Sexta-feira, 24 de Março de 2017

Em 1807 entraram os franceses em Portugal…

No dia 1 de Dezembro de 1807, tinha entrado nesta Vila o regimento de Guardas Walonas e um batalhão do Regimento de Córdova, que saíram no dia seguinte.

No dia 11 do mesmo mês, entrou na vila o Regimento de Múrcia, que no dia 13, continuou a sua marcha.

No dia 8 de Janeiro de 1808, um batalhão dos Granadeiros Provinciais de Castela e, no dia seguinte, mais um batalhão do mesmo corpo, ficaram a fazer a guarnição da Praça, que só evacuaram em 16 de Março.

 O comando espanhol tinha determinado que esta guarnição fosse sustentada à custa do povo, mas o Juiz de Fora conseguiu livrá-lo desta obrigação, vindo a mesma a ser assegurada pela Administração de Badajoz.

Um sargento-mor da Praça procurou revoltar o povo contra a frouxidão do governo português que tinha abandonado o Reino deixando-o em tão penosa situação. Mas o povo preferiu cumprir as ordens deixadas pelo príncipe regente (1) e nada faltou ao fornecimento das tropas, sendo em parte providas pelo “Assento militar das provisões de boca” e, em parte, pelas pessoas particulares às quais eram passados escritos de dívida, que nunca vieram a ser pagos.

Campo Maior pode, contudo, considerar-se um dos Povos menos vexados pelos franceses.

O comando francês teve por mais acertado abandonar a Praça de Campo Maior. Em consequência deste abandono, os seus armazéns foram espoliados de toda a pólvora, munições e apetrechos de guerra, as armas dos particulares foram guardadas em depósito. O Regimento Nº 20 que constituía a sua guarnição, foi desorganizado e extinto e uma parte dele foi mandada para França. Esta extinção foi declarada no dia 14 de Maio de 1808.

Os arquivos, espingardas e mais utensílios militares foram mandados para Elvas.

Igual espoliação se verificou quanto ao Hospital Real Militar e ao Assento. Mas a povoação foi deixada em paz. À excepção de um Regimento de Suíços que entrou nesta Praça no dia 12 de Março e saiu no dia 13, não mais se viu tropa francesa, o que não foi pequena fortuna.

(João Mariano, p. 38 a 46)

Napoleão julgou os portugueses subjugados porque os viu sofridos. E contou achar na Espanha igual moderação…

Quase sem saberem um do outro, os dois povos entraram em efervescência e se inflamaram.

Campo Maior teve como incentivo os sucessos de Badajoz de 30 de Maio.

Francisco Cesário Rodrigues Moacho, boticário, Luís José Xara, sem outra ocupação para além de um pequeno tráfico contingente (2), ambos de condição humilde e medíocre fortuna, resolveram aproveitar a oportunidade da ocasião para restituir à sua Pátria a liberdade perdida.

 Francisco Pedro Xavier da Costa, que antes da desactivação da Praça era secretário do extinto Regimento Nº 20, da guarnição de Campo Maior, sabendo que antigos militares estavam dispostos a passar a Espanha para assegurarem a sua subsistência combatendo ao lado dos espanhóis contra os franceses, resolveu ir com Cesário de jornada até Badajoz, em 8 de Junho. O primeiro procurava serviço como militar. O segundo procurou o comissário do Governo Supremo de Sevilha para lhe expôr um plano que foi atendido com interesse sendo-lhe prometido que uma decisão seria tomada no prazo de oito dias.

À conspiração associou-se em Campo Maior, o mercador Manuel António Gonçalves Niza que pôs a sua casa á disposição para nela se reunirem.

Assim se deu começo ao processo que se veio a desenvolver em Campo Maior que, desde o início, teve a concordância e o apoio do General Galluzo que assegurava as ligações à Junta de Badajoz.

 

(In, João Mariano de Nª Sr.ª do Carmo Fonseca. In, Memória histórica da Junta de Campo-Maior ou História da revolução desta leal e valorosa villa, (Ed. António José de Torres de Carvalho, Elvas, 1912.    

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(1) Depois coroado como D. João VI, que tinha embarcado para o Brasil, a fim de evitar ser aprisionado pelos franceses que o forçariam a abdicar da coroa, perdendo-se assim, a independência de Portugal.

(2) Era então assim designado o contrabando.



publicado por Francisco Galego às 00:04
Segunda-feira, 20 de Março de 2017

 

 

Um breve resumo dos principais acontecimentos:

- 9 de Março - Foi posto cerco a Campo Maior: o exército sitiante era composto por 4 a 5 mil homens;

- O MajorTalaya dispunha de menos de 500 homens armados: 300 ordenanças, mas só 110 armados; 230 milicianos de Portalegre;

- Talaya sabia que Beresford [1] estava a caminho para socorrer Campo Maior;

- Resistiu duas semanas; os milicianos de Portalegre recusaram continuar a luta;

- Só havia pólvora para mais um dia; o Major Talaya procurou ganhar tempo;

 - A 20 de Março, foi negociada a rendição: se até ao dia 22 não fosse socorrida, a praça render-se-ia.

 - Os franceses entram na Praça no dia 24. Mas retiraram no dia 25, com a chegada de Bersford.

 - Ouguela rendera-se dois dias antes.

  -Tinham disparado contra a vila 10 mil projécteis de artilharia.         

 - Parte das munições eram portuguesas: tinham sido trazidas pelos franceses de Olivença.

 - No Alentejo, só Elvas não foi ocupada.

  

A defesa de Campo Maior em 1811 tomou proporções de excepcional heroísmo, pois que, estando a praça quase desmantelada, pessimamente artilhada e fracamente guarnecida, resistiu durante dez dias a um sítio vigoroso dos franceses, só se rendendo com todas as honras de guerra e saíndo a sua guarnição pela brecha feita no baluarte da Fonte do Concelho.[2]

Quando a divisão francesa do exército de Soult, comandada pelo general Girard, viu sair aquela guarnição, ficou espantosamente assombrado, pois que, o seu heróico comendante, o major de engenharia Talaya, apenas era seguido por pouco mais de 30 homens de tropa regular, praças do regimento nº 3 de artilharia, sendo os restantes milicias e ordenanças mal armados, num total que não excederia os 300 homens, na sua maioria feridos e extenuados.

A defesa de Campo Maior foi um dos factos mais honrosos da chamada Guerra Peninsular, sendo para a vila um padrão de eterna glória. Todos os homens válidos lutaram contra os sitiantes e até algumas mulheres cooperaram na peleja.

As condições de rendição foram as mais honrosas possíveis e o general francês, prestou ao governador, o destemido major Talaya, as máximas distinções. Não menores, nem menos honrosas foram as que Bersford lhe rendeu, no seu relatório sobre a defesa de Campo Maior.

À vila, que tão portuguesa e heróica se mostrara, foi-lhe, por decreto, concedida a denominação de “Lealdade e Valor - Leal e Valorosa Vila de Campo Maior” que ostenta no seu escudo.

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Este texto foi elaborado com base no artigo publicado pelo jornal O Distrito de Portalegre , no seu nº 1848, de 19 de Março de 1911, quando se comemorava o centenário deste grande feito da praça d’armas de Campo Maior. No castelo foi colocada uma lápide que assinala esse notável acontecimento.

Para maior desenvolvimento, recorrer a:

. - "O Cerco de Campo Maior em 1811", Publicado pela Comissão do Centenário da Guerra Peninsular, Lisboa,Imprensa Nacional , 1911

   - II  Centenário da Guerra Peninsular - Uma Celebração Maior em Campo Maior - o Cerco de 1811, Publicado pela Câmara Municipal de Campo Maior, 26 de Março de 2011.

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[2[1] ]General britânico, enviado pelos aliados ingleses para, como marechal do exército português, organizar a defesa contra as tropas napoleónicas. Recebeu depois o título de Marquês de Campo Maior.

   [2] Devido a isso, este baluarte passou a ser designado por "Baluarte da Brecha". Ainda hoje se pode localizar a brecha aberta pela artilharia francesa, pois que, a face voltada para o campo da feira, mostra sinais dessa abertura.


publicado por Francisco Galego às 12:18
Quarta-feira, 15 de Março de 2017

 

Na manhã 20 de Maio de 1801, apareceu por alturas da Cabeça Aguda a Quarta Divisão do exército espanhol que formou o sítio da Praça.[1]

A guarnição que se tinha preparado para resistir, ofereceu uma resistência porfiada durante 18 dias, sob o comando de Matias Azedo. Mas teve que se render porque dependia de Campo maior a tranquilidade do Alentejo e do Reino, uma vez que, enquanto esta praça resistisse, não cessavam nem se ultimavam as negociações de paz em Badajoz. Por outro lado, as forças sitiantes eram poderosas. Tinham submetido a Praça e a vila a forte fogo cruzado, colocando as suas baterias em pontos estratégicos:

- a 1ª na Cabeça Aguda entre o Nascente  e o Sul;

- a 2ª na Senhora da Saúde, a Nascente;

- a 3ª no Carrascal, a Norte;

- a 4ª e a 5ª a S. Pedro, Nordeste.

Após a rendição, a vila ficou ocupada pelos espanhóis, quase meio ano, tendo sido por eles evacuada no dia 22 de Novembro de 1801, data em que o comandante militar entregou as chaves a D. José Carvajal que delas tomou posse em nome do governo de Portugal e que ficou interinamente no governo da Praça até ao dia 8 de Dezembro de 1801, que foi quando o coronel Francisco da Fonseca Mexia, entrou nela com o seu regimento.

Não se descuidaram os moradores de Campo Maior de reparem as ruínas (provocadas pela 8.342 balas de canhão, 257 bombas e 1.217 granadas que caíram sobre a povoação): as suas casas foram em breve habitáveis. Mas a reparação não foi geral: São ainda hoje visíveis sinais de destruição na Igreja Matriz, no Convento dos Frades de São Francisco, nas Casas da Câmara e em alguns outros edifícios.

A Fortificação não foi prontamente reparada, nem era de esperar que, por longo tempo, o fosse. Porque em conformidade com o juízo que dela fizeram os inspectores encarregados de avaliar as suas capacidades de defesa em relação com o local em que estava posicionada e em relação à Campanha que a envolve.

Na sequência das inspecções que lhe fizeram, foi Campo Maior desguarnecida de artilharias, as suas portas ficaram sem pontes levadiças e as suas muralhas arruinadas pois dois grandes pedaços tinham sido derrubados pela artilharia inimiga, um entre os baluartes de São Francisco e de Santa Rosa e, no baluarte de São Sebastião o lado voltado para Ocidente.

 

NOTA 1:. No ano de 1806, quando na tarde do dia 14 de Abril de 1806, Sua Alteza Real o Príncipe D. João, Regente destes Reinos entrou em Campo Maior, foi testemunha ocular desta situação e ouviu a expressão dos ardentes desejos dos moradores da vila para que estes estragos fossem reparados.

