terreno junto à torre que lhe servira de prisão.

Mas, era tal a notabilidade de D. Diego Muñoz Torrero que, quando os liberalistas voltaram ao poder, o governo espanhol reclamou a entrega dos seus restos mortais que foram transferidos para o cemitério de S. Nicolau em Madrid e, mais tarde, em 1912, foram trasladados para o Panteón de Hombres Ilustres, onde estão os restos mortais das figuras mais notáveis de Espanha.

Ora, assim sendo, poderá ter sido, primeiro com o bispo e depois com algum dos seus discipulos, que João Dubraz adquiriu as bases que lhe permitiram ter bons conhecimentos de gramática, conhecer bastante bem o latim e de ler e escrever com desenvoltura o francês.       

        

Talvez por isso, mais tarde, quando começou a escrever e a publicar os seus escritos, afrancesou o nome, adoptando como pseudónimo, o nome de João Dubraz, aproveitando o facto de ser conhecido como o João, filho do Braz.

Mas, na verdade, João Dubraz foi principalmente um verdadeiro autodidata, pois que, pelo seu próprio esforço, conseguiu adquirir um elevado nível de formação cultural.

 

Voltando à crescente admiração que fui sentindo pela obra de João Dubraz, convém esclarecer que, quando quero avaliar alguém, parto sempre do princípio de que não há homens, nem mulheres perfeitos, pois que, em todas as pessoas encontramos qualidades e defeitos. Por isso, quando me proponho fazer a avaliação de uma pessoa, faço-o numa espécie de “balança mental”, comparando os seus defeitos com as suas virtudes.

 

Os resultados configuram-se-me de três maneiras:

- Há casos de acentuado desequilibrio devido ao maior peso dos defeitos;

- Noutros, é maior o peso das virtudes;

- E noutros, fica a balança mais ou menos equilibrada.

 

Vem isto a propósito de tentar explicar a razão porque, durante tantos anos, dediquei tanto do meu tempo a tentar descobrir, analisar e compreender, os documentos criados pelo homem que é a figura central deste livro que aqui apresento hoje.

Não foi tarefa fácil. Mas, porque o que deve ser feito, deve ser bem feito, fui ultrapassando os obstáculos que me foram surgindo. Finalmente, a grande dificuldade foi a opção, tomada por João Dubraz - e por ele rigorosamente cumprida -, de falar muito pouco de si, e quase nada dos elementos da sua família.

Mas, voltando à avaliação que fui fazendo do homem João Dubraz, a “balança” pendeu sempre mais para o lado das virtudes, ficando quase vazio o dos defeitos.

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Essa é uma das razões porque considero que foi importante e muito gratificante o ter-me dedicado ao conhecimento do que foi a sua vida e da obra que nos deixou. Devido a isso, não hesito em afirmar que, considero que João Dubraz foi um homem de um valor excepcional e uma das figuras que mais elevou e divulgou o nome desta “mátria”, ou terra-mãe, onde muitos de nós, os que agora aqui estamos, fomos gerados e criados. E isto é ainda mais importante, se consideramos que João Dubraz viveu num tempo em que não era nada fácil proceder da maneira que escolheu como o seu modo de vida.  

 

Devemos também tomar em consideração que, uma grande parte daquilo que escreveu, se destinava a ser publicado nos jornais que foram existindo na cidade de Elvas, havendo mesmo períodos em que, era quase só ele quem produzia a maior parte dos textos que compunham esses jornais.

Talvez tenha sido essa a razão para que, quando em Campo Maior começaram a perseguí-lo, atacando-o e difamando-o, tenham sido alguns dos mais destacados vultos da cultura elevense – à frente dos quais se colocaram Vitorino d´Almada e António Tomás Pires – que, em textos publicados em Dezembro de 1883, nas páginas do jornal “O Elvense”, vieram em sua defesa, denunciando, a má-fé das calúnias, a falsidade, a ingratidão e a injustiça dos ataques que lhe dirigiam.

Entre outras, estas foram a razões de eu ter concluido que, tomando em consideração o seu valor, seria muito justo que me dedicasse a dar a conhecer os aspectos mais importantes relatados nas obras de João Dubraz que considero um dos nomes mais ilustres da Cultura e da História de Campo Maior.

 

Mas, convém entender claramente que procurei sempre enquadrar este trabalho no domínio da investigação histórica que, como sabemos, cuida apenas de analisar e tentar dar a conhecer os factos e as personagens que pertencem ao passado.

 

Logo, daí resulta que fica excluida qualquer comparação com os que ainda vivem, por mais importantes que possam ter sido, sejam, ou que venham a ser, no desenvolvimento, na divulgação e na notabilidade desta nossa terra. Para aqueles que ainda vivem, o futuro cuidará de que, outros, pertencentes às novas gerações, chegada a sua vez, cumpram a missão de os estudarem e de darem a conhecer o valor das obras que realizaram.

Mas, voltemos, a João Dubraz, pois que é por ele e pela sua obra, que aqui estamos reunidos neste momento. Ele é, sem dúvida, digno de grande destaque, não apenas por aquilo que realizou em vida, mas também pela influência com que, mesmo depois da sua morte, tanto marcou as gerações que se lhe seguiram. Não foi por acaso que, depois dele, se formou uma pequena elite cultural que teve uma importante intervenção nesta vila de Campo Maior, com a criação de filarmónicas, associações recreativas, clubes de futebol e mesmo de dois jornais locais: o Campomaiorense e o Notícias de Campo Maior.

 

Durante anos, fui recolhendo informações. Mas só recentemente, me pude dedicar mais intensamente a este projecto, pois que, na situação de reformado e tendo voltado a residir em Campo Maior, pude dispor de mais tempo e de ter mais fácil acesso a importantes documentos existentes nas bibliotecas e arquivos de Elvas e de Portalegre.

 

Durante um período relativamente extenso, pude aí recolher dados que foram enriquecendo os meus conhecimentos, permitindo-me desenvolver o trabalho em curso e poder elaborar as obras que fui publicando nestes últimos anos.

Convém assinalar que o objectivo principal do livro que agora apresento, foi dar a minha contribuição para que seja assinalado o “Bicentenário” do nascimento de João Dubraz que nasceu em Campo Maior no início da madrugada do dia 21 de Janeiro de 1818, tendo falecido, nesta sua mátria, com 76 anos de idade, em 24 de Setembro de 1895.

 

 

Na obra apresentada no passado mês de Setembro, incluí os escritos publicados por João Dubraz no seu livro intitulado Recordações dos Últimos Quarenta Anos, do qual se esgotaram rapidamente as duas edições publicadas em 1868 e 1869. 

Na primeira parte dessa obra foram referidas as memórias históricas, ou seja, os factos memoráveis da história militar da importante praça de guerra que Campo Maior foi até meados do séc. XIX.

Na segunda parte foi feita a narrativa dos factos em que ele, João Dubraz, participou como militante político, envolvendo-se como combatente voluntário na milícia liberalista e chegando a ser empossado na função de administrador deste concelho.

 

 

Foi devido à sua acção política que, sem acusação, sem culpa provada e sem ter sido julgado, foi mandado para a cadeia civil de Elvas, onde ficou preso durante cinco meses e só recuperou a liberdade graças a ter congeminado um hábil plano de fuga.

 

 

Neste momento, em que aqui estamos a apresentar outro livro que, significativamente, tem o título de VIDA E OBRA DE JOÃO DUBRAZ, temos que mudar o âmbito e a perspectiva desta apresentação, pois que, o livro que agora se apresenta, tem como objectivo fulcral, comemorar o bicentenário do nascimento de João Dubraz. Daí focar-se prioritariamente, na sua vida e na sua obra.

Naturalmente que, em termos de investigação, este volume exigiu um maior número de pesquisas e um tratamento mais demorado das informações encontradas. Muitos dos materiais utilizados na sua elaboração eram completamente desconhecidos ou porque não tinham sido publicados em livro, ou porque não era fácil descobrir os jornais onde João Dubraz os tinha publicado.

