Sexta-feira, 30 de Setembro de 2016

Certas ruas foram designadas em função da sua inclinação pois que, sendo ruas de aceso ao castelo e à parte mais alta e antiga da vila, são naturalmente muito inclinadas: Rua da Costanilha; Rua do Quebra-costas. Outras foram nomeadas por determinada função como a Rua do Poço, muito importante antes de se terem construído as fontes para abastecer a vila e a Rua do Forno, também dita de Rua da Fonte de Baixo. Pela mesma razão, o nome dado ao actual Largo do Barata, indicando bem a função que noutros tempos desempenhava.  Era o Largo das Estalagens e depois foi também chamado Largo do Assento por causa do edifício militar que aí foi construído. Basta descer a rua que vai dar a este largo para entender porque sempre lhe chamou o povo Rua do Paço. O actual Palácio do Visconde, onde hoje está instalada a Biblioteca Municipal João Dubráz, pertencera o um antigo bispo da família Mexia,  natural de Campo Maior e, por isso, o seu palácio era designado como o Paço.

Uma rua, no lado oposto da vila, era a Rua da Estalagem Velha que passou a Rua da Poterna quando, pela construção das novas muralhas, passou ir dar a uma pequena porta de acesso à vila, em caso de cerco, um pequeno acesso secreto que era designado por poterna. A construção das novas muralhas determinou o aparecimento de novas ruas como a Rua Nova ou da actual Rua de Santa Beatriz que, por ficar no lugar onde antes estava a cerca baixa do castelo, chamada "Barreira", foi sempre designada pelo povo por a Barreira. A Rua da Soalheira era a que dava acesso à Porta do Sol no primitivo castelo medieval.

Se a Aldeia de Pastor ou Curral dos Coelhos designavam os sítios onde se recolhiam os gados e outra criação dentro dos muros da vila, a Rua dos Quartéis indicava onde ficavam as casas destinadas a abrigo dos militares e de suas famílias quando eram colocados na guarnição incumbida da defesa de Campo Maior.

Com o passar dos tempos outros acontecimentos foram marcando a toponímia campomaiorense. Assim, quando o governo de Lisboa determinou que, pela nova Lei da Administração Civil, se devia fazer a reforma e reestruturação dos concelhos, extinguindo os antigos para os agregar em municípios de maiores dimensões populacionais e territoriais, Campo Maior foi designado como um dos que deviam perder a sua autonomia administrativa para ficar integrado num novo município sedeado em Elvas.

O povo não entendeu que vilas menores e de menor importância como Avis, Niza, e Monforte pudessem ser sedes dos novos concelhos enquanto Campo Maior se via condenado à humilhante condição de paróquia civil do concelho de Elvas. A 13 de Dezembro de 1867, a população declarou-se em revolta de resistência pacífica contra a decisão do governo. Foi nomeada uma comissão de 50 notáveis para irem representar o concelho junto do rei e do parlamento para apresentarem as suas queixas e razões. Revoltas semelhantes eclodiram por todo o país. O rei D. Luís teve de intervir. O governo de Martens Ferrão caiu. Em seu lugar foi constituído como ministro dos negócios do reino, o Conde D’Ávila, que se apressou a revogar a lei que pusera o país em estado geral de revolta.

O povo reunido em comício para comemorar, aprovou a proposta de mudar o nome de algumas ruas para homenagearem alguns dos que intervieram na luta pela salvação do município de Campo Maior: Rua da Canada – Rua 13 de Dezembro, data do começo da revolta; Rua da Canadinha – Rua do Conde de Ávila; Praça Nova – Praça D. Luís I; Largo da Carreira – Largo dos Carvajais; Rua Tenente General – Rua Visconde de Seabra (quando a actual Rua 1º de Maio passou a ser Rua Dr. Oliveira Salazar, o nome de Rua Visconde de Seabra, passou para a Rua de Pedroso); Rua da Cadeia – Calçada do Castelo; Terreiro da Estalagem – Largo do Barata; Terreiro da Misericórdia –Largo Barão de Barcelinhos, título que então usava o futuro visconde de Ouguela; Rua de Nantio – Rua General Magalhães; Rua Direita – Rua Direita da Comissão, em homenagem à comissão de 50 notáveis que tinha defendido o concelho de Campo Maior, em Lisboa.

Sucessivos acontecimentos políticos como a implantação da República, o Estado Novo e o 25 de Abril, determinaram a mudança de nomes de antigas ruas da vila. Mas, em alguns casos, os nomes populares têm conseguido subsistir, ainda que se verifique uma tendência  para, lentamente, irem desaparecendo.

 



publicado por Francisco Galego às 00:05
Terça-feira, 27 de Setembro de 2016

Em certos casos, podemos apontar, com relativo grau de certeza, uma explicação para os  nomes antigos e actuais das ruas do "núcleo histórico" da vila de Campo Maior.

A Rua da Canada e a sua adjacente Rua da Canadinha  deverão o seu nome a terem sido as vias destinadas à circulação dos gados quando entravam ou saíam das povoações, porque sabemos que, em tempos antigos, nomeadamente até ao século XVIII,  quando o pastoreio de gado ovino teve uma grande expansão, se chamavam canadas aos caminhos que desempenhavam essa função. Ora, no que respeita a Campo Maior, terá sido por esse tempo que esses dois caminhos se devem ter tornado ruas. Foi quando a vila, depois da tragédia do rebentamento da torre do paiol da pólvora, em 1732, teve de ser quase completamente reconstruída.

Na sequência da Canada estava a Rua da Fonte de Cima. As duas formam  hoje a Rua 13 de Dezembro. A da Rua da Canadinha, chama-se hoje Rua do Conde D'Ávila. Descendo-a e virando à esquerda chegamos à Rua da Fonte de Baixo, Talvez porque no fim das duas "ruas da fonte"  ficava a chamada  Fonte do Concelho que deu o nome ao forte que no seu lugar foi construido, quando a vila se tornou Praça de Guerra para defesa da fonteira, na Guerra da Restauração.

No seguimento da Rua da Canadinha fica a Rua de S. Francisco que, a meio, tem adjacente do lado esquerdo,  a Ruinha de S. António, cujos nomes testemunham a proximidade do antigo Convento de S. António, dos frades franciscanos, localizado no actual Campo da Feira, que teve de ser demolido para se poder construir, na nova fortaleza, a muralha e que liga os baluartes de S. Francisco e da Fonte do Concelho. No fim da Rua de Francisco, um pouco mais abaixo, ficava o Largo do Chafariz a seguir ao qual estava o Sítio da Poças. Este Largo do Chafaris, era assim chamado porque, quando foi construída a nova muralha que ligava o baluarte de S. Francisco ao Baluarte de Santa Rosa, foi aí construída  uma fonte para abastecimento da população; esta  alimentava um chafariz onde bebiam os animais e deste a água ia alimentar  um tanque para  lavagem de roupas que se localizava em frente, no sítio onde hoje está uma oficina. Seguia-se depois o chamado Sítio das Poças. A fonte foi posteriormente deslocada para o muro do Balurte de S. Francisco virado ao largo do Chafariz.

Do Largo dos Cantos de Baixo, partia a Rua das Pereiras, actual Rua João Minas que ligava ao Canto do Saquete e a Rua das Poças que terminava na  muralha, no chamado Sítio das Poças.

Voltando ao sector norte da vila...

A Rua da Carreira Detrás, depois chamada Rua do Norte, devia estes nomes à sua orientação geográfica e ao facto de, primeiramente, ser apenas uma rua com poucas ou nenhumas casas, geralmente cocheiras, oficinas e instalações de apoio à lavoura, nas traseiras do palácio do governador que tinha a sua fachada principal para o Largo da CarreiraRua da Carreira (correspondendo esta ao troço da actual Rua 1º de Maio, até ao cruzamento  com a Rua da Mouraria de Baixo e com a Rua Mouraria de Cima, (as quais podem dever o nome a terem sido, em tempos muito antigos, um arrabalde onde  vivim os não-cristãos, ou seja, judeus e mouros). O Largo  da Carreira e a Rua da Carreira eram assim chamados porque as diligências que entravam pela Porta de S. Pedro, (também chamada Porta Nova ou Porta da Carreira) iam aí descarregar e embarcar passageiros, correio e mercadorias.