Que diversa impressão não teria feito em seu coração esta visita se pudesse prever que a mesma seria uma despedida?

 

NOTA 2: Em 27 de Novembro de 1807 embarcou, para se retirar para o Brasil, a família real; em 29 largou do porto, tendo já entrado em Lisboa os franceses.

 

(João Mariano de Nª Sr.ª do Carmo Fonseca. In, Memória histórica da Junta de Campo-Maior ou História da revolução desta leal e valorosa villa, (Ed. António José de Torres de Carvalho, Elvas, 1912.

 

                                                                            

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[1] Napoleão Bonaparte que assuimira o poder em 1799, como 1º Cônsul da República Francesa, decretou o Bloqueio Continental para impedir o acesso dos navios ingleses aos portos dos países da Europa. Manuel de Godoy que assumira um lugar preponderante na condução política do reino de Espanha, aliou-se a Napoleão Bonaparte. Portugal, sendo aliado da Inglaterra, não cumpriu a decisão tomada por Napoleão. Este cerco aconteceu no contexto da chamada Guerra das Laranjas. Tratou-se, portanto, de uma invasão para a conquista e submissão do reino de Portugal.

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 15:40
Quarta-feira, 08 de Março de 2017

Campo Maior foi povoação de 1.200 vizinhos. Hoje, por causa das guerras com Castela (1), acha-se com 850, com casas muito nobres e limpas, cujos apelidos são: Vaz, Galvão, Mexia e Sequeira, que a vieram povoar.

Foi ganha aos mouros na era de 1219, pela família dos Peres naturais de Badajoz. Estes deram a vila à fábrica (2) da Igreja de Santa Maria do Castelo, sendo bispo de Badajoz D. Pedro Peres, que lhe deu por armas Nª Sr.ª e um cordeiro com um circulo à roda que diz: Sigillum Capituli Pacensis (3).

Depois, no reinado de D. Dinis - que lhe fez o castelo na parte mais alta do terreno para o lado de Elvas -, havendo controvérsia entre os moradores sobre o lugar para onde haviam de estender a povoação, ajustaram que para o maior campo, de que terá resultado o nome de Campo Maior.

Tem uma freguesia da invocação de Nª Srª da Expectação, que se edificou no tempo de D. Sebastião de Matos, bispo de Elvas, com um prior e dois vigários (...).

Tem um convento da invocação de Santo António, de frades franciscanos, que vivem no castelo desta vila enquanto se acaba o convento que se lhes funda por ordem do sereníssimo rei D. Pedro II. Servem-se os frades dessa Igreja que antigamente foi matriz desta vila, a qual foi deixada pelos clérigos no ano de1645, sendo dela prior Fernando Gil Castelo. A primeira fundação deste convento foi junto às casas para o lado das Poças e que foi mandado derrubar por causa das guerras com Castela, para se construir a fortaleza da vila tornada praça de guerra.

Tem outro convento de frades de São João de Deus, com título de Hospital del-Rey, onde se curam os soldados e mais gente de guerra da guarnição da Praça.

Tem Casa da Misericórdia com seu hospital.

Tem três ermidas (pois as mais estão extintas):

- Uma de São João Baptista, em que o Santo é muito venerado pelos muitos milagres que Deus Nosso Senhor faz por sua intercepção;

- Outra do Mártir S. Sebastião, imagem muito selecta e de singular beleza;

- A de S. Pedro que fica fora dos muros e na qual está o Santo pintado na parede com tal perspectiva que parece olhar para todas as direcções. Esta pintura ainda hoje existe.

Foram baptizados na pia da antiga matriz desta vila:

- O Beato Amadeu que instituiu a Ordem dos Amadeus em Itália (de seu nome secular João de Menezes e Silva, filho segundo de Ayres Gomes da Silva, alcaide de Campo Maior e Ouguela) e D. Isabel de Menezes, filha de D. Pedro de Menezes, Conde de Viana e primeiro Capitão de Ceuta e irmã de D. Diogo da Silva, primeiro Conde de Portalegre.

 - D. Beatriz da Silva, que instituiu a Ordem da Conceição, em Castela, foi irmã do dito João Menezes da Silva e filha de seus pais a qual passou a Castela com a rainha D. Isabel, filha do Infante D. João, quando foi casar com El-rei D. João II de Castela.

Foi também natural desta vila o bispo Martinho Afonso Mexia que nela tem muitos sobrinhos e dilatada família; foi primeiro bispo de Viseu e depois de Coimbra e Vice-rei deste reino.

É esta vila muito abundante de trigo, cevada e legumes, com muitos montes no termo onde vivem os lavradores.

Dista da cidade de Elvas três léguas para Norte, meia légua do Rio Caia que nasce na Serra de São Mamede, junto ao Rio do Sete, termo da vila de Marvão e que corre pelo meio dos soutos de Alegrete e junto de Arronches, vindo a servir de linha de divisão entre esta vila de Campo Maior e a cidade de Elvas. Com as águas do Caia regam-se muitas hortas e pomares e moem muitos moinhos. É rio de muitas pedras e, por essa razão, o peixe que cria é tido como sendo melhor que os dos outros rios.

Entre as muitas hortas que tem esta vila, é muito nomeada a Horta de São João Baptista pelo aparecimento que nela fez o santo a Gonçalo Rodrigues, homem virtuoso e pelo milagre que com ele usou em lhe tirar um lobinho que tinha na cabeça e passar-lho para o pé esquerdo, a fim de convencer os moradores a voltarem às suas casas de que se tinham retirado por causa da peste, a qual já tinha cessado como lhe afirmara São João Baptista.

Texto elaborado com base em:

COSTA, Pe António Carvalho da, 1650-1715 - COROGRAFIA PORTUGUEZA E DESCRIPÇAM TOPOGRAFICA DO FAMOSO REYNO DE PORTUGAL, com as noticias das fundações das cidades, villas, & lugares, que contem; varões illustres, genealogias das familias nobres, fundações de conventos, catalogos dos Bispos, antiguidades, maravilhas da natureza, edificios, & outras curiosas observaçoens. Tomo primeyro [-Vol.terceyro] / Author o P. Antonio Carvalho da Costa.... - Cap. VI – Da Villa de Campo Mayor (p. 366 a 368), Lisboa : na officina de Valentim da Costa Deslandes, impressor de Sua Magestade, à sua custa impresso, 1706-1712. - 3 vol.

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       (1)  A  Guerra da Restauração (1640-1668)

       (2)  O Património, ou seja, os bens pertencentes à igreja.

      (3)   Frei Pedro Peres foi o primeiro bispo da restaurada diocese de Badajoz, designada como Diocesis Pacensis. Por isso, a expressão Sigillum Capituli Pacensis pode ser entendida como “Selo do capitulo de Badajoz”, ao qual Campo Maior pertencia.



publicado por Francisco Galego às 00:01
Domingo, 05 de Março de 2017

Provisão de D. João III, no ano de 1545

 

Os moradores da vila fizeram “um alpendre na Praça[1] ao longo do muro em que sem vendiam as cousas dela que houver”

            Concedido que “se lavrasse e se arrendasse por três anos a Defesa do Carrascal[2], um ano para o mosteiro de Santo António e os mais para as ditas despesas e que depois disto, umas casas que o concelho tinha que serviam de Audiências, e câmara que estavam dentro da vila, caíram e, que para se tornarem a fazer ordenaram com a maior parte do Povo e homens bons em Câmara que se fizessem as ditas casas junto da Praça ao longo do muro da barbacã[3], por dentro porque pouparia muito a vila e que por debaixo delas ficassem alpendres e se houver por bem que se fizessem para vender as cousas da dita vila na Praça e que por os alpendres se não poderem fazer ao longo do muro, possa vender cousa alguma sem da barbacã se derrubar o que ficar diante deles, me pedis que haja por bem que a dita barbacã se derrube e assim que se façam as Audiências[4] e Câmaras sobre eles por ser de menos custo e mais honra desta vila fazerem-se sobre os ditos alpendres em lugar onde se fazem. Havendo respeito ao que dizeis e por algumas cousas que a isto me movem, hei por bem que se façam as Audiências e Câmara sobre os alpendres que dizeis que se fazem na Praça por meu mandado para o que se derrubará a barbacã que estava defronte da dita obra e assim a barreira[5] até ao castelo sendo necessário.”

 

(Estêvão da Gama, Notícias da Antiguidade,Aumento e Estado Presente da Vila de Campo Maior, Texto actualizado,  pág.s 177 e 178)

 

  1. Praça Velha, adjacente ao castelo que, na época, era o centro da vida local em Campo Maior.
  2. Na zona agora ocupada pelo Centro Escolar, pela Técnidelta e pelo Centro Cultural.
  3. Muro de protecção do fosso para defesa das muralhas.
  4. Casas destinadas às sessões do tribunal.
  5. Muralha exterior que se localizava no local agora ocupado pela rua que tradicionalmente foi designada como na Rua da Barreira.

           



publicado por Francisco Galego às 11:45
Quarta-feira, 01 de Março de 2017

Com a sua integragação plena no reino de Portugal, Campo Maior, Ouguela e Olivença, foram, quanto ao domínio eclesiástico, integradas na diocese de Ceuta, criada em 1414, até que a diocese de Elvas foi criada por bula do Papa Pio V, de 9 de Junho de 1570. Esta integrava as vilas de Campo Maior, Ouguela e Olivença que tinham pertencido à diocese de Ceuta e mais as vilas de Juromenha, Vila Fernando, Vila Boim, Alandroal, Fronteira, Monforte, Alter do Chão, Alter Pedroso, Cabeço de Vide, Veiros, Seda, e Barbacena, desanexadas do arcebispado de Évora.

A diocese de Elvas foi suprimida em de 30 de Setembro de 1881, em simultâneo com a diocese de Castelo Branco. O seu território foi maioritariamente reintegrado na arquidiocese de Évora (com excepção das freguesias de Degolados  e Cabeço de Vide  e do concelho de Alter do Chão, que passaram para a, também então criada, diocese de Portalegre ).

Presentemente, o título de bispo titular de Elvas continua a ser usado por bispos auxiliares, à semelhança do que sucede com outras dioceses históricas de Portugal extintas.

Nuno Brás da Silva Martins, bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa é, desde 2011, bispo titular de Elvas.

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publicado por Francisco Galego às 00:01
Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017

Realizavam-se muitos bailes no Entrudo. Os rurais – jornaleiros, criados e criadas de servir – frequentavam os bailes da “sociedade da música” que, por estar ladrilhada com lajes de xisto negro que largava um pó preto que se agrava à roupa, era, por graça, designada pelo nome de “casinha do picom”, ou por “bailes do assento”, devido á localização da sociedade.

Os bailes da “sociedade da praça” eram reservados a uma espécie de classe média que incluía os chamados “artistas” – ferreiros, ferradores, carpinteiros de “finos” e de “obra grossa”, comerciantes e caixeiros, pedreiros (os alvanéus), paneiros e alfaiates, sapateiros, correeiros e albardeiros – enfim, todos os que tinham profissão não relacionada com o trabalho no campo, ou que cultivassem apenas as suas terras, ou seja, os pequenos e médios proprietários.

