Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

NA APANHA DA AZEITONA ( V )

 

A oliveira se queixa,

E queixa-se com razão;

Pois lhe colhem a azeitona,

Deitando-lhe a rama ao chão.

 

Os olhos do meu amor,

São duas azeitoninhas;

Fechados são dois botões,

Abertos, duas rosinhas.[1]

 

Apanhem a azeitona,

Virados p’ro vento norte;

Que o dinheiro do patrão,

Só se ganha desta sorte.[2]

 

Já se acabou a apanha,

Já se ganhou o dinheiro;

Dou vivas ao nosso rancho,

E também ao manajeiro.

 

Já se acabou a azeitona,

Já se acabou já lá vai;

Viva o nosso manajeiro

E o dono dos olivais.

 

Vimos fartos de cantar,

Já não estamos mais p’ra isso;

A não ser que o nosso amo,

Nos dê pão, vinho e chouriço.

                                                       

Oliveira não te seques,

Que hás-de vir a juramento;

Debaixo da tua rama,

Se tratou meu casamento.[3]

 



[1] Idem, nº 439, Elvas, 28 de Julho de 1886.

[2] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A.T.Pires. Elvas (1902-1910), p. 156.

[3] Idem, nº 311, Elvas, 1 de Maio de 1884.



publicado por alemcaia às 16:45
Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

 

NA APANHA DA AZEITONA ( IV )

 

Azeitona miudinha,

Vai toda para o lagar;

Toda a moça que é baixinha,

É mais firme no amar.

                                                       

Oliveiras, oliveiras,

Tudo aqui são olivais;

Por muito que tu me queiras,

Eu’inda te quero mais.

 

A azeitona é um segredo,

Com o caroço fechado;

Anda amor não tenhas medo,

Qu’estarei sempre a teu lado.

 

A azeitona é um segredo,

Com o caroço escondido;

Todos sabem quem eu amo,

Ninguém sabe o meu sentido.

 

A azeitona já está preta,

Já se pode apanhar;

Desde a hora em que te vi,

Não parei de t’adorar.

 

Apanhem a azeitona,

Que está caída no chão;

Ainda que miudinha,

Sempre se come com pão.[1]

 

Varejem, varejadores,

Apanhem, apanhadeiras;

Apanhem baguinhos d’ouro,

Que caem das oliveiras.[2]

 

 



[1] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral, por A.T.Pires. Elvas (1902-1910), p. 156

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 570, Elvas, 11 de Maio de 1890.

 

 




publicado por alemcaia às 16:41
Sexta-feira, 04 de Maio de 2012

 

NA APANHA DA AZEITONA ( III )

 

Azeitona cordovil,

Tem o caroço pintado;

Tenho visto caras lindas,

Só tu és do meu agrado.[1]

                                                       

Eu subi à oliveira,

Sete folhas apanhei;

Foram sete as saudades,

Que p’ro meu amor mandei.

 

A folha da oliveira,

Apertada na mão quebra;

Quem tem uma filha só,

Julga que o vento lha leva.

 

A azeitona já está preta,

Já lá vai para o lagar;

Toda a moça qu’é bonita,

Diz ao pai que quer casar.

 

Azeitona retalhada,

Todo o ano tem valia;

Moça solteira em casando,

Perde logo a fantasia.[2]

 

Oliveira bem cortada,

Sempre parece oliveira;

A mulher que é bem casada,

Sempre parece solteira.[3]

 

Azeitona miudinha,

Vai toda para o lagar;

Eu também sou pequenina,

Mas nasci só para te amar.

 

 

 



[1] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral, por A.T.Pires. Elvas (1902-1910), p. 15.

[2] Idem, p. 153.

[3] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 135, Elvas, 16 de Julho de 1882.



publicado por alemcaia às 16:37
Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

NA APANHA DA AZEITONA ( II )

 

 

Os amores da azeitona,

São como os da cotovia;

Em s’acabando o trabalho,

Fica-te com Deus Maria. [1]

 

Namorados d’azeitona,

São como os da cotovia;

Acabada a azeitona,

Adeus amor d’algum dia. [2]

 

A apanha da azeitona,

É como a rama do alho;

Dura pouco e quando acaba,

Ficam todos sem trabalho.

                                                       

Azeitona já está preta,

Já se pode armar aos tordos;

Rapariga já é tempo,

De tomares amores novos.[3]

                                                       

Oliveira do pé d’oiro,

Deita raminhos de prata;

Tomar amores não custa,

Deixá-los é que nos mata.

 

Azeitona miudinha,

Toda vai para o lagar;

As meninas desta terra,

Todas sabem namorar.

 

Azeitona cordovil,

Tem o caroço riscado;

O amor que há-de ser meu,

Já Deus o tem destinado.

 

 

 

 



[1] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A. T. Pires. Elvas (1902-1905), p. 157

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 387, Elvas, 7 de Agosto de 1885.

[3] Idem, nº 166, Elvas, 2 de Novembro de 1882.



publicado por alemcaia às 16:36
Sábado, 21 de Abril de 2012

NA APANHA DA AZEITONA ( I )

 

Os descantes ligados ao trabalho nos campos perderam-se na sua grande maioria. Uns porque sendo autênticos brados de revolta em tempo de ditadura, só podiam expressar-se entre gente de confiança não fosse a acção dos delatores provocar grandes problemas a quem os cantava. Outros, porque, devido às grandes modificações verificadas no trabalho dos campos, foram, por desuso, caindo no esquecimento.

Por alguns exemplares que chegaram até nós, podemos ficar com uma pálida ideia da riqueza poética e de informação social que encerrariam.

Para cada uma das campanhas de trabalho haveria o seu cancioneiro. Por exemplo, num Cancioneiro da Apanha da Azeitona, poderíamos encontrar cantigas como as que se seguem:

 

 

Olival são oliveiras,

As searas são trigais;

 A azeitona é para os tordos,

O trigo é p’ros pardais.

 

A Senhora da Saúde,

Está no meio dos olivais;

Está guardando a azeitona,

Não a comam os pardais.[1]

 

Os amores d’ azeitona,

São com’os amores d’Entrudo;

Em s’acabando a apanha,

Acaba-se o amor e tudo.

 

Os amores da azeitona,

São do tamanho d’amora;

Em s’acabando a apanha,

Adeus que me vou embora.

 

Os amores da azeitona,

São como talos de couve;

Em acabando a azeitona,

Adeus menina qu’eu vou-me.

 



[1] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, P. 57 e publicada em O Arqueólogo Português, vol. 21º - 1916- P. 187.



publicado por alemcaia às 16:26
Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

 

As jovens camponesas casadoiras, punham todo o esmero e cuidadosa escolha nos apetrechos de trabalho e, principalmente, nos trajos que envergavam. Rapariga que se prezasse escolhia cuidadosamente os canudos que na ceifa lhe protegiam os dedos da mão que juntava o trigo para ser cortado, e ponderava com cuidado a escolha da sua foice, da sua roçadoira ou do seu sacho.

Mas, acima de tudo, cuidavam da roupa que envergavam. Tinham um grande orgulho no seu trajo de trabalho. O chapéu era cuidadosamente escolhido e enfeitado, bem como o lenço que lhe colocavam por baixo.

Para trabalhar impunha-se a saia de riscado, rodada e comprida que se arrepanhava pela bainha de trás para a frente e se prendia com alfinetes entre as pernas à altura dos joelhos de modo a formar uma espécie de calção; no Inverno a blusa de flanela e, pelas costas, o pequeno xaile de lã cruzado no peito, com as pontas presas na cintura; no Verão, uma blusa de chita; nos pés meias e sapatos de carneira ou botas de atacar à frente que chegavam ao joelho, protegendo as pernas e resguardando o decoro do corpo durante o trabalho; a cabeça e o rosto protegidos pelo lenço e pelo chapéu de feltro ou de palha, consoante a época do ano, que eram ostentados com grande garridice.

A vaidade das jovens camponesas no seu porte era de tal ordem que algumas se davam ao cuidado de levarem consigo o “traje de porta”, assim chamado porque era envergado no regresso da jornada de trabalho, às portas da vila, para não se exporem sujas e descompostas quando – de regresso a casa ao fim do dia – tinham de percorrer as ruas. Envergavam então casaquinhas cintadas, blusas de folhos, saias de ramagens, xailes e lenços finos, aventais bordados, colocando no traje toda a garridice que fosse consentida pelas regras da moda, do bom gosto e da decência.