Por outro lado, mesmo no que respeita aos livros publicados, verificou-se também que, alguns se perderam completamente, como os Annaes do Municipio de Campo Maior. E outros, nem chegaram a serem publicados, como os intitulados Os dois Carácteres e O Castigo que, como ele complacentemente escreveu, seriam simples obras de juventude.

Ter-se-á também perdido uma obra, referida por João Ruivo, intitulada Subsídios Históricos para a Guerra da Maria da Fonte no Alto Alentejo, a qual teria hoje um grande interesse porque geralmente se considera que esta terrível guerra civil só terá acontecido nas terras do norte de Portugal.

Outras obras, principalmente os escritos políticos, devido ao seu carácter panfletário, tiveram vida efémera e curta divulgação. Mas, mesmo estes, são importantíssimos, se pretendemos conhecer o pensamento de João Dubraz porque, conhecendo-o, ficamos com uma ideia muito interessante sobre a história das ideias na época em que ele viveu.

Por outro lado, uma parte importante da sua vida e da sua obra, está relacionada com o facto de ter exercido, mesmo até à sua morte, uma empenhada acção como professor.

Ora, sendo então ainda muito escassa a produção de livros destinados ao ensino escolar, João Dubraz, em vez de se lamentar, tomou a iniciativa de escrever compêndios para uso dos seus alunos. Estes compêndios constituem hoje preciosos documentos para conhecermos as condições e as preocupações do ensino no seu tempo.

Na verdade, a obra de João Dubraz, é uma riquissíma fonte de abundantes e preciosas informações sobre o tempo em que viveu.

Do mesmo modo, os escritos, publicados nos muitos jornais em que colaborou, fornecem também importantes informações sobre as condições de vida, na sua época.

Mesmo os folhetins, textos de entretenimento por ele publicados nos jornais, podem conter informações interessantes sobre a mentalidade, as preocupações, os usos e costumes e as condições de vida nesse tempo.

Mas, porque não se inibia de denunciar as situações e as atitudes que lhe pareciam inaceitáveis e merecedoras de pública denúncia e condenação, originou que contra ele se tivesse levantado uma violenta reacção que muito o amargurou, pois que, as polémicas que, quase no fim da sua vida o envolveram, descambaram por vezes para atitudes de muito baixo nível. Moveram-lhe tal perseguição que o impediram de dar aulas em Campo Maior o que o obrigou a ter de ir dar aulas para Amarante, no distante Minho, aos 76 anos idade. Os que ele censurava e denunciava pelos comportamentos abusivos e ilicitos que manifestavam no exercício dos cargos públicos, desciam às mentiras mais infames e às insinuações e acusações mais vis, tentando desacreditá-lo. Esses escritos, por vezes bastante abjectos, permitem-nos comprender as condições, as atitudes e os comportamentos da sociedade local, na fase final da sua vida que era também a fase final de uma época em acentuada decadência: a da monarquia liberal.



publicado por Francisco Galego às 20:44
Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

Celebração do

 

BICENTENÁRIO DO NASCIMENTO

 

DE JOÃO DUBRAZ

 

NO PRÓXIMO  Domingo,

 

DIA 21 DE JANEIRO,

 

SERÁ APRESENTADO

 

O III VOL. DA OBRA

 

CAMPO MAIOR NA OBRA DE

 

JOÃO DUBRAZ,

 

SOB O TÍTULO DE "VIDA E OBRA".

 

A APRESENTAÇÃO TERÁ LUGAR NO CENTRO CULTURAL PELAS 17 HORAS.

PARA ESTE ACTO CONVIDAM-SE TODOS  INTERESSADOS EM PARTICIPAREM NESTA HOMENAGEM A UM DOS MAIS NOTÁVEIS REPRESENTANTES DA CULTURA E DA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR.



publicado por Francisco Galego às 13:31
Sábado, 13 de Janeiro de 2018

Fiz do estudo e do ensino da História o meu modo de vida, por gosto e por vocação. Mas o interesse pela História não fez de mim um saudosista. Não choro o tempo que passou, nem exalto as suas “virtudes” perdidas. Na verdade, o que eu sinto é uma imensa pena de já não poder viver o tempo que há-de vir, por ser minha convicção que há uma certa probabilidade de vir a ser  mais interessante do que o tempo que vivi e que o tempo que agora vivo. Parece-me ser esta a melhor e a mais atilada maneira de entendermos as coisas que são verdadeiramente importantes na nossa vida.

É importante compreender o passado, pois o seu conhecimento ajuda-nos a entender como e porquê, as coisas evoluiram desta ou daquela maneira. E isso pode evitar que certos erros sejam repetidos. Porém, em meu entender, a contemplação do passado pode ter qualquer coisa de mórbido que não nos deixa apreciar o lado bom da vida que nos coube viver.

Todas as épocas têm os seus problemas. Mas isto não é motivo para se fazer o choradinho de que “no meu tempo é que era bom”. O meu tempo é efectivamente este que estou agora a viver.

Tenho consciência dos problemas que, neste momento, preocupam e atormentam as novas gerações. Mas, também a minha geração se preocupou e preocupa com os problemas que teve e tem de enfrentar, tanto pelas  dificuldades que vivemos, como pelas dificuldades que vemos os outros viverem. Mas se me ponho a comparar as condições da vida nos tempos passados, acabo por chegar à conclusão de que, talvez as condições actuais, não sejam  tão más como foram as desses “bons velhos tempos”.

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2018

Porque o ANO NOVO deve ser um tempo de avaliação:

 

Segundo Eduardo Lourenço, a cultura é a maneira que, cada civilização, cada povo, cada época, têm de se questionarem a si próprias sobre o que são, para onde caminham e quais os caminhos que devem seguir. Para ele: “A cultura não é a resposta, é a questão”; “A cultura é o diálogo da humanidade consigo própria”. Por isso, “Não há um paradigma. Não há cultura, mas culturas”, porque, nem as perguntas, nem as respostas, são as mesmas. Variam com o tempo, com as circunstâncias e com as situações.

A cultura é um conhecimento que não consiste em saber coisas, mas em dar sentido às coisas. É a capacidade de saber avaliar e de avaliar-se a si mesmo, é o pensamento de que resulta a compreensão.

Onde não houver pensamento não há cultura; há apenas coisas. O sujeito cultural é sempre um sujeito com memória do que foi e que elabora o projecto daquilo em que pretende tornar-se. Ou seja, o sujeito cultural comprende o seu passado e constrói o seu próprio futuro.

Jean Jacques Rousseau colocou a cultura no centro da formação humana. A cultura é um conhecimento que se assimila, que se desenvolve e que se transmite. Por isso, a cultura pressupõe a capacidade de compreender e alarga a capacidade de agir.

Neste sentido podemos designar como contracultura, o que existe para nos distrair da verdadeira cultura. Numa situação de contracultura, o tempo como que pára, instalando-se um presente contínuo, sem passado e sem futuro. Ou seja, deixa de haver memória de si mesmo e deixa de existir projecto de construção do nosso próprio futuro.

 

De certo modo, cada sociedade, ou cada época, pode ser avaliada consoante o modo como se posiciona em relação a estes dois polos: o da cultura e o da contracultura.



publicado por Francisco Galego às 00:02
Sábado, 06 de Janeiro de 2018

Aqui ao lado, os nossos vizinhos espanhóis comemoram “Los Reyes” que, para eles é o grande dia de troca de presentes. De certo modo, daquilo que nós fazemos no Natal.

 

Natal, Ano Novo, Dia dos Reis. Devem ser dias de boa vontade, dias de fé, de renovação e de esperança.