Por volta de meados do século passado, foi mantido o hábito de se organizarem as “Marchas de Entrudo”, com algumas semelhanças com as actuais marchas populares – como as de Lisboa - só que com um aspecto mais chocarreiro, de acordo com o carácter carnavalesco da quadra. Deram muito nas vistas algumas marchas organizadas e ensaiadas pelo Carrasco e pela parceria constituída pelo sapateiro Joaquim d’Elvas e pelo, sacristão da Matriz, António Bajé. Estas distinguiam-se pelo brilho dos figurinos, pela perfeição das danças coreografadas e pelo cuidado que punham nas músicas e cantares ensaiados para o efeito. Os dois elementos da parceria referida esforçavam-se sempre por se apresentarem travestidos da forma mais gloriosa que lhes fosse possível, compondo extraordinárias personagens de rainhas, fadas ou princesas, pois, além da marcha que iam cantado e dançando, paravam nos cruzamentos das ruas e nas praças para representarem pequenos entremezes como, por exemplo, a extraordinária saga da “Princesa Magalona”.

Numa sociedade profundamente estratificada como a que nesse tempo habitava Campo Maior, nem no Entrudo eram concebíveis misturas das “pessoas comuns” com as “famílias notáveis”. Estas faziam, à sua maneira, o seu Carnaval: organizavam as suas trupes para irem de casa em casa animar as pessoas do seu “meio”. Esses bailes eram reservados e realizavam-se em casas particulares – os assaltos -, ou no Grémio, a Sociedade Recreativa muito selectiva, designada vulgarmente como  “a sociedade dos ricos”.

Esta “elite social” organizou, durante alguns anos, uma espécie de corso local, um cortejo ou desfile que o povo designava como a  “ batalha das flores” e que consistia em as famílias do “círculo dos importantes” desfilarem ao longo da Rua da Canada, em charretes, ou noutro tipo de trens de tracção animal, travando uma amável “batalha” de pequenos saquinhos de farinha, grão, feijão, farelo, serpentinas, papelinhos, entre os que circulavam e os que assistiam na rua ou nas janelas. Ao povo cabia o papel de assistir e de se deslumbrar com o brilho dos trajes - dominós, damas antigas, arlequins e columbinas -, envergados pelos figurantes.

Hoje, tudo está mais igual. A sociedade está seguramente mais justa e isso é mesmo muito importante. O que não significa que o Carnaval se tenha tornado muito mais interessante.

 

 



publicado por Francisco Galego às 08:24
Domingo, 26 de Fevereiro de 2017

No meu tempo de infância, numa designação  mais popular, era chamado de “O Entrudo”. A gente que se tinha por mais ilustrada designava-o como “O Carnaval”.

Nos jornais do século XIX, encontram-se referências ao Carnaval de outros tempos, em Campo Maior. Trata-se geralmente de um Carnaval “bem comportado”, de gente séria que não cometia desmandos e que desdenhava e censurava “as grosseiras e violentas diversões das gentes rudes do campo, sem sentido das medidas e sem educação”.

Por exemplo:

 No domingo gordo inauguraram-se nesta vila os bailes públicos de máscaras. O primeiro teve lugar no teatro (do castelo), levado a efeito pela Sociedade Artística, auxiliada por alguns não artistas, os quais, em comissão mista, tomaram a direcção do espectáculo. O teatro estava ornado sem luxo, mas com asseio e bom gosto e manteve-se em toda a noite na mais rigorosa decência. À entrada do salão de baile (plateia superior), cada máscara dizia o seu nome ao presidente da comissão.

A filarmónica artística, vestida uniformemente, deu começo ao espectáculo com uma sinfonia: levantado o pano, um artista, moço de merecimento moral e intelectual, entrou em cena com os emblemas que representam o tempo e figurou as quatro estações do ano… com versos alusivos.

Depois começou o baile que durou até às 2 horas da noite. Nos intervalos houve quadros vivos…

“No terceiro dia de Entrudo teve lugar o segundo baile de máscaras. Foi brilhante, foi até esplêndido e houve um grande concurso de espectadores. Desta vez, o número de Máscaras não baixou de sessenta: apareceram costumes variados e de bom gosto e houve muita animação. O ardor dos dançadores chegou a ser por vezes frenético… o movimento e alegria foram constantes…

À comissão que dirigiu os espectáculos, todos os louvores são devidos: nunca os houve em Campo Maior com mais ordem…” (In A Voz do Alentejo, 1866).

 

Muito raramente aparecem referências às outras manifestações do outro Carnaval, o Entrudo rude e violento.  Principalmente à celebração da “5ª- feira das comadres”, pela gente mais ligada ao trabalho nos campos, que eu ainda presenciei, em toda a sua pujança, nos tempos da minha infância.

Nesse tempo, quando se começavam a ouvir os estrondos do rebentar das bombas e os gritos chistosos com que a rapaziada perseguia as vítimas das impertinentes partidas, sabíamos que o Entrudo tinha começado.

Os “lárga-los” consistiam em rabos dos animais esfolados, trapos, ou escritos com frases como “Sou burro”, “Fujam que marro”, que os brincalhões se entretinham a pregar nas costas dos incautos que eram escolhidos para vítimas. A tarefa de pregar estes objectos nas costas das pessoas, sem que estas o pressentissem, exigia descaramento, astúcia, rapidez e perícia. Depois, o desgraçado a quem se pregava a partida, ia passando pelas ruas sob a chufa dos gozadores divertidos que gritavam, “Lárga-lo!... Lárga-lo!” evitando que este percebesse que era ele o alvo desta gozação.

O rapazio adorava o perigoso jogo de lançar bombas e de fazer rabear os busca-pés, com que procuravam assustar as pessoas. E não apenas nas ruas. O hábito que nesse tempo havia de manter abertas as portas que davam para a rua, dava azo a que, os mais violentos, deitassem esses objectos para dentro das casas, provocando  grandes sustos e alaridos. Os gritos das mulheres assustadas e as correrias dos malandros que procuravam fugir sem serem identificados,  punham as ruas em alvoroço.

De noite formavam-se as trupes de mascarados que percorriam as ruas metendo-se com quem por eles passava. Caraças, mascarilhas, pinturas e óculos serviam para esconder a identidade, permitindo atitudes que não se assumiam de cara descoberta. Os homens e as mulheres aproveitavam para se travestirem envergando roupas velhas e grotescas, disfarçando a voz, aproveitando este período de maior liberalidade de comportamentos que não eram admitidos em situações normais de convivência, como o hábito de mascarrar e de enfarinhar permitindo um contacto físico entre os sexos que estava de todo vedado em condições normais no resto do ano. Por vezes, esses bandos de foliões entravam de rompante pelas casas, sendo recebidos em alarido pelos moradores e pelos vizinhos que acorriam a participar na festança. Se a trupe ia acompanhada de tocadores, podia mesmo improvisar-se uma bailarada.

 Mandava o decoro que se respeitassem as pessoas e as casas dos que, por razões de doença ou de morte, estivessem em situação de resguardo ou de luto.

Os grandes dias do Entrudo eram a 5ª- feira das Comadres e a 5ª- feira dos Compadres. Na das Comadres, os homens organizavam-se em bandos para a chocalhada: cobertos de capas oleadas e que, fazendo soar grandes chocalhos e mangas, iam pelas ruas provocando as mulheres que respondiam ao desfio lançando sobre eles baldes de água, nem sempre limpa, cinza, pó de carvão, farelos e serradura e outras coisas menos próprias que não convém designar. Agrupadas em certas casas, as mulheres colocavam à janela estandartes de panos coloridos, enfeitados com vistosas fitas e outros ornamentos, desafiando os homens a que os tentassem alcançar. Iniciava-se então uma feroz contenda em que os que estavam em baixo procuravam a todo o custo subir para alcançar o apetecido troféu e as que estavam em cima tudo faziam para impedir que tal objectivo fosse concretizado.

Na 5ª-feira dos Compadres o estandarte era substituído por um espantalho e de novo se desencadeava a contenda.

 



publicado por Francisco Galego às 09:09
Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2017

A INTEGRAÇÃO DE CAMPO MAIOR NA SOBERANIA DO REINO DE PORTUGAL

 

Depois de uma sucessão de confrontos que começara pela reivindicação do direito à posse do Algarve e que persistira na disputa de várias terras na fronteira terrestre, a norte e a leste do reino de Portugal, D. Fernando IV, rei de Leão e Castela e D. Dinis, rei de Portugal, concordaram em assinar um tratado de paz, no dia 12 de Setembro de 1297.

Para consolidação e garantia do acordo realizado, combinaram os consórcios de D. Afonso, príncipe herdeiro da coroa de Portugal, com a infanta D. Beatriz, irmã do rei de Leão e Castela, o qual casaria com D. Constança, filha de D. Dinis, rei de Portugal.

Por este tratado o rei de Portugal via reconhecida a legitima soberania sobre os lugares e castelos de Ribacoa - Sabugal, Alfaiates, Castelo Rodrigo, Almeida, Castelo Melhor, Monforte, San Félices de los Gallegos e outros lugares desta comarca de Beira – bem como de terras mais a Sul, na fronteira do Guadiana – Arronches, Campo Maior, Ouguela e Olivença.  

Analizando bem as suas consequências, este tratado tem uma importância acentuada, tanto do ponto de vista da História de Portugal, como da história da vila de Campo Maior:

            - Do ponto de vista da História de Portugal, ele marca a transição do período da conquista definitiva do território, depois de cerca de século e meio de lutas pela posse das terras e de consolidação da sua independência como Estado; repare-se que o resto da Península Ibérica foi um moisaco de reinos cristãos, com a presença de um reino muçulmano, até à conquista de Granada em 1492;

            - Com a assinatura deste tratado, Portugal é o país europeu que tem, desde há mais tempo, definidas as fronteiras do seu território original, pois que elas se mantêm desde 1297, apenas com a excepção de San Félices de los Gallegos e de Olivença.;

            - À luz deste tratado, do ponto de vista da história de Campo Maior, esta vila é uma das terras que mais tarde se integrou plenamente no Estado Português, se atendermos a que ficou ainda dependente do senhorio e da autoridade eclesiástica do bispo de Badajoz, até ao fim da crise de 1383-1385. D. João I teve de tomar Campo Maior pela força das armas em 1388, pois seguira o partido do rei de Castela. Só em 1392, foi completamente integrada na soberania dos reis de Portugal, com o corte dos laços de dependência eclesiástica do bispo de Badajoz.

Com a sua integragação plena no reino de Portugal, Campo Maior, Ouguela e Olivença, foram, quanto ao domínio eclesiástico, integradas na diocese de Ceuta, criada em 1414, até que a diocese de Elvas foi criada por bula do Papa Pio V, de 9 de Junho de 1570. Esta integrava as vilas de Campo Maior, Ouguela e Olivença que tinham pertencido à diocese de Ceuta e mais as vilas de Juromenha, Vila Fernando, Vila Boim, Alandroal, Fronteira, Monforte, Alter do Chão, Alter Pedroso, Cabeço de Vide, Veiros, Seda, e Barbacena, desanexadas do arcebispado de Évora.