A antiga Rua do Norte ou da Carreira Detrás, voltou a ser designada pelo povo, como a Rua da Carreira quando uma empresa de camionagem, a Vasco da Conceição Painho, no séc. XX, passou a ter aí a garagem donde partiam e onde chegavam os autocarros da carreira.

A Rua de S. Pedro, que ia da Carreira Detrás aos Cantos de Baixo e a Rua Direita que ia dos Cantos de Baixo até à Porta de Santa Maria, são nomes que em muitas terras designavam as vias principais das povoações que ligavam, segundo o eixo Norte-Sul, as portas principais, no caso a Porta de S. Pedro e a Porta de Santa Maria a que o povo sempre teimou chamar Porta da Vila

A Praça Nova, depois Praça de D. Luís I e depois Praça da República, foi construída após a  catástrofe de 1732 e originou  que à antiga praça, junto ao castelo, se passasse a chamar Praça Velha. Do nome desta resultava o nome da rua que lhe dava acesso pelo lado Norte, a Rua da Praça, que também se chamou Rua da Cadeia por ficar no cimo dela a prisão municipal. Esta terminava nos Cantos de Cima, em contraposição aos Cantos de Baixo,  a que se ligava pela  Rua da Misericórdia, a meio da qual ficava o Terreiro da Misericórdia devido a ser à antiga igreja desta instituição, ficar no meio do hoje chamado Largo Barão de Barcelinhos.

Ao troço da actual Rua 1º de Maio entre os Cantos de Cima e o cruzamento com a Mouraria de Baixo e a Mouraria de Cima, chamou o povo Rua do Tenente General. Seria por aí ter morado a figura grada do governador Estêvão da Gama Moura e Azevedo, que teve papel notável na defesa de Campo Maior, durante o Cerco de 1712. A meio desta rua fica o largo a que o povo chamou da Igreja Nova, ou da Matriz, por contraposição à velha Matriz que ficava dentro do castelo.

O nome de algumas ruas como  a Rua do Poderoso (o povo passou a dizer Rua de Pedroso), a Rua de Ramires, Rua de Cigano, Rua das Pereiras, invocam provavelmente o nome de personalidades ou de famílias notáveis da terra que nelas residiam. Já a Rua do Manantio, que o povo simplificou para Rua de Nantio, tem um significado curioso e que, devido à corrupção do nome original, se foi perdendo até se apagar por completo da memória colectiva. Manantio é uma palavra do mesmo radical da palavra manancial (originalmente manantial), que designava um local donde manava, brotava água, logo, uma fonte ou nascente. Talvez fosse o veio que alimentava as fontes do Concelho, das Negras  e a dos Cantos de Baixo.

 



publicado por Francisco Galego às 00:05
Domingo, 25 de Setembro de 2016

 

O São Mateus tinha tal efeito mobilizador sobre as gentes de Campo Maior que, mesmo os que a Elvas se não  podiam deslocar, o celebravam com bailes e arruadas pelas ruas da vila, nos dias da sua celebração. Não admira, portanto, que tantas quadras, sendo quase sempre as de produção mais antiga, tenham como tema o Senhor da Piedade.

                        

Se eu for ao São Mateus,

Irei balhar c’o meu par;

Mulher que se sabe amada,

'Stá mais disposta a cantar.

 

Eu quero ir ao São Mateus,

Só para te ouvir cantar;

Não vou lá com outro fim,

Estou velho p’ra namorar.

 

Que o Senhor da Piedade,

Tenha de nós compaixão;

E nos dê por caridade,

Um ano farto de pão.

 

As festas do São Mateus,

São as festas da cidade;

Quem me dera andar ballando,

No Senhor da Piedade.

 

Ao Senhor da Piedade,

P’ro ano vou outra vez;

Quero ir agradecer-lhe,

O milagre que me fez.

 

Meu bem vem cantar comigo.

Na Feira do São Mateus;

Cantigas de amor sentido,

São como preces aos céus.

 

Feira d’Elvas, Feira d’Elvas,

Feira d’Elvas da cidade;

Quem me dera estar balhando,

No Senhor da Piedade.

 

São Mateus é romaria,

Como outra outra não há  igual;

Fica à frente de todas,

Neste nosso Portugal.

 

O Senhor da Piedade,

Rescende como a gambôa;

De manhã quando se abre,

O cheiro chega a Lisboa.[1]

 

In, Francisco Pereira Galego – Cantar e Bailar as Saias. Lisboa. 2006

[1] Publicada em Gama, Eurico (1965). O  Senhor Jesus da Piedade de Elvas, Elvas, 1965, pág.326.



publicado por Francisco Galego às 16:28
Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

O São Mateus de Elvas era, até meados do século passado, uma das maiores festividades que os campomaiorenses celebravam. Poupava-se durante meses para se pode ir até à Fêra d’Élvas por volta de 20 de Setembro.

Só os mais pobres, por falta de recursos, e os que cumpriam resguardo por luto ou por doença, ficavam. As carroças partiam uns dias antes ajoujadas de gente, de galinhas, de capazes de comidas e de doçarias confeccionadas para a ocasião. Quem mais depressa chegasse, melhor lugar podia escolher para acampar nos olivais em volta do parque em que estaria montada a feira.

Havia anos, principalmente os mais favoráveis para a agricultura e em que o clima em Setembro era ainda favorável, que Campo Maior quase se despovoava nos dias do São Mateus. Quem não podia ir de carroça, em caravana, ia a pé. Uma manta chegava para aconchego. Quanto ao resto, desde que houvesse dinheiro para a pinga e para o petisco, já se passava a contento.

Campo Maior, anos há que fica completamente deserta, donde admitir-se que se desloquem, pelo menos 3.000 pessoas.[1]

Em 1921, só de Campo Maior vieram às Festas de São Mateus aproximadamente mil pessoas, que se fizeram conduzir em cerca de 200 carros de canudo (churriões) acampando como costumam fazer, no recinto da Senhora da Nazaré, Junto da Ermida, dando ao local uma nota pitoresca e característica.

É curioso registar que as saias novas aparecem nos arraiais do Senhor da Piedade e são cantadas e bailadas pelas simpáticas e morenas camponesas, cuja alegria é contagiante.[2]Procuravam, os de cada terra, ficarem juntos para melhor conviverem. Aliás, a feira era o pretexto para o que mais importava: o convívio de que se ia desfrutar durante os dias que a feira durava. O São Mateus constituía assim as parcas férias de que os menos ricos e os remediados podiam desfrutar. Armados os acampamentos, gozava-se do descanso, da boa comida, da alegre convivência que a ocasião propiciava. De dia dormia-se muito e até tarde, por força de alguns excessos de bebida e porque as noites se prolongavam até de madrugada.

As noites eram para a maioria destes romeiros o melhor que a festa propiciava. Formavam-se grandes bailes de roda, animados pelo cantar e dançar das “saias”. Havia disputas assanhadas, muitas vezes entre grupos de terras diferentes. Surgiam a “modas novas”. Quadras engenhosamente elaboradas ao longo do ano encontravam ali o terreiro adequado para a sua pública exibição. Arranjavam-se e desfaziam-se namoros. De vez em quando, uma ou outra rixa ensombrava a convivência por razões de exacerbado bairrismo, por melindres, ou por imponderadas ofensas à honra ou à dignidade dos presentes.

 

In, Francisco Pereira Galego – Cantar e Bailar as Saias. Lisboa. 2006  

 

[1] Eurico Gama, op. cit. , pág. 239

[2] Eurico Gama, op. cit. , pág. 380

 



publicado por Francisco Galego às 00:00
Terça-feira, 20 de Setembro de 2016

Até meados do século XX, o São Mateus manteve viva esta manifestação da cultura popular tão característica do alto Alentejo: o “bailar e cantar as saias”. Com o desenvolvimento dos transportes motorizados e com as profundas transformações que se deram nas últimas décadas, no mundo rural, romarias como as do Senhor da Piedade e Feira do São Mateus em Elvas, sofreram também grandes modificações.

Noutros tempos este grande acontecimento anual, dava lugar a um intenso convívio, pois, os que vinham de fora, deslocavam-se em carroças ditas de canudo porque eram cobertas por uma protecção de forma cilíndrica, formada por uma estrutura de cana, coberta de uma tela de pano encerado, que protegia os passageiros da chuva e do sol. Com essas carroças, autênticos antepassados das actuais tendas, roulottes, e caravanas, formava-se um vasto acampamento no qual permaneciam, em alegre convívio, pessoas das mais variadas proveniências, algumas por cerca de uma semana. Aí se cozinhava e comia, aí se dormia, aí se cantava e dançava, sobretudo nas madrugadas, pois os bailes só podiam funcionar bem depois que se calava a algazarra dos altifalantes dos tendeiros e as potentes aparelhagens sonoras dos circos e carrosséis.