Claro que estas vaidades não escapavam ao escarnecimento dos cantadores de “saias”:

 

 

Estas meninas d’agora,

Só comem meia sardinha;

Andam a juntar dinheiro,

Para a saia travadinha.

 

Pensaste em ser da vila,

Já não ligas aos ganhões;

Vais aos “balhes” do assento

E só queres “trevisões”

 

Tens saia tens avental,

Tens tudo que é preciso;

Só te falta uma coisinha,

Teres na cabeça juízo.

 

 



publicado por alemcaia às 16:02
Terça-feira, 10 de Abril de 2012

Nesta região de Portugal, as “saias” funcionavam também como descante nos trabalhados rurais. Cantava-se geralmente quando se trabalhava no campo, isoladamente ou em grupo. Mas cantava-se, principalmente, quando as tarefas agrícolas tinham de ser realizadas colectivamente, por grandes ranchos de camponeses, o que acontecia em determinadas épocas do ano: em grupos mais pequenos, quando os ganhões lavravam os campos ou quando se faziam as sementeiras; em grandes ranchos de homens e mulheres, quando se ocupavam na apanha da azeitona no Inverno, no escardar das searas por altura da Primavera, nas ceifas do Verão e nas vindimas do Outono.

Nesse tempo havia uma cultura camponesa que se manifestava nas atitudes e nos comportamentos das pessoas que faziam dos trabalhos agrícolas a sua principal ocupação.        

Os carreiros e os pastores, por exemplo, tinham grande orgulho na maneira como aparelhavam e enfeitavam os animais entregues ao seu cuidado pelos maiorais. Os mais jovens, quando ainda solteiros, rivalizavam na maneira como iam adquirindo, à custa de algum dinheiro que conseguiam poupar dos seus magros salários – quase sempre com o sacrifício de outras necessidades – guizos, cascavéis, esquilas e chocalhos para dar um som personalizado ao andamento das parelhas que conduziam, ou aos animais colocados sob sua guarda no pastoreio.

 

Não quero amor de boieiro,

Que não ganha bons tostões;

E toda a sua riqueza,

São chocalhos e esquilões.[1]

 

A escolha combinada do som desses apetrechos era tarefa que podia demorar horas pois exigia muita e atenta ponderação. Só quem pôde observar os jovens camponeses, nas feiras ou no comércio local, entregues a essa delicada missão, pode fazer ideia do valor que eles atribuíam a essa escolha e de quanto empenho punham em tão importante decisão.



[1] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 346, Elvas, 15 de Novembro de 1884, mas com algumas diferenças.



publicado por alemcaia às 14:34
Sábado, 31 de Março de 2012

Muitas destas cantigas de escarnecer tomavam a forma de cantar ao desafio. Embora o desafio fosse, quase sempre, uma forma de namorados dialogarem ou de dois homens esgrimirem a sua habilidade de cantadores.

Um exemplo contado pelos mais antigos, é o deste caso de despique entre homem e mulher, que começa com meias palavras e subentendidos e acaba com ditos e palavras bastante desbragadas:

 

 

- Estes rapazes d’agora,

Todos postos em fileira;

Parecem novilhos bravos,

Quando vão p’ra sementeira.

 

- Usas cabelo enrolado,

Tens corpo de bailarina;

Se eu sou novilho bravo,

Tu és a vaca torina.

 

- Cala-te aí piolhoso,

Segue a tua triste sorte;

Que nos pegas os piolhos,

Se o vento virar p’ra norte.

 

- Chamaste-me piolhoso,

Será porque já os viste;

Foste tu que mos pegaste,

Quando comigo dormiste.

 

Por vezes, numa simples quadra fazia-se a mais certeira e cruel das caricaturas. Estas que se seguem, tudo indica poderem remontar ao século XIX, pois, algumas delas, ridicularizam figuras muito populares em Campo Maior naquele tempo:

 

Uma velha muito velha,

Mais velha que o Catapum,

Punha-se a catar cagáteas,

Na regadeira do cú.

 

Todos falam no Conrau,

E é caso p’ra se falar,

Deixou a enxada em casa,

Sabendo que ia cavar. [1]

 

A mulher do Ti’Borlinhas,[2]

Esteve todo o dia ao sol;

Apanhando caganitas,

Julgando qu’era cerol.

 

Chamaste-me coça o cu,

À porta da rapariga;

Fiquei sendo o coça o cu,

P’ro resto da minha vida.

 

Chamaste-me pouca roupa,

Tu tens muita, é teu proveito;

Menos tenho que despir,

À noite quando me deito.

                                                       

 

Pus-me a cagar de joelhos,

P’ra não sujar o capote;

Escorreguei, caí de caras,

Fiquei c’um grande bigote.

 

Mas que lindos olhos tem,

Aquela “filha da puta”;

Os peitos são melancias,

Tudo o resto é boa fruta.[3]

 

 

Alto lá, tenha lá mão,

Que ninguém o escandaliza;

Toda a sua geração,

Alça a perna quando mija.

 

Relevemos a crueza da linguagem utilizada em algumas destas composições, procurando compreender que estas situações se inseriam num tempo em que, a maioria dos portugueses, viviam ainda em pequenas comunidades, muito isoladas e, por isso, quase auto-suficientes, sendo a sua população, na quase totalidade, constituída por gente de pouca ilustração, que trabalhava a terra e dela tirava o seu sustento. Nessa época a educação escolar era privilégio de uma escassa minoria.

Por outro lado, nesses povoados essencialmente rurais fossem eles cidades, vilas ou aldeias, quase todos se conheciam. Entre eles o grau de intimidade e de liberdade de expressão poderia ser muito grande, permitindo abusos de linguagem inadmissíveis noutros estratos sociais.

A sociedade estava compartimentada de forma de tal modo estanque que, entre os diversos estratos quase não havia comunicação. As elites locais, mais endinheiradas e mais instruídas, muito reduzidas em número, viviam completamente à margem do povo, ignorando e desprezando qualquer manifestação da sua cultura e das suas tradições. Isso fica bem documentado quando procuramos recolher informações em documentos escritos: as informações são escassas nos livros e nos jornais. A cultura escrita era feita pelos senhores, sobre os senhores e para os senhores.

O povo, que não sabia ler, produzia uma cultura basicamente oral. Daí que, para a estudarmos, temos que recorrer a testemunhos orais, os únicos vestígios que restam da antiga cultura popular. São raras as obras escritas que se dedicaram ao seu estudo e preservação, embora algumas delas sejam verdadeiramente geniais, como as obras de carácter etnográfico, sobretudo os cancioneiros populares, de José Leite de Vasconcelos (1858-1941) e, a nível mais regional, a monumental recolha e compilação feita pelo elvense António Thomaz Pires (1850-1913), que chegou a publicar mais de 10 mil quadras populares. No jornal A Sentinella da Fronteira que existiu em Elvas entre 1881 e 1891, publicou cerca de um milhar de quadras recolhidas no Alto Alentejo. Essa publicação aparecia titulada como – Poesia Popular Portugueza – Cantos Populares do Alemtejo – Recolhidos da tradição oral por António Thomaz Pires.



[1] Esta cantiga é da autoria do poeta popular campomaiorense Joaquim António Mota, que viveu no século XIX, cuja biografia feita por João Pessoa foi publicada em 1957 no jornal eborense Democracia do Sul, sob o titulo “Campo Maior – Galeria de Figuras nº XXII”.

[2] O Ti’Borlinhas tinha um comércio e uma oficina de sapateiro aos Cantos de Baixo na duas primeiras portas da “rua das Pereiras”, no prédio que fazia esquina com a “rua de Ramires”.

[3] Numa carta de Aníbal Fernandes Tomás para António Tomás Pires, datada de Lisboa, 15 de Novembro de 1906, está transcrita uma quadra muito semelhante:

                                                               Ó que lindos olhos tendes,

                                                               Olhem a filha da puta;

                                                               Com melancias no peito,

                                                               Dizendo: Quem compra fruta?