A diocese de Elvas foi suprimida em 30 de Setembro de 1881, em simultâneo com a diocese de Castelo Branco. O seu território foi maioritariamente reintegrado na arquidiocese de Évora (com excepção das freguesias de Degolados e Cabeço de Vide  e do concelho de Alter do Chão, que passaram para a, também então criada, diocese de Portalegre).

Presentemente, o título de bispo titular de Elvas continua a ser usado por bispos auxiliares, à semelhança do que sucede com outras dioceses históricas de Portugal já extintas.

Nuno Brás da Silva Martins, bispo auxiliar do Patriarca de Lisboa é, desde 2011, o bispo titular de Elvas.

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Domingo, 19 de Fevereiro de 2017

... Tive eu, ao assistir, ontem à noite, ao espectáculo de dança que a Associação Cultural “AXPRESS-ARTE” apresentou no Centro Cultural de Campo Maior.

Tanto maior foi essa surpresa quanto, tenho de o confessar, a sua titulação como “A cópia”, era pouco significante para me ter criado qualquer espectativa. Ia sem ideia preconcebida, movido apenas pelo interesse de conhecer mais um trabalho no qual participavam pessoas que estimo e que considero empenhadas em projectos concebidos segundo objectivos e soluções que sempre me suscitaram contentamento e proveito cultural.

E, de repente, aquilo que define uma proposta como cultura e como arte, começou a acontecer naquele palco tão despedido de grandes e espectaculares artifícios cénicos, mas prenchido com sugestões tão simples quanto significativas, gerando um espaço que dava de imediato, o sentido da acção que nele se ia desenvolver: a quase ausente utilização da cor, o jogo simples e cru da luz, das sombras e dos espaços não iluminados, delineando um clima de espectável dramatismo.

Depois, nova surpresa: uma banda sonora que, ora ritmando, ora alternando as vozes com os trechos musicais, foi ganhando um crescente lugar sublinhando a narrativa sujacente à representação que a dança ia construindo. Por mim, gostaria que o “folheto-programa” tivesse indicado os autores e/ou os trechos musicais que foram tão bem inseridos, nesta tão inteligente e tão bem integrada banda sonora.

Depois, o espanto de terem optado pelo despojamento com que vestiram os que no palco foram construindo a representação. As marcações encheram o espaço cénico de modo a que os movimentos pudessem ir “narrando” o que, com intenção, havia  sido escolhido para ali poder ser analisado, entendido e interpretado, porque esse é o propósito de qualquer proposta com verdadeira intenção cultural.

E, o sentido foi-se explicitando: no essencial, trata-se de apresentar o conflito existencial que se desenvolve no confronto agónico entre duas tendêndias estruturantes da nossa individualidade, ou seja, do nosso modo de estar e de ser: por um lado, a tendência que vai defenindo o nosso Ego, modelando-o segundo as circunstâncias que nos são propostas pelo ambiente social em que estamos inseridos e que, nesta representação, é configurada pela inserção da personagem individual nos comportamentos do grupo; por outro lado, a emergência do Alter Ego que, aspira a mais altos designios que estruturem e personalizem uma verdadeira individualidade, incitando à não conformação com o que está estabelecido.

Claro que esta é a minha leitura. Mas é essa a função dos verdadeiros actos culturais: levar-nos à reflexão e ao conhecimento. Por isso, a minha surpresa, deu lugar ao meu grande contentamento, Não é coisa de somenos, ter podido assistir a um tão digno como inteligente acto de cultura, numa terra em que, com grande desgosto, constato constantemente, que a cultura foi desaparecendo para dar lugar a pobres acções de mero entretenimento que apenas acentuam o progressivo empobrecimento do nosso viver colectivo. Parabéns a todos os que nele participaram.



publicado por Francisco Galego às 10:36
Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017

Há ainda muitos professores que arrastam, ao longo dos anos, como se de um fardo se tratasse, aquilo que devia ser tomado como a sua missão e sua forma de realização pessoal. Comportam-se como se o seu dever profissional se reduzisse aos de meros emissores de conhecimentos que os alunos, reduzidos à condição de meros recipientes, têm que ir acumulando.  

Ora, isto é inviabiliar qualquer projecto minimamente aceitável e capaz de produzir os efeitos necessários e expectáveis. Os alunos são pessoas envolvidas numa formação que deve ser propiciada através de projectos educativos com objectivos claramente definidos e com espectáveis garantias de eficácia.

É hoje consensual entre os que, no universo escolar se dedicam mais seriamente à análise das práticas educativas, que a apreocupação de ensinar os alunos a aprender de forma adequada os conhecimentos que têm de adquirir é, além de facilitadora por gerar interesse e acelerar a aquisição desses conhecimentos, aquela que, uma vez adquirida, tem maior eficácia por tender a permanecer ao longo das suas vidas.

Naturalmente que uma estratégia centrada nas tarefas desenvolvidas na sala de aula exige um prévio e apurado trabalho para que as aulas decorram em boa ordem e com eficácia. Como contrapartida, nestas condições, os comportamentos desregrados, ou de conflito, tenderão a desaparecer, a acção do professor terá maior possibilidade de observação dos casos isolados, dotando-se assim da capacidade de intervenções mais individualizadas no acompanhamento dos alunos.

A aula tornar-se-á o local privilegiado das aprendizagens. Poderá também assim desempenhar a sua função de contribuir para atenuar as desigualdades sociais determinadas pelas diferentes condições sócio-económicas e culturais que os alunos levam dos seus ambientes familiares para as escolas e que constituem um factor tantas vezes fatalmemte determinante do seu sucesso escolar e que irá condicionar o seu projecto de vida. Colateralmente, a escola dará também lugar a que os alunos, como é próprio das fases do seu crescimento, possam dispor de tempos livres para realizarem a sua socialização através dos seus grupos de convívio e de crescimento.

Nesta perspectiva, os professores deixam de recorrer aos “trabalhos de casa”, deixando apenas ao critério dos alunos e das suas famílias a decisão sobre a maneira de ocuparem o seu tempo noutras actividades que poderão contribuir de forma positiva para sua formação como pessoas. É indismentível a afirmação de que, muitos dos professores que são considerados pelos bons resultados obtidos, não recorrem a esses tempos de trabalho fora da escola, que servem apenas para compensar as aprendizagens que deviam ter sido feitas no universo escolar.  

 

Foi a leitura do texto publicado na revista VISÃO nº 1250 de 16/2/2017 pág.s 10 a 12, que ditou este impulso de escrever, não resistindo ao que em mim ainda resta, com alguma saudade, da minha vida de professor.



publicado por Francisco Galego às 00:08
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2017

A atitude dos autarcas e de certos responsáveis, tanto a nível regional, como no âmbito da política nacional, é tal que só se pode justificar por enorme insensibilidade e uma quase total falta de conhecimentos sobre as questões ambientais. O problema atinge proporções tão graves que, me parece pertinente colocar, com carácter de urgência, a seguinte questão:

Porque se demora tanto a apresentar e fazer aprovar no Parlamento uma lei que assegure a preservação e conservação do Património Natural?

Esta questão faz-me ter algumas dúvidas sobre outra que sempre defendi como opção natural: a do alargamento do poder local. Porque, neste caso, é pertinente colocar, como dúvida, se esta seria a solução mais adequada, dada a fúria arboricída de que constantemente nos chegam notícias.

 

“TÚNEL DAS ÁRVORES FECHADAS”  EM MARVÃO PROTEGIDO

Consegui impedir que o atentado que estava a ser  levado a cabo durante a manhã de hoje fosse suspenso e os danos minimizados. O abate de dez freixos centenários que forma o famoso e ímpar “túnel das árvores fechadas”, composto por quase três centenas de árvores com estatuto de interesse público, foi suspenso.

O âmbito de uma intervenção programada e promovida pelas Infraestruturas de Portugal, deu-se início ao abate de dez árvores constituintes deste património natural. Durante os trabalhos de preparação, vários organismos, entre os quais a autarquia de Marvão, foram informados mas não foram tomadas medidas para impedir que os trabalhos começassem. Já durante a manhã, um conjunto de munícipes, entre os quais o vereador com o pelouro do Ambiente, José Manuel Pires, tentaram que o processo fosse suspenso. A minha intervenção junto da tutela contribuiu para que fosse dada ordem para interromper os trabalhos.

Estamos perante um património natural de grande importância para a região. O complexo de freixos centenários que transforma uma simples recta de uma estrada num ícone do concelho de Marvão e do distrito de Portalegre constitui um factor de riqueza evidente e que é valorizado não só pelas populações como pelos visitantes. Este património não pode sofrer intervenções indiscriminadas. É necessário fazer um trabalho que assegure a sustentabilidade destes símbolos tão importantes para a região.

Este eixo na Estrada Nacional 246-1, que liga Marvão a Castelo de Vide, é ladeado por quase três centenas de freixos centenários (com quase 30 metros de altura) de nome científico Fraxinus angustifolia Vahl, que formam uma magnífica alameda.

O valor natural levou a que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas tivesse atribuído, inclusivamente, o estatuto de Árvore de Interesse Público.

(In https://www.facebook.com/ Luis Moreira Testa



publicado por Francisco Galego às 14:07
Domingo, 12 de Fevereiro de 2017

Há no depertar dos dias, um particular encanto que se sente com serena tranquilidade. A claridade que emerge lentamente. Os ruídos que parecem suspensos. O estar só, sem ainda haver o compromisso de ter de interagir.

 

Mesmo, ou principalmente, num dia de chuva miudinha como este. A humidade fria suscita o cuidado do agasalho que conforta. Basta ficar na contemplação, suspenso, sem o fluir do pensamento. Quase tudo em mim se reduz apenas ao sentir.

 

São estes os momentos que tenho como os mais felizes. Não há sobressaltos, nem desejos. Há apenas estar. Esta a sensasão que mais próximo me coloca de algo que se aproxime do que posso entender como a ataraxia que Demócrito, filósofo grego ( 460-370 a.C.), descreveu como tranquilidade da alma¸ ausência de inqiuetude ou de perturbação e que seria muito incompleto traduzir pelo nosso conceito de felicidade.

 



publicado por Francisco Galego às 12:55
Sábado, 11 de Fevereiro de 2017

(António Gil, in Facebook, 10/02/2017)

 

Brilhantes e iluminativas ideias colhidas no texto atrás indicado:

 

            - Uma das maiores idiotices dos críticos desta administração norte americana é resumirem tudo à caricatura de seu putativo líder. Não ocorre aos que gostam de diabolizar uma pessoa, que essa criatura seja apenas uma «cabeça de cartaz» de um circo muito mais vasto, lançado para o barulho precisamente para atordoar, enquanto tudo se prepara nos bastidores.