 

Isto levou-me a pensar que fomos  deixando de ter o consolo dos sentimentos  que alimentavam a nossa esperança. Será este um dos problemas deste desencantado presente? Pensando bem, vive-se sem modelo orientador. Há os que vivem movidos pela ambição. Outros estão conformados, tentando apenas garantirem a melhor maneira de irem sobrevivendo. Os projectos de vida vão dando lugar ao entretenimento. A acomodação conformada vai ocupando o lugar que devia ser o da luta e da persistência.

 

Tenho consciência de que há nisto um pessimismo demasiado radical. Mas, enfim... Trata-se apenas de um desabafo, fruto deste crescente desencanto.



publicado por Francisco Galego às 00:01
Sexta-feira, 05 de Janeiro de 2018

Mudou o ano.
Mas, mudou a vida?
 

Ou a vida,  continua
Sem mudança? ...


Em cada ano

Reganhamos a esperança,

Na mesma ânsia de que tudo mude ...


E, afinal,

O que irá mesmo mudar?



publicado por Francisco Galego às 00:01
Terça-feira, 02 de Janeiro de 2018

Além do calendário gregoriano e coincidindo com ele, subsiste também um calendário que, em tempos passados, era muito tomado em consideração. Tratava-se afinal de ligar cada dia santificando-o por ligação a uma entendidade ou facto relevante do ponto de vista da religião cristã.

Houve mesmo o hábito, respeitado por certas famílias, de atribuir aos recém-nascidos o nome, do santo ou santa, que correspondia ao dia do seu nascimento.

Em Espanha, havia mesmo a tradição de celebrar o que eles designavam como “El dia de su santo” que desconheço se ainda se mantém.  

A título de curiosidade, hoje, dia 2 de Janeiro, é o dia consagrado a dois santos: S. Basílio Magno e S. Gregório Nazianzeno, bispo.

Informações destas, só as podemos encontrar se tivermos o cuidado de adquirir o muito antigo e dantes também muito famoso e tido em consideração, “O Verdadeiro Almanaque BORDA D’ÁGUA”, perito e expedito em todas estas informações.

E mais: Pela módica quantia de 2,20 € (Iva incluído) ainda temos acesso ao Oráculo de Janeiro, à Astrologia e a informações sobre Agricultura, Jardinagem e Animais, tudo conhecimentos importantes para orientarmos as nossas vidas.

Com a consciência do dever cumprido, despeço-me por hoje...

 



publicado por Francisco Galego às 16:03
Segunda-feira, 01 de Janeiro de 2018

Desde que os homens tiveram consciência da ciclicidade da Natureza, procuraram organizar-se sistematizando a forma de preverem e anteciparem as diversas etapas que decorrem no devir a que  chamamos o tempo.

Embora se tratasse de analisar e ordenar uma mesma realidade, foram muito diversas as soluções a que as diversas civilizações foram chegando. Aos sistemas de organização do tempo chamamos os calendários, compostos de horas, dias, semanas, meses, estações, anos ...

No império romano usava-se o "calendário juliano" implantado por Júlio César (100–44 a.C.), que foi adoptado na Europa, até que, em sua substituição, foi  promulgado pelo Papa Gregório XIII (1572–1585), a 24 de Fevereiro do ano 1582, pela bula Inter gravissimas o “calendário gregoriano”. Com a expansão da nossa civilização, dita ocidental e cristã,  expandiu-se pelas diversas regiões do mundo, embora algumas civilizações mantenham, nas celebrações do Novo Ano, ritualidades que remontam às suas tradições religiosas.

No nosso calendário dito “gregoriano”, a celebração do “Ano Novo”, no dia 1º de Janeiro, tem origem num decreto do imperador romano Júlio César publicado no ano 46 A.C. e coincide com o dia que os romanos consagravam a “Janus”, o deus de duas faces contrapostas, simbolizando o princípio e o fim de todas as coisas. Dele derivou o nome de  Janeiro. Trava-se de uma divindade romana de duas faces, uma olhando para o que acabava e outra para o que ia começar, que deu o nome ao mês primeiro do ano (Januarius) porque com ele acabava o ano que findava e começava um Novo Ano.

Mas, a uniformização desta celebração do Ano Novo, só muito mais tarde se verificou, pois que, na Idade Média, em diversos países, outros dias, como o 1 de Março, o 25 de Março, o 1 de Setembro, o 25 de Dezembro, foram considerados início do ano civil. Na Inglaterra e nos seus domínios coloniais, até meados do século XVIII, o ano novo começava em 25 de Março.

Entendido como um recomeço, tendeu a ser celebrado como o reinício, ou a nova etapa, no decurso contínuo das nossas existências.

 

POR ISSO, CUMPRINDO A TRADIÇÃO, AQUI FICAM OS VOTOS DE

 

FELIZ ANO NOVO

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2017

Perguntando a mim próprio que desejos entendo dever formular para o início do Novo Ano, vejo-me confrontado com algo a que não sei como responder.

Com toda a franqueza, confesso que sou pouco de desejos e muito mais dado aos constrangimentos que me provocam os sofrimentos, as angústias e as tremendas carências que rodeiam o nosso viver social.

Como entendo que isso depende muito mais das circunstâncias ditadas pelas acções individuais do que pelo acaso, embora sem grande esperança, vou formular o desejo de que haja mais descernimento, mais consciência, mais atenção e mais empenho em remediar e evitar agravamentos, para que se torne mais fácil e menos triste a vida nas comunidades em que nos inserimos.

Pareceu-me utópico desejar mais e que seria cínico desejar menos do que isto.



publicado por Francisco Galego às 17:25
Terça-feira, 26 de Dezembro de 2017

Começamos a despedirmo-nos deste ano de 2017 que, por múltiplas razões, não nos deixa grande saudade: incêndios; falta de água; atitudes  abaixo de qualquer razão, denotando uma chocante insensiblidade social e política dos que da política têm apenas a crença de que tudo se limita a tudo recorrer para alcançar e deter o poder, para deleite da sua vaidade e satisfação da sua desmedida ambição.

E esta natureza madrasta, com a persistência da calamidade desta seca que ainda mais acentua a acção obtusa e cega das acções humanas?...

Neste “Novo Ano”, precisamos de “Novas Oportunidades” que ponham fim às nossas angústias e apreensões.

Resta-nos perseverar na manutenção de uma esperança que sirva de base a um  recomeço, pois, assim como está, está cada vez mais difícil.

Se é certo que, atrás dos tempos, tempos vêm, que venham melhores tempos que, para estes, já vamos tendo – e, cada vez mais, – menos paciência...

Mantenhamos a esperança de que o bom trabalho realizado pelos que agem de forma politicamente acertada, consiga inspirar a todos a vontade de  proceder de forma justa para bem da comunidade e, não apenas para o benefício de alguns. Mais de que um desejo, isto é a expressão da minha sincera esperança. Que o verdadeiro espírito de Natal, os tenha inspirado  como bom exemplo de verdadeira solidariedade social.

 

Com os meus votos de BOM ANO NOVO

 

 



publicado por Francisco Galego às 10:51
Domingo, 24 de Dezembro de 2017

FAÇAMOS AQUI UMA PAUSA,

DESEJANDO

ÀQUELES QUE VISITAM ESTES

"RETALHOS DA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR"

                       

QUE PASSEM ESTA SIGNIFICATIVA ÉPOCA

                - NATAL E  ANO NOVO -

NA INTIMIDADE,

NA PAZ,

NA CONCÓRDIA,

NA TRANQUILIDADE,

E NA COMUNIDADE DE AFECTOS

QUE DEVEM EXISTIR

EM TODAS AS FAMÍLIAS

      

  FELIZ NATAL    

BOM ANO NOVO



publicado por Francisco Galego às 00:06
Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2017

Loa

É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.


Miguel Torga, in 'Diários'



publicado por Francisco Galego às 00:01
Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2017

Nascença Eterna

Nascença Eterna,
Nasce mais uma vez!
Refaz a humílima Caverna
Que nunca se desfez.

