Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

No cantar as “saias” não poderiam, naturalmente, faltar as cantigas de escarnecer.

Deve dizer-se que na maior parte dos casos, estas cantigas não passavam de brejeirices, com alguma alarvidade, mas com muito pouca maldade. Procuravam brincar com as palavras e com os sentimentos de forma mais ou menos brejeira ou apenas divertida. Outras vezes, ridicularizavam situações ou realçavam defeitos ou atitudes. O objectivo, na maior parte dos casos, era mais a diversão do que a ofensa pessoal, embora esta, uma ou outra vez, também estivesse presente.

 

Quem tem olivais tem vinho

Quem tem vinha tem azeite,

Quem tem cabras tem presunto

E quem tem porcos tem leite.

 

Minha rua é pequenina,

Batida do vento norte;

O meu amor é zarolho,

Olha a minha negra sorte.

 

As meninas desta rua,

Vêm à porta espreitar;

P’ra verem se por lá passa

Quem as queira namorar.

 

Amar-te e querer-te bem,

Tudo isso eu farei,

Mas andar atrás de ti,

Isso não que é contra a lei.

 

O meu peito é uma morada,

Vem p’ra ela meu amor;

De renda não pagas nada,

‘Inda te fico em favor.

 

Mesmo agora daqui fui,

Já cá estou outra vez;

Venho saber a razão,

Do aceno que me fez.

 

O amor enquanto é novo,

Ama com todo o cuidado;

Depois de se achar servido,

Mostra cara d’enfadado.

 



publicado por alemcaia às 19:36
Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

 

         As chamadas cantigas pegadas são uma modalidade que, na sua estrutura é muito próxima do cantar ao desafio, mas envolvendo apenas um cantador. É um modo de cantar em que um cantador resolvia encadear uma série de três quadras ligadas pelo tema ou pelo mote. Neste caso, as quadras podiam ser cantadas seguidas e sem repetição de qualquer dos versos do seguinte modo: as duas primeiras, na fase em que os pares bailavam despegados; a terceira quadra era cantada na fase em que os pares se enlaçavam, também sem repetição de qualquer dos versos, servindo assim de remate:

 

1ºExemplo:

 

Eu já tive trinta amores

Mas só tu me fazes falta.

Pois daquelas que não quis,

Andam vinte e nove à malta.

 

Eu já tive trinta amores,

Já vês, d’amores não sou pobre,

P’ra te vir amar a ti,

Deixei d’amar vinte e nove.

 

Eu já tive trinta amores,

Mas nenhuma como tu,

Parece, por este andar,

Não haverá trinta e um.

 

2ºExemplo:

 

Ao primeiro beijo choraste,

Ao segundo estavas triste;

Ao terceiro já quiseste,

Ao quarto já m’o pediste.

 

Dás-me um beijo dou-te dois,

Ficas com paga dobrada;

Pois é brio de quem ama,

Pagar e não dever nada.

 

Pedi-te um beijo e m’o deste,

Quem dá um log’outro tem;

Não há ninguém que não goste

De beijar a quem quer bem.

 

3º Exemplo:

 

Todos aqui cantam saias,

Todos aqui são bairristas;

Todos aqui são amigos,

Todos aqui são artistas.

 

Todos aqui fazem versos,

Todos aqui são artistas;

Todos aqui bailam saias,

Todos aqui são bairristas.

                                                       

Todos aqui nesta terra,

Todos aqui dão nas vistas;

Todos aqui cantam saias,

Todos aqui são artistas.

 



publicado por alemcaia às 19:22
Domingo, 15 de Janeiro de 2012

A perfeição de algumas destas quadras chega a levantar a suspeita de terem uma origem mais erudita, tendo sido aproveitadas pela cultura popular. Aliás, isso acontece com certa frequência em todas as épocas e em todos os lugares. As próprias danças populares sofreram grandes influências das danças de salão, sendo por vezes versões adaptadas das danças que o povo via praticar aos senhores.

Ainda mais um desafio entre homem e mulher sobre a arte de bem cantar:

 

- Vou-me a cantar uma cantiga,

Q’inda hoje não cantei;

Quero ver se a minha fala,

Está como ontem a deixei.

 

- Tens um cantar cativante,

Mas há quem cante melhor;

Há quem cante e até encante,

Aqui em Campo Maior.

 

- Falas assim sem saberes,

O que é cantar como eu;

Tens inveja é de não teres,

Um cantar igual ao meu.

 

- Continuas toda inchada,

E da razão convencida;

Mas p’ra teres voz afinada,

Tens que treinar toda a vida.

 

 

- Não te invejo podes crer,

És vaidoso e petulante;

Minha voz com ser mulher,

Dá-te a volta num instante.

 

- Irei cantar toda a vida,

Digo-te hoje p’ra saberes;

Minha voz já era linda,

Bem antes de tu nasceres.

 

- Já cantas há tanto tempo,

Esse treino te fez bem;

Mas digo-te neste momento,

Ninguém canta como eu.

 

- Canto eu e cantas tu,

Nossa voz dá que falar;

Nós cantando somos um,

Ninguém nos ganha a cantar.

 

 



publicado por alemcaia às 19:04
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Noutras vezes, os cantadores escolhiam como tema um determinado conceito que utilizavam em cada uma das quadras que cantavam, como, por exemplo, neste caso em que a sequência das quadras está ligada pelo tema do coração e é constituído por antigas quadras que ainda hoje são cantadas:

 

- Ao meu coração chorando,

Perguntei o que sentia;

Respondeu-me soluçando,

Que já não tem alegria.

 

- O meu pobre coração,

Não tem casa anda na rua;

Não o queiras ver penar,

Faz-lhe um cantinho na tua.

 

- O meu pobre coração,

Já deita sangue pisado;

A culpa tive-a eu,

Por t’amar demasiado.

 

- Coração por coração,

Não deixes de amar o meu;

Olha que o meu coração,

Sempre foi fiel ao teu.

 

- Coração p’ra que palpitas,

Com batidas infernais;

Acaba com esta dita,

Não me faças sofrer mais.

 

- O coração mais os olhos,

São dois amigos leais;

Quando o coração está triste,

Logo os olhos dão sinais.

 

- Tudo o que é verde seca,

Em vindo o calor do Verão;

Só meu amor reverdece,

Dentro do meu coração.

 

- Sino coração d’aldeia,

Coração sino da gente;

Um a sentir quando bate,

Outro a bater quando sente.

 

- Os corações também choram,

É coisa que não sabia;

Esta noite acordei eu,

Ao pranto que o meu fazia.

                                 

- No coração duma pomba,

Nas asas da Primavera;

Quisera agora saber,

A tua intenção qual era.

 

- Se ouvires bater a chuva,

No chão da tua varanda,

Escuta, são as saudades,

Que o meu coração te manda.

 

- Meu coração bate, bate,

Nunca deixes de bater;

As tuas pancadas são,

As horas do meu viver.

 

- Tocam sinos no meu peito,

Morreu o meu coração;

Esta morte foi causada,

Pela tua ingratidão.

 

- Se soubesse quem tu eras,

Eu não te amaria, não;

Agora não há remédio,

Padece meu coração.

 

- Já te dei meu coração,

Coisa que dar não podia;

Já te dei a melhor prenda,

Que no meu peito trazia.

 



publicado por alemcaia às 18:58
Quinta-feira, 05 de Janeiro de 2012

 

Por vezes, o desafio é feito sem qualquer intenção para além de uma amável troca de cantigas entre amigos, para animação do baile e dos assistentes:

 

- Ouvi dizer Carolina,

Que me queres muito bem;

Se seres minha é a tua sina,

Não serás de mais ninguém.

 

- Vaidade, grande vaidade,

Não te falta meu amigo;

Por ti só sinto amizade,

Mais do qu’isso não consigo.

 

- Quando abres tua garganta,

Fico preso ao teu cantar;

Porque é que tanto te espanta,

O meu modo de falar?

                                 

- Todo o homem é atrevido,

E tu à regra não foges;

Além disso és convencido,

Querendo ter o que não podes.

 

- Namorar não é pecado,

Já Santo António o dizia;

Ir tentando é o meu fado,

Seja de noite ou de dia.