 

 




publicado por alemcaia às 18:50
Domingo, 25 de Março de 2012

Intitulo este caso que me foi contado por um homem de avançada idade e que se torna interessante pela graça da situação e pela maneira como retrata a vida na vila de Campo Maior, há cerca de meio século atrás, como – “ O Barbudo, o Pelado e o Pego sem Fundo”:

 

               Em tempos idos, talvez na década de quarenta, num dia de Verão, três raparigas, jovens adolescentes, foram lavar a roupa da semana ao rio Caia, como era uso na época.

               Finda a tarefa que ali as levara, aproveitaram para também tomarem um banho e mudarem de roupa. Enquanto o faziam, e numa brincadeira própria da sua idade, julgando não haver por perto ninguém que as pudesse observar, começaram a fazer comparações entre as suas partes pudibundas, apelidando-as em termos mais ou menos jocosos:

               - Olha a minha! Que farta cabeleira! Parece o Barbudo! Dizia uma.

               - A minha é o Pelado! Disse a outra, constatando a escassez de adereços pilosos.

               - Pois a minha parece um Pego sem Fundo, disse a terceira, dando com isso sinais de secretos desejos.

               Entretanto, um rapaz que por ali mourejava tinha-se aproximado escondidamente e, ocultado numa moita de arbustos, seguia gulosamente toda aquela ingénua e divertida situação.

               As raparigas regressaram a suas casas convencidas de que ninguém as teria visto e ouvido. O rapaz não falou do caso a ninguém.

Algum tempo depois, num domingo, como era da tradição um grupo de rapazes e raparigas juntaram-se e organizaram um bailarico na rua, cantando e dançando as tradicionais “saias”. No grupo estavam as três raparigas e o rapaz que as observara na dita cena do rio. Em dado momento, o indiscreto observador do virginal banho, dando largas à sua veia poética, cantou a seguinte quadra:


Deus me livre do Pelado,

Deus m’acuda com o Barbudo,

Se me chegar a afogar,

Seja no Pego sem Fundo.

 

As raparigas logo entenderam o recado e perceberam o que se tinha passado. Prontamente, a mais expedita respondeu:

 

É verdade, sim senhor,

Tudo isso aconteceu;

Esteve ao pé de três almoços

E nenhum deles comeu.”

 

A história é contada como verdadeira e não custa aceitar que o fosse, pois assim era a capacidade de improvisão poética e do repentismo dos campomaiorenses quando se tratava de cantar as “saias”.

 



publicado por alemcaia às 08:30
Segunda-feira, 19 de Março de 2012

Nas cantigas de escarnecer caía-se por vezes na desmedida, quando se passava para o lado da ofensa e da ordinarice. Embora bastante raras, algumas das quadras deste tipo geravam grandes ressentimentos e confrontações que acabavam em violentos conflitos chegando a vias de facto, com agressões físicas, quase sempre envolvendo grupos pois, como em todos os tempos, os jovens tendiam a associar-se em bandos ou maltas de camaradagem. Como seria de esperar, neste tipo de cantigas, a linguagem tornava-se, por vezes, desbragada. Mas, se quisermos usar de alguma complacência, teremos que reconhecer que, afinal, a linguagem que utilizavam não era nem menos nem mais escabrosa do que a que foi utilizada por grandes vultos da literatura portuguesa como, por exemplo, Gil Vicente ou Bocage, para citar apenas dois dos mais conhecidos.

 

 Muitas destas cantigas tomavam a forma de cantar ao desafio. Embora o desafio fosse, quase sempre, uma forma de namorados dialogarem ou de dois homens esgrimirem a sua habilidade de cantadores, nem sempre o desafio era bem comportado e decorria de forma tão idílica. Por vezes transformava-se numa disputa com cantigas de escarnecer. Alguns reptos e respostas tinham apenas como intenção provocar o riso. Mas, noutras vezes, as coisas iam mais adiante dando origem a situações intoleráveis. O vinho que escorria em demasia pelas gargantas, o ressentimento, o despeito e a rivalidade, motivavam intervenções que, atravessando a fronteira dos bons modos e do bom gosto, se tornavam actos de ofensas pessoais e se traduziam em atitudes de grande grosseria. Não terão sido poucos os desafios que resultaram em enormes confusões porque o descante descambava para violentas cantigas de escárnio e maldizer.

Vejamos este exemplo que remonta aos finais do século XIX e em que, na Feira de São Mateus, um homem se chega ao baile e canta para a roda:

 

Sete anos fui casado,

Sete mulheres conheci;

Graças a Deus para sempre,

Estou virgem como nasci.

 

A pronta resposta de uma rapariga embasbacou o ingénuo cantador, rematando desde logo o desafio:

 

Ao Senhor da Piedade,

Estou bradando por justiça;

Porque, ou você não é homem,

Ou então não tem nabiça.

 

Esta situação documenta como algumas destas situações davam azo a respostas repentistas que correriam de terra em terra como divertidas anedotas.

 

Nesta outra, que é muito conhecida, um grupo de jovens terá chegado a uma festa numa aldeia vizinha e tomado generosamente uns copos de bebida. Chegados ao baile, um deles alçou a voz e lançou:

 

Um copinho, dois copinhos,

Três copinhos d’aguardente;

As mocinhas desta aldeia,

Fazem um homem bem quente.

 

Respostas imediata de um da terra:

 

Um copinho, dois copinhos,

Três copinhos de licor;

Levas um murro nos cornos,

Passa-te logo o calor.

 

 



publicado por alemcaia às 18:11
Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Em muitos casos, as cantigas de escarnecer não passavam de uma maneira divertida de expressar, brincando, sentimentos de ternura. De tal modo assim é que, em bastantes casos, sentimos dúvidas sobre a maneira de as classificarmos. Há cantigas de escarnecer tão ternas que mais parecem cantigas de bem-querer. Enquanto que, a ternura de outras que foram classificadas como de bem-querer – por quase roçarem o ridículo –, mais parecerem cantigas de escarnecer. Há também as que não passam de simples e ingénuos trocadilhos.

 

Eu andei de terra em terra,

Até que aqui vim parar;

P’ra agora esta ranhosa,

Pensar que a quero namorar.

 

O cantar da meia-noite,

É um cantar excelente;

Acorda a quem está dormindo,

Alegra a quem está doente.

 

Armou-se esta titarada,

Na manhã da nossa feira;

A Tarata está zangada,

Quer que lhe pague a cadeira.

 

Não sou bonita de espanto,

Nem feia que meta horror;

Mas terei o meu encanto,

P’ra quem me tiver amor.

 

Chamaste-me moreninha,

Eu não sou tão delicada;

Mas em ti que és ruço e feio,

Seria mal empregada.

 

Nunca gostei de beijar,

Uma mulher que se pinta;

Porque sempre que a beijo,

A boca sabe-me a tinta.

 

Ó maçã encarnadinha,

Picada do rouxinol;

Se não fosses tão baixinha,

Entravas para o meu rol.

 

Olhem aqui p’ro meu par,

Que beleza d’hortaliça;

Já mo quiseram roubar,

Fui dar parte à justiça.



publicado por alemcaia às 19:46
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

No cantar as “saias” não poderiam, naturalmente, faltar as cantigas de escarnecer.

Deve dizer-se que na maior parte dos casos, estas cantigas não passavam de brejeirices, com alguma alarvidade, mas com muito pouca maldade. Procuravam brincar com as palavras e com os sentimentos de forma mais ou menos brejeira ou apenas divertida. Outras vezes, ridicularizavam situações ou realçavam defeitos ou atitudes. O objectivo, na maior parte dos casos, era mais a diversão do que a ofensa pessoal, embora esta, uma ou outra vez, também estivesse presente.

 

Quem tem olivais tem vinho

Quem tem vinha tem azeite,

Quem tem cabras tem presunto

E quem tem porcos tem leite.

 

Minha rua é pequenina,

Batida do vento norte;

O meu amor é zarolho,

Olha a minha negra sorte.

 

As meninas desta rua,

Vêm à porta espreitar;

P’ra verem se por lá passa

Quem as queira namorar.

 

Amar-te e querer-te bem,

Tudo isso eu farei,

Mas andar atrás de ti,

Isso não que é contra a lei.

 

O meu peito é uma morada,

Vem p’ra ela meu amor;

De renda não pagas nada,

‘Inda te fico em favor.

 

Mesmo agora daqui fui,

Já cá estou outra vez;

Venho saber a razão,

Do aceno que me fez.