 

            - Tudo indica que os senhores do mundo financeiro mudaram de estratégia e que um boneco de trunfa alaranjada foi oferecido publicamente em «sacrifício», enquanto se opera a um nível mais profundo, para introduzir essas alterações que no caso partem da constatação do falhanço do modelo anterior.

 

            - Os EUA, confrontados com políticas desastrosas de intervencionismo militar influenciadas pelos fascistas neo-cons, com déficits galopantes graças aos seus contínuos esforços de guerra, querem que o mundo pague agora, pelas suas iniciativas.

 

            - Na Europa isso é evidente: The Donald, o boneco de que se servem os ventíloquos do «estado profundo ou oculto» dos EUA já o disse: A Europa tem de pagar pela protecção americana. Este impulso de cobrar tudo e mais alguma coisa que resultou de opções domésticas dos EUA (o muro do México incluído, mas também as mais de mil bases militares que o Império mantém pelo mundo) devia ser fácil de interpretar: os EUA deram passos maiores que suas pernas e por isso estão à beira da falência. Por isso a palavra de ordem hoje é: «contra a crise, cobrar, cobrar».

 

            - Como uma «U.E.» que, mesmo disfuncional, constitui uma força de peso (mais população, mais produto interno bruto, mais exportações que os EUA) sempre foi renitente ao aumento das despesas militares e a oferecer suas mulheres e homens para uma guerra contra a Rússia (até por traumas de guerras de um passado dificilmente olvidável deste lado) está na altura de dissolver essa entidade e negociar país a país, a «protecção americana», na certeza que cada país isolado terá menos poder negocial que uma «U.E» E (ainda que nada coesa)-



publicado por Francisco Galego às 16:56
Quinta-feira, 09 de Fevereiro de 2017

Os “posts” que antes aqui publiquei sobre a questão do fabrico de “potes ou talhas” em Campo Maior tinham como intenção contribuir para propiciar um maior conhecimento de um aspecto importante da vida local, que se prolongou desde tempos antigos até meados do séc. XX.

É assunto que considero importante porque, sendo de facto uma comunidade que tinha como principal ocupação, fonte de rendimento e de sobrevivência,  as actividades agrícolas, levou ao desenvolvimneto de outros ramos de actividade que lhe eram complementares e que se traduzia  na existência  de variadas actividade artesanais. Ora, a olaria, foi sem dúvida uma das que maior nível de desenvolvimento e qualidade adquiriu, pois que a fama da sua qualidade provocou a sua difusão para outras localidades, algumas bastante afastadas do concelho de Campo Maior .

O interesse despertado por estes textos ficou bem demonstrado pelo número de leitores que tiveram e até pelos comentários que lhe vieram acrescentar conhecimentos. Entre eles, um merece especial destaque. Foi publicado no “post” datado de 1/2, para dar a conhecer um texto do Prof. Orlando Ribeiro, geógrafo, eminente cientista de renome internacional. O comentário foi aposto por Júlia Galego, que foi sua discipula e colaboradora. Este texto já tinha sido publicado no seu “blog” em:

http://gambozinoalentejano.blogspot.pt/2008/12/talhas.html

Porque entendo que é muito importante o seu contributo para o conhecimento deste assunto merece o destaque de republicar o texto que se segue, até porque a sua leitura ajuda a comparar o processo de fabrico nele descrito, com o processo de fabrico em Campo Maior, descrito no “post” anterior :

“Em relação aos utensílios de cerâmica, largamente difundidos em todo o país, a originalidade do Alentejo consiste em ter conservado, de uma herança mediterrânea, o vasilhame para líquidos, principalmente para vinho, preparado e guardado, no resto de Portugal, em pipas e tonéis de madeira. Neste sentido, é mais uma das expressões da civilização do barro própria desta região.

As vasilhas chamam-se talhas ou potes e podem ter dois metros e meio de altura, capacidade para mais de 2000 litros e pesar 700 ou 800 quilos. Aí se lança o mosto com o bagaço, para fermentação, mudado depois para talhas semelhantes. Em baixo têm um buraco onde se mete o pipo, por cima são cobertas com papel ou uma pele de cabra, como a dos odres. Pela forma fazem lembrar grandes dolia romanos, que são provavelmente os seus paradigmas. Talhas mais pequenas e sem orifício usam-se para o azeite e as azeitonas curtidas (de tão importante papel na alimentação alentejana).

(...) Trabalhando o barro diversamente dos oleiros, (o fabricante de talhas de São Pedro do Curval) não sabe manejar a roda e considera a sua arte diferente. As talhas são feitas em arcos; o barro, amassado em forma de pães, é batido com uma palmatória e espalmado de encontro à mão; quando um pedaço da talha adquire certa consistência, corta-se o bordo delgado a toda a volta e continua-se aumentando a obra para cima. Sem roda, é necessária grande perícia para que o bojo se desenvolva simétrico. O fabricante desenhou nas paredes caiadas da oficina o contorno de talhas para diversas capacidades; tem feito até 2000 ou 2200 litros; começa várias ao mesmo tempo e vai-as levantando aos poucos; podem levar uns quatro meses a acabar e um a enxugar. Depois são colocadas cuidadosamente num carrinho, em cima de palha, e vão a cozer a um grande forno, cuja fornalha é escavada no chão. Quando a talha está cozida é besuntada, por dentro, com pês derretido, que torna o barro impermeável.”

(Orlando Ribeiro, Geografia e Civilização. Livros Horizonte. P. 46-49.)



publicado por Francisco Galego às 00:06
Sábado, 04 de Fevereiro de 2017

Campo Maior, ao longo dos éculos XIX e XX, foi um dos principais centros de produção de potes ou talhas de barro para a conservação de produtos como o vinho, a azeitona e a aguardente. Algumas famílias dedicavam-se a esse fabrico, passando o seu saber artesanal de geração em geração. Estão neste caso as famílias Pereira, Monho, Mourato e Centeno. Tratava-se duma tradição artesanal que está hoje por completo perdida, tornando-se, por isso, importante conservar a memória que dela ainda subsiste. 

Este texto foi elaborado com base no depoimento de um elemento de uma destas famílias, o senhor Manuel Centeno, que ainda chegou a colaborar com o seu pai nessa actividade.    

O texto que agora aqui se apresenta, elaborado por Júlia Galego e Francisco Galego, foi publicado no nº 12 da revista "Alentejo  - Terra Mãe", publicado em Évora, no 3º trimestre do ano de 2008.

 

Normalmente, o processo iniciava-se no principio ou em meados de Novembro e terminava por volta de Maio a Junho.

O oleiro começava pela escolha do barro mais adequado ao tipo de potes a fabricar. Este barro, recolhido na região de Campo Maio, era amassado em tanques e deixado em repouso para que, por processo de decantação, se constituíssem as várias massas a utilizar no fabrico. Nesta fase inicial, o trabalho decorria em parte ao ar livre.

A construção dos grandes potes começava no final de Dezembro, princípio do ano seguinte.

Moldava-se primeiro uma espécie de vaso, a base do pote, feita á mão e sem recurso ao torno de oleiro. Seguidamente, separava-se um pedaço de barro a que era dada a forma de um melão. Depois, adelgaçava-se o barro entre as mãos, para formar os cordões que se íam sobrepondo para formar as três camadas que constituíam a estrutura do pote. O processo de construção tinha de ser lento e pacientemente executado, daí que o oleiro fabricasse em simultâneo um número considerável de potes.

Quando entendia que o peso do barro colocado tinha atingido o ponto adequado de sustentação, parava a sobreposição dos cordões de barro. O bordo era coberto com panos húmidos para grantir a colagem de novas camadas. Depois, deixava-se que o processo de secagem desse a devida consistência ao barro para que pudesse, algum tempo depois, retomar o processo de fabrico.

Dava-se a esta sucessão de fases o nome de lances. Entre um lance e outro decorria o prazo de uma a duas semanas.

Até ao meio do pote, o diâmetro ia aumentando; depois começava a reduzir para dar o estreitamento até à boca. Nesta fase, o oleiro utilizava uma espécie de raquete com a qual apoiava a parte interior do pote, enquanto ia juntando as sucessivas camadas. Tratava-se de uma fase muito delicada do processo, para evitar o demoronamento desta espécie de abóboda que ia sendo pacientemente construída. Por isso, tinha de decorrer um razoável tempo de secagem, para se obter a consistência necessária para suportar o peso da boca.

Esta era construída à parte para ser sobreposta à abóboda que formava a  parte superior do pote. Como a boca tinha um peso razoável, devido a ter uma maior espessura, convinha que o processo de secagem garantisse a consistência para não desmoronar. Por isso, nesta fase, a secagem era mais demorada, podendo ir até aos quinze dias.

Colocada a boca, dava-se o acabamento final que consistia em alisar a superfície exterior, utilizando uma cama de fino barro que era aplicada com um pedaço de pele, ou seja, uma especie de camurça.

Com o barro ainda húmido, as peças eram assinadas com o nome do oleiro, o local do fabrico e, nalguns casos, a data.

Nas sucessivas fases de secagem, convinha que o tempo decorresse nem muito seco, nem chuvoso. Os ventos secos e frios provocariam o rachar dos potes. A humidade excessiva afectaria a consistência do barro. Para atenuar as oscilações do tempo, o processo de fabrico decorria em grandes casões.

Na entrada da Primavera os potes já estavam feitos, começando o processo final  de secagem, o qual podia demorar de 20 dias a um mês.

Finalmente, entre Julho e Agosto, decorria a fase de cozedura em forno apropriado. Devido ao grande peso de algumas peças, estas tinham de ser deitadas e roladas até ao forno, no qual eram colocadas de boca para baixo, apoiadas em três peças de barro, sobre a grelha do forno. O processo de cozedura demorava um dia e exigia uma atenção constante para regular a temperatura, o que era feito pela maior ou menor abertura dada aos respiradores do forno.

Seguia-se o arrefecimento, que demorava uma semana, para os potes poderem ser manipulados, prontos para a última fase do seu fabrico: o cabamento do interior.

Os potes destinados ao vinho ou à conserva da azeitona eram pezgados, operação que consistia em betumar com pez derretido ao lume e vazado no interior do pote para ser espalhado com a ajuda da “boneca”, ou seja, um pano enrolado na extremidade de um pau.

Nos potes destinados à aguardente, a betumagem era feita com cera pura.

Os potes de Campo Maior tinham fama e eram vendidos por todo o Alto Alentejo e Beira. Hoje, os que ainda existem, são muito apreciados e usados como elementos decorativos.

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Sexta-feira, 03 de Fevereiro de 2017

(Este Post foi reposto, devido a algumas solicitações)

 

Há anos foi achado numa escavação nas propriedades do Monte de S. Vitória, por detrás da quinta denominada da Rainha, ou de S, João, arredores de Campo Maior, um dollium (1) do período lusitano-romano, que oferecemos ao Museu Municipal de Elvas. Exemplar muito bem conservado, só conhecemos outro semelhante que existe no Museu Etnológico de Belém.