 

- Eu já te vou convencer,

Do contrário do que pensas;

Mais tempo não vou perder,

Não vou nas tuas conversas.

 

- Acabado este despique,

Já podemos dar as mãos;

Que em vez do amor nos fique,

Uma amizade de irmãos.



publicado por alemcaia às 18:54
Sábado, 31 de Dezembro de 2011

Uma das formas mais elaboradas do Cantar ao desafio consistia num processo de improvisação poética em que, cada um dos cantadores pegava sempre no ponto deixado pelo outro cantador. Iam assim encadeando as quadras sem se afastarem do tema principal do desafio. Se fosse bastante o engenho dos cantadores, o desafio devia ter o seu remate quando um deles voltasse ao conceito expresso na primeira quadra cantada no desafio.

 Repare-se como o exemplo que se segue ilustra o nível de lirismo poético que alcançavam algumas destas composições. Este exemplo demonstra também como, desta forma, se podia, cantando, fazer vibrantes declarações de amor. A sequência das quadras constitui um belo exemplo de “cantigas retornadas”, em que se retomam, em ordem diferente, versos da estância anterior.

O desafio decorreu entre dois jovens enamorados cujo namoro não seria bem aceite pela família da moça. Proibidos de se falarem namorando à porta ou à janela, aproveitaram o baile para trocarem juras de amor:

 

- Teu pai, tua mãe não querem,

Cara linda que eu te logre;

Queira eu e queiras tu,

Mais que o amor ninguém pode.

 

 

- ‘Inda que meu pai me mate,

Minha mãe me tire a vida,

Minha palavra está dada,

Minha alma, prometida.

 

- Tua alma prometida,

Prometida a minha mão;

‘Inda que teu pai não queira,

Tua mãe diga que não.

 

- Minha mãe diga que não,

Chovam censuras aos molhos,

Minha palavra está dada,

Juro p’la luz dos meus olhos.

 

- Esses teus olhos tão lindos,

Prendem-me de tal maneira,

Que hei-de casar contigo,

Queira o teu pai ou não queira.

 

- Queira o meu pai ou não queira,

Queira a minha mãe ou não;

Hei-de te manter bem preso,

Nas grades desta prisão.

 

- Nas grades dessa prisão,

Mas que doce o meu sofrer;

Queira a tua mãe ou não,

P’ra sempre te hei-de querer.

 

- Tu sempre me hás-de querer,

Espero que seja verdade;

Se um dia me não quiseres,

Dou-te a tua liberdade.

 

- Dás-me a minha liberdade,

Como queres que eu a queira,

Se a luz dos olhos teus

Me prende desta maneira?

 

- Prende-te dessa maneira,

Amor do meu coração;

Se a mim te prendem meus olhos,

A ti me prende a paixão.

 

- A ti te prende a paixão,

Vamos assim rematar:

Queira o teu pai ou não queira,

Havemos de nos casar.

        

 

feliz ano novo

 




 



publicado por alemcaia às 18:23
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

No segundo caso, temos um desafio entre um homem e uma mulher e os olhos constituem o motivo principal dos versos produzidos:

 

- Canta lá, ó mulher canta

E não consintas tristeza;

Afina-me essa garganta

E faz ver que és camponesa.

 

- Não canto por bem cantar,

Nem por boa fala ter;

Só canto p’ra alegrar olhos

A quem me não puder ver.

 

- Os teus olhos não são olhos,

São capelas de veludo;

Quem me dera já lograr,

Olhos, capelas e tudo.

 

- Abre os olhos, deixa ver

Por baixo dessas pestanas,

Que eu quero reconhecer

As luzes com que me enganas.

- Os teus olhos é que são

Causadores do meu desdém;

Não me deixam apanhar

Amizade a mais ninguém.

 

- Os teus olhos juvenis

Parecem duas auroras:

Dão-me luz quando sorris,

Pérolas de oiro quando choras.

 

- Da folha do alecrim,

De linda até se faz cruz;

Mais lindos são os teus olhos,

Que até de noite dão luz.

 

- Dizes que não pode haver

Olhos mais belos que os teus.

Põe a mão na consciência

E olha p’ra estes meus.

                                                       

- Não olhes p’ra mim, não olhes,

Que eu não sou o teu amor.

Eu não sou como a figueira

Que dá fruto sem ter flor.

                                                       

- Gosto muito dos teus olhos,

Gosto muito mais dos meus;

Se não fossem os meus olhos,

Não podia ver os teus.

 

- Os teus olhos das estrelas,

Pouca diferença farão;

Os teus olhos são dourados,

As estrelas d’ouro são.

                                                       

- Se tens beleza na alma,

Os teus olhos são leais,

Muito embora haja quem diga

Que os castanhos valem mais.

 

 

- Azuis, verdes ou castanhos,

Que importância tem a cor?

Os teus olhos só são belos

Se neles existe amor.

 

- Parece-me ser bem justa

Essa tua opinião:

Nada tem a cor dos olhos,

A ver com o coração.

 





publicado por alemcaia às 18:20
Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Quando os despiques punham frente a frente cantadores afamados, podiam durar horas. Formavam-se então dois partidos entre os assistentes, apoiando cada um deles o cantador da sua predilecção. No fim de cada quadra cantada, o murmúrio, de aprovação ou de crítica, sublinhava o apreço que se fazia de cada intervenção.

            O despique começava por um cantador que puxando uma cantiga para o baile de roda, lançava o desafio. Se outro respondia tínhamos a função começada e esta iria até onde chegasse a classe e a resistência dos contendores. Por vezes, um deles desistia. Se um outro tomava o seu lugar, a disputa continuava. Se ninguém levantava o repto, estava encontrado o vencedor.

 Nem sempre o bom cantador conseguia ser, simultaneamente, um bom versejador. Em contrapartida, havia também quem tivesse dom para os versos e fosse repentista a fazê-los, sendo, contudo, fraco no descante. Por isso, formavam-se parcerias que corriam os bailes, cantando um o que o outro improvisava. Esta situação ficou documentada nestas quadras cantadas num desafio em que, de forma clara, se fez a afirmação de que a parceria funcionava como uma unidade na produção e no cantar das quadras:

 

- Quem acabou de cantar,

Tem uma fina garganta;

Mas as falas não são feitas,

Por aquele que as canta.

 

- Eu mais meu camarada,

Meu camarada mais eu,

Ele está p’ra minhas falas,

P’ró cante delas estou eu.

 

            Tratando-se de quadras de improviso, logo feitas a propósito e no momento, tornava-se muito difícil conservar de memória o conteúdo total destes desafios, sobretudo quando eram extensos. Daí que pouco tenha chegado até nós do muito que, no decurso dos tempos, foi sendo produzido nestas memoráveis demonstrações de repentismo e poder de improvisão poética.

Acontecia porém que, por vezes, a perfeição formal das quadras ou o brilho das respostas que nelas se continham era tão notável, que eram conservadas na memória colectiva por muitos anos. Algumas das quadras que ainda hoje se cantam podem ter sido criadas durante sessões de cantares em desafio.

 

            De modo muito feliz, Luísa Freire, no seu livro “O Feitiço da Quadra”, conseguiu reconstituir dois exemplares notáveis destas demonstrações. Com a devida vénia, aqui se faz a sua reprodução, acrescentada de quadras que outras fontes fizeram chegar ao nosso conhecimento. No primeiro caso temos um desafio entre dois homens de diferentes gerações e é a sua diferença de idades que constitui o tema central do despique:

 

- Já cantei uma cantiga,

Com esta já lá vão duas,

Não me vou daqui embora,

Sem ouvir uma das tuas.

 

- Cantigas ao desfio,

Eu gosto de ouvir cantar;

Gente puxando a garganta,

P’ra ver onde vão parar.

 

- Só aqui vamos a ver

Quem é melhor cantador;

Cantas tu, respondo eu,

A ver quem canta melhor.

                                                                                             

- Eu sou filho do cantar,

Neto de quem canta bem;

O mestre que me ensinou,

Não ensina a mais ninguém.