 

O amor enquanto é novo,

Ama com todo o cuidado;

Depois de se achar servido,

Mostra cara d’enfadado.

 



publicado por alemcaia às 19:36
Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

 

         As chamadas cantigas pegadas são uma modalidade que, na sua estrutura é muito próxima do cantar ao desafio, mas envolvendo apenas um cantador. É um modo de cantar em que um cantador resolvia encadear uma série de três quadras ligadas pelo tema ou pelo mote. Neste caso, as quadras podiam ser cantadas seguidas e sem repetição de qualquer dos versos do seguinte modo: as duas primeiras, na fase em que os pares bailavam despegados; a terceira quadra era cantada na fase em que os pares se enlaçavam, também sem repetição de qualquer dos versos, servindo assim de remate:

 

1ºExemplo:

 

Eu já tive trinta amores

Mas só tu me fazes falta.

Pois daquelas que não quis,

Andam vinte e nove à malta.

 

Eu já tive trinta amores,

Já vês, d’amores não sou pobre,

P’ra te vir amar a ti,

Deixei d’amar vinte e nove.

 

Eu já tive trinta amores,

Mas nenhuma como tu,

Parece, por este andar,

Não haverá trinta e um.

 

2ºExemplo:

 

Ao primeiro beijo choraste,

Ao segundo estavas triste;

Ao terceiro já quiseste,

Ao quarto já m’o pediste.

 

Dás-me um beijo dou-te dois,

Ficas com paga dobrada;

Pois é brio de quem ama,

Pagar e não dever nada.

 

Pedi-te um beijo e m’o deste,

Quem dá um log’outro tem;

Não há ninguém que não goste

De beijar a quem quer bem.

 

3º Exemplo:

 

Todos aqui cantam saias,

Todos aqui são bairristas;

Todos aqui são amigos,

Todos aqui são artistas.

 

Todos aqui fazem versos,

Todos aqui são artistas;

Todos aqui bailam saias,

Todos aqui são bairristas.

                                                       

Todos aqui nesta terra,

Todos aqui dão nas vistas;

Todos aqui cantam saias,

Todos aqui são artistas.

 



publicado por alemcaia às 19:22
Domingo, 15 de Janeiro de 2012

A perfeição de algumas destas quadras chega a levantar a suspeita de terem uma origem mais erudita, tendo sido aproveitadas pela cultura popular. Aliás, isso acontece com certa frequência em todas as épocas e em todos os lugares. As próprias danças populares sofreram grandes influências das danças de salão, sendo por vezes versões adaptadas das danças que o povo via praticar aos senhores.

Ainda mais um desafio entre homem e mulher sobre a arte de bem cantar:

 

- Vou-me a cantar uma cantiga,

Q’inda hoje não cantei;

Quero ver se a minha fala,

Está como ontem a deixei.

 

- Tens um cantar cativante,

Mas há quem cante melhor;

Há quem cante e até encante,

Aqui em Campo Maior.

 

- Falas assim sem saberes,

O que é cantar como eu;

Tens inveja é de não teres,

Um cantar igual ao meu.

 

- Continuas toda inchada,

E da razão convencida;

Mas p’ra teres voz afinada,

Tens que treinar toda a vida.

 

 

- Não te invejo podes crer,

És vaidoso e petulante;

Minha voz com ser mulher,

Dá-te a volta num instante.

 

- Irei cantar toda a vida,

Digo-te hoje p’ra saberes;

Minha voz já era linda,

Bem antes de tu nasceres.

 

- Já cantas há tanto tempo,

Esse treino te fez bem;

Mas digo-te neste momento,

Ninguém canta como eu.

 

- Canto eu e cantas tu,

Nossa voz dá que falar;

Nós cantando somos um,

Ninguém nos ganha a cantar.

 

 



publicado por alemcaia às 19:04
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Noutras vezes, os cantadores escolhiam como tema um determinado conceito que utilizavam em cada uma das quadras que cantavam, como, por exemplo, neste caso em que a sequência das quadras está ligada pelo tema do coração e é constituído por antigas quadras que ainda hoje são cantadas:

 

- Ao meu coração chorando,

Perguntei o que sentia;

Respondeu-me soluçando,

Que já não tem alegria.

 

- O meu pobre coração,

Não tem casa anda na rua;

Não o queiras ver penar,

Faz-lhe um cantinho na tua.

 

- O meu pobre coração,

Já deita sangue pisado;

A culpa tive-a eu,

Por t’amar demasiado.

 

- Coração por coração,

Não deixes de amar o meu;

Olha que o meu coração,

Sempre foi fiel ao teu.

 

- Coração p’ra que palpitas,

Com batidas infernais;

Acaba com esta dita,

Não me faças sofrer mais.

 

- O coração mais os olhos,

São dois amigos leais;

Quando o coração está triste,

Logo os olhos dão sinais.

 

- Tudo o que é verde seca,

Em vindo o calor do Verão;

Só meu amor reverdece,

Dentro do meu coração.

 

- Sino coração d’aldeia,

Coração sino da gente;

Um a sentir quando bate,

Outro a bater quando sente.

 

- Os corações também choram,

É coisa que não sabia;

Esta noite acordei eu,

Ao pranto que o meu fazia.

                                 

- No coração duma pomba,

Nas asas da Primavera;

Quisera agora saber,

A tua intenção qual era.

 

- Se ouvires bater a chuva,

No chão da tua varanda,

Escuta, são as saudades,

Que o meu coração te manda.

 

- Meu coração bate, bate,

Nunca deixes de bater;

As tuas pancadas são,

As horas do meu viver.

 

- Tocam sinos no meu peito,

Morreu o meu coração;

Esta morte foi causada,

Pela tua ingratidão.

 

- Se soubesse quem tu eras,

Eu não te amaria, não;

Agora não há remédio,

Padece meu coração.

 

- Já te dei meu coração,

Coisa que dar não podia;

Já te dei a melhor prenda,

Que no meu peito trazia.

 



publicado por alemcaia às 18:58
Quinta-feira, 05 de Janeiro de 2012

 

Por vezes, o desafio é feito sem qualquer intenção para além de uma amável troca de cantigas entre amigos, para animação do baile e dos assistentes:

 

- Ouvi dizer Carolina,

Que me queres muito bem;

Se seres minha é a tua sina,

Não serás de mais ninguém.

 

- Vaidade, grande vaidade,

Não te falta meu amigo;

Por ti só sinto amizade,

Mais do qu’isso não consigo.

 

- Quando abres tua garganta,

Fico preso ao teu cantar;

Porque é que tanto te espanta,

O meu modo de falar?

                                 

- Todo o homem é atrevido,

E tu à regra não foges;

Além disso és convencido,

Querendo ter o que não podes.

 

- Namorar não é pecado,

Já Santo António o dizia;

Ir tentando é o meu fado,

Seja de noite ou de dia.

 

- Eu já te vou convencer,

Do contrário do que pensas;

Mais tempo não vou perder,

Não vou nas tuas conversas.

 

- Acabado este despique,

Já podemos dar as mãos;

Que em vez do amor nos fique,

Uma amizade de irmãos.



publicado por alemcaia às 18:54
Sábado, 31 de Dezembro de 2011

Uma das formas mais elaboradas do Cantar ao desafio consistia num processo de improvisação poética em que, cada um dos cantadores pegava sempre no ponto deixado pelo outro cantador. Iam assim encadeando as quadras sem se afastarem do tema principal do desafio. Se fosse bastante o engenho dos cantadores, o desafio devia ter o seu remate quando um deles voltasse ao conceito expresso na primeira quadra cantada no desafio.

 Repare-se como o exemplo que se segue ilustra o nível de lirismo poético que alcançavam algumas destas composições. Este exemplo demonstra também como, desta forma, se podia, cantando, fazer vibrantes declarações de amor. A sequência das quadras constitui um belo exemplo de “cantigas retornadas”, em que se retomam, em ordem diferente, versos da estância anterior.

O desafio decorreu entre dois jovens enamorados cujo namoro não seria bem aceite pela família da moça. Proibidos de se falarem namorando à porta ou à janela, aproveitaram o baile para trocarem juras de amor:

 

- Teu pai, tua mãe não querem,

Cara linda que eu te logre;

Queira eu e queiras tu,

Mais que o amor ninguém pode.