Distância Transcendente,
Chega-te, uma vez mais,
Tão perto que te aqueças, como a gente,
No bafo dos obscuros animais.

Os que te dizem não,
Os épicos do absurdo,
Que afirmarão, na sua negação,
Senão seu olho cego, ouvido surdo?

Infelizes supremos,
Com seu fracasso alcançam nomeada,
E contentes se atiram aos extremos
Do seu nada.

Na nossa ambiguidade,
Somos piores, nós, talvez,
E uns e outros só vemos a verdade
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês.

Se nada tem sentido sem a fé
No seu sentido, Sol que não te apagas,
Rompe mais uma vez na noite, que não é
Senão o dia de outras plagas.

Perpétua Luz, Contínua Oferta
A nossa escuridade interna,
Abre-te, Porta sempre aberta,
Mais uma vez, na humílima Caverna.

José Régio, in 'Obra Completa'



publicado por Francisco Galego às 00:08
Domingo, 17 de Dezembro de 2017

Voto de Natal

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal'



publicado por Francisco Galego às 00:05
Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

Natal

Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu novo nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, — do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos — não uma vez, mas cada —
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos:
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob escárnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infame.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos
A nossa corrupção.

Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comércio, a tua túnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.

Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, — e te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa Tudo que lhe ofereces?

Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos cala a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!

José Régio, in 'Obra Completa'



publicado por Francisco Galego às 00:03
Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

 

ESCREVER SEMPRE TAMBÉM CANSA

E A VIDA É TÃO IGUAL

QUE PARA PARECER DIFERENTE

RECORREMOS AO NATAL

 

DEPOIS VEM O ANO NOVO

E PODEMOS PÔR O POVO

A CRER QUE SERÁ DIFERENTE

A VIDA DE TODA GENTE

 

MAS DEIXEMOS A ILUSÃO

TUDO IRÁ CONTINUAR

E ... COM OU SEM SATISFAÇÃO

TEREMOS QUE AGUENTAR

 

 

NOTA:

Mais uma vez manifesto a minha total adesão à  denúncia que o Papa Francisco faz da hipocrisia de muitas das acções que rodeiam a celebração do Natal.

É que o Natal, além do seu profundo significado religioso, constitui para nós um marco civilizacional.

A civilização em que nos integramos designa-se como europeia pelas suas origens e cristã pelo modelo de humanismo de que se reveste e como base essencial da nossa maneira de concebermos a vida em sociedade.

Além disso,  o nascimento de Cristo é o ponto de referência a partir do qual fazemos a datação histórica do tempo: A.C.= Antes de Cristo; D.C.=Depois de Cristo.

 

ASSIM SENDO, FAÇAMOS UMA PAUSA , DESEJANDO A TODOS

 

BOM NATAL

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:06
Quinta-feira, 07 de Dezembro de 2017

Os dados documentais conhecidos apotam, para uma época não muito remota, a formação da população a que foi atribuido o nome de Degolados.

Há bastantes vestígios de ocupação na época romana, nomeadamente os restos de um troço da rede viária que ligava Lisboa a Mérida, passando por  Santarém, Ponte de Sor, Alter Pedroso, Assumar, Arronches,  Ad Septem Aras (no sítio da actual Ermida de S. Pedro, em Campo Maior) e Enxara (próximo de Ouguela); há também alguns vestígios do povoamento romano que se fazia com as  villae que deram, séculos depois, origem aos montes e respectivas herdades.

Um dos índícios da tardia constituição de uma povoação neste local é a total ausência de vestígios de estruturas defensivas em volta da aldeia, situação difícil de entender em tempos mais recuados, sobretudo numa região de fronteira que foi tão fustigada pela Guerra da Restaução da Independência (1640-1668).

Um dos documentos mais antigos que se conhecem é uma “carta de doação” de 1225 que, sem dar nota da existência de qualquer povoação, refere existir nesta localização, um “arroyo que disen dos Degolados”.

Dois documentos da 1ª metade do séc. XVI fazem referência a esta localização: num testamento de 1538, trata-se de “uma herdade do termo de Arronches que se chama da Contenda e dos Degolados” e uma procuração de 1557 destina-se a “demandar os lavradores da herdade dos Degolados, situada no concelho de Arronches”.

Alguns dos mais antigos documentos, são registos de baptismo da segunda metade do século XVII e dão testemunho de que já estava formada a Freguesia de Nª Sª da Graça dos Degolados, embora não estivesse ainda provida de prior próprio e estando em ruína a sua igreja, situação que é referida também em registos de óbito de 1712 e 1717 nos quais consta que  os enterramentos eram efectuados nas freguesias vizinhas por a igreja de Degolados “não estar ainda consertada”.

Só a partir do séc. XVIII começou a verificar-se um desenvolvimento mais contínuo, devido à extensão das culturas cerealíferas que atraíam mão de obra vinda de outras povoações para trabalhar nas grandes herdades que cercavam a aldeia.

Na “Memória Paroquial da freguesia de Nossa Senhora dos Degolados, comarca de Portalegre” [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 13, nº 9, pp. 55 a 56], refere-se que:

- Em 1758 existiam 42 habitações e a povoação resumia-se ainda ao agregado de casas a oeste da Igreja.

- O Terramoto do ano de 1755 não causou ruína notável, mais que algumas rachas nas paredes da Igreja e telhados e está tudo reparado.

Em 1798, o censo de Pina Manique indicava já 61 fogos, cerca de 250 habitantes, na povoação de Degolados.

Em 5 de Abril de 1803 a Igreja de Nª Sª da Graça dos Degolados recebeu, por Breve do Papa Pio VII, o privilégio de na sua igreja se poder celebrar missa.  

O início do século XIX não foi favorável para o desenvolvimento da freguesia por causa da Guerra Peninsular (1808-1814). Parte da população teve de refugiar-se nas povoações amuralhadas mais próximas para escapar à destruição provocada pelos exércitos constituidos por espanhóis e franceses.

No ano de  1825, a igreja local foi reparada.

A partir de 1825, o povoado começou a estender-se para a parte leste da igreja. Começou a nascer a chamada Aldeia Nova, nova área urbana nos terrenos que ficavam entre a igreja e a actual Estrada Nacional.

 A freguesia de Degolados foi primeiramente integrada no concelho de Arronches. Só mudou para o concelho de Campo Maior a 6 de Dezembro de 1926.



publicado por Francisco Galego às 08:43
Terça-feira, 05 de Dezembro de 2017

 

HÁ MAIS DE DOIS SÉCULOS E MEIO...

Por aviso de 18 de Janeiro de 1758, o Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo (que, por Decreto do rei D. José I de Portugal, de 16 de Setembro de 1769, foi instituído no título de Marquês de Pombal), fez remeter, através dos principais prelados, e para todos os párocos do reino, os interrogatórios sobre as suas paróquias e as respectivas povoações, pedindo as suas descrições geográficas, demográficas, históricas, económicas, e administrativas, bem como os estragos provocados pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. As respostas deveriam ser remetidas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.

 

Trancrevem-se seguidamente algumas das informações mais relevantes contidas na Memória Paroquial da freguesia de Ouguela, comarca de Elvas, 1758. In, [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 26, nº 47, pp. 371 a 374]

- Fica esta Vila de Ouguela na Provincia do Alentejo, pertencendo, ao Bispado e Comarca da cidade de Elvas, o termo e a freguesia da dita Vila.

- Tem esta vila 52 vizinhos, sendo os moradores, 70 do sexo  masculino e 66 do sexo feminino.

- O seu termo tem légua e meia de comprimento e uma de largura no qual existem 12 vizinhos.

- A Paróquia está dentro da vila; o pároco é Prior e na Igreja há mais um cura; o seu orago é a Senhora da Graça; tem três altares (o Altar-mór, o de N.ª S.ª do Rosário, e o de N.ª S.rª da Conceição); tem quatro irmandades (a do Santíssimo Sacramento, a da Senhora do Rosário,  a das Almas e a da Misericórdia).