Estas vasilhas foram, talvez, as ascendentes genealógicas dos potes ou talhas mouriscas que se vêem em todas as adegas do sul do país e cujo fabrico constitui uma indústria típica e secular da vila de Campo Maior e da Aldeia do Mato (2), do concelho de Reguengos. Curiosas e características as talhas alentejanas de barro grosseiro, a que o tempo dá um tom escuro, chegam a ser de altura superior à de um homem normal. O seu bojo avantajado e monumental chega a conter mais de cem almudes, ou sejam dois mil litros de precioso vinho. (...)

Velhas, pois de séculos, diferenciam-se as de Campo Maior das de Aldeia do Mato, pela   silhueta mais esbelta, pela regularidade das suas formas elegantes que as assemelham às formas clássicas do exemplares romanos. Diferenciam-se também porque, enquanto as de Aldeia do Mato, ostentam na gola a data de fabrico e as siglas curiosas dos artífices que, com suas mãos hábeis as moldaram, as de Campo Maior exibem os nomes completos dos vários oleiros em que, por tradição de família, se tem transmitido, através dos séculos, o uso desta profissão e que são: os Centenos, os Pereiras, os Mouratos, bem como outros que desconhecemos. Dá-se também o facto de, na vila de Campo Maior, se fabricarem potes de maior capacidade do que as fabricadas na Aldeia do Mato, devido à melhor qualidade dos seus barros, reconhecida pelos mestres aldeamatenses.

Realmente, é pena que os de Campo Maior não tenham sido também datados, para melhor apoio a investigações futuras e melhor documentação dos estudos etnográficos. Daqui lembramos aos actuais mestres de olaria de Campo Maior, nossos conterrâneos, que é conveniente gravarem nas talhas, além dos seus nomes, a data do fabrico (basta só o ano) e o nome da nossa histórica e progressiva vila, que foi agora alvo de uma grande honra: Por iniciativa louvável do Secretariado da Propaganda de Portugal, – a par da  graciosidade dos moringues (3) e bonecos de Estremoz, dos caprichosos empedrados das cantarinhas de Niza e da elegância das bilhas de Viana, Campo Maior mostrará aos muitos milhares de vistantes da Exposição Internacional de Paris, duas formidáveis talhas saídas das suas oficinas, que deverão assombrar pela novidade e pelas suas descomunais dimensões.

 

In, A Cerâmica Alentejana na Exposição de Paris

Ensaio Etnográfico, por João Ruivo, publicado em ARQUIVO TRANSTAGANO, ano V, Elvas,1938.

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(1) Vasilha grande de cerâmica de forma muito bojuda, quase esférica, usada pelos romanos para armazenarem vinho, azeite e outros tipos de produtos alimentares.

(2) Actualmente, S. Pedro do Corval.

(3) Pequena bilha, ou barril em barro, para refrescar a água, com duas bocas: Uma para entrada da água, outra para a saída em esguicho.



publicado por Francisco Galego às 14:42
Quinta-feira, 02 de Fevereiro de 2017

Se esta notícia, em si, já era bastante chocante, -  devido aos laços de amizade que, desde a nossa adoslescência, me uniam ao Raquelino, tecida de longas convivências e enquadrada por inúmeras confidências, assentando, principalmente, numa sólida e mútua confiança, -  a mensagem que de imediato enviei e que a seguir transcrevo, ajudará a melhor compreender porque ainda maior foi o espanto que em mim provocou. 

 

Amigo Daniel ( Daniel Anastácio, primo-irmão do Dr. Raquilino, há muito a viver fora de Campo Maior) :

Acabo de vir da rua, onde me deram a notícia da morte do Raquelino. Fiquei pasmado e muito penalizado. Não sei se ainda te lembras de que, aqui, em Campo Maior, sempre algumas pessoas cultivaram o péssimo hábito de divulgar e inventar falsas notícias. Pois calcula que, já há algum tempo, alguém me tinha dito que o Raquelino morrera em Março passado. Fiquei até um pouco magoado por, a esposa dele, nada me ter comunicado. Mas, enfim... São coisas que acontecem.

Mas, por isto podes calcular o choque que agora tive. O Raquelino, apesar do seu difícil comportamento, sempre manteve comigo uma amizade muito sincera apesar da distância em que ele mantinha tudo e todos, sobretudo nos últimos anos em que decidira deixar de se preocupar com as coisas duma vida que o desgostava.

Pois amigo Daniel: Resolvi enviar-te esta mensagem, na esperança de tenhas alguma notícia sobre este assunto que tanto me penaliza.

Um abraço.

 



publicado por Francisco Galego às 10:27
Sábado, 28 de Janeiro de 2017

Em 12 de Setembro de 1297, pelo Tratado de Alcanises, a povoação de Ouguela, passou a integrar o domínio português. Reinava de Dinis que procedeu à construção – ou reedificação – do seu castelo. Por carta datada em Lisboa em 5 de Janeiro de 1298, recebeu foral, dando-lhe a condição de município e concedendo-lhe muitos privilégios.

Mas, tal como Campo Maior, continuou ligada por laços de dependência eclesiástica e de senhorio ao bispo de Badajoz, até finais do século XIV.

No reinado de D. Fernando foi reedificada e ampliada a cerca de muralhas, edificada a primitiva igreja que estaria situada no centro da praça de armas do castelo (1).

Na crise de 1383-1385, a Praça de Ouguela, como as de Campo Maior e de Olivença, tomaram o partido do rei de Castela.

Teve de ser submetida manu militari por D. João I que, em 1392, cortou os laços de dependência eclesiástica que ligavam esta vila ao Bispado de Badajoz.

Durante os séculos seguintes, desempenhou a função de praça de guerra com a incumbência de servir de guarda avançada na vigilância da fronteira.

Uma das notícias que dela temos remonta ao reinado de D. Dinis. Este rei procurou combater o excessívo poder alcançado nos dois reinados anteriores pelos altos representantes do estrato nobiliárquico-eclesiástico. Porém, a certa altura, viu-se envolvido em conflito aberto com o seu próprio filho primogénito, que lhe sucederia no trono, como D. Afonso IV. De feitio exaltado e turbulento, o príncipe constituiu como alvo principal da sua fúria o seu meio-irmão D. Afonso Sanches. Movido por um ciúme rancoroso, acusava-o de o ter tentado envenenar e de intrigar contra ele junto do Papa para que o destronasse a fim de o poder substituir no governo do reino.

Logo que subiu ao trono, condenou-o ao desterro e à perda de todos os bens e cargos que tinha recebido de D. Dinis. D. Afonso Sanches, veio fixar-se na vila de  Albuquerque, senhorio de seu sogro, onde se rodeou de muitos nobres portugueses que se lhe foram juntar.

D. Afonso IV logo tratou de fortalecer Ouguela colocando ali como fronteiro o Mestre da Ordem Militar de Aviz. O próprio rei veio até á fronteira para invadir as terras de Albuquerque, tendo conseguido pôr cerco e tomar o castelo de Codeceira em 1326.

D. Afonso Sanches que sempre procurara evitar o conflito e por estar doente, retirou-se da luta. O rei voltou a Lisboa, onde, devido à intervenção da rainha-mãe (Santa-Isabel) e de muitos elementos tanto da corte portuguesa como castelhanos, conseguiram que se fizesse a paz e que o rei restituisse ao irmão todos os bens de que tinha sido despojado.

Com a guerra da Restauração (1640 - 1628), a pequena vila foi refortificada com nova cintura defensiva, pois que, devido á sua localização, ficava num ponto muito sensível, servindo de fortaleza de aviso e de retardamento, em caso de invasão.

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(1)  Esta antiga igreja ficou muito danificada por efeito do abalo aí sentido, quando se deu o Terramoto de Lisboa de 1755. No seu relatório, o pároco local respondendo na “Memória Paroquial” referiu que “os muros padecesseram grande ruina no terremoto de mil setecentos e cincoenta e cinco, e principalmente a torre da Igreja que veio a maior parte dela abaixo (...) e algumas casas da dita Vila e tudo está ainda por reparar...”. A partir de então, a "vila Velha" entrou em decadência, cresceu o "burgo" ou "vila nova" no exterior do castelo. Quando uma nova igreja foi construida, a sua fachada principal ficou virada para as ruas novas, conservando apenas uma porta secundária com acesso pelo interior das muralhas.

 



publicado por Francisco Galego às 16:34
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017

Degolados é uma povoação provavelmente nascida no século XVI, tendo como núcleo inicial uma herdade com os trabalhadores imigrantes que nela laboravam, oriundos maioritariamente das terras a norte do Rio Tejo.

Herdade do termo de Arronches no ano de 1538, Degolados era em 1567 um pequeno povoado, provavelmente ainda sem edifício religioso.

A pequena aldeia de meados do século XVI, localizada sobre o caminho entre Campo Maior e Arronches, beneficiou do dinâmico fluxo migratório ocorrido a partir daquela época em direcção a esta região e terá ascendido a freguesia, provavelmente ainda antes de findar a centúria de Quinhentos. No ano de 1612 surge já designada por freguesia de N.ª S.ª da Graça dos Degolados e integrada no concelho de Arronches.

Em meados do século XVIII, teria 42 fogos, o que corresponderia a cerca de centena e meia de habitantes.

Em finais do século XIX, por volta de 1870, teria 100 fogos, ou seja, cerca de 400 habitantes.

Foi anexada ao Concelho de Campo Maior, tirada ao de Arronches, por decreto de 26 de Setembro de 1895.

Porém, por reclamação do concelho de Arronches, voltou a integrar-se nesse concelho, três anos depois, por decreto de 13 de Janeiro de 1898.

Por pressão continuada dos seus habitantes, foi reintegrada no concelho de Campo Maior em 19 de Dezembro de 1926.

 



publicado por Francisco Galego às 16:30
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017

Chegou hoje a notícia do falecimento de um dos mais eminentes campomaiorenses de todos os tempos que completaria, em Março, os 90 anos de idade. Esta notícia  não foi de total surpresa, porque o seu declínio físico se tinha vindo a acentuar. Porém, em contrapartida, a sua brilhante capacidade mental manteve-se quase até aos últimos dias. Ainda há duas semanas me tinha telefonado para que eu transmitisse, à gestão do municipio, a sua vontade de legar as vestes dos doutoramentos que recebera, ao município da nossa terra natal.  

O Professor Doutor Mário Ruivo nasceu em Campo Maior no dia 3 de Março de 1927, num edifício localizado a meio do topo leste da Praça da Républica. Filho primogénito de João Pedro Ruivo e neto de Pedro Daniel da Encarnação Ruivo. Seu pai, que começara por ser funcionário da Câmara Municipal, passara a funcionário das Finanças Públicas e, em 1929, fora deslocado para Borba, mais tarde para Évora, cidade em que desenvolveu a maior parte da sua carreira de funcionário da administração pública.