Para termos uma ideia da importância que esta grande manifestação de cultura popular tinha na transição do século XIX para o século XX, vejamos como decorriam as festividades segundo um texto escrito há mais de cem anos:

“Romaria espantosa aquela que o povo anónimo, principalmente, promove em louvor do Senhor Jesus da Piedade, de Elvas, em Setembro. Romaria inconfrontável de vibração de vida, de massa de gentes, de fervente fé, de acrisolado e ingénuo cristianismo.

            (…) Inunda-se de lés a lés o parque da Piedade. (…) dentro da igreja asfixia-se. Pela escadaria lateral que conduz á casa dos milagres, há um subir e descer constante. São os devotos que ali vão entregar as suas oferendas prometidas por bondade desinteressada ou por via do milagre de Jesus. As paredes desta casa estão pejadas de ofertas: pernas e braços de cera adornados por lacinhos de seda; quadros grotescos, de proporções desequilibradas; fotografias com extensas dedicatórias e limitadas por mirabolantes molduras em madeira ou em tecidos. A tudo acode o Senhor Jesus da Piedade, nos momentos aflitivos: um lobo que ataca um pobre pastor ou viandante; um cão raivoso que procura morder quem passa; aquele que caiu de um andaime à rua; outro que involuntariamente se precipitou de uma ponte ao rio; este que ficou sob a roda de uma carro carregado de trigo; aqueles que estiveram gravemente doentes durante meses, etc. etc.

            (…) Cá fora a atmosfera é densa, da poeira levantada pelos que caminham, se acotovelam, centenas de carros alentejanos, de toldo abaulado, puxados por parelhas de guiseiras barulhentas e cabresto garridos, invadem uma parte do parque, para ali permanecerem durante dois dias, despejando milhares e milhares de festeiros ou romeiros, de Borba, de Vila Viçosa, de Estremoz, de Vila Boim, de Arronches e de Campo Maior. E centenas e centenas de criaturas vêm com os pendões de Varche e de Ana Loura, em cerimonial cauteloso. Bandas e filarmónicas atroam os ares com o sempre agradável hino da Piedade (…) Os comboios vomitam gente de Portalegre, do Crato, de Niza, de Gafete, de Tolosa, de Assumar, de Santa Eulália e, por bandas de Espanha, Badajoz.

            Insuficiente o vasto campo da Piedade para comportar a multidão, magotes deslocam-se para o Rocio, onde a feira de S. Mateus tem lugar. Pela tarde o Rocio e a Piedade são aluviões de pic-nics, são farnéis abundantes que se estendem e se vão devorando por entre uma alegria comunicativa comum, ideal e só perfeita, naquele fugidio momento.

            Pululam os trajes vistosos de camponeses e camponesas, moços cheios de vivacidade, moças sadias e alegres. Estralejam incessantemente os foguetes.”[1]

 

 In, Francisco Pereira Galego – Cantar e Bailar as Saias. Lisboa. 2006  

 

[1] .Paiva, Jerónimo M.S. (1927). “Do Alto Alentejo – Descritivos e factos de há trinta anos” – Beja.Págs. 18 e 19

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publicado por Francisco Galego às 08:30
Sábado, 17 de Setembro de 2016

Desde tempos recuados, cada povoação tinha as suas próprias festas e romarias. Mas, algumas delas, por motivos religiosos, ou pelo brilho das suas realizações, atraíam gente de outras terras, tornando-se famosas como locais de trocas, de diversão e de peregrinação.

No Alto Alentejo, sobressaía entre todas, a feira de São Mateus, em Elvas. A feira de São Mateus remonta ao século XVI, pois, segundo os investigadores, terá começado a funcionar entre 1525 e 1574.[1] Cerca de duzentos anos mais tarde, veio a associar-se-lhe uma peregrinação que, a partir de 1737, se começou a fazer no sítio aonde se veio a construir o santuário do Senhor Jesus da Piedade. Tanto a feira como a romaria, ganharam grande importância entre as gentes do Alto Alentejo, tanto mais que a sua realização, coincidindo com o equinócio do Outono, marcava o período em que se dava por encerrado um ano agrícola e se começavam a tomar as disposições para o arranque do ano agrícola que se ia seguir.

As pessoas, em grande parte as que estavam mais ligadas ao trabalho nos campos, aproveitando a romaria pela devoção, e a Feira de São Mateus por ser local de trocas muito necessárias às actividades agrícolas, deslocavam-se a Elvas para aí permanecerem durante os dias que durava o evento. Os transportes eram, em tempos antigos, difíceis e lentos. Em volta do terreno da feira, formavam-se grandes acampamentos de gentes vinda de quase todas as terras desta região[2].

            A Feira de São Mateus em Elvas e a Romaria ao Senhor da Piedade, tiveram o seu período de maior esplendor entre meados do século XIX e meados do Século XX.

 

In, Francisco Pereira Galego – Cantar e Bailar as Saias. Lisboa. 2006  

 

[1] Gama, Eurico (1965). O  Senhor Jesus da Piedade de Elvas, Elvas. Pág. 217.

[2] Interessante realçar que, entre os romeiros que vinham nas suas carroças acampar, se contavam as gentes de Olivença, dando continuidade à tradição que remontava ao tempo da sua pertença a Portugal.  



publicado por Francisco Galego às 18:25
Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

Na reunião da Assembleia Municipal de Campo Maior, realizada na Freguesia de Degolados em 28 de Fevereiro de 2012, foi apresentada a sugestão de se atribuir o nome de João Dubraz à Biblioteca Municipal de Campo Maior. Essa sugestão foi levada em consideração e deu origem à apresentação de uma proposta que foi aprovada em reunião da Câmara Municipal.

            A razão desta decisão foi fundamentada em documento lido na Assembleia de que se transcrevem as passagens fundamentais:

"Segundo a acta da sessão da CMCM, de 10 de Junho de 1882, foi tomada a resolução de levar a efeito a criação duma biblioteca, por proposta dos cidadãos Dr. José Maria da Fonseca Regala e João Francisco Dubraz, sendo este nomeado seu conservador nessa mesma sessão. À sala de leitura foi dado o nome do Marquês de Pombal por, nesse ano, se comemorar o centenário da sua morte.

(...) Sempre muito devotado às questões culturais e à valorização de Campo Maior, João Dubraz convocou para o dia 9 de Julho de 1882, uma reunião para a constituição da comissão instaladora da Biblioteca Municipal de Campo Maior, na qual participaram algumas das mais proeminentes figuras da sociedade campomaiorense desse tempo.

Em reunião de 9 de Agosto do mesmo ano, por proposta de João Dubraz, todos os presentes concordaram que se iniciasse uma campanha de angariação de livros através do envio de uma circular, da qual foram impressos 350 exemplares que foram enviados a várias entidades. Foi também sugerido que se enviasse uma “respeitosa carta à Exa. Sra. D. Maria Rita Freire de Andrade Carvajal” pedindo-lhe que cedesse os livros existentes no palácio do largo dos Carvajais, que seriam um generoso donativo e que vieram a constituir um importante núcleo para a constituição da biblioteca. Desencadeou-se também uma campanha para angariação de donativos de livros. O próprio João Dubraz, em seu nome e no dos seus quatro filhos, fez um donativo de mais de uma centena de volumes.

Nos primeiros anos, a Biblioteca esteve instalada no edifício da Câmara, numa sala do primeiro andar. Mais tarde, foi instalada no mesmo edifício, mas na rua Major Talaya, no rés-do-chão, na porta abaixo daquela  onde foi o posto da PSP, na sala lado, onde João Dubraz dava aulas e que tinha na porta a inscrição Aula de Latim a qual foi depois substituída pela de Biblioteca Municipal.

João Francisco Dubraz foi o primeiro a exercer o cargo de bibliotecário que passou para seu filho Alfredo Constantino Félix Dubraz e, falecido este em 1918, o cargo passou para sua viúva D. Guilhermina Velez Dubraz.