 

- Cala-te aí, cantador,

Não tenhas tanta vaidade,

Pois tu não cantas melhor

Que eu cantei na mocidade.

 

- Tens orgulho e tens vaidade

Dos tempos que já lá vão.

Mas agora canto eu,

É a minha ocasião.

 

- A velho vais tu chegar

Um dia, então lembrarás

Com carinho e saudades

Do tempo deixado atrás.

 

- A idade não importa.

Ainda és bom cantador.

Nós temos boas gargantas

No nosso Campo Maior.

 

- Nem sabes quanta alegria

No meu coração puseste!

Um dia podes sentir

A alegria que me deste.





publicado por alemcaia às 18:17
Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Quando os despiques punham frente a frente cantadores afamados, podiam durar horas. Formavam-se então dois partidos entre os assistentes, apoiando cada um deles o cantador da sua predilecção. No fim de cada quadra cantada, o murmúrio, de aprovação ou de crítica, sublinhava o apreço que se fazia de cada intervenção.

            O despique começava por um cantador que puxando uma cantiga para o baile de roda, lançava o desafio. Se outro respondia tínhamos a função começada e esta iria até onde chegasse a classe e a resistência dos contendores. Por vezes, um deles desistia. Se um outro tomava o seu lugar, a disputa continuava. Se ninguém levantava o repto, estava encontrado o vencedor.

 Nem sempre o bom cantador conseguia ser, simultaneamente, um bom versejador. Em contrapartida, havia também quem tivesse dom para os versos e fosse repentista a fazê-los, sendo, contudo, fraco no descante. Por isso, formavam-se parcerias que corriam os bailes, cantando um o que o outro improvisava. Esta situação ficou documentada nestas quadras cantadas num desafio em que, de forma clara, se fez a afirmação de que a parceria funcionava como uma unidade na produção e no cantar das quadras:

 

- Quem acabou de cantar,

Tem uma fina garganta;

Mas as falas não são feitas,

Por aquele que as canta.

 

- Eu mais meu camarada,

Meu camarada mais eu,

Ele está p’ra minhas falas,

P’ró cante delas estou eu.

 

            Tratando-se de quadras de improviso, logo feitas a propósito e no momento, tornava-se muito difícil conservar de memória o conteúdo total destes desafios, sobretudo quando eram extensos. Daí que pouco tenha chegado até nós do muito que, no decurso dos tempos, foi sendo produzido nestas memoráveis demonstrações de repentismo e poder de improvisão poética.

Acontecia porém que, por vezes, a perfeição formal das quadras ou o brilho das respostas que nelas se continham era tão notável, que eram conservadas na memória colectiva por muitos anos. Algumas das quadras que ainda hoje se cantam podem ter sido criadas durante sessões de cantares em desafio.

 

            De modo muito feliz, Luísa Freire, no seu livro “O Feitiço da Quadra”, conseguiu reconstituir dois exemplares notáveis destas demonstrações. Com a devida vénia, aqui se faz a sua reprodução, acrescentada de quadras que outras fontes fizeram chegar ao nosso conhecimento. No primeiro caso temos um desafio entre dois homens de diferentes gerações e é a sua diferença de idades que constitui o tema central do despique:

 

- Já cantei uma cantiga,

Com esta já lá vão duas,

Não me vou daqui embora,

Sem ouvir uma das tuas.

 

- Cantigas ao desfio,

Eu gosto de ouvir cantar;

Gente puxando a garganta,

P’ra ver onde vão parar.

 

- Só aqui vamos a ver

Quem é melhor cantador;

Cantas tu, respondo eu,

A ver quem canta melhor.

                                                                                             

- Eu sou filho do cantar,

Neto de quem canta bem;

O mestre que me ensinou,

Não ensina a mais ninguém.

 

- Cala-te aí, cantador,

Não tenhas tanta vaidade,

Pois tu não cantas melhor

Que eu cantei na mocidade.

 

- Tens orgulho e tens vaidade

Dos tempos que já lá vão.

Mas agora canto eu,

É a minha ocasião.

 

- A velho vais tu chegar

Um dia, então lembrarás

Com carinho e saudades

Do tempo deixado atrás.

 

- A idade não importa.

Ainda és bom cantador.

Nós temos boas gargantas

No nosso Campo Maior.

 

- Nem sabes quanta alegria

No meu coração puseste!

Um dia podes sentir

A alegria que me deste.



publicado por alemcaia às 18:09
Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Outras vezes, quando razões de zanga assistiam ou por simples brincadeira, podia sair provocação agreste e rude como uma chicotada, sem cuidar de regras de boa educação. Nestes casos, vinha logo resposta a contento e começava o despique que ia da ofensa à desconsideração, até que algum dos contendores parasse ou que, se os ânimos se azedassem, tudo acabasse em grande confusão. Vejamos este exemplo constituído por quadras muito antigas:

 

Cala-te aí boca aberta,

Rodilha da chaminé;

Como não sabes cantar,

Vai-te embora do meu pé.

 

Cala-te aí boca aberta,

Gargalo dum garrafão;

Meu pai comprou umas cabras,

E tu vais ser o meu cão.

 

 

Cala-te aí boca aberta;

Rodilha da chaminé;

Se tu tiveras vergonha,

Não arrumarias pé.

 

Cala-te aí boca aberta,

Novelo de linhas finas;

Devias era servir,

De poleiro às galinhas.

 

Cala-te aí boca aberta,

Rodilha do meu palheiro;

Já vi andar o teu pai,

Às marradas c’um carneiro.

 

Cantas bem não cantas mal,

Meu cara de Belzebu;

Mascarrava a minha cara,

Se cantasse como tu.

 

As cantigas que tu cantas,

Mete-as num forno frio;

Tu só és bom a cantar,

Com um burro ao desafio.   

 

Eu subi ao cabecinho,

Para ver o sol raiar;

Não devia vir tão cedo,

P’ra t’ouvir assim zurrar.

 

Tenho dúzias de cabrestos,

Comprados na nossa feira;

P’ra encabrestar as bestas,

Que cantam dessa maneira.

 

Quem tem raiva que enraiveça,

Quem tem catarro que tussa;

Quem lhe servir na cabeça,

Que enfie esta carapuça.

 

 

Esta noite choveu neve,

Arrasaram-se os açudes;

Cala-te chibo não berres,

Cala-te burro não zurres.

 

Vai-te daqui toleirão,

Boca de almotolia;

Guardanapo d’estalagem,

Vassoura d’estrebaria

 

Cantas bem não cantas mal,

Como o sapo num alqueve;

Vai roendo esses caroços,

Té que o diabo te leve.

 

Cantas bem não cantas mal,

Como o sapo n’alagoa;

Vai roendo esses caroços,

Té que venha a palha boa.

 

Cantas bem não te desfaças,

Desse teu cantar aflito;

Pois s’os animais cantassem,

Melhor cantava o cabrito.

 

Disse o galo p’ra galinha,

Lá p’rós lados do mercado;

P’ra cantar dessa maneira,

Mais valia estares calado.

 

Os temas eram muito variados sendo certo que, tratando-se dum descante entre homem e mulher, o tema mais provável das quadras improvisadas, versaria sobre questões de amor: umas vezes de pedido de namoro, outras de declaração de paixão, havendo mesmo algumas que consistiam em ajustes de contas de desentendimentos.





publicado por alemcaia às 18:06
Terça-feira, 06 de Dezembro de 2011

O cantar à desgarrada é uma tradição de canto popular que se usou em todas as regiões do nosso país revestindo as mais variadas formas musicais: desde o fado aos cantares do Minho e dos cantares das Beiras aos do Algarve. Também no cantar de “saias” se usa a desgarrada:

 

Campo Maior que bem cantas,

As saias à desgarrada;

Ouvem-se belas gargantas,

De noite e de madrugada.

 

 

Antigamente, nos bailes de saias, eram frequentes as desgarradas, despiques, ou cantares ao desafio. Essa velha tradição tem-se vindo a desvanecer de tal modo que, hoje, só muito raramente se consegue ouvir uma boa disputa entre cantadores. Forma de cantar de improviso, só os dotados de maior repentismo e capacidade de improvisação a ela se podiam abalançar. Contudo, há algumas décadas, ainda se podia, com alguma sorte, assistir a homéricas sessões de confrontos poéticos que, em certos casos chegavam a durar horas. A assistência dividia-se no apreço por cada um dos cantadores. Algumas dessas disputas ficaram gravadas na memória da população. 