O Município de Campo Maior, no ano de 2010, prestou-lhe justa homenagem na qual, além de realçar o seu elevado mérito, alcançado por uma notabilissima carreira, procurou também dar a conhecer a importância que seu pai, João Ruivo, tivera para o desenvolvimento da comunidade campomaiorense, como grande animador cultural.

Neste momento triste de despedida, procuremos, numa síntese muito breve, responder a esta questão, de forma muito directa: Quem foi este nosso tão notável conterrâneo?

- Mário João de Oliveira Ruivo mais conhecido por Mário Ruivo, um cientista e político português, foi pioneiro na defesa dos ocenos e no lançamento das temáticas ambientais em Portugal.

- Formou-se em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa no ano de 1950.

- Especializou-se em oceanografia biológica e gestão de recursos vivos, tendo desenvolvido empenhada investigação em Portugal e em diversos países europeus.

- Foi diretor da Divisão de Recursos Aquáticos e do Ambiente do Departamento de Pescas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), sedeado em Roma,

- Foi coordenador da Comissão Mundial Independente para os Oceanos e membro da Comissão Estratégica dos Oceanos.

- Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros no V Governo Provisório (1975).

- Foi presidente da Comissão Oceanográfica Intersectorial do Ministério da Educação e Ciência.

- Era, desde o dia 28 de Novembro de 1997, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável e do Fórum Permanente para os Assuntos do Mar, tendo o Conselho de Ministros de 30 de novembro de 2016, procedido à renovação da sua comissão de serviço como presidente do referido Conselho.

Além de distinguido com  doutoramentos “honoris causa” recebeu algumas importantes condecorações:

 

            - Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal (21 de Agosto de1990);

            - Grande-Oficial da Ordem do Mérito de Malta (3 de Março de 1995);

            - Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada de Portugal (9 de Junho de 1998);

            - Grã-Cruz da Ordem do Mérito de Portugal (9 de Julho de 1999);

           

           

(NOTA: Para mais desenvolvido conhecimento, consultar Uma Homenagem Maior em Campo Maior – Homenagem ao Professor Mario Ruivo, publicada pela Câmara Municipal de Campo Maior, em 2010).

 

 



publicado por Francisco Galego às 15:54
Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

DEGOLADOS

 

- Aldeia de planície, à beira de uma estrada, um local

   de passagem;

- Um crescimento lento, mas continuado, ao longo

   do séc. XX, intensificando-se  sobretudo na fase

   actual;

- Povoação recente, de recente desenvolvimento,

  com acentuado aumento demográfico e grande

  rejuvenescimento da população;

- Uma história breve, pouco significativa e de

  escasso património arquitectónico;

- A sua ligação a Campo Maior é recente, data de há

  90 anos apenas;

- Foi, pela 1ª vez, anexada a Campo Maior em 26

  de Setembro de 1895;

- Em 13 de Janeiro de 1898, voltou a ser anexada a

  Arronches;

- Em 19 de Dezembro de 1926, foi definitivamente

  anexada a Campo Maior, cumprindo-se assim a

  vontade expressa pelos seus habitantes;

- Continua a ser uma freguesia do concelho de Campo

  Maior;

- Do ponto de vista eclesiático, continua ligada ao

  bispado de Portalegre, estando toda a outra parte do

  concelho, ligada ao arcebispado de Évora.

 

 

OUGUELA

 

- Aldeia alcandorada, de difícil acesso, um local de

   chegada;

- Foi integrada no território do reino de Portugal, ao

   mesmo tempo que Campo Maior, pelo Tratado de

   Alcanizes, no reinado de D. Dinis, em 1297;

- Um ponto avançado de vigia da fronteira, foi

   fortificada para desempenhar essa função;

- Nunca foi grande como povoado e foi regredindo

   lentamente, sobretudo na fase actual;

- Povoação muito antiga, em acelerada decadência,

   com acentuada redução demográfica e

   envelhecimento da população;

- Uma história longa, com factos histórico-militares

   notáveis e com rico património arquitectónico

   ainda que muito degradado e em risco, por

   abandono; está actualmente em curso um projecto de

   recuperação e de restauração.

- Ligação à praça de guerra de Campo Maior

   que remonta às origens, foi sua guarda-avançada

   junto à fronteira durante mais de 7 séculos.

- Perdeu por completo a autonomia administrativa ao ser

  extinta como concelho em 1836 e anexada como

  freguesia na Junta Paroquial de S. João Baptista em

  1879.  

 

 

Perspectivas futuras:

 

DEGOLADOS:

 

Não tem grande História mas o seu  presente  anuncia um próspero futuro.

 

Necessita, portanto, de estratégias adequadas de desenvolvimento em termos de urbanização e melhoria das condições de vida da sua população.

 

OUGUELA:

 

Um presente de grande decadência ameaçando que possa para ela não existir futuro. A menos que se saiba utilizar o seu património como memória do seu extenso e notável passado.

 

Necessita, portanto, de cuidados urgentes de preservação da sua memória e de conservação do seu património histórico e natural. O seu futuro só pode ser garantido com base na utilização inteligente do que resta do seu passado rico de factos e de documentos.



publicado por Francisco Galego às 23:58
Domingo, 15 de Janeiro de 2017

A FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA EXPECTAÇÃO

           

Nos reinados de D. Fernando e de D. João I, foi edificada uma igreja no castelo de Campo Maior que serviu como sede de freguesia, primeiramente sob orago de Santa Clara e depois, em 1530, foi mudado para o  de Nª Sr.ª da Assumpção.

Em 1574, por ser muito pequena, velha e não caber nela o povo e estar muito arruinada, foi decidido substituir a antiga Matriz por outra mais ampla e edificada em lugar mais central.

Em 1574 foi feita petição ao rei para se fazer a nova matriz.

Em 1584, o rei Filipe II de Espanha e então, também rei de Portugal, passou provisão para que se fizesse a nova matriz.

Em 1610 foi feira a arrematação da obra.

Em 1622 o corpo da igreja estava concluído, faltando apenas algum acabamento nas torres da fachada. 

Embora a “Igreja Nova” não estivesse ainda acabada no ano de 1645, os clérigos deixaram a velha igreja do castelo e vieram para a Igreja Nova, para que se acomodassem os religiosos franciscanos que foram desalojados por ter sido demolido o convento de S. António, à Fonte das Negras, a fim de se construírem as novas muralhas, que defendessem a vila durante as Guerras da Restauração. Este convento de Santo António fora fundado em 1493, aumentado em 1514 e foi  demolido em 1645.

Aí, no castelo, se conservaram os frades franciscanos até ao ano de 1709 em que estava construído o novo convento. A igreja do convento só estaria concluía doze anos depois, em 1731.

 

A “Igreja Nova” passou a servir de sede da paróquia sob o Orago de Nossa Senhora da Expectação.

Em 1725 foi demolida a antiga igreja do castelo mas, por insistência do povo começou, em 1726, a ser de novo erguida.

Em 1732, fortemente atingida pela explosão do paiol da torre de menagem, a Igreja Nova e a Igreja do Castelo ficaram muito danificadas.

Em 1732, D. João V mandou que um terço da renda do concelho fosse aplicado para a reedificação da Igreja Matriz e que, em substituição da Igreja do Castelo fosse aí construída a Ermida do Senhor do Castelo.

 

A FREGUESIA DE SÃO JOÃO BAPTISTA

 

São João Baptista é uma freguesia portuguesa do concelho de Campo Maior, com 106,37 km² de área e 4 063 habitantes (2001). Densidade: 38,2 hab./km².

A paróquia de São João Baptista, foi criada em 1776 por provisão de D. Lourenço de Lencastre, bispo de Elvas.

Até aí tinha existido no concelho de Campo Maior uma única paróquia que, desde a Idade Média, tinha como sede uma igreja chamada de Santa Maria.

Por Decreto de 17 de Janeiro de 1879, a paróquia de Ouguela foi anexada à Junta Paroquial de S. João Baptista de Campo Maior.

Em 1941 Ouguela foi extinta como freguesia, tendo, a sua população e o seu território, sido integrados na freguesia de S. João Baptista de Campo Maior.

 



publicado por Francisco Galego às 23:57
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2017

EXPLICAÇÃO PRÉVIA

 

Até à Revolução Liberalista de 1820, os termos “paróquia” e “freguesia” eram sinónimos e designavam a unidade territorial que estava sob a responsabilidade religiosa de um pároco.

Um decreto-lei de 11 de Julho de 1822 criou em Portugal 785 municípios e 4086 juntas de paróquia que, mais tarde, vieram a ser chamadas “juntas de freguesia”. Porém, as novas estruturas só se impuseram após as reformas de Mouzinho da Silveira em 1832.

Com a reforma administrativa de 18 de Julho de 1835, surgiu a estrutura civil chamada “Junta de Paróquia”, autonomizada da estrutura eclesiástica, ou paróquia propriamente dita. Os seus limites territoriais, no entanto, eram geralmente coincidentes com a das paróquias eclesiásticas que vinham desde a Idade Média.

A redução do enorme número de municípios que vinha desde a Idade Média foi feita por um decreto de Passos Manuel, em 1836, que liquidou quase metade dos municípios portugueses e os fixou em 351, tendo muitos dos antigos concelhos passado à condição de freguesias. Foi o que aconteceu com Ouguela que, pelo Decreto de 6 de Novembro de 1836, foi extinto como concelho, sendo a freguesia de Nª Sr.ª da Graça de Ouguela anexada ao concelho de Campo Maior.

Com a Lei n.º 621, de 23 de Junho de 1916, as paróquias civis passaram a assumir o nome de freguesias - e as estruturas eclesiásticas a serem designadas como paróquias.

 



publicado por Francisco Galego às 09:24
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Aparecem referências a “Jogos com bola” desde a mais alta Antiguidade. Mas eram disputas entre grupos, sem regras estabelecidas e, por isso, degeneravam frequentemente em furiosas zaragatas, razão porque, em certas épocas, principalmente no século XVIII, chegaram a ser proibidos. Não se tratava, portanto, de antecedentes do futebol tal como agora o conhecemos. Na verdade o futebol enquanto desporto organizado, só nasceu na Inglaterra em meados do século XIX. Porém, a sua divulgação foi muito rápida.

Tenho o hábito que não sei muito bem justificar, de me dedicar a arrumar as minhas coisas no início de cada ano. Nessa tarefa, dei com o texto que agora reproduzo. Atrevo-me a dedicá-lo ao meu colega, de profissão e de reforma, Jacinto César, como prova do interesse e consideração com que sigo os interessantes textos que vai publicando. Ele, melhor do que eu, poderá apreciar a descrição que é feita da antiga cidade que tanto preza e que tão empenhadamente divulga. Pareceu-me ser esta a melhor maneira de lhe desejar o melhor ano possível.

O JOGO DA BOLA NA QUINTA DA MITRA

Corria o ano de 1737. Na quinta da Mitra, costumavam, naquele tempo, muitos moços da cidade exercitar-se no jogo da bola, principalmente, quando o sol do Inverno nos dias de santificados alegrava as tardes, fazendo-as mais saudosas.