 

 

- ‘Inda que meu pai me mate,

Minha mãe me tire a vida,

Minha palavra está dada,

Minha alma, prometida.

 

- Tua alma prometida,

Prometida a minha mão;

‘Inda que teu pai não queira,

Tua mãe diga que não.

 

- Minha mãe diga que não,

Chovam censuras aos molhos,

Minha palavra está dada,

Juro p’la luz dos meus olhos.

 

- Esses teus olhos tão lindos,

Prendem-me de tal maneira,

Que hei-de casar contigo,

Queira o teu pai ou não queira.

 

- Queira o meu pai ou não queira,

Queira a minha mãe ou não;

Hei-de te manter bem preso,

Nas grades desta prisão.

 

- Nas grades dessa prisão,

Mas que doce o meu sofrer;

Queira a tua mãe ou não,

P’ra sempre te hei-de querer.

 

- Tu sempre me hás-de querer,

Espero que seja verdade;

Se um dia me não quiseres,

Dou-te a tua liberdade.

 

- Dás-me a minha liberdade,

Como queres que eu a queira,

Se a luz dos olhos teus

Me prende desta maneira?

 

- Prende-te dessa maneira,

Amor do meu coração;

Se a mim te prendem meus olhos,

A ti me prende a paixão.

 

- A ti te prende a paixão,

Vamos assim rematar:

Queira o teu pai ou não queira,

Havemos de nos casar.

        

 

feliz ano novo

 




 



publicado por alemcaia às 18:23
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

No segundo caso, temos um desafio entre um homem e uma mulher e os olhos constituem o motivo principal dos versos produzidos:

 

- Canta lá, ó mulher canta

E não consintas tristeza;

Afina-me essa garganta

E faz ver que és camponesa.

 

- Não canto por bem cantar,

Nem por boa fala ter;

Só canto p’ra alegrar olhos

A quem me não puder ver.

 

- Os teus olhos não são olhos,

São capelas de veludo;

Quem me dera já lograr,

Olhos, capelas e tudo.

 

- Abre os olhos, deixa ver

Por baixo dessas pestanas,

Que eu quero reconhecer

As luzes com que me enganas.

- Os teus olhos é que são

Causadores do meu desdém;

Não me deixam apanhar

Amizade a mais ninguém.

 

- Os teus olhos juvenis

Parecem duas auroras:

Dão-me luz quando sorris,

Pérolas de oiro quando choras.

 

- Da folha do alecrim,

De linda até se faz cruz;

Mais lindos são os teus olhos,

Que até de noite dão luz.

 

- Dizes que não pode haver

Olhos mais belos que os teus.

Põe a mão na consciência

E olha p’ra estes meus.

                                                       

- Não olhes p’ra mim, não olhes,

Que eu não sou o teu amor.

Eu não sou como a figueira

Que dá fruto sem ter flor.

                                                       

- Gosto muito dos teus olhos,

Gosto muito mais dos meus;

Se não fossem os meus olhos,

Não podia ver os teus.

 

- Os teus olhos das estrelas,

Pouca diferença farão;

Os teus olhos são dourados,

As estrelas d’ouro são.

                                                       

- Se tens beleza na alma,

Os teus olhos são leais,

Muito embora haja quem diga

Que os castanhos valem mais.

 

 

- Azuis, verdes ou castanhos,

Que importância tem a cor?

Os teus olhos só são belos

Se neles existe amor.

 

- Parece-me ser bem justa

Essa tua opinião:

Nada tem a cor dos olhos,

A ver com o coração.

 





publicado por alemcaia às 18:20
Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Quando os despiques punham frente a frente cantadores afamados, podiam durar horas. Formavam-se então dois partidos entre os assistentes, apoiando cada um deles o cantador da sua predilecção. No fim de cada quadra cantada, o murmúrio, de aprovação ou de crítica, sublinhava o apreço que se fazia de cada intervenção.

            O despique começava por um cantador que puxando uma cantiga para o baile de roda, lançava o desafio. Se outro respondia tínhamos a função começada e esta iria até onde chegasse a classe e a resistência dos contendores. Por vezes, um deles desistia. Se um outro tomava o seu lugar, a disputa continuava. Se ninguém levantava o repto, estava encontrado o vencedor.

 Nem sempre o bom cantador conseguia ser, simultaneamente, um bom versejador. Em contrapartida, havia também quem tivesse dom para os versos e fosse repentista a fazê-los, sendo, contudo, fraco no descante. Por isso, formavam-se parcerias que corriam os bailes, cantando um o que o outro improvisava. Esta situação ficou documentada nestas quadras cantadas num desafio em que, de forma clara, se fez a afirmação de que a parceria funcionava como uma unidade na produção e no cantar das quadras:

 

- Quem acabou de cantar,

Tem uma fina garganta;

Mas as falas não são feitas,

Por aquele que as canta.

 

- Eu mais meu camarada,

Meu camarada mais eu,

Ele está p’ra minhas falas,

P’ró cante delas estou eu.

 

            Tratando-se de quadras de improviso, logo feitas a propósito e no momento, tornava-se muito difícil conservar de memória o conteúdo total destes desafios, sobretudo quando eram extensos. Daí que pouco tenha chegado até nós do muito que, no decurso dos tempos, foi sendo produzido nestas memoráveis demonstrações de repentismo e poder de improvisão poética.

Acontecia porém que, por vezes, a perfeição formal das quadras ou o brilho das respostas que nelas se continham era tão notável, que eram conservadas na memória colectiva por muitos anos. Algumas das quadras que ainda hoje se cantam podem ter sido criadas durante sessões de cantares em desafio.

 

            De modo muito feliz, Luísa Freire, no seu livro “O Feitiço da Quadra”, conseguiu reconstituir dois exemplares notáveis destas demonstrações. Com a devida vénia, aqui se faz a sua reprodução, acrescentada de quadras que outras fontes fizeram chegar ao nosso conhecimento. No primeiro caso temos um desafio entre dois homens de diferentes gerações e é a sua diferença de idades que constitui o tema central do despique:

 

- Já cantei uma cantiga,

Com esta já lá vão duas,

Não me vou daqui embora,

Sem ouvir uma das tuas.

 

- Cantigas ao desfio,

Eu gosto de ouvir cantar;

Gente puxando a garganta,

P’ra ver onde vão parar.

 

- Só aqui vamos a ver

Quem é melhor cantador;

Cantas tu, respondo eu,

A ver quem canta melhor.

                                                                                             

- Eu sou filho do cantar,

Neto de quem canta bem;

O mestre que me ensinou,

Não ensina a mais ninguém.

 

- Cala-te aí, cantador,

Não tenhas tanta vaidade,

Pois tu não cantas melhor

Que eu cantei na mocidade.

 

- Tens orgulho e tens vaidade

Dos tempos que já lá vão.

Mas agora canto eu,

É a minha ocasião.

 

- A velho vais tu chegar

Um dia, então lembrarás

Com carinho e saudades

Do tempo deixado atrás.

 

- A idade não importa.

Ainda és bom cantador.

Nós temos boas gargantas

No nosso Campo Maior.

 

- Nem sabes quanta alegria

No meu coração puseste!

Um dia podes sentir

A alegria que me deste.





publicado por alemcaia às 18:17
Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Quando os despiques punham frente a frente cantadores afamados, podiam durar horas. Formavam-se então dois partidos entre os assistentes, apoiando cada um deles o cantador da sua predilecção. No fim de cada quadra cantada, o murmúrio, de aprovação ou de crítica, sublinhava o apreço que se fazia de cada intervenção.

            O despique começava por um cantador que puxando uma cantiga para o baile de roda, lançava o desafio. Se outro respondia tínhamos a função começada e esta iria até onde chegasse a classe e a resistência dos contendores. Por vezes, um deles desistia. Se um outro tomava o seu lugar, a disputa continuava. Se ninguém levantava o repto, estava encontrado o vencedor.

 Nem sempre o bom cantador conseguia ser, simultaneamente, um bom versejador. Em contrapartida, havia também quem tivesse dom para os versos e fosse repentista a fazê-los, sendo, contudo, fraco no descante. Por isso, formavam-se parcerias que corriam os bailes, cantando um o que o outro improvisava. Esta situação ficou documentada nestas quadras cantadas num desafio em que, de forma clara, se fez a afirmação de que a parceria funcionava como uma unidade na produção e no cantar das quadras:

 

- Quem acabou de cantar,

Tem uma fina garganta;

Mas as falas não são feitas,

Por aquele que as canta.