Nesses tempos, os melhores cantadores mantinham rijas confrontações poéticas, animando com o seu cantar os bailes, ao mesmo tempo que exibiam os seus dotes, tentando apurar quem tinha maior capacidade de improvisação, de repentismo e maior habilidade no versejar.

            Quando se tratava dos mais afamados, faziam-se grandes ajuntamentos que, num silêncio atento e expectante, seguiam o desenrolar da peleja.

Os pares em disputa podiam ser constituídos por dois homens, por um homem e uma mulher ou, muito raramente, por duas mulheres. As mulheres, para se darem ao respeito, só entravam nos desafios com os homens a quem as ligavam laços de afecto ou de intimidade. Por isso, se desafiadas, respondiam com o silêncio ou, cantando, rematavam a hipótese de desafio:

 

 

 

Desafio, desafio,

Desafio é p’ra quem quer,

Desafio é para os homens,

Não p’ra mim que sou mulher.

 

         Podia-se também rejeitar o repto, alegando falta de competência:

 

Desafio, desafio,

Eu não te desafiei;

Desafio é p’ra quem sabe,

Não p’ra mim que nada sei.

 

         Acontecia também serem outras as razões evocadas para não se responder ao repto lançado:

Quero cantar mas não posso,

Minha fala não me ajuda;

Morreu-me o meu pai há pouco,

Sou filho duma viúva.



 



publicado por alemcaia às 18:02
Quinta-feira, 01 de Dezembro de 2011

Quem se tenha dado ao trabalho de ler os cancioneiros populares que se têm publicado em Portugal, não pode deixar de reparar na frequência com que uma mesma cantiga aparece nas terras mais variadas, havendo por vezes grandes distâncias entre elas. Maria Arminda Zaluar Nunes, na Introdução ao “Cancioneiro Popular Português, coligido por José Leite de Vasconcelos, chama a atenção para este facto escrevendo na p. XII:

(…) é curioso observar-se como a mesma trova é cantada em numerosos locais, se bem que afastados. Isso compreende-se porque as cantigas como que voam de terra em terra.

Acontece também que aparecem quadras com o mesmo conteúdo poético, mas com formulações diferentes que lhes foram sendo dadas ao longo de um período que pode ser de mais de duzentos anos. Nestes casos optou-se pela transcrição que se apresentava como mais actualizada em relação às situações presentes e mais elaborada do ponto de vista formal.

É espantosa a ternura contida em grande parte destas pequenas composições que se transformam em “grandes” poemas de amor. A ternura que transmitem é, por vezes, tão elevada, que chega a causar espanto que tenham sido criadas e utilizadas por gente de tão pouca instrução e suportando, no dia-a-dia da vida, o pesado fardo dos trabalhos nos campos. Para além da ternura, algumas destas quadras encerram grandes pensamentos acerca do amor, da vida, da sociedade e do universo. Aqui encontramos motivo para reflexão e base para concluirmos que instrução e cultura são conceitos bem diferenciados e que podem referir realidades muito distintas. O povo pode não ser instruído em termos de educação escolar. Mas só os arrogantes se baseiam nisso para o menorizar do ponto de vista cultural. As “saias”, expressão de uma cultura popular criada e vivida pelas gentes do campo, aí estão para o demonstrar. Basta que sejam lidas com a devida atenção, de espírito aberto e sem preconceitos de qualquer espécie.

 

Se soubesses meu amor,

Como está meu coração;

Nem a noite mais escura,

Se compara em escuridão.

 

Vestida d’azul claro,

Que linda estás minha loura;

Encostada a essa ombreira,

Pareces Nossa Senhora.

 

Quando o meu amor se foi,

Sete lenços ensopei;

Ainda diz aquele ingrato,

Que por ele não chorei.

 

 

Se meu amor cá estivesse,

Que lindo seria o dia;

O meu viver era outro,

Tinha o dobro d’alegria.

 



publicado por alemcaia às 19:48
Sábado, 26 de Novembro de 2011

As quadras que expressam sentimentos de amor ou de qualquer outra forma de bem-querer, são as que melhor têm resistido ao passar do tempo. Com algum espanto, encontramos, em testemunhos muito antigos, quadras cujo tema é o amor e que ainda hoje são cantadas, mantendo toda a sua actualidade. Trata-se do tema do cantar as “saias” que mais foi cultivado ao longo de todos os tempos, porque, efectivamente, esta expressão de cultura popular, tem como objectivo maior a expressão de sentimentos através dum canto que propiciava o encontro e a comunicação entre os apaixonados. Podem variar os objectos e o tipo de sentimento: entre um homem e uma mulher; pela terra que é a nossa; por um parente muito querido. Mas, fundamentalmente, o “cantar as saias” tem servido sempre para expressar afectos e sentimentos de bem-querer.

 

Menina por ser bonita,

Não cuide que mais merece;

Quanto mais linda é a rosa,

Mais depressa desvanece.[1]

 

Já não há estrelas no céu,

Senão uma ao pé da lua;

Tenho corrido e não acho,

Cara linda como a tua.[2]

                                                       

 

Se tu me quisesses bem,

Do fundo do coração,

Já me vieras falar,

Que as noites bem grandes são.[3]

 

Hei-de amar-te que é meu gosto,

Suceda o que suceder;

Mesmo tendo uma só vida,

Por ti a quero perder.[4]

 



[1] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral, por A.T.Pires. Elvas (1902-1910). p. 141.

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 129, Elvas, 25 de Junho de 1882.

[3] Idem, nº 321, Elvas, 17 de Junho de 1883, com pequenas diferenças.

[4] Idem, nº 129, Elvas, 25 de Junho de 1882, com pequenas diferenças.



publicado por alemcaia às 19:45
Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

No que respeita à melodia, as “saias” sofreram ao longo do tempo alterações pouco significativas. Embora houvesse a preocupação de criar regularmente as chamadas modas novas, a música manteve-se estruturalmente muito semelhante.

Segundo testemunhos antigos, o descante e a música das “saias” consistiam numa toada dolente, de ritmo lento e repetitivo. Modernamente, por influência dos mass-media, que vão transformando o que era cantar e dançar de rua, em música gravada para ouvir e cantada em actuação de palco, o ritmo tem sido acelerado, adquirindo uma maior vivacidade. Também se está a verificar a tendência para associar às saias outros instrumentos, agora muito em uso, principalmente as pianolas electrónicas e as violas.

            Foi possível encontrar em livros publicados sobre este tema, ou que fazem referência às “saias” como forma de música popular para acompanhar a dança, registos em escrita musical que permitem fundamentar juízos sobre a sua evolução e estabelecer comparações com as suas características na actualidade. Por outro lado, com a ajuda amável de entendidos em música, conseguiu-se a elaboração de pautas musicais a partir de gravações de cantadores que, nos tempos actuais, se dedicam ao “cantar as saias”.



publicado por alemcaia às 19:38
Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

Desde o início dos anos cinquenta do século passado ocorreram grandes transformações, a partir da grande diáspora sofrida pelas populações dos centros rurais. A comunidade campomaiorense que, há cerca de cinquenta anos, ainda era essencialmente uma comunidade que vivia predominantemente da agricultura na qual se ocupava quase toda a sua população, tem hoje apenas uma escassa minoria dos seus habitantes ligada aos trabalhos agrícolas. Até ao fim da Segunda Grande Guerra, a maior parte dos campomaiorenses nascia, vivia e morria na sua terra. Hoje estão, em grande número, espalhados pelo vasto mundo.

Assim sendo, é muito natural que tenha surgido uma produção de quadras repassadas de saudade que têm como tema as belezas e as virtudes, reais ou imaginadas, da terra lembrada pelos que estavam longe, ou expressando a saudade dos que na terra ficavam:

 

Vila de Campo Maior,

Ela lá e eu aqui,

Quem me dera estar agora,

Na terra onde eu nasci.