Em tais dias, em que o povo feriava, muitas famílias procuravam recrear o espírito do enfadamento dos trabalhos da vida, desciam ao formoso rossio de S.Sebastião, por onde formigavam até às horas em que a noite começa a tirar a cor às coisas. Deste lado, o colossal aqueduto e a rotunda capela do Calvário; daquele o alto Gravim e o humilde lugarejo de S. Sebastião; adiante o vetusto alpendre e ermida do Santo Mártir; aqui a secular alameda; além a Horta do Poço (chamada hoje de S. Paulo) e os longos casais que a orlavam; acolá a inexaurível fonte de Cancan, deleitavam-lhe a vista e o ânimo.

Interposta e mais ou menos limitada por estas estâncias, era a virente quinta que o piedoso bispo D. Manuel da Cunha legou à Mitra de Elvas. E, porque as paredes que então a muravam eram pouco altas e o brio dos prelados franqueava a entrada, não poucos dos que passeavam por este largo campo, iam ver os jogadores da bola e paravam em coroa para festejá-los.

Eram quase sempre muitos os parceiros, uns por brinco, outros por aposta que obrigava, as mais das vezes, vencedores e vencidos a fazerem libações ante as próximas aras de Baco.

( Texto publicado no "Arquivo Trantagano" nº 3 (III ano), de 15 de Fevereiro de 1935, com a indicação de o texto ser datado de 20 de Fevereiro de 1737)

 



publicado por Francisco Galego às 17:13
Quinta-feira, 05 de Janeiro de 2017

Aqui ao lado, os vizinhos espanhóis comemoram “Los Reyes”. É o grande dia de troca de presentes. De certo modo, aquilo que nós fazemos no Natal e que  outros celebram no Ano Novo.

Natal, Ano Novo, Dia dos Reis. Dias de renovação e de esperança.

Dias de sonhar “Utopias”! ...

 “Utopia” significa, literalmente, “um não local”. Na verdade, usa-se para significar que se trata de algo que, não estando em nenhum lado, é algo que não existe. Mas, é também muito verdade que o sentido mais frequente que lhe é dado, é o de algo que não existe, mas que se deseja alcançar. Ou seja, a utopia é sonho e é aspiração. É desejo e é projecto para melhorar o estado das coisas ou a situação que se vive.

A “Utopia” aparece no pensamento de filósofos e poetas, como futuro imaginado, esperança de algo que resolva os problemas do presente.

Mas, haverá, no tempo que vivemos, lugar para a “Utopia”?

Esta evocação levou-me a pensar que um dos problemas deste tempo presente, é que tenha deixado de existir o consolo dos projectos utópicos que nos alimentem a esperança. Pensando bem, o grande problema é que vivemos sem modelo orientador. Vivemos ao sabor dos impulsos. Uns vivem movidos pela ambição. Outros conformados, tentando garantir a melhor maneira de sobreviverem. O pensamento vai dando lugar ao entretenimento. A acomodação conformada vai ocupando o lugar que devia ser o da persistência para cumprir um projecto de vida.

Tenho consciência de que há nisto um pessimismo que pode parecer demasiado radical. Mas, na verdade,  trata-se apenas de um desabafo, fruto de um crescente desencanto.

Por isso, tento reagir e, parafraseando Fernando Pessoa, afirmar: Sem a Utopia (1) o que é o homem mais do que a besta sadia, cadáver adiado que procria?

-------------------------------------

(1) Fernando Pessoa escreveu que O homem é do tamanho do seu sonho.

Realçando a importância do sonho e da utopia,  no seu poema D. Sebastião, Rei de Portugal, escreveu:

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

 

 



publicado por Francisco Galego às 23:28
Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016

            Passou a época mais significante da nossa civilização, dita ocidental e cristã. Contudo,  os rituais próprios do Natal e do Ano Novo, não nos devem deixar distraídos dos males que afligem este nosso conturbado mundo, pois que, implacavelmente, todos esses males  continuam a atormentar, principalmente, os mais desfavorecidos.

            Em certos aspectos, nós homens do século XXI, integrados numa cultura de base cristã, mostramos uma tremenda desumanidade, pois que, apesar dos enormes progressos científicos e tecnológicos, pouco ou quase nada temos evoluído ao nivel das relações humanas. Continuam por resolver flagelos terríveis e questões que, em nome da fraternidade, da solidariedade e da interculturalidade, já deviam ter sido resolvidos há muito tempo. Em muitos aspectos, somos confrontados com situações de extrema barbárie. Os povos em cujos territórios estão continuamente abertos os conflitos, dão disso dramáticos testemunhos:

            - No Próximo Oriente, mantém-se acesa a fogueira de ódios ancestrais, pois que,  de um e outro lado, o radicalismo extremado dos fundamentalistas, comanda os acontecimentos sem dar tréguas e sem atender à vontade moderadora dos que anseiam pelo entendimento que consolide uma verdadeira paz;

               - Na África, há chagas dolorosamente abertas na nossa consciência;

              - Um pouco por todo o lado, há gente a sofrer os efeitos dos loucos desvarios que se mascaram de crenças religiosas e invocam razões culturais, escondendo as verdadeiras causas  que motivam todas as desgraças.

          - Onde a guerra não campeia, lavra a instabilidade anunciada pelas várias crises que, num exponencial crescimento, se vão desenvolvendo: a crise financeira primeiro, depois a económica e as, há muito anunciadas, devido ao uso imoderado dos recursos energéticos e dos desequilíbrios ambientais que daí resultam...

            Entretanto, sobretudo entre os que, por atitude preferem considerar-se alheios a tudo isto, cresce desde há muito a pior de todas as crises porque é a que provoca efeitos mais duradoiros e mais difíceis de debelar: a crise de valores que determina a ausência da dimensão moral nos comportamentos políticos e das suas consequências sociais.

            Com tudo isto e apesar de tudo isto, insisto em manter um resto de esperança, enviando a todos  votos do melhor ano, com a paz, a tranquilidade e o bem-estar,  que nos for possível.



publicado por Francisco Galego às 23:59
Domingo, 25 de Dezembro de 2016

O meu agnosticismo, não me impede de ter uma simpatia inevitável -  porque expontânea -, de comunhão de valores e de identificação com os princípios, com as acções e com as tomadas de posição desse Homem, tão exemplar: o Papa Francisco. Mais uma vez teve a minha total adesão a  denúncia que fez da hipocrisia de muitas das acções que rodeiam a celebração do Natal.

É que o Natal, além do seu profundo significado religioso, constitui para nós um marco civilizacional. A civilização em que nos integramos designa-se como europeia pelas suas origens e cristã pelo modelo de humanismo que reveste, base essencial da nossa maneira de concebermos a vida em sociedade. O nascimento de Cristo é o ponto de referência a partir do qual fazemos a datação histórica do tempo .

Agora que me vejo confrontado com certas representações natalícias designadas como presépios, sou obrigado a, mais uma vez, estar em total acordo com o papa. Há representações do nascimento de Cristo que ignoram por completo o simbolismo e a grande mensagem de humildade, de chamamento da nossa atenção para os mais carenciados, os mais perseguidos, os mais injustiçados.

Retratando a precaridade e pobreza em que nasceu Cristo, o Natal tenta incitar-nos ao sentimento solidário que nos obrigue a considerar as desigualdades, as injustiças e as violências responsáveis pelo tormento em que, ainda hoje, como nesse tempo,  vivem os mais desfavorecidos. Aquela pequena famíla – um casal com o filho em eminência de nascer – eram migrantes procurando refúgio para salvarem as suas vidas, em fuga à louca perseguição de um tirano. A terra onde a sua vida decorre, ficava na já então mártir região  do Médio Oriente, onde, nos dias de hoje, o sofrimento está a atingir níveis dificeis de entender e impossíveis de aceitar.

Desamparados, José e Maria, abrigaram-se num modesto estábulo onde nasceu uma criança anunciada como o filho de Deus, incarnando para trazer uma mensagem de salvação aos homens. A escolha das circunstâncias e do cenário é toda intencionalmente simbólica: a perseguição, a fuga em busca de paz e de salvação, a solidão do estábulo, a pobreza dos recursos. (1)

E como celebramos nós este acto sacrificial e salvador?

Com presépios cenarizados como se Jesus tivesse nascido na paz, no conforto, no bem-estar e na abundância?

Que representam esses opulentos cenários que tenha a ver com o nascimento do Messias?

Na verdade, essas representações, negam todo o simbolismo da mensagem implícita nas condições do nascimento de Cristo, porque foram apenas concebidos para exibir o poder, a riqueza,  a vaidade e a ambição de quem os concebe, constroi, ou manda construir. Assim, o que devia ser evocação e fonte de inspiração, transforma-se apenas num exibicionismo e numa ostentação.

E este desvario verifica-se na grande maioria dos actos de celebração natalícia.

É por isso que, eu, agnóstico, nestes dramáticos tempos que estamos a viver, acolho como justa a acusão de hipocrisia lançada pelo representante máximo de uma das mais importantes crenças religiosas: o Catolicismo.

---------------------------------------------

  (1) Num cântico dos monges beneditinos, celebra-se esta "puer natus est nobis" (esta criança nascida para nós), ou seja, nascida para salvar os homens das trágicas tendências da sua condição humana.



publicado por Francisco Galego às 16:17
Sábado, 24 de Dezembro de 2016

FAÇAMOS AQUI UMA PAUSA,

 

DESEJANDO

ÀQUELES QUE VISITAM ESTES

 

"RETALHOS DA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR"

 

QUE PASSEM ESTA SIGNIFICATIVA ÉPOCA

 

                - NATAL E  ANO NOVO -

 

NA INTIMIDADE,

NA PAZ,

NA CONCÓRDIA,

NA TRANQUILIDADE,

E NA COMUNIDADE DE AFECTOS

 

QUE DEVEM EXISTIR

 

EM TODAS AS FAMÍLIAS

 

                      

  FELIZ NATAL    

 

      

BOM ANO NOVO

 



publicado por Francisco Galego às 11:07
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2016

Bom!... Eu tenho que aceitar que, estando convencionado que o Inverno começa no solstício e que este, segundo o calendário, corresponde ao dia 21 de Dezembro, ou seja, ao dia de ontem, ontem, 21 de Dezembro,  foi o primeiro dia de Inverno. Porém, sendo que, orgânicamente, o Inverno aparece associado a dias e noites de muito frio, confesso que me sinto em condição de tempo invernal, desde há algumas semanas. De facto, entre as convenções que definem o calendário e as vivências que formam a nossa percepção do tempo, há por vezes acentuadas diferenças. Assim, o Inverno que agora oficilamente se declara, não coincide com o inverno tal como eu o estou sentindo. Logo, uma coisa é o tempo ditado pelo calendário; outra coisa é a percepção que eu tenho desse tempo.



publicado por Francisco Galego às 12:08
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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