- Esta vila tem Casa de Misericórdia a qual teve a sua origem por um testador lhe ter deixado umas terras, que rendem um moio de trigo todos os anos para a cura dos pobres.

- Esta vila tem três ermidas no seu termo que pertencem à paróquia da dita Vila (a do S.r Salvador do Mundo; a da S.ª da Enxara, e a de S.Pedro).

- A maior abundância de frutos que colhem os moradores desta vila, são trigo e vinho.

- Esta vila tem Juiz Ordinário e Câmara, mas não tem correio; serve-se do da cidade de Elvas que dista desta, quatro léguas; de Lisboa, capital do reino, dista trinta e quatro léguas.

- Esta vila está situada num outeiro e dela se avista a Vila de Albuquerque, do Reino de Castella, de que dista duas léguas.

- Esta vila tem o privilégio de nela não se fazerem soldados.

-  Próximo desta vila há uma  fonte que tem duas singulares propriedades: a de que  todos os animaes criados noutra água que nela se lhe lancem, morrem;  a outra é que não coze carne nem legumes como as outras águas.

- Esta vila é praça-de-armas e lugar de moradas mas os seus  muros acham-se  muito danificados e neles há cinco torres que padeceram de grande ruina no terremoto de 1755, principalmente a torre da Igreja que veio a maior parte dela abaixo e algumas casas da dita Villa e tudo está ainda por reparar, e  não há mais coisa alguma digna de memória.

- Perto desta vila há um outeiro que se chama a Serra de Sam Pedro que é de muito pequeno comprimento e largura.

- O clima desta terra é, no Inverno, muito intemperado por cruzados ventos do Norte, e no Verão muito cálida por causa dos ventos do Sul.

- No termo desta Villa há criações de todo o género de gados.

- Passa proximo a esta Villa o rio Xévora que tem o seu nascimento ao pé da Serra de São Mamede, corre pelas penedias do Monte do Sete e passa junto à Igreja de São Jullião e de um lugar de vinte cinco casas, a que chamam Severa, do qual o rio tomou o nome. Este rio nasce logo caudoloso, e corre todo o ano.Há um outro que entra neste rio, junto a esta Villa, a que chamam Abrillongo que nasce no Reino de Castela.

- O rio Xévora tem sete léguas de comprimento, tem açudes e muito moinhos.

- Na parte de cima destes rios, criam-se muitas trutas por serem muito frias as suas águas. Há neles pescarias durante todo o ano e essas pescarias são livres. Mais para baixo, só se cria o peixe ordinário que há nas outras ribeiras do Alentejo por serem terras cálidas.

- O rio Xévora junta-se mais abaixo com o rio Bótoa e juntos entram no Guadiana, à vista de Badajoz.

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Sábado, 02 de Dezembro de 2017

Até á Revolução Liberalista de 1820, os termos “paróquia” e “freguesia”, eram praticamente sinónimos e designavam a unidade territorial que estava sob a responsabilidade religiosa de um pároco. A unidade administrativa era, de facto, o concelho. Daí o grande número de concelhos que existiram desde formação de Portugal, no séc. XII.

Por Decreto-lei  de 11 de Julho de 1822, foram criados, em Portugal, 758 municípios e 4.086 juntas de paróquias que, mais tarde, vieram a ser chamadas de “juntas de freguesia”. Porém, estas novas estruturas administrativas, só foram impostas, em 1832, pela reforma de Mouzinho da Silveira.

Com a Reforma Administrativa de Julho de 1835, surgiu a nova designação de ”juntas de paróquia”, ficando estas autonomizadas da organização eclesiástica em paróquias que vinham desde a Idade Média. Contudo, na maioria dos casos, os seus limites territoriais eram os mesmos.

Por decreto de Passos Manuel, em 1836, foi liquidado quase metade do elevado número de municípios que vinham da Idade Média, ficando o seu número fixado em 351 e passando os restantes à condição de “freguesias”. Foi o que aconteceu com Ouguela que, constituída como concelho em 1822, foi este concelho extinto por Decreto de 6 de Novembro de 1836, passando a ser a paróquia civil de Nª Sª da Graça de Ouguela e, como tal,  anexada ao concelho de Campo Maior.

Por Decreto de 17 de Janeiro de 1879, a freguesia de Ouguela foi anexada à freguesia de S. João Baptista. E foi definitivamente extinta pelo Código Administrativo de 1936.

 Com a Lei nº 621 de 23 de Junho de 1916, as paróquias civis passaram a assumirem o nome de “freguesias” e as estruturas eclesiásticas continuaram a serem designadas como “paróquias”.

 

São João Baptista é, em antiguidade e em importância, a segunda maior freguesia da vila de Campo Maior com 106,37 Km2 de área e, segundo o recenseamento de 2001, tinha 4.063 habitantes, densidade de 38,2 hab./km2..

A paróquia do mesmo nome foi criada em 1776 por provisão de D. Lourenço de Lencastre, bispo de Elvas.

 

Até então tinha existido, no concelho de Campo Maior, uma única paróquia que, desde a Idade Média, tinha a sua igreja matriz na “vila velha”, situada no interior das muralhas do castelo. Tivera primeiramente a evocação de Santa Clara e depois, a de Nª Sª da Assumpção.

Em 1574, por ser muito pequena a igreja velha, estar muito arruinada e não caber nela o povo, foi decidido construir uma nova matriz, mais ampla, edificada em lugar mais central, na “vila nova” fora da antiga muralha. Esta igreja passou a ser a sede da paróquia sob o orago de Nª Sª da Expectação.

 

A freguesia de Degolados foi primeiramente integrada no concelho de Arronches. Por ficar bem mais longe da vila de Arronches (15 km) do que da vila de Campo Maior (9 km), por reivindicação da sua população, em Setembro de 1895 passou a fazer parte do concelho de Campo Maior. Por protestos de Arronches, em Janeiro de 1898 voltou a ser-lhe novamente anexada. Só mudou, finalmente, para o concelho de Campo Maior a 6 de Dezembro de 1926.

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Quarta-feira, 29 de Novembro de 2017

 Voltando às notas históricas:

 

Da obra TERRAS PORTUGUESAS Arquivo Histórico – Geográfico ou Geografia Histórica Portuguesa, de Baptista de Lima, Póvoa de Varzim, Tipografia Camões-Editora, 1932, Pag.s 455 a 458, foi possível extrair as seguintes informações:

 

- No LIVRO DE FORAIS NOVOS DO ALENTEJO, folha 65, coluna 2, consta o Foral de Campo Maior, com a indicação de que foi dado em Lisboa em 15 de Setembro de 1512, por D. Manuel, incorporando-a na coroa com o privilégio de não mais sair dela;

- Campo Maior é cabeça de concelho no Distrito de Portalegre;

- Segundo o cadastro de 1527, a vila teria 632 fogos na cerca e nos arrabaldes e mais 32 no termo da vila, total 664 fogos , (Isto correspone  a uma população de cerca de 2.500 habitantes);

- O bispo de Elvas, D. Sebastião de Matos e Noronha, fez reconstruir a  igreja matriz depois da explosão de 1732; (1)

- Em 1762, era vila da correição de Elvas, tendo todos os privilégios desta cidade que lhe tinham sido atribuidos por D. Dinis e lhe foram acrescentados po D. João II;

- Em 1811, era vila com juiz de fora na comarca, provedoria e diocese de Elvas;

-  Em 1811, o comandante inglês Beresford recebeu o título de Marquês de Campo Maior pela maneira como conduziu à vitória as tropas que fizeram fugir os franceses em 25 de Março desse ano. Foi também pela resistência da praça de guerra ao cerco dos franceses que a vila recebeu a distinção que orna os seu brasão “ Leal e Valorosa Vila de Campo Maior”.