                                                       

 

 

Em cada canto um amigo,

Em cada rua uma esperança;

Em cada passo que sigo,

Um sorriso de criança.

 

Campo Maior terra linda,

Campo Maior terra bela,

Há muita gente em Lisboa,

Que chora d’amores por ela.

 

De Lisboa me mandaram,

Eu p’ra Lisboa mandei;

Um ramo de violetas,

Que no meu peito guardei.

 

Para Lisboa mandei,

Quatro peras num raminho;

Como era fruta nova,

Comeram-nas p’lo caminho.

 

Ó Lisboa, ó Lisboa,

Eu também p’ra lá quero ir;

Tenho lá uma pessoa,

Que é quem me tira o dormir.

                                                       

Coitadinho de quem sai,

P’ra fora do seu país;

Em chegando a terra alheia,

Se é mestre fica aprendiz.

 



publicado por alemcaia às 19:34
Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

Alguns dos temas do “cantar as saias”, estão hoje nitidamente em desuso, sobrevivendo apenas na memória dos mais idosos. Em contrapartida, novas temáticas se foram tornando dominantes. Isso tem a ver com a evolução por que tem passado globalmente a sociedade, ou com fenómenos de mudança que afectaram, em particular, a comunidade campomaiorense.

É natural que assim tenha acontecido pois, por exemplo, dificilmente as quadras que antigamente faziam referência a tarefas do trabalho nos campos poderiam sobreviver num tempo em que apenas uma escassa minoria da população local se dedica ao trabalho agrícola e em que muitas das antigas tarefas desapareceram, devido a novas tecnologias que mudaram completamente as práticas da agricultura. Duvido que termos como alqueivar, sachar ou escardar signifiquem hoje alguma coisa para a maioria dos jovens campomaiorenses.

Algumas das quadras compostas de improviso em cantares de desafio, notáveis pela sua beleza ou pela maneira como retratam determinados sentimentos ou situações, são as de mais antiga composição. Algumas dessas quadras são ainda hoje cantadas. Pela mesma razão, é também muito natural que as cantigas de enamoramento, que ainda estão muito presentes no actual “cantar de saias”, incluam um número considerável de quadras muito antigas pois elas falam dos amores e dos encantos que os amadores encontram nos seus amados, temas eternos de toda a poesia.

Contudo, essa temática tem vindo a perder importância, na medida em que essas formas de descante deixaram de ter a função social de servirem de meio de comunicação nos namoros proibidos, reprimidos ou forçados a grande distanciação que, noutros tempos, caracterizava as formas de namorar à porta ou à janela, sempre sob a apertada vigilância das mães e a fingida interdição dos pais.

Hoje, com a liberalização das relações entre os jovens de ambos os sexos, a quadra deixou de ter a função de recado, funcionando apenas como manifestação de bairrismo, ou como simples pretexto de diversão. Apesar disso, talvez porque a capacidade criativa dos autores aumente com o seu grau de instrução, aparecem hoje novas quadras de amor de grande perfeição formal e de grande inspiração poética.



publicado por alemcaia às 19:32
Domingo, 06 de Novembro de 2011

No Alentejo, os cantos destacaram-se sempre como notáveis manifestações da cultura popular: no Baixo Alentejo os cantos corais; na maior parte do Alto Alentejo, eram cantadas e bailadas as “saias”.

É um facto que, como escreveu Maria Arminda Zaluar Nunes, “ a cada passo, no desenrolar da nossa literatura, interpenetram-se o lirismo culto e o popular”. Com relativa frequência aparecem como quadras de “saias”, algumas que podemos identificar pelo autor. Ainda com mais frequência, se nos coloca a questão de entre as quadras de autores, mesmo de autores notáveis, e as quadras populares, não ser fácil decidir sobre quais apresentam maior perfeição formal e maior riqueza de conceitos.

É uma realidade incontestável que as quadras do “cantar as saias” se foram tornando mais letradas, aproximando-se, na forma e na linguagem, da literatura escrita. O facto de isto acontecer não deve ser tomado como uma prova de que se estão a tornar menos populares, mas porque o povo é uma realidade dinâmica que está em constante transformação. Daí resulta que a cultura que ele produz e que ele preserva, se vai mudando na medida em que mudam as condições e os protagonistas que integram o povo produtor dessa mesma cultura.

A cultura popular, enquanto viva, é sujeito activo duma história. Só quando morre se torna objecto estático duma análise meramente histórica. Nesta perspectiva, não deve ser motivo de reparo e de estranheza que, nas manifestações de cultura popular que mantêm alguma actualidade, se note uma evolução, quer formal, quer de conteúdo, nas composições que são feitas ou usadas no presente. Isso não significa degenerescência ou adulteração. Significa apenas que essas manifestações culturais estão vivas e a vida implica mudança.

A elevação do nível social, económico e cultural da população é uma consequência da democratização que implica acesso generalizado a níveis de escolarização cada vez mais elevados. Os grandes meios de comunicação contribuem também para quebrar o isolamento, disseminando a informação e o conhecimento. Só de uma perspectiva elitista poderemos desejar que o povo mantenha sem mudança as suas manifestações culturais. Porque isso não significaria uma maior “pureza” ou autenticidade. Significaria, pelo contrário, atraso e estagnação no seu desenvolvimento, com as consequências inevitáveis para as suas condições de vida. Os pobrezinhos simples e ignorantes só são felizes na lógica dos que não são sentem nas suas vidas os efeitos amargos que toda a pobreza implica.

           



publicado por alemcaia às 19:22
Terça-feira, 01 de Novembro de 2011

As “saias”, como forma de cultura popular, expressavam o pensar e o sentir de comunidades que, ainda não há muito tempo, viviam em íntimo contacto com a natureza.

Até há cerca de meio século, a população do Alentejo, na sua grande maioria ligada aos trabalhos agrícolas, vivia em comunidades muito isoladas e muito autónomas. As dificuldades dos transportes, a ausência de estradas capazes e de outros meios de comunicação, o povoamento escasso e muito concentrado, constituíam factores que geravam o grande isolamento das povoações. Nestas condições, as tradições mantinham-se e propiciavam o desenvolvimento de formas próprias de comportamento colectivo. No “cantar as saias”, com as suas ironias, os seus sarcasmos e as suas sentenças singelas, podemos encontrar a expressão da moralidade, da mundividência, das concepções religiosas, dos sentimentos de mágoa e de revolta ou dos afectos da gente simples que vivia nesses universos quase fechados que eram as cidades, vilas e aldeias alentejanas até à primeira metade do século XX.

As “saias” foram uma expressão cultural colectivamente criada e perpetuada por comunidades rurais. O acentuado carácter de produção colectiva não excluía, contudo, que as cantadeiras e os cantadores mais afamados, construíssem e conservassem o seu próprio repertório, ao qual iam acrescentando novas quadras criadas pelo engenho da sua inspiração.

O gosto popular foi esquecendo as menos apreciadas, ou porque eram vulgares, ou porque não eram perfeitas na sua construção. As outras, as que caíam fundo no gosto colectivo, eram repetidas até à exaustão e, assim, foram conservadas ao longo do tempo, passando de geração em geração. Ainda hoje, em Campo Maior, ouvimos cantar – nas arruadas dos grupos que se formam de modo mais ou menos espontâneo e nos bailes de roda que ocupam os cruzamentos de ruas – quadras que, com alguma surpresa, podemos encontrar em documentos escritos há mais de cem anos. Essas quadras constituem autênticas relíquias desta velha tradição. Muitas delas conservaram-se sem modificação da sua forma original. Outras foram sendo adaptadas às novas condições que se foram gerando na sociedade local.

Há quadras que se conservaram na mesma família atravessando sucessivas gerações de cantadores. Mas a inovação é constante como é próprio das manifestações de cultura popular que se mantêm vivas. E as “saias” são, em Campo Maior, tradição e vivência actual, ainda muito presente na vida desta comunidade alentejana.