 

- Eu mais meu camarada,

Meu camarada mais eu,

Ele está p’ra minhas falas,

P’ró cante delas estou eu.

 

            Tratando-se de quadras de improviso, logo feitas a propósito e no momento, tornava-se muito difícil conservar de memória o conteúdo total destes desafios, sobretudo quando eram extensos. Daí que pouco tenha chegado até nós do muito que, no decurso dos tempos, foi sendo produzido nestas memoráveis demonstrações de repentismo e poder de improvisão poética.

Acontecia porém que, por vezes, a perfeição formal das quadras ou o brilho das respostas que nelas se continham era tão notável, que eram conservadas na memória colectiva por muitos anos. Algumas das quadras que ainda hoje se cantam podem ter sido criadas durante sessões de cantares em desafio.

 

            De modo muito feliz, Luísa Freire, no seu livro “O Feitiço da Quadra”, conseguiu reconstituir dois exemplares notáveis destas demonstrações. Com a devida vénia, aqui se faz a sua reprodução, acrescentada de quadras que outras fontes fizeram chegar ao nosso conhecimento. No primeiro caso temos um desafio entre dois homens de diferentes gerações e é a sua diferença de idades que constitui o tema central do despique:

 

- Já cantei uma cantiga,

Com esta já lá vão duas,

Não me vou daqui embora,

Sem ouvir uma das tuas.

 

- Cantigas ao desfio,

Eu gosto de ouvir cantar;

Gente puxando a garganta,

P’ra ver onde vão parar.

 

- Só aqui vamos a ver

Quem é melhor cantador;

Cantas tu, respondo eu,

A ver quem canta melhor.

                                                                                             

- Eu sou filho do cantar,

Neto de quem canta bem;

O mestre que me ensinou,

Não ensina a mais ninguém.

 

- Cala-te aí, cantador,

Não tenhas tanta vaidade,

Pois tu não cantas melhor

Que eu cantei na mocidade.

 

- Tens orgulho e tens vaidade

Dos tempos que já lá vão.

Mas agora canto eu,

É a minha ocasião.

 

- A velho vais tu chegar

Um dia, então lembrarás

Com carinho e saudades

Do tempo deixado atrás.

 

- A idade não importa.

Ainda és bom cantador.

Nós temos boas gargantas

No nosso Campo Maior.

 

- Nem sabes quanta alegria

No meu coração puseste!

Um dia podes sentir

A alegria que me deste.



publicado por alemcaia às 18:09
Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Outras vezes, quando razões de zanga assistiam ou por simples brincadeira, podia sair provocação agreste e rude como uma chicotada, sem cuidar de regras de boa educação. Nestes casos, vinha logo resposta a contento e começava o despique que ia da ofensa à desconsideração, até que algum dos contendores parasse ou que, se os ânimos se azedassem, tudo acabasse em grande confusão. Vejamos este exemplo constituído por quadras muito antigas:

 

Cala-te aí boca aberta,

Rodilha da chaminé;

Como não sabes cantar,

Vai-te embora do meu pé.

 

Cala-te aí boca aberta,

Gargalo dum garrafão;

Meu pai comprou umas cabras,

E tu vais ser o meu cão.

 

 

Cala-te aí boca aberta;

Rodilha da chaminé;

Se tu tiveras vergonha,

Não arrumarias pé.

 

Cala-te aí boca aberta,

Novelo de linhas finas;

Devias era servir,

De poleiro às galinhas.

 

Cala-te aí boca aberta,

Rodilha do meu palheiro;

Já vi andar o teu pai,

Às marradas c’um carneiro.

 

Cantas bem não cantas mal,

Meu cara de Belzebu;

Mascarrava a minha cara,

Se cantasse como tu.

 

As cantigas que tu cantas,

Mete-as num forno frio;

Tu só és bom a cantar,

Com um burro ao desafio.   

 

Eu subi ao cabecinho,

Para ver o sol raiar;

Não devia vir tão cedo,

P’ra t’ouvir assim zurrar.

 

Tenho dúzias de cabrestos,

Comprados na nossa feira;

P’ra encabrestar as bestas,

Que cantam dessa maneira.

 

Quem tem raiva que enraiveça,

Quem tem catarro que tussa;

Quem lhe servir na cabeça,

Que enfie esta carapuça.

 

 

Esta noite choveu neve,

Arrasaram-se os açudes;

Cala-te chibo não berres,

Cala-te burro não zurres.

 

Vai-te daqui toleirão,

Boca de almotolia;

Guardanapo d’estalagem,

Vassoura d’estrebaria

 

Cantas bem não cantas mal,

Como o sapo num alqueve;

Vai roendo esses caroços,

Té que o diabo te leve.

 

Cantas bem não cantas mal,

Como o sapo n’alagoa;

Vai roendo esses caroços,

Té que venha a palha boa.

 

Cantas bem não te desfaças,

Desse teu cantar aflito;

Pois s’os animais cantassem,

Melhor cantava o cabrito.

 

Disse o galo p’ra galinha,

Lá p’rós lados do mercado;

P’ra cantar dessa maneira,

Mais valia estares calado.

 

Os temas eram muito variados sendo certo que, tratando-se dum descante entre homem e mulher, o tema mais provável das quadras improvisadas, versaria sobre questões de amor: umas vezes de pedido de namoro, outras de declaração de paixão, havendo mesmo algumas que consistiam em ajustes de contas de desentendimentos.





publicado por alemcaia às 18:06
Terça-feira, 06 de Dezembro de 2011

O cantar à desgarrada é uma tradição de canto popular que se usou em todas as regiões do nosso país revestindo as mais variadas formas musicais: desde o fado aos cantares do Minho e dos cantares das Beiras aos do Algarve. Também no cantar de “saias” se usa a desgarrada:

 

Campo Maior que bem cantas,

As saias à desgarrada;

Ouvem-se belas gargantas,

De noite e de madrugada.

 

 

Antigamente, nos bailes de saias, eram frequentes as desgarradas, despiques, ou cantares ao desafio. Essa velha tradição tem-se vindo a desvanecer de tal modo que, hoje, só muito raramente se consegue ouvir uma boa disputa entre cantadores. Forma de cantar de improviso, só os dotados de maior repentismo e capacidade de improvisação a ela se podiam abalançar. Contudo, há algumas décadas, ainda se podia, com alguma sorte, assistir a homéricas sessões de confrontos poéticos que, em certos casos chegavam a durar horas. A assistência dividia-se no apreço por cada um dos cantadores. Algumas dessas disputas ficaram gravadas na memória da população. 

Nesses tempos, os melhores cantadores mantinham rijas confrontações poéticas, animando com o seu cantar os bailes, ao mesmo tempo que exibiam os seus dotes, tentando apurar quem tinha maior capacidade de improvisação, de repentismo e maior habilidade no versejar.

            Quando se tratava dos mais afamados, faziam-se grandes ajuntamentos que, num silêncio atento e expectante, seguiam o desenrolar da peleja.

Os pares em disputa podiam ser constituídos por dois homens, por um homem e uma mulher ou, muito raramente, por duas mulheres. As mulheres, para se darem ao respeito, só entravam nos desafios com os homens a quem as ligavam laços de afecto ou de intimidade. Por isso, se desafiadas, respondiam com o silêncio ou, cantando, rematavam a hipótese de desafio:

 

 

 

Desafio, desafio,

Desafio é p’ra quem quer,

Desafio é para os homens,

Não p’ra mim que sou mulher.

 

         Podia-se também rejeitar o repto, alegando falta de competência:

 

Desafio, desafio,

Eu não te desafiei;

Desafio é p’ra quem sabe,

Não p’ra mim que nada sei.

 

         Acontecia também serem outras as razões evocadas para não se responder ao repto lançado:

Quero cantar mas não posso,

Minha fala não me ajuda;

Morreu-me o meu pai há pouco,

Sou filho duma viúva.