(…) Estas considerações serviram para fundamentar a razão para esta Assembleia e os membros da Câmara Municipal considerarem a possibilidade de atribuírem à Biblioteca Municipal de Campo Maior o nome de Biblioteca Municipal João Dubraz e fundamentaram esta sugestão nas seguintes razões:

- Por ser costume adoptado por muitas câmaras municipais, atribuírem às suas bibliotecas, os nomes de destacadas figuras da cultura local;

- Porque João Dubraz, além de ter sido um dos elementos que mais contribuíram para a fundação duma biblioteca municipal em Campo Maior, ser efectivamente um dos nomes de maior relevo da cultura campomaiorense, como professor, como jornalista e por ser, provavelmente, o mais importante dos escritores da nossa terra.”

Nota: No post que antecedeu o agora apresentado, pretendi mostrar que Elvas possui nomes que, poderiam, com toda a justiça, ser associados à Biblioteca Municipal de Elvas. Não sou elevense. Sou campomaiorense. Por isso, a minha opinião não conta. Mas, pelas mesmas razões que estiveram subjacentes no texto agora apresentado, se eu tivesse que expressar a minha opinião, diria com plena convicção que um nome se me imporia: o de António Tomaz Pires. Também ele esteve, como João Dubraz em Campo Maior, muito ligado à criação da Biblioteca Municipal de Elvas. Isso e a sua enorme estatura intelectual seriam razões fortíssimas para fundamentar essa decisão.

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

 

 Ao longo da História da Cidade de Elvas e da História da Vila de Campo Maior, grandes nomes se destacaram na reconstrução da memória dos seus antepassados. Mas dois são fundamentais e determinantes quando se fala de História Local nestas duas comunidades: referimo-nos a Vitorino de Almada e a João Dubraz. Para além do seu interesse pela História, estes dois grandes vultos possuíam também, uma verdadeira paixão pelo jornalismo.

O primeiro, natural de Elvas, onde nasceu em 21-10-1845  foi, sem dúvida, o mais importante historiador desta cidade. O segundo, nascido em Campo Maior, em 21-01-1818, destacou-se não só na vida cultural da sua vila, mas também como um dos mais importantes colaboradores na imprensa periódica de Elvas, salientando-se como cronista do seu tempo, como activista político e como historiador da sua terra.

Todavia, a forma de participação que tiveram, tanto na imprensa nacional, como na local, foi marcada pelas suas formações e actividades profissionais. Vitorino de Almada, sendo capitão do exército e oriundo de uma família ligada à carreira das armas, evitava tomar partido nas lutas políticas que se fizeram sentir fortemente até perto de meados do século XIX. João Dubraz, pelo contrário, assumia-se plenamente como um empenhado activista político. Esteve preso em Elvas durante cinco meses, devido à sua participação num acto revolta militar, em 1847, na conjuntura revolucionária da “Maria da Fonte” e da “Patuleia”. Era um empenhado defensor de um liberalismo radical e um fervoroso partidário do regime repúblicano.

Mas, em ambos, deve-se, sobretudo destacar nas suas obras, o seu empenho na descoberta e na preservação, da memória histórica das comunidades em que estavam inseridos.           

No caso de João Dubraz, destacam-se  as «Recordações dos Últimos Quarenta Anos” de que - coisa rara naquele tempo - se publicaram duas edições: uma primeira em 1868, logo seguida de uma  segunda em 1869. Trata-se, sem dúvida, duma importante memória descritiva da Vila de Campo Maior, desde as suas origens até final dos anos sessenta do séc. XIX, com particular destaque para  a conjuntura das guerras peninsulares e para os factos e acções durante o período de implatação do Liberalismo na vila de Campo Maior. Como jornalista deixou ampla e diversicada coloboração em quase todos os jornais que, no seu tempo, se publicaram em Elvas e em alguns dos que se publicavam em Lisboa.

No que respeita à actividade como colaborador nos jornais, o mesmo caminho seguiu Vitorino de Almada. Uma parte considerável da sua obra foi também publicada em artigos em jornais como o Elvense, o Gil Fernandes e o Correio Elvense de que foi o redactor principal. Mas não pode deixar de se referir a obra que publicou de 1888 a 1895 - Elementos para um dicionário de geografia e história portuguesa -  que trata dos factos relativos ao concelho de Elvas e aos extintos concelhos de Barbacena, Vila Boim e Vila Fernando -  bem como O manuscrito de Afonso da Gama Palha, sobre a Guerra da Sucessão em Espanha, (Elvas, 1876); o estudo biográfico Francisco de Paula Santa Clara, (Elvas, 1888) e a obra Os quartéis- mestres, (Elvas,1890).

Eis, de forma abreviada, algumas notas sobre dois vultos e duas obras de referência na historiografia portuguesa, no que respeita à História Local: uma referida à vida na cidade de Elvas e outra, uma memória sobre uma vila, Campo Maior, ambas localizadas na zona raiana do Alto Alentejo.

 

NOTA: Este texto pretende ser um gesto solidário, de apoio à justa e necessária campanha que Jacinto César tem vindo a desenvolver em defesa da memória e da cultura da sua cidade. E foi elaborado com base noutro, postado por Arlindo Sena, In,

http://flama-unex.blogspot.com/2009/05/historia-local-ao-longo-da-historia da_6801.html

 



publicado por Francisco Galego às 08:03
Sábado, 10 de Setembro de 2016

TEATRO DAS ANTIGUIDADES D’ELVAS

 Com a história da mesma cidade e descrição das terras da sua comarca, escrito pelos anos de 1644 a 1655 pelo Cónego Aires Varela, com um prólogo de António Thomaz Pires.

 

O castelo de Campo Maior é obra muito antiga e muito forte, tanto por razão do sítio, como pelas torres e muros. Foi fabricado pelos mouros e reparado por El-rei D. Dinis, que lhe levantou a maior torre que nele há e, por esta razão, quiseram alguns atribuir-lhe a honra de edificador.

Os romanos lhe deram o nome, com muita propriedade porque, daquele sítio se descobre o maior campo que há por aquele distrito.

Havia junto ao castelo duas aldeias da jurisdição de Badajoz e que entraram nesta coroa com as de Olivença e Ouguela em troco de Aroche e Aracena. A mais populosa se chamava Joannes, ou por ser Bartolomeu Joannes a principal pessoa da aldeia, ou porque a água que a ela vinha era do seu campo da Valada. Dela se descobrem vestígios. A outra se chamava dos Luzios, nome que conserva o sítio e algumas famílias que passaram a Albuquerque.

Os habitantes destas aldeias viviam de cultivar os campos, respondiam com os dízimos à Sé de Badajoz que reconheciam no espiritual. E assim foram continuando até ao tempo de El-rei D. João I e ainda neste tempo (anos de 1644 a 1655) se conserva naquela Sé uma dignidade com o título de Prior de Campo Maior.

Logo que estas aldeias ficaram pertencendo à coroa portuguesa, abandonaram os sítio e aproximaram-se do castelo pelas comodidades que daí lhes resultavam, fugindo às rigorosas leis castelhanas, sujeitando-se às piedosas leis portuguesas.

Em favor destes novos moradores, com muita consideração e, sem dúvida, com a aprovação dos moradores de Elvas, desuniu El-rei D. Dinis este castelo de sua jurisdição para o honrar com o título de vila. Foi crescendo pela bondade dos ares, abundância das águas e fertilidade do terreno, até chegar a ser uma das mais populosas do reino. Desta sua origem resulta que, quando alguém quer chalacear com os de Campo Maior, chame à vila Campo Joannes.

São os naturais desta vila robustos, de grandes forças e igual valor, são duros e contentam-se com pão e água. As famílias antigas desta vila são os Vaz, Vicente, Rego, Prioreço, e Galvão. Depois vieram de fora os Mexia, Videira, Pereira, Sequeira, Fouto, Carrascosa, e Carrasco.

Entre a gente do povo conservam-se algumas palavras castelhanas e outras compostas de ambas as línguas, daí que não sejam nem portuguesas, nem castelhanas. E o mesmo acontece quanto aos costumes.

As mulheres que sempre deitam mão aos que favorecem a sua liberdade, mesmo as nobres, quando lhes parece, andam vestidas ao uso de Castela.(…)

Nesta vila apareceu uma imagem de São João Baptista e lhe fabricaram uma igreja que é venerada pelos naturais da vila e frequentada pelos que o não são, pelos muitos milagres que Deus por ela opera. Crê-se que, por intercepção deste santo, nunca tocou mal contagioso neste lugar, mesmo quando todos os lugares vizinhos ardiam em peste.