Em Campo Maior poucos serão os que as conseguem cantar de forma notável. Mas, praticamente todos os campomaiorenses são capazes de as trautear. Elas fazem parte da sua cultura, pois cresceram a ouvi-las e, de forma natural, foram-nas memorizando. A maioria dos campomaiorenses sabe de cor, pelo menos algumas das quadras mais frequentemente cantadas. Aliás, esta situação foi bem retratada pelo inspirado canto de anónimos cantadores campomaiorenses, há mais de cem anos:

Isto do cantar é veia,

Que Deus deu às criaturas;

Quem não sabe tatareia, [1]

Com’os cegos às escuras.[2]

 

Todos aqui fazem versos,

Todos aqui são artistas;

Todos aqui cantam saias,

Todos aqui são bairristas.

 



[1]  Tatareia  - de tátaro, gago, que fala com dificuldade.

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 251, Elvas, 26 de Agosto de 1883, recolha de A. T. Pires.



publicado por alemcaia às 19:16
Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

Água medicinal


 

“Existe nos arrabaldes da Praça de Ouguela uma antiquíssima fonte, cuja água mineral é muito útil para expulsar os vermes, que vulgarmente lhe chamam lombrigas e que, antigamente, até tinha a virtude de extrair a solitária.

Esta água ainda hoje é procurada e conduzida para Lisboa, Madrid e para outras diversas povoações tanto de Portugal como de Castela. Mas a fonte está em estado de ruína e de dia para dia cada vez mais; e talvez haja séculos que não sejam consertados os seus canos, o que concorre para que as águas das chuvas e de nascentes próximos se introduzam nos mesmos canos e façam com que uma água tão útil seja alterada. Seguramente que, causaria muito melhor efeito, se se explorassem o seus canos até ao nascente.

Os dignos camaristas deste concelho, ainda que tenham grandes desejos de mandarem fazer melhoramentos a esta fonte, não têm meios, por serem as rendas do concelho muito diminutas. Assim, compete ao governo de Sua Majestade mandar fazer esta exploração e incumbir a peritos competentes que analisem a água do seu nascente.

A Fonte da Graça é bem digna de análise e reparos, pois água que tenha tais virtudes não nos consta que haja outra em Portugal.

Temos confiança que o excelentíssimo ministro das obras públicas nos há-de atender.

Manuel Gama Lobo

In, A VOZ DO ALEMTEJO , Nº 4 (2º Ano)      ELVAS, 4ª – FEIRA  3/10/1860

 

 



publicado por alemcaia às 16:12
Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

 

“Foi conquistada aos mouros esta povoação pelos Peres de Badajoz, em 1219; estes a deram à Igreja de Santa Maria do Castelo da mesma cidade, para sua fábrica, sendo bispo daquela catedral D. Pedro Peres, o qual lhe deu por armas a imagem de Nª Sr.ª com um cordeiro e um letreiro circunscrito que dizia – Sigillum Capituli Pacencis.

Foi no reinado de el-rei D. Dinis que veio a pertencer a Portugal. O qual lhe deu, entre outros privilégios, o foral de vila …

As actuais armas de Campo Maior são uma imagem de S. João Baptista. Que se vê no estandarte da câmara municipal desta vila; é provável que fossem adoptadas estas pelos anos de 1521 a 1522, em razão (segundo se lê na constituição do bispado de Elvas) de livrar S. João Baptista esta povoação do contágio da peste, que durou pelo espaço de dois anos, refugiando-se os seus habitantes para um sítio a três quartos de légua da vila, onde formaram choças para viverem, cujo sítio hoje conserva o mesmo nome.

 

Manuel da Gama Lobo

Campo Maior, 8 de Fevereiro de 1860

 

In, A VOZ DO ALEMTEJO –  ELVAS, 4ª – FEIRA , 4/4/1860       Número16



publicado por alemcaia às 13:59
Domingo, 16 de Outubro de 2011

Do nosso correspondente de Campo Maior:

 

“O reverendo padre José António Saquette não faltava um só dia a ir cumprir os actos religiosos, na colegiada em que serviu por mais de cinquenta anos; faltando pois a comparecer na igreja nos dias 11 e 12 dos mês corrente, os sacerdotes seus colegas, se admiraram e, por isso, foram á porta dele que acharam fechada e, em seguida, recorreram á autoridade competente para judicialmente se lhe abrisse a porta. Encontraram! … Oh! Que horror! … Um cadáver assentado numa cadeira, junto a uma mesa, na acção de estar ceando. Estava o padre Saquette barbaramente assassinado com dezassete feridas feitas com vários instrumentos e uma, que tinha na testa, demonstrava ter sido feita com um machado. O padre não tinha criado, nem criada. Vivia só. Tinha fama de ter dinheiro e, além do seu, era depositário de algum das diversas confrarias a que pertencia e também de adornos de imagens, todos de prata e de valor. As autoridades têm feito as pesquisas possíveis para serem descobertos os assassinos. Campo Maior está aterrado, pois os roubos têm sido frequentes, sendo preciso estabelecer-se uma ronda nocturna, a quem alguns proprietários pagam, a qual alguma coisa tem evitado, mas não tudo, como se está vendo.”

 

(No mesmo Noticiário, um pouco mais adiante)

 

Homicidas

            “Há dias entraram nas cadeias desta cidade (Elvas) três indivíduos de Campo Maior, por serem acusados de terem assassinado o padre Saquette daquela vila. Um deles era regedor de uma das freguesias de Campo Maior!

            Quiséramos que o processo decorresse com brevidade, como quiséramos ver punidos com o rigor das leis os perpetradores de tão atroz delito. Os castigos produzem tanto maior efeito quanto mais recente está o crime que os justifica.”

 

In, A VOZ DO ALEMTEJO –  ELVAS, 5ª – FEIRA , 15/2/1860       Número 9



publicado por alemcaia às 18:27
Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

Passámo a época das vindimas e estamos no início de nova produção vinícola.

 O vinho é uma das mais antigas produções do nosso território. Foram os romanos que o introduziram associado à produção dos cereais e do azeite. Estes três produtos agrícolas compunham a trilogia básica de sustentação para as populações romanizadas. A pecuária, sobretudo suínos e ovinos, eram as produções complementares para o abastecimento da carne, do leite e da lã.

Mas o vinho foi sempre considerado uma produção de excelência. Na Idade Média era tomado como complemento alimentar de grande importância e eram-lhe atribuídos efeitos terapêuticos no ataque a muitas maleitas. Nos Descobrimentos Marítimos, os navegadores perceberam que o vinho era o principal antídoto para o terrível escorbuto que resultava de uma alimentação desvitaminada por não poderem ingerir produtos frescos como frutas e vegetais, durante as longas viagens sem se aproximarem de terra.

 

O vinho foi sempre produzido em particamente todas as regiões do nosso país. Mas, no Alentejo, até há pouco tempo, a vinha ou bacelo aparecia associada ao olival. Com o alastramento da filoxera, a vinha sofreu forte redução na segunda metade do século XIX.

Actualmente, o vinho pode ser considerado produto de destaque da nossa produção agrícola por três ordens de razões: pela quantidade, pela variedade e pela excelência da sua qualidade. São portugueses alguns dos vinhos mais famosos do mundo.

 

Para ficarmos como uma noção da projecção dos vinhos portugueses, consideremos os seguintes dados:

- Em 1756 foi criada a Região Demarcada do Douro, primeira região vitivinícola a ser demarcada em todo o mundo. Governava em Portugal o Senhor Marquês de Pombal, em nome de Sua Majestade, D. José, soberano absoluto do Reino de Portugal e dos Algarves d’aquém e d’além-mar;

- No ano de 2010 foram vendidos 86 milhões de litros de vinho do Porto, tendo sido facturados dois milhões e meio de euros na exportação de vinho do Porto para o Brasil e o aumento das exportações de porto nesse ano foi de cerca de 3% o que correspondeu a 370 milhões de euros;

- A venda de vinho da Madeira no primeiro semestre de 2011 aumentou 5% e a venda total deste vinho para o estrangeiro atingiu a soma de 6.750 milhões de euros.

 

Mas, porque as condições climáticas não foram as mais favoráveis, espera-se uma redução de 30% na produção de vinho na Região Demarcada do Douro.