 



publicado por alemcaia às 18:02
Quinta-feira, 01 de Dezembro de 2011

Quem se tenha dado ao trabalho de ler os cancioneiros populares que se têm publicado em Portugal, não pode deixar de reparar na frequência com que uma mesma cantiga aparece nas terras mais variadas, havendo por vezes grandes distâncias entre elas. Maria Arminda Zaluar Nunes, na Introdução ao “Cancioneiro Popular Português, coligido por José Leite de Vasconcelos, chama a atenção para este facto escrevendo na p. XII:

(…) é curioso observar-se como a mesma trova é cantada em numerosos locais, se bem que afastados. Isso compreende-se porque as cantigas como que voam de terra em terra.

Acontece também que aparecem quadras com o mesmo conteúdo poético, mas com formulações diferentes que lhes foram sendo dadas ao longo de um período que pode ser de mais de duzentos anos. Nestes casos optou-se pela transcrição que se apresentava como mais actualizada em relação às situações presentes e mais elaborada do ponto de vista formal.

É espantosa a ternura contida em grande parte destas pequenas composições que se transformam em “grandes” poemas de amor. A ternura que transmitem é, por vezes, tão elevada, que chega a causar espanto que tenham sido criadas e utilizadas por gente de tão pouca instrução e suportando, no dia-a-dia da vida, o pesado fardo dos trabalhos nos campos. Para além da ternura, algumas destas quadras encerram grandes pensamentos acerca do amor, da vida, da sociedade e do universo. Aqui encontramos motivo para reflexão e base para concluirmos que instrução e cultura são conceitos bem diferenciados e que podem referir realidades muito distintas. O povo pode não ser instruído em termos de educação escolar. Mas só os arrogantes se baseiam nisso para o menorizar do ponto de vista cultural. As “saias”, expressão de uma cultura popular criada e vivida pelas gentes do campo, aí estão para o demonstrar. Basta que sejam lidas com a devida atenção, de espírito aberto e sem preconceitos de qualquer espécie.

 

Se soubesses meu amor,

Como está meu coração;

Nem a noite mais escura,

Se compara em escuridão.

 

Vestida d’azul claro,

Que linda estás minha loura;

Encostada a essa ombreira,

Pareces Nossa Senhora.

 

Quando o meu amor se foi,

Sete lenços ensopei;

Ainda diz aquele ingrato,

Que por ele não chorei.

 

 

Se meu amor cá estivesse,

Que lindo seria o dia;

O meu viver era outro,

Tinha o dobro d’alegria.

 



publicado por alemcaia às 19:48
Sábado, 26 de Novembro de 2011

As quadras que expressam sentimentos de amor ou de qualquer outra forma de bem-querer, são as que melhor têm resistido ao passar do tempo. Com algum espanto, encontramos, em testemunhos muito antigos, quadras cujo tema é o amor e que ainda hoje são cantadas, mantendo toda a sua actualidade. Trata-se do tema do cantar as “saias” que mais foi cultivado ao longo de todos os tempos, porque, efectivamente, esta expressão de cultura popular, tem como objectivo maior a expressão de sentimentos através dum canto que propiciava o encontro e a comunicação entre os apaixonados. Podem variar os objectos e o tipo de sentimento: entre um homem e uma mulher; pela terra que é a nossa; por um parente muito querido. Mas, fundamentalmente, o “cantar as saias” tem servido sempre para expressar afectos e sentimentos de bem-querer.

 

Menina por ser bonita,

Não cuide que mais merece;

Quanto mais linda é a rosa,

Mais depressa desvanece.[1]

 

Já não há estrelas no céu,

Senão uma ao pé da lua;

Tenho corrido e não acho,

Cara linda como a tua.[2]

                                                       

 

Se tu me quisesses bem,

Do fundo do coração,

Já me vieras falar,

Que as noites bem grandes são.[3]

 

Hei-de amar-te que é meu gosto,

Suceda o que suceder;

Mesmo tendo uma só vida,

Por ti a quero perder.[4]

 



[1] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral, por A.T.Pires. Elvas (1902-1910). p. 141.

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 129, Elvas, 25 de Junho de 1882.

[3] Idem, nº 321, Elvas, 17 de Junho de 1883, com pequenas diferenças.

[4] Idem, nº 129, Elvas, 25 de Junho de 1882, com pequenas diferenças.



publicado por alemcaia às 19:45
Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

No que respeita à melodia, as “saias” sofreram ao longo do tempo alterações pouco significativas. Embora houvesse a preocupação de criar regularmente as chamadas modas novas, a música manteve-se estruturalmente muito semelhante.

Segundo testemunhos antigos, o descante e a música das “saias” consistiam numa toada dolente, de ritmo lento e repetitivo. Modernamente, por influência dos mass-media, que vão transformando o que era cantar e dançar de rua, em música gravada para ouvir e cantada em actuação de palco, o ritmo tem sido acelerado, adquirindo uma maior vivacidade. Também se está a verificar a tendência para associar às saias outros instrumentos, agora muito em uso, principalmente as pianolas electrónicas e as violas.

            Foi possível encontrar em livros publicados sobre este tema, ou que fazem referência às “saias” como forma de música popular para acompanhar a dança, registos em escrita musical que permitem fundamentar juízos sobre a sua evolução e estabelecer comparações com as suas características na actualidade. Por outro lado, com a ajuda amável de entendidos em música, conseguiu-se a elaboração de pautas musicais a partir de gravações de cantadores que, nos tempos actuais, se dedicam ao “cantar as saias”.



publicado por alemcaia às 19:38
Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

Desde o início dos anos cinquenta do século passado ocorreram grandes transformações, a partir da grande diáspora sofrida pelas populações dos centros rurais. A comunidade campomaiorense que, há cerca de cinquenta anos, ainda era essencialmente uma comunidade que vivia predominantemente da agricultura na qual se ocupava quase toda a sua população, tem hoje apenas uma escassa minoria dos seus habitantes ligada aos trabalhos agrícolas. Até ao fim da Segunda Grande Guerra, a maior parte dos campomaiorenses nascia, vivia e morria na sua terra. Hoje estão, em grande número, espalhados pelo vasto mundo.

Assim sendo, é muito natural que tenha surgido uma produção de quadras repassadas de saudade que têm como tema as belezas e as virtudes, reais ou imaginadas, da terra lembrada pelos que estavam longe, ou expressando a saudade dos que na terra ficavam:

 

Vila de Campo Maior,

Ela lá e eu aqui,

Quem me dera estar agora,

Na terra onde eu nasci.

                                                       

 

 

Em cada canto um amigo,

Em cada rua uma esperança;

Em cada passo que sigo,

Um sorriso de criança.

 

Campo Maior terra linda,

Campo Maior terra bela,

Há muita gente em Lisboa,

Que chora d’amores por ela.

 

De Lisboa me mandaram,

Eu p’ra Lisboa mandei;

Um ramo de violetas,

Que no meu peito guardei.

 

Para Lisboa mandei,

Quatro peras num raminho;

Como era fruta nova,

Comeram-nas p’lo caminho.

 

Ó Lisboa, ó Lisboa,

Eu também p’ra lá quero ir;

Tenho lá uma pessoa,

Que é quem me tira o dormir.

                                                       

Coitadinho de quem sai,

P’ra fora do seu país;

Em chegando a terra alheia,

Se é mestre fica aprendiz.

 



publicado por alemcaia às 19:34
Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

Alguns dos temas do “cantar as saias”, estão hoje nitidamente em desuso, sobrevivendo apenas na memória dos mais idosos. Em contrapartida, novas temáticas se foram tornando dominantes. Isso tem a ver com a evolução por que tem passado globalmente a sociedade, ou com fenómenos de mudança que afectaram, em particular, a comunidade campomaiorense.

É natural que assim tenha acontecido pois, por exemplo, dificilmente as quadras que antigamente faziam referência a tarefas do trabalho nos campos poderiam sobreviver num tempo em que apenas uma escassa minoria da população local se dedica ao trabalho agrícola e em que muitas das antigas tarefas desapareceram, devido a novas tecnologias que mudaram completamente as práticas da agricultura. Duvido que termos como alqueivar, sachar ou escardar signifiquem hoje alguma coisa para a maioria dos jovens campomaiorenses.

Algumas das quadras compostas de improviso em cantares de desafio, notáveis pela sua beleza ou pela maneira como retratam determinados sentimentos ou situações, são as de mais antiga composição. Algumas dessas quadras são ainda hoje cantadas. Pela mesma razão, é também muito natural que as cantigas de enamoramento, que ainda estão muito presentes no actual “cantar de saias”, incluam um número considerável de quadras muito antigas pois elas falam dos amores e dos encantos que os amadores encontram nos seus amados, temas eternos de toda a poesia.