Afirma a tradição e confirma a pintura do retábulo que, o homem a que esta imagem apareceu, tinha na cabeça um lobinho e, duvidando de lhe darem crédito, lhe disse o santo que serviria de testemunho que, naquele mesmo momento, o lobinho que tinha na cabeça lho mudasse para o pé, o que logo aconteceu. E, assim ficou acreditado o homem e respeitado o Santo. O homem chama-se Gonçalo Rodrigues. Dele há descendência e se conserva uma horta do prazo[1] da mitra, em que se entra por sucessão de sangue. Estava nesta horta quando lhe apareceu a imagem de S. João Baptista, e afirmam que essa imagem é a que é venerada hoje naquela ermida.

A causa deste milagre foi que os moradores da vila estavam há anos a habitar no campo, devido à grande corrupção do ar que a todos matava. Ao que parece, pela intercepção deste grande Santo, de que já antes os de Campo Maior eram grandes devotos, foi Deus servido de lhes levantar o castigo. Três vezes apareceu o Santo a este hortelão, sempre entre chamas de fogo: a primeira, na sua choça; a segunda numa fogueira; a terceira, junto a um regato, onde lhe falou como atrás se disse. Também se afirma que, a fonte chamada de S. João que deu o nome à horta, nasceu milagrosamente aos pés do Santo e, por ser fonte milagrosa, a sua água faz milagres.

No tempo de El-rei D. João I era alcaide do castelo Paio Roriz Marinho que teve voz por Castela e que depois foi morto por Martim Vasquez de Elvas. A Pio Roriz sucedeu Gil Vasquez de Barbuda de quem a Crónica de El-rei D. João I diz estas palavras: Partiu El-rei de Monção e veio a Lisboa, deixou aí a rainha para ir cercar Campo Maior, um bom lugar do seu reino entre Tejo e Odiana, que tinha voz pelo rei de Castela. E estava nela por alcaide Gil Vasquez de Barbuda, primo  do mestre Dom Martin Annes. Estando El-rei sobre esta vila, vieram de Badajoz os mestres de S. Tiago e de Calatrava com muita gente da Andaluzia para a socorrer. Houve muitas escaramuças. Porém, El-rei combateu a vila de tal sorte que a tomou pela força e, dezoito dias depois, tomou os castelo por pleitearia.

 

 

 

[1] Prazo = aforamento



publicado por Francisco Galego às 00:08
Segunda-feira, 05 de Setembro de 2016
  1. ANTÓNIO CARVALHO DA COSTA, COROGRAFIA PORTUGUEZA E DESCRIPÇAM TOPOGRAFICA DO FAMOSO REYNO DE PORTUGAl ... Braga, 2ª ed.1868, 1ª ed. 1706 – 1712

 

Cap. VI – Da Villa de Campo Mayor (p. 366 a 368)

 

Campo Maior foi povoação de 1.200 vizinhos. Hoje, por causa das guerras com Castela, acha-se com 850 , com casas muito nobres e limpas, cujos apelidos são Vaz, Galvão, Mexia e Sequeira, que a vieram povoar.

Foi ganha aos mouros na era de 1219, pela família dos Peres naturais de Badajoz; estes deram a vila à fábrica da Igreja de Santa Maria do Castelo, sendo bispo de Badajoz D. Pedro Peres, que lhe deu por armas Nª Sr.ª e um cordeiro com um circulo à roda que diz: Sigillum Capituli Pacensis.

Depois, no reinado de D. Dinis que lhe fez o castelo na parte mais alta do terreno para o lado de Elvas, havendo controvérsia entre os moradores sobre o lugar para onde haviam de estender a povoação, ajustaram que para o maior campo, de que resultou ter por nome Campo Maior.

Tem uma freguesia da invocação de Nª Srª da Expectação, que se edificou no tempo de D. Sebastião de Matos, bispo de Elvas, com um prior e dois vigários para administração dos sacramentos e rezarem em coro com os outros beneficiados: são benefícios simples e muito ténues.

Tem um convento da invocação de Santo António, de frades franciscanos, que vivem no castelo desta vila enquanto se acaba o convento que se lhes funda por ordem do sereníssimo rei D. Pedro II. Servem-se os padres da Igreja que antigamente foi matriz desta vila, a qual foi deixada pelos clérigos no ano de1645, sendo dela prior Fernando Gil Castelo. A primeira fundação deste convento foi junto às casas para o lado das Poças e que foi mandado derrubar por causa das guerras com Castela.

Tem outro convento de frades de São João de Deus, com título de Hospital del-Rey, onde se curam os soldados e mais gente de guerra da guarnição da Praça.

Tem Casa da Misericórdia com seu hospital.

Tem três ermidas (pois as mais estão extintas):

- uma de São João Baptista, em que o Santo é muito venerado pelos muitos milagres que Deus Nosso Senhor faz por sua intercepção;

- outra do Mártir S. Sebastião, imagem muito selecta e de singular beleza;

- a de S. Pedro que fica fora dos muros e na qual está o Santo pintado na parede com tal perspectiva que parece olhar para todas as direcções. Segundo a tradição, estando feita a ermida, entram nela dois forasteiros e, depois, quando se ausentaram, os naturais acharam a imagem pintada em fresco com dois cardeais ao lado. Esta pintura ainda hoje existe.

Foram baptizados na pia da antiga matriz desta vila, o Beato Amadeu que instituiu a Ordem dos Amadeus em Itália (o seu nome secular fora João de Menezes e Silva, filho segundo de Ayres Gomes da Silva, alcaide de Campo Maior e Ouguela) e D. Isabel de Menezes, filha de D. Pedro de Menezes, Conde de Viana e primeiro Capitão de Ceuta e irmão de D. Diogo da Silva, primeiro Conde de Portalegre. E D. Beatriz da Silva, que instituiu a Ordem da Conceição em Castela, irmã do dito João Menezes da Silva que  passou a Castela com a rainha D. Isabel, filha do Infante D. João, quando esta foi casar com El-rei D. João II de Castela. Foi canonizada como Santa Beatriz

Foi também natural desta vila o bispo Martinho Afonso Mexia que nela tem muitos sobrinhos e dilatada família; foi primeiro bispo de Viseu e depois de Coimbra e Vice-rei deste reino.

É esta vila muito abundante de trigo, cevada e legumes, com muitos montes no termo onde vivem os lavradores.

Dista da cidade de Elvas três léguas para Norte, meia légua do Rio Caia que nasce na Serra de São Mamede, junto ao Rio do Sete, termo da vila de Marvão e que corre pelo meio dos soutos de Alegrete e junto de Arronches, vindo a servir de linha de divisão entre esta vila de Campo Maior e a cidade de Elvas. Com as águas do Caia regam-se muitas hortas e pomares e moem muitos moinhos. É rio de muitas pedras e, por essa razão, o peixe que cria é tido como sendo melhor que os dos outros rios.

Entre as muitas hortas que tem esta vila, é muito nomeada a Horta de São João Baptista pelo aparecimento que nela fez o santo a Gonçalo Rodrigues, homem virtuoso e pelo milagre que com ele usou em lhe tirar um lobinho que tinha na cabeça e passar-lho para o pé esquerdo, a fim de convencer os moradores a voltarem às suas casas de que se tinham retirado por causa da peste, a qual já tinha cessado como lhe afirmara São João Baptista.



publicado por Francisco Galego às 00:04
Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

Julgo que será por ser dia do meu aniversário que me deixei tomar de uma certa nostalgia. Também pesou o facto de fazer a soma dos 75 anos. Com eles chega uma certa tendência que leva a ir fazendo contas com os tempos que já passaram há tanto tempo, pois eles só já perduram na memória dos que viveram muitos anos. 

Em Campo Maior, em meados do século vinte, os assalariados rurais reuniam-se ao ar livre nos Cantos de Baixo. Os pequenos agricultores tendiam mais a juntarem-se aos Cantos de Cima. Os que não estavam ligados ao trabalho nos campos, tendiam mais a juntarem-se no Terreiro. Quando o tempo o não permitia,  frequentavam  as sociedades: os trabalhadores rurais, a sede da música no Assento, ou a da Casa do Povo; os comerciantes, os oficiais e os mestres dos ofícios, bem como os pequenos e médios proprietários, eram presença habitual na Sociedade da Praça que, aliás, fazia cuidadosa selecção na admissão de novos associados; acima destas e no vértice da pirâmide social, a vulgarmente chamada "Sociedade dos Ricos" era o “santo dos santos” só acessível a uma elite muito restrita porque muito seleccionada.