Por outro lado, há problemas difíceis de compreender no que respeita à produção do vinho: os agricultores queixam-se de uma sufocante falta de apoios e de se verem coagidos a vender a sua produção a preços muito baixos.

Coisas deste modo português de complicar em vez de facilitar, ou malhas que o “cego” capitalismo tece?

 

(Fonte de dados; DN, 2/10/11)



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publicado por alemcaia às 21:39
Quinta-feira, 06 de Outubro de 2011

Com a criação do 2º modelo a que podemos chamar “das flores de papel”, as festas que já tinham sido oficialmente chamadas de “Festas em Honra de São João Baptista” e de “Festas do Povo”, embora o povo insistisse em chamar-lhe “Festas dos Artistas”, as festas de Campo Maior começaram a ser conhecidas como “Festas da Flores”.

Porém, devido a factores políticos e sociais que provocaram grandes mudanças na sociedade, as “festas” conheceram um período de apagamento não se tendo realizado entre os anos de 1972 e 1982.

Desde início dos anos oitenta do século passado, as “Festas” regressaram mas com tal dimensão e fulgor que alguns designam este novo período como o do “gigantismo das Festas do Povo”.

Por um lado, a decoração das ruas e largos tornou-se cada vez mais elaborada. Por outro lado, a área ornamentada foi-se estendendo para novas zonas urbanizadas. Estes dois factores associados atraíram cada vez mais visitantes.

Um escritor regional traduziu esta nova mudança chamando significativamente a 1985 o “ano das multidões” e a 1989 o “ano do milhão”, tal foi a afluência de visitantes que se então se verificou.

Este “gigantismo” correspondeu a um maior nível de exigência e gerou a necessidade de criar um novo modelo que adaptasse as “Festas” às suas novas condições.

As “Festas do Povo de Campo Maior” encontram-se desde então numa situação dilemática:

- Para responderem a novas necessidades exigem Inovação;

- Para não se descaracterizarem, têm de preservar a Tradição.

Fundamentalmente, o dilema consiste em:

Como inovar mantendo a tradição?

A nível da inovação urge encontrar um modelo de gestão que consiga estruturar uma equipa que conceba, desenvolva e avalie um projecto adaptado às novas circunstâncias. Esta necessidade já se manifestou na criação da Associação das Festas de Campo Maior em 1994.

A nível da produção, torna-se difícil conciliar alguma “profissionalização” sem com isso afectar a imprescindível participação activa e empenhada da população.

Como a necessidade é mestra de engenho, tenhamos confiança de que iremos encontrar as melhores soluções.

 

 



publicado por alemcaia às 19:21
Sábado, 01 de Outubro de 2011

As “Festas do Povo” têm-se desenvolvido ao longo de mais de um século em várias etapas que correspondem a sucessivas adaptações às mudanças políticas e sociológicas por que foram passando o país e vila de Campo Maior. Isto sem falar das suas raízes, mais remotas, no início do século XVIII, em que a “Festa” não passava de uma celebração religiosa em honra de S. João Baptista e que tinha lugar no dia 28 de Outubro de cada ano.

Contudo, foi em 1893 que surgiu o modelo que iniciaria o processo que verdadeiramente originou as “Festas” que conhecemos na actualidade. Nesse ano surgiu o primeiro modelo que iria perdurar até meados do século passado e que consistia fundamentalmente em ornamentar os espaços públicos com ramos, com pequenas lamparinas de azeite, com balões de papel para protecção das velas de cera para iluminar as ruas à noite. Os mais abastados, tinham por hábito ornamentar e iluminar os átrios das suas casas que mostravam, mantendo abertas as portas e as janelas. Alguns artesãos construíam habilidosos engenhos ou interessantes cenários que exibiam nos largos ou em frente às suas casas.

 Neste primeiro modelo, as “Festas” consistiam em missa solene, procissão, mastros enramados, touradas, arruadas e concertos pelas bandas, iluminações nocturnas, cantares e bailes de roda.

Nos anos trinta e quarenta do século XX, começaram a aparecer as ornamentações de papel. Primeiro muito timidamente, consistiam em bandeirolas e franjas a ligar os mastros, mas ainda sem flores de papel.

O modelo a que poderemos chamar “das flores de papel”, só surgiu no início dos anos cinquenta. Concretamente foi nas “Festas” de 1952 e 1953 que apareceram as primeiras ruas que fizeram das flores o elemento principal da sua ornamentação. Os mais velhos lembrar-se-ão das “trapaças”, flores muito simples e singelas que substituíram as franjas e as bandeirolas na formação dos tectos e dos cadeados que substituíram os festões em ramagem de bucho.

Foi nesses anos que começou uma nova evolução que não parou até aos dias actuais.

 



publicado por alemcaia às 18:08
Domingo, 25 de Setembro de 2011

Feira d’Elvas, Feira d’Elvas,

Feira d’Elvas da cidade;

Quem me dera estar bailando,

No Senhor da Piedade.

 

Daqui p’ra cidade d’Elvas,

São três léguas, nada mais;

Ai que estrada tão comprida,

Tão seguida dos meus ais.

 

Daqui pr’a cidade d’Elvas,

Tudo é caminho chão;

Tudo são cravos e rosas,

Dispostos p’la minha mão.

 

Já Elvas não é cidade,

Nem vila lhe chamarão;

Já os Arcos d’Amoreira,

Deram consigo no chão

 

Belos Arcos d’Amoreira

Foram feitos sem ventura;

Por baixo estrada real,

Caminho pr’a sepultura

 

Também neste, como nos outros tipos de cantigas de “saias”, não podiam faltar as cantigas de escarnecer:

 

Eu hei-de ir à Feira d’Elvas,

No carro do João Vieira;

C’uma roda de toucinho

E outra roda de farinheira.

 

Caminho da Feira d’Elvas,

Fica o monte dos Judeus;

Se encontrares o meu rapaz,

Dá-lhe lá recados meus.

 

 

 

 

 

 

                                     

 

           



publicado por alemcaia às 19:07
Sábado, 24 de Setembro de 2011

As festas do São Mateus,

São as festas da cidade;

Quem me dera andar bailando,

No Senhor da Piedade.

 

Já perdi o norte à terra,

No caminho da cidade;

Já nem sei p’ra onde fica,

O Senhor da Piedade.

 

Que o Senhor da Piedade,

Tenha por nós compaixão;

E nos dê por caridade,

Um ano farto de pão.

 

O Senhor da Piedade,

Tem vinte e quatro janelas;

Quem me dera ser pombinha,

Para pousar numa delas.

 

Ó Senhor da Piedade,

Na vossa capela o digo;

Já cá não venho outro ano,

Sem trazer o meu marido.

 

Ao Senhor da Piedade,

P’ro ano vou outra vez;

Quero ir agradecer-lhe,

O milagre que me fez.

 

Ao Senhor da Piedade,

Quero este ano lá ir;

Eu não lhe vou levar nada,

E nada lhe vou pedir.

 

Zanguei-me com meu amor,

Já se acabou a amizade;

À noite cantei melhor,

No Senhor da Piedade.

 

O Senhor da Piedade,

Não está em casa foi fora;

Foi visitar os enfermos,

Que estão na última hora.

 

O Senhor da Piedade,

Tem uma prenda de valia;

Uma fonte de repuxo,

Com pedra de cantaria.

 

No Senhor da Piedade,

Muita coisa lá se faz;

Uns arranjam rapariga,

Outras ficam sem rapaz.

 



publicado por alemcaia às 18:57
Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011

A feira de São Mateus, atraindo gente de todo o Alto Alentejo, tornou-se ponto de encontro das populações que ali acorriam. Por esta razão, as “saias”, cantadas e dançadas por toda esta região no século XIX, tinham ali o seu ponto nuclear de trocas e de irradiação. Em cada terra iam-se preparando ao longo do ano as cantigas e as toadas ou modas que se iriam exibir no São Mateus. Em contrapartida, quando regressavam às suas terras, levavam consigo os sons e as palavras que tinham ouvido nos bailes da romaria.

 

O São Mateus tinha tal efeito mobilizador sobre as gentes de Campo Maior que mesmo os que a Elvas não se podiam deslocar, o celebravam com bailes e arruadas pelas ruas da vila, nos dias da sua celebração.