Contudo, essa temática tem vindo a perder importância, na medida em que essas formas de descante deixaram de ter a função social de servirem de meio de comunicação nos namoros proibidos, reprimidos ou forçados a grande distanciação que, noutros tempos, caracterizava as formas de namorar à porta ou à janela, sempre sob a apertada vigilância das mães e a fingida interdição dos pais.

Hoje, com a liberalização das relações entre os jovens de ambos os sexos, a quadra deixou de ter a função de recado, funcionando apenas como manifestação de bairrismo, ou como simples pretexto de diversão. Apesar disso, talvez porque a capacidade criativa dos autores aumente com o seu grau de instrução, aparecem hoje novas quadras de amor de grande perfeição formal e de grande inspiração poética.



publicado por alemcaia às 19:32
Domingo, 06 de Novembro de 2011

No Alentejo, os cantos destacaram-se sempre como notáveis manifestações da cultura popular: no Baixo Alentejo os cantos corais; na maior parte do Alto Alentejo, eram cantadas e bailadas as “saias”.

É um facto que, como escreveu Maria Arminda Zaluar Nunes, “ a cada passo, no desenrolar da nossa literatura, interpenetram-se o lirismo culto e o popular”. Com relativa frequência aparecem como quadras de “saias”, algumas que podemos identificar pelo autor. Ainda com mais frequência, se nos coloca a questão de entre as quadras de autores, mesmo de autores notáveis, e as quadras populares, não ser fácil decidir sobre quais apresentam maior perfeição formal e maior riqueza de conceitos.

É uma realidade incontestável que as quadras do “cantar as saias” se foram tornando mais letradas, aproximando-se, na forma e na linguagem, da literatura escrita. O facto de isto acontecer não deve ser tomado como uma prova de que se estão a tornar menos populares, mas porque o povo é uma realidade dinâmica que está em constante transformação. Daí resulta que a cultura que ele produz e que ele preserva, se vai mudando na medida em que mudam as condições e os protagonistas que integram o povo produtor dessa mesma cultura.

A cultura popular, enquanto viva, é sujeito activo duma história. Só quando morre se torna objecto estático duma análise meramente histórica. Nesta perspectiva, não deve ser motivo de reparo e de estranheza que, nas manifestações de cultura popular que mantêm alguma actualidade, se note uma evolução, quer formal, quer de conteúdo, nas composições que são feitas ou usadas no presente. Isso não significa degenerescência ou adulteração. Significa apenas que essas manifestações culturais estão vivas e a vida implica mudança.

A elevação do nível social, económico e cultural da população é uma consequência da democratização que implica acesso generalizado a níveis de escolarização cada vez mais elevados. Os grandes meios de comunicação contribuem também para quebrar o isolamento, disseminando a informação e o conhecimento. Só de uma perspectiva elitista poderemos desejar que o povo mantenha sem mudança as suas manifestações culturais. Porque isso não significaria uma maior “pureza” ou autenticidade. Significaria, pelo contrário, atraso e estagnação no seu desenvolvimento, com as consequências inevitáveis para as suas condições de vida. Os pobrezinhos simples e ignorantes só são felizes na lógica dos que não são sentem nas suas vidas os efeitos amargos que toda a pobreza implica.

           



publicado por alemcaia às 19:22
Terça-feira, 01 de Novembro de 2011

As “saias”, como forma de cultura popular, expressavam o pensar e o sentir de comunidades que, ainda não há muito tempo, viviam em íntimo contacto com a natureza.

Até há cerca de meio século, a população do Alentejo, na sua grande maioria ligada aos trabalhos agrícolas, vivia em comunidades muito isoladas e muito autónomas. As dificuldades dos transportes, a ausência de estradas capazes e de outros meios de comunicação, o povoamento escasso e muito concentrado, constituíam factores que geravam o grande isolamento das povoações. Nestas condições, as tradições mantinham-se e propiciavam o desenvolvimento de formas próprias de comportamento colectivo. No “cantar as saias”, com as suas ironias, os seus sarcasmos e as suas sentenças singelas, podemos encontrar a expressão da moralidade, da mundividência, das concepções religiosas, dos sentimentos de mágoa e de revolta ou dos afectos da gente simples que vivia nesses universos quase fechados que eram as cidades, vilas e aldeias alentejanas até à primeira metade do século XX.

As “saias” foram uma expressão cultural colectivamente criada e perpetuada por comunidades rurais. O acentuado carácter de produção colectiva não excluía, contudo, que as cantadeiras e os cantadores mais afamados, construíssem e conservassem o seu próprio repertório, ao qual iam acrescentando novas quadras criadas pelo engenho da sua inspiração.

O gosto popular foi esquecendo as menos apreciadas, ou porque eram vulgares, ou porque não eram perfeitas na sua construção. As outras, as que caíam fundo no gosto colectivo, eram repetidas até à exaustão e, assim, foram conservadas ao longo do tempo, passando de geração em geração. Ainda hoje, em Campo Maior, ouvimos cantar – nas arruadas dos grupos que se formam de modo mais ou menos espontâneo e nos bailes de roda que ocupam os cruzamentos de ruas – quadras que, com alguma surpresa, podemos encontrar em documentos escritos há mais de cem anos. Essas quadras constituem autênticas relíquias desta velha tradição. Muitas delas conservaram-se sem modificação da sua forma original. Outras foram sendo adaptadas às novas condições que se foram gerando na sociedade local.

Há quadras que se conservaram na mesma família atravessando sucessivas gerações de cantadores. Mas a inovação é constante como é próprio das manifestações de cultura popular que se mantêm vivas. E as “saias” são, em Campo Maior, tradição e vivência actual, ainda muito presente na vida desta comunidade alentejana.

Em Campo Maior poucos serão os que as conseguem cantar de forma notável. Mas, praticamente todos os campomaiorenses são capazes de as trautear. Elas fazem parte da sua cultura, pois cresceram a ouvi-las e, de forma natural, foram-nas memorizando. A maioria dos campomaiorenses sabe de cor, pelo menos algumas das quadras mais frequentemente cantadas. Aliás, esta situação foi bem retratada pelo inspirado canto de anónimos cantadores campomaiorenses, há mais de cem anos:

Isto do cantar é veia,

Que Deus deu às criaturas;

Quem não sabe tatareia, [1]

Com’os cegos às escuras.[2]

 

Todos aqui fazem versos,

Todos aqui são artistas;

Todos aqui cantam saias,

Todos aqui são bairristas.

 



[1]  Tatareia  - de tátaro, gago, que fala com dificuldade.

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 251, Elvas, 26 de Agosto de 1883, recolha de A. T. Pires.



publicado por alemcaia às 19:16
Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

Água medicinal


 

“Existe nos arrabaldes da Praça de Ouguela uma antiquíssima fonte, cuja água mineral é muito útil para expulsar os vermes, que vulgarmente lhe chamam lombrigas e que, antigamente, até tinha a virtude de extrair a solitária.

Esta água ainda hoje é procurada e conduzida para Lisboa, Madrid e para outras diversas povoações tanto de Portugal como de Castela. Mas a fonte está em estado de ruína e de dia para dia cada vez mais; e talvez haja séculos que não sejam consertados os seus canos, o que concorre para que as águas das chuvas e de nascentes próximos se introduzam nos mesmos canos e façam com que uma água tão útil seja alterada. Seguramente que, causaria muito melhor efeito, se se explorassem o seus canos até ao nascente.

Os dignos camaristas deste concelho, ainda que tenham grandes desejos de mandarem fazer melhoramentos a esta fonte, não têm meios, por serem as rendas do concelho muito diminutas. Assim, compete ao governo de Sua Majestade mandar fazer esta exploração e incumbir a peritos competentes que analisem a água do seu nascente.

A Fonte da Graça é bem digna de análise e reparos, pois água que tenha tais virtudes não nos consta que haja outra em Portugal.

Temos confiança que o excelentíssimo ministro das obras públicas nos há-de atender.

Manuel Gama Lobo

In, A VOZ DO ALEMTEJO , Nº 4 (2º Ano)      ELVAS, 4ª – FEIRA  3/10/1860

 

 



publicado por alemcaia às 16:12
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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