Um pouco mais tarde, por razões clubistas, tinham aparecido alguns centros de convívio mais interclassistas como a sede do Sporting Clube Campomaiorense e ainda mais tarde a Casa do Benfica.

Como locais de convívio masculino, para os trabalhadores rurais, havia também muitas tabernas espalhadas por quase todas as zonas da vila.

Mais tarde surgiu a Pastelaria  -  Alcor, de seu nome -  de clientela também muito seleccionada.

Café, propriamente dito, apenas o desaparecido Café Central ou Café Guitano, com uma extraordinária organização ao encontro da estratificação que caracterizava a sociedade campomaiorense nesse tempo: no lado direito de quem estava voltado para o prédio, numa primeira sala, encontrávamos um clima perfeito de taberna, tanto no que respeitava ao mobiliário, como no tipo de serviço que aí se dispensava aos clientes; na parte central uma zona constituída por duas salas – a do bilhar e a das mesas para se tomar café e cavaquear; depois seguia-se uma espécie de reservado para os clientes de categoria que não apreciavam o convívio generalizado com a outra gente. Num canto desta última sala, ficavam as mesas que funcionavam como restaurante.

 

Esta organização dos centros de convívio numa vila como Campo Maior, sociedade fundamentalmente agrícola e com características bastante arcaicas, parecerá hoje inacreditável para as novas gerações. Mas estava irremediavelmente de acordo com as condições de vida desse tempo.

Depois, embora tudo parecesse continuar na mesma, uma vez que a situação política de ditadura persistia, tudo começou a mudar. Começou com o incontível fluxo migratório que arrastou para as grandes cidades e para a Europa uma tal massa de gente que nada poderia, a partir daí, permanecer como tinha sido. Os pobres tornaram-se muito menos e muito menos pobres. Com isso, os ricos começaram a cair do seu pedestal. Com a mecanização, a agricultura sofreu tão profundas mudanças que muitos não conseguiram sobreviver-lhes. Viram-se obrigados a mudarem por completo o seu modo de vida. Parecia que tudo se desmoronava, tal era o impulso de mudança provocado pela nova situação.

Foi todo um estilo de vida que desapareceu. Nestas condições, tornava-se inevitável que muitas das organizações e associações desaparecessem porque tinham nascido para outro modelo de sociedade.

Diz-se que as fontes, em períodos de grandes secas, antes de secarem por completo, deitam um jorro mais forte parecendo que vão renascer. De certo modo, foi isso que aconteceu com as antigas “sociedades” e locais de convívio. No início dos anos 60, quando elas já tinham entrado numa acentuada decadência prenunciando o seu fim, a televisão começara a transmissão regular de programas para todas as regiões do país. Os equipamentos e os aparelhos receptores eram caros. As associações e clubes aproveitaram para os instalar e, organizando espaços para assistência aos programas, atraíram de novo as massas associativas que garantissem a sua subsistência.

Foi sol de pouca dura. A facilidade na aquisição desses equipamentos pelas famílias ditou o fim irremediável dessas agremiações. Delas nada mais resta na vila raiana de Campo Maior.

A nova sociedade, muito mais interclassista, ditou outros locais e outros usos e costumes. E eu, se falo disto, não é porque o que acontecia IN ILLO TEMPORE, me tenha deixado qualquer indício de saudade. Trata-se apenas de lembrar...

 

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Sábado, 20 de Agosto de 2016

Quando chegavam as grandes calmarias de Verão, o Alentejo tornava-se mais profundo. Mais isolado do resto do mundo.

A terra ressequida, nas horas de calor mais intenso, parecia tornar-se um imenso brasido. Olhando para longe, sobre os restolhos, víamos aquele tremeluzir que fazia desvanecer o contorno das coisas.

É a memória desta terra esbraseada que mais me traz as recordações da minha infância.

Por esta altura, livres da escola e das tarefas a que ela obrigava, batíamos os campos, insensíveis ao calor que tanto incomodava os mais velhos.

Numa busca vadia procurávamos grilos, pássaros que, estonteados pelo calor, se punham ao alcance das nossas gailoas de cana e da nossas fisgas, a que chamávamos afundas. Deitávamos a mão a alguns figos que, na ausência dos donos, ficavam ao nosso alcance Quando regressávamos esbraseados e sedentos, trazíamos os bolsos cheios de tudo a que pudéssemos ter deitado mão. Éramos livres e felizes, embora muito inconscientes dos perigos a que frequentemente nos expunhamos e, sobretudo, das maldades e excessos que quase sempre praticávamos.

Por circunstâncias da minha vida, cedo abandonei esta vida, vivida com grande sentido de camaradagem. As “maltas”, formadas pelos que viviam em proximidade de ruas, eram autênticas escolas que nos ensinavam coisas, que não se aprendiam nos bancos da escola, mas que nos moldaram para o resto da vida:

- a solidariedade entre os membros do grupo;

- o sentido de pertença àquelas pequenas comunidades;

- o sentido de entreajuda;

- a lealdade e o dever de cuidar dos mais novos, dos mais desprotegidos;

- a coragem para lutar em defesa do interesse de todos.

 A vila mudou muito. O mundo da minha infância morreu. Como morreu a comunidade rural em que cresci para a vida, aqui, em Campo Maior.



publicado por Francisco Galego às 00:30
Quarta-feira, 10 de Agosto de 2016

PORQUE É TEMPO DE RELER, ... É TEMPO DE REDESCOBRIR:

 

Um muito difícil ponto da economia política e social: Quantas almas é preciso dar ao Diabo e quantos corpos se têm de entregar no cemitério para fazer um rico neste mundo.

 

ALMEIDA GARRETT - Viagens na minha terra, Cap. III, (publicado em 1846, portanto, há 170 anos, num tempo em que começara a usar-se uma avançada forma de viajar rápida e confortavelmente: o combóio a vapor)

 

Pensando assim, facilmente chegamos à conclusão de que, se é indiscutível que há uma  mudança  rapida e contínua nas condições de vida, há, contudo, algo que muda tão lentamente que chega a parecer que, de facto,  não muda. Senão vejamos: Em que é que mudou a inteligência política e a consciência social dos que neste mundo acumulam o poder e a riqueza?



publicado por Francisco Galego às 08:13
Terça-feira, 26 de Julho de 2016

 

 

FAÇAMOS UMA PAUSA

 

 

SIM, PORQUE, ESTE CALOR

 

 

TIRA A VONTADE DE AGIR.

 

 

ESCREVER SEMPRE

 

TAMBÉM CANSA

 

 

E ABORRECE QUEM

 

COSTUMA LER

 

 

 



publicado por Francisco Galego às 09:44
Segunda-feira, 25 de Julho de 2016

António Henriques da Silveira no seu “Racional Discurso sobre a Agricultura e População da Província do Alem-Tejo”, in Memorias Economicas para o adiantamento da Agricultura, das Artes e da Industria Portuguesa, publicada pela Academia das Ciências, tomo I, 1789, colocava entre as terras mais férteis do Alentejo, os “barros vermelhos” de Elvas, de Campo Maior, de Fronteira e de Estremoz. Para além destas povoações cita apenas Olivença, Beja e Serpa como terras com especial aptidão para a cultura dos cereais, principalmente do trigo.

 

Em Campo Maior, até meados do século passado, era significativo o volume da produção de trigo, aveia e cevada. A cultura de legumes era limitada a pequenas extensões em hortas e quintas na proximidade da vila. Os alqueives eram aproveitados para semear em grandes quantidades algumas leguminosas (os grãos, os chicharos e as favas). Tinham também bastante significado na economia local, as produções de vinho e  de azeite.

Contudo, só a produção de trigo era largamente excedentária permitindo a sua exportação em gande escala, para fora do concelho.

Segundo dados de 1823, as condições dos transportes não permitiam levar com facilidade grandes quantidades de mercadorias a grandes distâncias. Apesar disso, muito do trigo produzido no Alentejo chegava até Lisboa. O Tejo e o Sado eram as principais vias para encaminhar os cereais para a capital. São conhecidas as ligações que a vila de Campo Maior mantinha com o porto fluvial de Abrantes. Mesmo num ano difícil como, por razões militares, foi o de 1809, devido às invasões francesas, Campo Maior enviou, no mês de Maio, com destino a Lisboa, 2.742 alqueires de trigo.