-Entre 1821 e 1826, vila passou a ter duas freguesias – Senhora da Expectação (704 fogos) e S. João (580 fogos), total de 4.987 habitantes;

- Em 1835, a vila concelho era sede de julgado com mais os concelhos de Arronches e Barbacena e Ouguela.:

- Em 1842, vila com 1.294 fogos e 3 freguesias: Nossa Senhora da Expectação (666 fogos); S. João Baptista (532 fogos) e  Nossa Senhora da Graça de Ouguela que havia sido vila com foral  (96 fogos); Verificou-se um decréscimo da população.

- Em Campo Maior, o pelourinho é monumento nacional;

- Campo Maior dista uma légua de Ouguela, partindo o termo pelo meio; de Arronches dista quatro léguas e uma do seu termo; de Elvas dista três léguas e uma do seu termo; de Badajoz dista três léguas e partem os termos pelo meio.

De Campo Maior disse Pinho Leal, in “Portugal Antigo e Moderno”, Lisboa, (1873 – 1890): Vila: 1.400 fogos, 5.000 habitantes em 3 freguesias: Expectação; Nª Sr.ª da Graça; S. João). Mas, na verdade, é apenas uma, a da Expectação, porque as duas outras são uma espécie de curatos anexos, dependentes da matriz principal. A de Ouguela tem 70 fogos.

Disse também que é praça de armas, que é vila muito antiga e que D. Dinis lhe fez o castelo em 1380. E que passa a 3 km o rio Caia; que D, João II lhe deu um brazão com as armas de Portugal de um lado e do outro S. João baptista, o seu patrono. Refere também que no tratado (De Alcanizes) de 1297, Portugal e Castela acordaram em que Campo Maior, Ouguela e Olivença, se integrassem no reino de Portugal.

- Refere que D. Dinis deu primeiro a vila ao concelho de Elvas por carta régia de 19 de Novembro de 1297 e que depois lhe concedeu foral em 18 de Novembro de 1309 (outros dizem que o foral lhe foi concedido em 1299).

- Refere também que terá feito doação da vila à sua filha a infanta D. Branca em 1310 e,  em 1311, a sua irmã a infanta D. Branca. Por morte desta foi senhor da vila D. Afonso Sanches, filho natural de D. Dinis e senhor de Albuquerque.

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(1) Desde as sua origens, até ao fim da Idade Média, o concelho de Campo Maior constituia apenas uma paróquia e tinha como sede a igreja matriz que fora construida dentro do castelo, com a vocação de Santa Clara que depois fora mudada para a de Nª Sr.ª da Assumpção.

Em 1574, porque a igreja estava velha, bastante arruinada e, por ser pequena, não caber nela o povo, foi decidido substituí-la por outra mais ampla e situada em lugar mais central, porque a vila tinha crescido bastante pa fora das muralhas do castelo.

Em 1645, embora a "Igreja Nova" não estivesse ainda acabada, os clérigos tiveram que vir ocupá-la para deixarem a do castelo aos frades franciscanos. Estes tiveram que sair do seu Convento de Santo António, situado no actual "Campo da Feira", que foi demolido, para serem construídas as muralhas que tornaram Campo Maior uma praça-de-guerra apta para defender a fronteira, na Guerra da Restauração da Independência que estava na eminência de começar. É interessante que, para o povo, esta nova igreja que passou a ser a sede da paróquia, sob o orago de N.ª S.rª da Expectação, foi  designada, pelas pessoas mais idosas, como a Igreja Nova, quase até finais do século XX. 

 



publicado por Francisco Galego às 00:06
Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

“Tenha ainda hoje uma assinatura digital Público sem pagar nada.”

Abro o “email” e deparo com esta frase, feita para suscitar o meu interesse e motivação. Mas, a única reacção que em mim provoca, é a tomada de consciência de que, há já bastante tempo, nada me consegue fazer voltar ao interesse pelo conteído de jornais ou revistas que se vão publicando entre nós. A frase apenas me fez tomar consciência de que sou apenas um dos muitos que se desiteressaram pelo que vai sendo publicado pela chamada comunicação social.

Eu que, durante tantos anos, fui um leitor muito regular e fiel de tantas publicações diárias ou periódicas, de carácter generalista ou especializadas em determinados temas concordantes com os meus intereses, fui-me decepcionando de tal modo que, há já bastante tempo, não compro, nem leio o que os “ditos jornalistas” vão debitando.

Por isso, a frase fez-me tomar consciência deste corte radical e levou-me a tentar analisar as suas razões. Como entendo pouco, ou quase nada, do processo que designamos como jornalismo ou comunicação social, utilizando a minha própria linguagem, cheguei às seguintes razões que exponho sem cuidar de ordem ou de nexo:

- Os jornalistas, regra geral, assumem uma atitude de maus comentadores. Não só são muito pouco independentes, como parece reduzirem o seu campo de pesquisa às conversas com os amigos e os colegas, ou seja, às “bocas”, numa ambiência de cultura light:

- Devido a esta tendência para partilharem, seguindo como rebanho uma opinião comum, forjada entre eles, partilhada entre eles, resulta que as “mensagens”, produzidas são  uma versão seleccionada para confirmar a opinião dos jornalistas, com exclusão de tudo o que as possa  contrariar;

- Desta manipulação resulta um empobrecimento da sua projecção no espaço público. As elites mais informadas preferem aceder directamente à informação em bruto, recorrendo a universos muito diversificados de opinião em rede, porque este "jornalismo de opinião" gerou um efeito de pensamento único, muito subordinado ao "politicamente correcto" ou "politicamente conveniente" para certos grupos de que depende a classe que produz as revistas e os jornais …

 



publicado por Francisco Galego às 11:06
Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

As fontes documentais escritas, mais antigas que se conhecem, apontam para que, a terra chamada Campo Maior, conquistada aos árabes pelos cristãos, tenha sido entregue em senhorio a Frei Pedro Peres, bispo de Badajoz. Em carta de “Fuero” datada de 30 de Maio de 1260, este bispo definiu-lhe as primeiras regras de organização e gestão bem como as obrigações dos moradores.

Esta carta de “FUERO CONCEDIDO AOS MORADORES DE CAMPO MAIOR...” começa por definir os uses e costunbres, bem como as obrigações. E também estabelece as penalizações a aplicar aos crimes e transgressões cometidos pelos povoadores, tanto a los que son, como a los que an da venir. O fuero refere algumas como: homicidio; furto; forçar mulher; testemunhar com falsidade; faltar ao chamado de um juiz ou se convocado ao concelho; o que romper compromisso com uma mulher, o que cavalgar cavalo alheio; o que ferir olho, braço, ou dente; o que ferir mulher alheia; o que mudar para a sua eira colheita alheia.

Tendas (lugares de venda) moinhos e fornos, de homens de Campo Maior ficam isentos  de foro., etc. 

Nestes documentos poderão ser encontradas mais informações:

- ACADEMIA DE LA HISTÓRIA. Coleccion de Privilegios y Escrituras de las Eclesias de España – Tomo III. Fol. 344

- Juan Solano de Figueroa, HISTORIA ECLESIÁSTICA DE BADAJOZ, Vol. III, 1ª parte, pág. 67 e seg.s



publicado por Francisco Galego às 00:17
Sábado, 18 de Novembro de 2017

O território onde nasceu a povoação que viria a ser a vila, sede do concelho, de Campo Maior, terá sido chamada pelos romanos, Campus Major.  Para eles  significando que se tratava de terra plana, extensa e produtiva. O seu povoamento no período da romanização terá estabelecido um conjunto de Villae, ou seja, pequenos agregados romanos que deram origem às unidades agricolas que, séculos depois, viriam a ser designadas como montes e herdades.

Esta organização ter-se-á mantido no tempo dos invasores godos e mesmo no período do domínio muçulmano, pois não são conhecidos testemunhos significativos da sua presença, neste “Campus Major” que ficava entre as cidades de Badajoz e de Elvas, que esta civilização, de origem árabe e de carácter acentuadamente urbano que, noutras regiões, deixou marcas significativas. Alguns documentos dão notícia de pequenos aldeamentos no sítio onde irá desenvolver-se a vila, em volta de um castelum de monte maiori.