 

Se não fores ao São Mateus,

Havemos de combinar;

P’ra andarmos aqui na vila,

A noite toda a balhar.

 

Os campomaiorenses tornavam-se notados quer pelo número dos que acorriam à Feira do São Mateus, quer pela qualidade das suas intervenções nos bailes de roda em que se cantavam e dançavam as “saias”, como está documentado nas seguintes quadras:

 

Se eu for ao São Mateus,

Irei balhar c’o meu par;

Mulher que se sabe amada,

Está mais disposta a cantar.

 

Eu quero ir ao São Mateus,

Só para te ouvir cantar;

Não vou lá com outro fim,

Estou velho p’ra namorar.

 

As festas do São Mateus,

São as festas da cidade;

Quem me dera andar bailando,

No Senhor da Piedade.

 

Eu hei-de ir ao São Mateus,

P’ro ano se Deus quiser;

Este ano fui menina,

Pró ano volto mulher.

 

A Feira de São Mateus,

É feira de arraiais,

Eu não tenho rapariga,

Divirto-me com as dos mais.

 

Arraiais de São Mateus,

Vão ganhões e vão malteses;

Adeus, meu amor adeus,

Até d’hoje a doze meses.

 

São Mateus é romaria,

Como outra não há outra igual;

Fica à frente de todas,

Neste nosso Portugal.

 

Eu vou sempre ao São Mateus,

E nunca deixarei de ir;

Ainda que lá dos céus,

Estejam pedras a cair.

 

Meu bem vem cantar comigo.

Na Feira do São Mateus;

Cantigas de amor sentido,

São como preces aos céus.

 



publicado por alemcaia às 18:25
Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

Noutros tempos este grande acontecimento anual, dava lugar a um intenso convívio pois, os que vinham de fora, deslocavam-se em carroças ditas de canudo por serem cobertas por uma protecção de forma cilíndrica, formada por uma estrutura de cana, coberta de uma tela de pano encerado, que protegia os passageiros da chuva e do sol. Com essas carroças, autênticos antepassados das actuais tendas e roulottes, formava-se um vasto acampamento no qual permaneciam, em alegre convívio, pessoas das mais variadas proveniências, algumas por cerca de uma semana. Aí se cozinhava e comia, aí se dormia e aí se cantava e dançava, sobretudo nas madrugadas, pois os bailes só podiam funcionar bem depois quando se acalmava a barafunda da feira e se calava a algazarra dos tendeiros e das potentes aparelhagens sonoras dos circos e carrosséis.

O São Mateus de Elvas era até meados do século passado, uma das maiores festividades que os campomaiorenses celebravam. Poupava-se durante meses para se pode ir até à Fêra d’Elvas por volta de 20 de Setembro.

Só os mais pobres, por falta de recursos, e os que cumpriam resguardo por luto ou por doença, ficavam. As carroças partiam uns dias antes ajoujadas de gente, de galinhas, de cabazes de comidas e de doçarias confeccionadas para a ocasião. Quem mais depressa chegasse, melhor lugar podia escolher para acampar nos olivais em volta do parque em que estaria montada a feira.

 Havia anos, principalmente os mais favoráveis para a agricultura e em que o clima em Setembro era ainda favorável, que Campo Maior quase se despovoava nos dias do São Mateus. Quem não podia ir de carroça, em caravana, ia a pé. Uma manta chegava para aconchego. Quanto ao resto, desde que houvesse dinheiro para a pinga e para o petisco, já se passava a contento.

Procuravam, os de cada terra, ficar juntos para melhor conviverem. Aliás, a feira era o pretexto para o que mais importava: o convívio que se ia gozar durante os dias que a feira durava. O São Mateus servia de pretexto para as parcas férias de que os menos ricos e os remediados podiam desfrutar.

Armados os acampamentos, gozava-se do descanso, da boa comida, da alegre convivência que a ocasião propiciava. De dia dormia-se muito e até tarde, por força de alguns excessos de bebida e porque as noites se prolongavam até de madrugada.

            As noites eram para a maioria destes romeiros o melhor que a festa propiciava. Formavam-se grandes bailes de roda animados pelo cantar e dançar das “saias”. Havia disputas assanhadas, muitas vezes entre grupos de terras diferentes. Surgiam a “modas novas”. Quadras engenhosamente elaboradas ao longo do ano encontravam ali o terreiro adequado para a sua pública exibição.

Arranjavam-se e desfaziam-se namoros. De vez em quando, uma ou outra rixa ensombrava a convivência por razões de exacerbado bairrismo, por melindres, ou por imponderadas ofensas à honra ou à dignidade dos presentes.

 

 



publicado por alemcaia às 18:15
Domingo, 18 de Setembro de 2011

Tempos houve em que cada povoação tinha as suas próprias festas e romarias. Mas, algumas delas, por motivos religiosos, ou pelo brilho das suas realizações, atraíam gente de outras terras, tornando-se famosas como locais de trocas, de diversão e de peregrinação.

No Alto Alentejo, sobressaía entre todas a Feira de São Mateus, em Elvas. A Feira de São Mateus remonta ao século XVI pois, segundo os investigadores, terá começado a funcionar entre 1525 e 1574. Cerca de duzentos anos mais tarde, veio associar-se-lhe uma peregrinação que, a partir de 1737, se começou a fazer no sítio onde se construiu o santuário do Senhor Jesus da Piedade. Tanto a feira como a romaria ganharam grande importância entre as gentes do Alto Alentejo, tanto mais que a sua realização, coincidindo com o equinócio do Outono, marcava o período em que se dava por encerrado um ano agrícola e se começavam a tomar as disposições para o arranque do ano agrícola que se ia seguir.

As pessoas, em grande parte as que estavam mais ligadas ao trabalho nos campos – aproveitando a romaria pela devoção, e a Feira de São Mateus por ser local de trocas muito necessárias às actividades agrícolas –, deslocavam-se a Elvas para aí permanecerem durante os três dias que durava o evento. Os transportes eram, nesses tempos, difíceis e lentos. Em volta do terreno da feira, formavam-se grandes acampamentos de gente vinda de quase todas as terras desta região.

Para além da grande diversidade de gentes que acorria a este evento, alguns vindo de terras bem distantes, é interessante constatar que, entre essas terras, tomavam relevo as gentes de Olivença, o que indica que eram ainda muito fortes os laços culturais que ligavam os oliventinos a Portugal.

A Feira de São Mateus em Elvas e a Romaria ao Senhor da Piedade tiveram o seu período de maior esplendor entre meados do século XIX e meados do Século XX.



publicado por alemcaia às 17:57
Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

Em mais de cem anos as festas realizaram-se 35 vezes. Nos primeiros cinquenta anos da sua existência, mantiveram-se com um expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.

            Depois da Segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com alguma projecção mesmo para lá da fronteira.

            Aproveitando a tendência para a globalização propiciada pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações, tornaram-se um fenómeno significativo da massificada cultura popular, lugar de grande romaria apesar de não estar ligado a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

            O desenvolvimento da economia local, mais uma vez devido ao efeito de fronteira com a torrefacção de cafés, constituiu a base de sustentação. A criatividade da população radicada numa tradição secular, criou o milagre destas festas que, apesar de muito copiadas, ainda não foram igualadas.

            Mas, como irão sobreviver as Festas se são tantas as mudanças e tão profundas as transformações que se estão a verificar?

 Como todos os fenómenos humanos, as Festas de Campo Maior vão de ter de evoluir adaptando-se a novas condições para garantirem a sua sobrevivência. Nota-se, neste tempo que vivemos, uma procura ainda imprecisa de novas soluções. Serão as mais adequadas?

            Do acerto das soluções e dos caminhos que se escolherem dependerá o seu direito a perdurarem ou a sentença da sua extinção. A lei da vida e da história não deixa lugar para as inadaptações.

            É nosso desejo e nossa fé que haja um futuro ainda mais glorioso para as Festas do Povo de Campo Maior.

 

(In, Francisco Pereira Galego, Campo Maior - Cantar e Bailar as Saias
 



publicado por alemcaia às 10:29
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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