O transporte era feito em carros puxados por bestas pertencendo a pessoas que faziam do acarreto de mercadorias a sua principal actividade – os carreteiros. Estes faziam o caminho de Abrantes, transportando o trigo, tanto por sua própria conta, como por conta de particulares. Além de Campo Maior participavam neste comércio, carreteiros de outras terras como Portalegre, Arronches, Veiros, Gáfete, e Vila Viçosa.

 Este comércio de cereais do Alentejo pelo porto de Abrantes manter-se-á até meados do século XX. Segundo uma memória sobre Niza, ocupavam-se regularmente neste transporte de cereais de Campo Maior e de Castelo de Vide para Abrantes, 180 a 200 carreteiros.

Claro que uma boa parte do trigo que partia destas localidades devia provir de Espanha por actividade de contrabando. O contrabando esteve, por natureza, desde sempre ligado ao destino de Campo Maior até que a evolução da História ditou a abolição das fronteiras numa Europa onde a existência das fronteiras tantos problemas causou na relação entre os povos.

 



publicado por Francisco Galego às 00:05
Sexta-feira, 22 de Julho de 2016

IV – As Defesas de Ouguela

 

Ouguela que até 1834 era ainda um concelho gozando de plena autonomia administrativa, tinha também os seus terrenos comunais ou baldios.

Um deles – a Referta – era designada como contenda porque, ultrapassando o seu território para o lado de lá da fronteira com a Espanha, tinha o seu uso de ser partilhado pelas populações de Ouguela e de Albuquerque.

Além desta, havia ainda o baldio da Travessa e o baldio de Nossa Senhora da Enxara. Das terras comunais, estas foram a que mais cedo foram cedidas ao uso privado: do baldio da Travessa foi concessionada uma parcela de um quarto légua em 1821; quanto ao baldio de Nossa Senhora da Enxara, a Câmara propôs, em1825, a sua divisão em pequenos lotes a atribuir em carácter de enfiteuse aos moradores, desde que o rendimento da sua concessão não fosse inferior ao que a Câmara auferia com a venda das pastagens. Mais tarde, quando decidiu torna-se proprietário nesta região, o Barão de Barcelinhos, depois titulado como Visconde de Ouguela, adquiriu muitas destas pequenas propriedades constituindo com elas uma herdade.

 

Hoje quase nada mais resta das antigas defesas que outrora existiram no actual território do concelho de Campo Maior.



publicado por Francisco Galego às 00:07
Segunda-feira, 18 de Julho de 2016

III – As Defesas da Godinha

 

 

Duas outras defesasGodinha de Baixo e Godinha de Cima –ficavam a sudeste, numa região descoberta. Apesar da semelhança da designação, nada tinham de comum com as referidas ao concelho de Elvas.

A defesa da Godinha de Baixo era alugada por três anos como qualquer herdade e o seu locatário conservava para si as suas pastagens. Esta herdade foi cedida, no século XIX, a título definitivo ao seu arrendatário que passou a ter sobre ela direito pleno de propriedade.

A defesa da Godinha de Cima que, segundo o testemunho do corregedor de Elvas, em 1812 tinha cerca de mil hectares de superfície, deu origem a prolongados conflitos na segunda metade do século XVIII.

Até 1775 tinha estado reservada aos bovinos não utilizados no trabalho (geralmente os animais mais jovens e até ao limite de dez cabeças por pessoa). Nela se acolhiam também os cavalos. Só excepcionalmente era cultivada como, por exemplo, no ano de 1705, com o pretexto que de que o número de animais tinha sido muito reduzido por causa da guerra. Como foi dito na provisão de 20 de Junho que tomou essa decisão, “assim se tinha procedido nas guerras passadas e assim se fazia enquanto esta durasse”. Recomeçaria a ser utilizada para o gado em 1748-49, para combater uma praga de gafanhotos.

A partir de 1776 o estatuto da defesa da Godinha de Cima foi muito modificado. Era vendido o direito aos pastos ou seja, o direito de nela colocar bovinos em pastagem. Quatro anos depois, o beneficiário solicitou que lhe fosse concedido o direito de semear doze moios de terra o que lhe foi concedido pela Câmara para um período de três anos, o qual foi alargado para mais seis anos em 1782. A população mantinha apenas o direito de aí poder alimentar os bois e os cavalos não utilizados no trabalho dos campos.

 

Quanto aos baldios da Godinha, a notícia que se transcreve refere claramente como e quando essas terras comunais foram transformadas em pequenas parcelas de apropriação privada:

A DEMOCRACIA, Nº 159, Elvas, 12 de Janeiro de 1871

“A Ex.ma câmara municipal está já procedendo à demarcação e numeração das sortes da Godinha; fez uma distribuição o mais lata possível, de modo que, não só todos os chefes de família serão contemplados com uma sorte de uns 5 alqueires de terra, senão também todos os órfãos de pai e mãe, estejam ou não estabelecidos e vivam ou não em comum ou separados. É imerecida a censura que alguns fazem à câmara por a forma ou o sistema de terra que mais viria a pertencer a cada chefe de família. Contraste-se isto com o honroso procedimento da câmara, cujos membros não quiseram ser contemplados na distribuição das sortes. Louvor à sua abnegação.”

Campo Maior, Janeiro 7. O correspondente: Manuel Rosado Pimpão Junior



publicado por Francisco Galego às 00:05
Sexta-feira, 15 de Julho de 2016

(...) A educação é pautada pela doutrina da sociedade de consumo. Os alunos são orientados para os desejos que a orgia da publicidade fomenta. Paulatinamente, muitos professores foram-se transformando em peões de um sistema sem humanidade. Paulatinamente, aceitaram desincentivar os seus alunos de questionar e discutir causas e razões.

(...) Os sistemas de educação deixam as nossas crianças sem tempo para serem crianças. Porque lhes definimos rotinas e obrigações segundo um modelo de adestramento que ignora funções vitais de crescimento. O ritmo de vida das crianças é brutalmente acelerado segundo o figurino errado de vida que a sociedade utilitarista projecta para elas. Queremos que elas cresçam depressa. A pressa marca tudo e produz ansiedade em todos. Não lhes damos tempo para errar e aprender com os erros, quando o erro e a reflexão sobre ele é essencial para o desenvolvimento dos jovens. É a ditadura duma sociedade eminentemente competitiva e utilitária, mas pobre porque esqueceu a necessidade de formar os seus, também, pelas artes, pela estética e pela música.

Muitos dizem que temos a geração mais preparada de sempre. Mas será que temos? Ou será que temos, tão-só, uma geração com uma relação elevada entre o número dos seus elementos e os graus académicos que obtiveram? E preparada para quê? Para responder ao “mercado” ou para responder às pessoas? É que há uma diferença grande entre qualificar e certificar, preparar e diplomar. (...)

Para ler na íntegra: Santana Castilho, In,  Quando Deus é o mercado e a religião é o dinheiro”. Público, “Opinião”, de13/07/2016.



publicado por Francisco Galego às 00:59
Domingo, 10 de Julho de 2016

A DEFESA DE SÃO PEDRO

 

Localizada a sudoeste da povoação, numa área arborizada e ligeiramente ondulada, era todos os anos dividida em sortes, em partes de um moio de semente, ou seja, de uma dezena de hectares, as quais eram leiloadas e cedidas para serem cultivadas,  pela melhor oferta e nelas se praticava um afolhamento trienal, como nas restantes herdades da região. Este afolhamento não era rigorosamente respeitado, pois uma parte da terra em repouso era utilizada com outras culturas.

Como se vê, o cultivo destas sortes da defesa de São Pedro era feito em regime de exploração privada pelos que tinham conseguido, em leilão, arrematar o direito ao seu uso pelo período que decorria entre uma sementeira e a sua colheita. Era uma prática que nada tinha de trabalho colectivista popular e muito menos de uso comunal.

Depois das ceifas a Câmara vendia os restolhos pela melhor oferta. Mas, mesmo no tempo dos restolhos, uma parte da defesa de São Pedro, estava à disposiçãodos animais dos habitantes da vila.

Era numa parte integrante da Defesa de São Pedro – o Rossio – que a população podia realizar anualmente as suas eiras onde, após as ceifas, se procedia à debulha dos cereais.