Tendo este território, que compreendia os aldeamentos de Ouguela e de Campo Maior, sido conquistado no final da 2ª década do Séc. XII, pelo reino de Leão, foi o mesmo doado em senhorio ao bispo de Badajoz. O rei Afonso X de Leão e Castela que confirmou essa doação em 1257, ao conceder-lhe o primeiro foral, em 1260, conferiu-lhe o estatuto de vila, depois sede de concelho.

 A vila de Campo Maior foi integrada, formalmente, na soberania portuguesa, no reinado de D. Dinis, pelo Tratado de Alcanizes (1297), que lhe concedeu novo foral. Mas, manterá laços de dependência eclesiástica ao bispo de Badajoz que só foram cortados por D. João I, em 1392.

Com a Restauração da Independência de Portugal, em 1640, seguiu-se a guerra e o risco de invasão de Portugal pelos exércitos de Espanha.  Campo Maior tornou-se importante praça-de-guerra. Dotada de notável fortificação, integrou o arco defensivo contra invasões -  formado por Ouguela, Campo Maior, Elvas, Juromenha e Olivença – que, a partir de meados do século XVII,  desempenhou missões defensivas de grande importância: durante a “Guerra da Restauração (1640-1648)”, nos “sítios” de 1712 (Guerra da Sucessão de Espanha); 1762 (Guerra dos Sete Anos ou Guerra Fantástica); 1801 (Guerra das Laranjas); 1811 (Guerras Peninsulares-Invasões Francesas).

Em 1732, durante uma trovoada seca, um raio fez explodir a Torre de Menagem do seu castelo. A vila ficou, na sua maior parte destruída tendo morrido, ou ficado ferida, grande parte da sua população. Mas a restauração da vila e da praça-de-guerra foi muito rápida, estando concluída passados cerca de dez anos.

Com a pacificação geral da Europa, a fortificação foi desactivada em meados do século XIX.

A vila conseguiu restabelecer-se tendo como base da sua economia uma agricultura próspera devido à fertilidade e variedade dos seus campos e ao engenho das suas gentes.

Actualmente tem-se notabilizado como importante polo industrial nos ramos da torrefacção e comercialização do café e pela grande manifestação de arte popular em que se tornou essa tradição de religiosidade “sanjoanina”, denominada como Festas dos Artistas, e Festas das Flores ou Festas do Povo de Campo Maior.

 



publicado por Francisco Galego às 00:03
Quarta-feira, 15 de Novembro de 2017

Está quase terminada a colheita da azeitona neste concelho. Calcula-se em 500 mil litros a produção de azeite este ano. Isto não incluindo a grande quantidade de milhares de quilos de azeitona exportada para as fábricas de conserva da vizinha cidade de Elvas. Tal o desenvolvimento que neste concelho vai tomando esta cultura. Já estão funcionando todos os lagares de azeite que há na vila e também o lagar a vapor dos importantes proprietários Minas e Mocinha. Este lagar, inaugurado o ano passado e este ano aumentado com novos aparelhos que mais perfeito o tornaram, é o mais concorrido de fregueses visto que o precioso óleo ali é preparado com mais perfeição e as “fundas” são incomparavelmente melhores que noutros lagares.

O lagar conta com os seguintes aparelhos:

- um moinho sistema “Verachi” e outro “Balboutin” para moenda da azeitona;

- um remoedor “Valh” para bagaço;

- três prensas também sistema “Verachi” sendo duas para cinchos e outra para ceiras;

- baterias, bombas, etc.

Estes mecanismos são animados provisoriamente por uma locomóvel “Clayton” de 10 cavalos.

A elaboração diária regula por 7.800 quilos de azeitona.

O preço do azeite é de 2$200 réis por decalitro.

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NOTA: Este lagar situava-se na Rua Baluarte de Santa Rosa e pertence agora a uma empresa que se dedica à torrefacção e venda de cafés.

O jornal "O Mundo", publicava-se em Lisboa no começo do séc. XX.



publicado por Francisco Galego às 00:01
Domingo, 12 de Novembro de 2017

 

O "MUNDO" NA PROVÍNCIA (p. 4) – CAMPO MAIOR ( 1 )

 

Regressou de Lisboa o nosso amigo Sr. Manuel Jerónimo Minas, importante proprietário deste concelho e irmão do Sr. João Rodrigues Minas, actual provedor da Santa Casa da Misericórdia. Os nossos cumprimentos. (O Mundo, Lisboa, 4/11/1910)

O Mundo na Província – Campo Maior

A Comissão Municipal Administrativa, em sessão do dia 26 do corrente, aprovou as bases do contrato para a iluminação da vila a luz eléctrica. As primeiras bases do contrato foram elaboradas pelo distinto vereador João Camilo Meira, de parceria com o Sr. João Rodrigues Minas Mocinha, técnico e especialista no assunto e são: pela duração, por trinta anos; pela concessão do exclusivo da iluminação pública; pelo pagamento anual pela câmara de 1.200$000 réis para um mínimo de oitenta lâmpadas de dez velas, dois arcos voltaicos de força de 300 velas e dois de força de 500 velas; as lâmpadas acender-se-ão meia hora depois do pôr-do-sol, funcionando até à uma hora da noite, com toda a intensidade luminosa e, desta hora em diante, com metade da força, até meia hora antes do nascer do Sol; os arcos voltaicos de 300 velas funcionarão só durante 20 noites do ano, apagando à uma da noite. Os arcos voltaicos de 500 velas, quando se acenderem, apagam-se às duas.

Nota: No jornal há indicação de que, em algumas terras, como antes se usara em Campo Maior, era usado o acetileno na iluminação pública.

A câmara deliberou mandar imprimir as bases do contrato e abrir concurso que principiará a 1 de Agosto próximo e terminará a 30 de Setembro. Por alvitre do presidente, a câmara deliberou lançar na acta um voto de louvor ao vereador Meira e ao Sr. Minas

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(1) -  "O Mundo", jornal que se publicava em Lisboa, no início do Séc. XX. Um mês antes da publicação desta notícia, tinha sido implantada a República Portuguesa, pondo fim ao período de monarquia liberal que começara com a Revolução de 1820. 

 

 



publicado por Francisco Galego às 11:08
Quinta-feira, 09 de Novembro de 2017

 

Passada a euforia da implantação da República, seguiu-se a 1ª Grande Guerra (1914-1918). Portugal vivia um período agitado e de grande instabilidade social e política.

Os governos mudavam devido a uma alucinante sucessão de golpes-de-Estado, de revoltas, de desencontradas votações no parlamento.

Muito desencantados e cansados de tanta perturbação, os cidadãos, principalmente os mais jovens, procuravam formas alternativas de intervenção social desviando-se da turbulência dos acontecimentos políticos.

Um grupo de jovens campomaiorenses constituiu uma associação que significativamente adoptou o nome de Pró Terra Nostra, (“Pela Nossa Terra”) e resolveu criar o primeiro jornal de Campo Maior.

 No ano de 1921, para que servisse de base à realização de acções que promovessem o desenvolvimento de Campo Maior, apareceu "O Campomaiorense". Os seus fundadores eram jovens  que podemos considerar como pertencendo  à classe média. Dispunham de algumas bases culturais e distribuiam-se por diversas profissões e ocupações: funcionários públicos, comerciantes, empregados no comércio, agricultores, alguns estudantes e outros dedicados aos ofícios artesanais que então existiam em número significativo na vila.

Este jornal constitui uma “fonte de informação” importante para o conhecimento da sociedade campomaiorense nesse tempo. O seu Nº 1, datado de 1 de Agosto de 1921, no editorial intitulado “Caminhando...”, assinado pelo comerciante Eduardo Ramos, é assumido o compromisso de servir de elo entre os campomaiorenses residentes e que os que  vivem fora de Campo Maior. Declara tomar como lema a trilogia “Justiça; Fraternidade; Solidariedade”, portanto, com uma base ideológia de cariz acentuadamente republicano.

Depois seguem-se notícias de diversos aspectos da sociedade local e algumas colaborações  enviadas á redacção do jornal para publicação.  

Neste primeiro Jornal, no seu nº 2, publicado em 10 de Agosto de 1921, na sua 1ª página, publicou João Ruivo o seguinte texto:

(...) Foi Campo Maior uma das melhores praças de armas do Alentejo, toda murada de cortinas e de baluartes, com bons fossos, pontes levadiças e famosos lagos defensáveis, tendo prestado assinalados serviços nas guerras da independência e durante as invasões francesas.

Imposições do progresso e da estética e necessidades de desenvolvimento urbano, obrigaram o município a mandar destruir parte das suas muralhas, alindando e embelezando a vila, que hoje se acha muito transformada, possuindo largos arborizados e um pequeno jardim para recreio dos seus habitantes. (1) 

Além do Castelo, tem a vila outros edifícios notáveis, como as igrejas Matriz, de São João e do Convento dos Franciscanos, o antigo Assento Militar e os Paços do Concelho. Entre as construções particulares antigas, destacam-se o Palácio dos Carvajais e o solar da família Albuquerque Barata (2). Na parte mais moderna da vila estão a construir-se alguns palacetes e vivendas, cujo estilo denota bom gosto e espirito progressista.

As ruas da vila são amplas, bem calçadas e canalizadas, e as casas particulares, embora modestas e pouco confortáveis, são irrepreensívelmente asseadas.

Terra essencialmente agrícola, é abundante em cereais., legumes, azeite, vinho e criação de gados de todas as espécies. Começa a inclinar-se para a indústria, estando já lançados os alicerces das indústrias moageira, oleícola, cerâmica e de conservas.

Os seus habitantes são laboriosos, embora pouco ilustrados, devido à inércia dos seus governantes. Gostam de trajar bem, são um pouco altaneiros e imprevidentes, mas bondosos e de bom trato, desmentindo a fama de desordeiros que corre país fora. (...)

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(1) Referência ao processo que começou em 1908:

- Com o derrube da Porta de S. Pedro e da cortina de muralha que a ligava ao Baluarte do Príncipe, fazendo a "Abertura" da Avenida";

- Com derrube da cortina que ligava o Baluarte do Príncipe ao Baluarte da Fonte do Concelho, fazendo a "Abertura da Estrada Militar" para a Avenida e para a actual Rua dos Combatentes da Grande Guerra;

- Com o  derrube da cortina que ligava o Baluarte de S. Francisco ao Baluarte de Santa Rosa, fazendo a  "Abertura do Chafariz ou da Poças"; 

- Com o derrube de uma parte da cortina junto ao Baluarte de Santa Cruz.fazendo a "Abertura da Alagoa" .

(2) Albuquerque Barata era o pai do Visconde de Olivã, último habitante particular do actual Palácio de Olivã, popularmente designado como o Palácio do Visconde.

 



publicado por Francisco Galego às 00:04
Segunda-feira, 06 de Novembro de 2017

“A crise alimentícia faz-se sentir profundamente em Campo Maior. O alto preço do pão e do azeite está afectando a subsistência das classes trabalhadoras e, conquanto elas tenham suportado até hoje com uma coragem e abnegação dignas dos maiores louvores, contudo, as necessidades desta ordem são imperiosas e, aos poderes políticos pertence obviar a que cheguem à extremidade, quando há fáceis meios para, até certo ponto, serem remediadas.

Em Campo Maior, há ordinariamente muito trabalho agrícola; porém, sabemos que os serviços da agricultura estão sujeitos a interrupções que provêm das variações atmosféricas. Além disso, em anos de penúria cultiva-se menos que nos ordinários, em razão da deficiência de meios que, então, os agricultores sofrem.

No mês que decorre e no anterior a menor ocupação de braços tem sido assaz sensível e, tanto que os operários campestres carecem actualmente de um recurso extraordinário. Esse recurso, ou antes, remédio contra a fome, é começarem quanto antes os trabalhos das estradas concelhias (a de Ouguela e a do cemitério), cujos estudos estão feitos mas não aprovados.

Compreende-se que, noutras circunstâncias, os termos legais de aprovação dos estudos se levem a efeito com vagar, que se examinem com o mais minucioso escrúpulo os planos dos homens especiais que os confeccionaram, que na comissão de viação sejam de novo revistos; mas, em situação tão apertada, quando centenares de esfaimados estão esperando todos os dias que se dê começo a trabalhos que por algum tempo devem remediar as suas precisões, não aprovamos, não desculpamos sequer que se protraia (adie ou empate) por poucos dias o que se deve fazer quanto antes.

Sabemos que a benemérita câmara municipal, tanto por diligências oficiais, como recorrendo a particulares, se não tem descuidado deste negócio e que insta e pede sem se importar que lhe chamem importuna. Nós também pedimos, também instamos, para que se mate a fome a muita gente que está sofrendo e se vê obrigada a esmolar, indo assim agravar a subsistência diária de famílias que dão mais esmolas que podem dar.

Pedimos, pois ao nosso bom amigo, senhor director das obras públicas do distrito, pedimos à comissão de viação, pedimos ao Sr. ministro respectivo, pedimos enfim a todos que tenham acção e intervenção neste negócio, que não demorem um benefívio público com formalidades excessivas ou desnecessárias e se acuda aos pobres trabalhadores campomaiorenses o mais depressa possível.

(João Dubraz, In, Democracia Pacífica, Elvas, Nº 67, 4/3/1868)

 



publicado por Francisco Galego às 00:03
Sábado, 04 de Novembro de 2017

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Quinta-feira, 02 de Novembro de 2017

A inteligência eficaz tem, como condição básica, uma competente análise das condições, das situações e dos problemas que se nos deparam. Mas, a inteligência só se desenvolve e perdura, se fortalecida pela aquisição do conhecimento que vai estruturando a nossa cultura.

 

Uma inteligência pouco ou mal fortalecida pelo saber, definha, perde lucidez, perde capacidade de intervenção, perde competência.

Em consequência, uma inteligência, mesmo que brilhante, pode nada produzir de muito importante, se não estiver munida do saber adequado e de claro discernimento. 



publicado por Francisco Galego às 13:09
Segunda-feira, 30 de Outubro de 2017

 

Um outro grupo de jovens, quase todos ligados a famílias de grandes proprietários agrícolas, alguns com cursos superiores, tomaram o encargo de fazer sair o jornal, O Campomaiorense, começando assim a 2ª fase da sua publicação que iria durar de 1924 a 1927. Este grupo agia sob a liderança do Dr. Francisco Telo da Gama, personalidade que, durante muito tempo, marcou profundamente a vida de Campo Maior, na chefia do município, como governador civil do distrito e como membro do governo.

            A partir de certa altura, a colagem do jornal a tendências políticas que pugnavam por soluções políticas de carácter autoritário, levou o antigo grupo fundador a reagir criando um outro jornal, o – Notícias de Campo Maior – ficando assim a vila com dois jornais no período de 1926 a 1928.

Depois, seguiu-se a Ditadura Militar que resultou da vitória do golpe levado a efeito por militares em 28 de Maio de 1926. A acção inibidora da censura, a suspensão das liberdades democráticas e a saída de Campo Maior de João Ruivo, ditaram o encerramento do Notícias de Campo Maior a partir 1 de Junho de 1929.

            O Campomaiorense que já tinha suspendido a sua publicação em 14 de Abril de 1927, voltaria a publicar-se no período de 1933 a 1935, então já com um total alinhamento com o Estado Novo e com a ideologia salazarista.

 

 

 

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:13
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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