 



publicado por Francisco Galego às 11:04
Terça-feira, 05 de Julho de 2016

I – A Defesa do Carrascal

 

Numerosos documentos aludem às terras comunais de Campo Maior – as defesas do concelho que, segundo documentos antigos, teriam sido estabelecidas no século XIV, reinado de D. Pedro I, para uso comunal da população e para garantia dos recursos necessários à administração pública dos municípios, eram particularmente importantes nas terras raianas que, por razões defensivas, tinham de ser atractivas para a fixação da população.

Segundo Rui Vieira, no caso de Campo Maior, uma das mais antigas referências data do reinado de D. João III, segundo a qual este rei, no ano de 1550, terá autorizado que a Câmara Municipal campomaiorense arrendasse “a Defesa do Carrascal por dois anos, por mil cruzados, por o concelho estar com grande necessidade para a despesa da água e fonte que fazeis e para acabardes as audiências e para se fazer um açougue (…) este último a construir, tal como as Casas da Câmara e das Audiências, na referida Praça Velha”. O mesmo autor refere que “esta defesa do Carrascal, que possuía 20,5 moios de terra, foi comprada à Câmara Municipal de Campo Maior, em 1609, por António da Silva Meneses por 9.250 cruzados (3 contos e setecentos mil réis).”

 Segundo Albert Silbert, uma notícia de 1758 faz referências pormenorizadas ao estatuto e utilização destas terras comunais.



publicado por Francisco Galego às 00:10
Quinta-feira, 30 de Junho de 2016

No concelho de Campo Maior locaizam-se  três das vinte barragens romanas estudadas a sul do Tejo:

- Barragem do Muro (Ribeira dos Cães);

- Barragem de Olivã (Ribeira de Olivã);

- Barragem da Mourinha. (Ribeira dos Saberes)

“ Os Romanos aprenderam muito da sua engenharia com os Gregos, não tendo propriamente contribuído neste domínio com ideias originais. (…). Com efeito, a engenharia romana era extremamente prática e a grande maioria das obras era levada a cabo por pessoal militar ou sob sua orientação.” (p. 38, 39 e 44)

 “As barragens inventariadas a sul do Tejo destinavam-se essencialmente a rega ou a abastecimento populacional ou, simultaneamente, aos dois usos. (…)

Os cursos de água têm um regime extremamente irregular, estando secos grande parte do ano. O aproveitamento das águas superficiais só era, pois, possível mediante o armazenamento em albufeiras a criar por barragens. (…)

Muitas das barragens inventariadas estavam associadas a villae, mediante as quais se realizava a ocupação do “agros transtagano.”             

 Uma villae era constituída por um conjunto de edificações destinadas a habitação (villa urbana) e a explorações agrícola e artesanal (villa rústica). A maioria das villae urbanae da Península Ibérica dispunha de um ou mais pátios fechados nos quais frequentemente se encontravam tanques ou fontanários, que tinham não apenas uma função lúdica, mas também prática, pois constituíam reservatórios de água que facilitavam a rega dos jardins interiores. As edificações situavam-se na zona central de uma propriedade agrícola, o fundus.

O tipo de vida nas villae era profundamente marcado por Roma; estas dispunham em geral de instalações balneares (termas) que, na região em estudo, tinham frequentemente como origem de água as pequenas albufeiras criadas pelas barragens.” (P. 51)

 “A Barragem do Muro sobressai entre as barragens inventariadas pelas suas características arquitectónicas e pelas soluções técnicas adoptadas. Esta barragem apresenta altura e desenvolvimento notáveis, sendo o único caso em que são visíveis nos paramentos fiadas horizontais de tijoleira, dispostas regularmente, e apresenta arcos entre os contrafortes sujeitos a maior tensão. A função de tais arcos seria presumivelmente a de concentrar as cargas de peso próprio sobre os contrafortes.

Trata-se também da única barragem que apresenta, adossada ao paramento de montante, uma superfície argamassada, a qual pode corresponder ao revestimento de uma sapata de fundação da estrutura. Na ligação do muro a tal superfície observa-se um rebordo convexo usualmente encontrado noutras estruturas hidráulicas para minimizar os riscos de fendilhamento e facilitar a limpeza.” (P. 57)

Com a capacidade de 178.000 m3 é, das referenciadas, uma das de maior dimensão; situa-se na ribeira dos Cães; a área da bacia hidrográfica é de 1,7 km2. (P. 61)

 “Para a cota de 234 m (cota aproximada do topo), o comprimento da albufeira seria de 460 m, a área inundada de 82.700 m2 (…)

Trata-se de uma estrutura inédita que constitui o exemplo mais monumental da arquitectura hidráulica romana a sul do Tejo. Efectivamente, a estrutura revela uma complexidade inexistente na maioria dos casos. Consiste num muro de secção transversal rectangular de 4,2 m de espessura no trecho central, suportado a jusante por 16 contrafortes, separados entre si 3 a 4m: Tal muro apresenta a altura máxima visível de 4,6 m e o desenvolvimento de 174m, com traçado poligonal. O trecho mais alto da barragem corresponde à zona onde corre a linha de água, observando-se do lado jusante restos de três arcos de volta inteira, apoiados em contrafortes. A sua função seria a de reforçar a estabilidade do sector sujeito a maiores pressões.

A secção transversal da barragem é suficiente para assegurar a estabilidade, sem a contribuição dos contrafortes. (…)

Esta barragem possuía provavelmente uma descarga de fundo na zona de passagem da actual linha de água.” (…) (P. 65 do livro de António de Carvalho Quintela; João Luís Cardoso; José Manuel Mascarenhas, Aproveitamentos hidráulicos romanos a sul do TejoContribuição para a sua inventariação e caracterização, Ministério do Plano e da Administração do Território - Secretaria de Estado do Ambiente - Direcção-Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos - Agosto de 1987)

 



publicado por Francisco Galego às 00:05
Sexta-feira, 24 de Junho de 2016

A história que vou contar ter-se-á passado, há cerca de 500 anos. Reinava em Portugal  D. Manuel I.

            Campo Maior era então, uma povoação bastante pequena, com nove ruas dentro do castelo - "a Vila Velha" - e mais algumas do lado de fora das muralhas. Teria aproximadamente dois mil habitantes, ou seja, cerca de seis vezes menos do que possui actualmente.  

            Ora, a certa altura, declarou-se uma grande epidemia de peste. As pessoas ficavam doentes e, passado pouco tempo, morriam. Naquele tempo, nas terras pequenas, não havia médicos, nem medicamentos. As péssimas condições de higiene e a deficiente alimentação, faziam que qualquer doença provocasse a morte rápida de muitas pessoas, mas principalmente das crianças e dos mais velhos que eram os mais fracos.

            As pessoas pensavam que as pestes eram um castigo de Deus. Por isso, mandavam oficiar missas nas igrejas, rezavam e imploravam o perdão dos seus pecados, para se verem livres da doença.

            Vendo que as suas preces não eram atendidas, pensando que o ar estava ainda empestado pela doença, os moradores de Campo Maior que ainda não tinham sido atingidos pela peste, resolveram sair da vila. Escolheram um lugar no meio dos campos e aí construíram casas de paredes de barro e cobertas de ramos e folhas, a que se dava o nome de "choças". Ainda hoje esse lugar é chamado pelos campomaiorenses como sendo o "lugar das Choças".

            Ficaram nesse lugar muito tempo com medo de que, se voltassem às suas casas na vila, pudessem ser apanhados pela peste.

            Mas, um belo dia, no ano de 1520, um homem chamado Gonçalo Rodrigues que andava a trabalhar na sua horta, perto da vila, sentindo-se cansado, sentou-se à sombra duma figueira a descansar. De repente, apareceu-lhe uma figura rodeada de uma grande luz. Assustado, o bom homem exclamou:

“Quem sois vós senhor? Que luz é esta que não parece ser coisa deste mundo?”

Ao que, numa voz forte e calma, a figura respondeu:

“Não temas Gonçalo! Eu sou João Baptista. Não vês como está o teu povo? Vai dizer à tua gente que podem voltar às suas casas. Os vossos sacrifícios e sofrimentos despertaram a compaixão de Deus Nosso Senhor. Não haverá mais peste. Mas, em memória da graça que por Deus vos foi concedida, quero que façam na vossa terra uma igreja em meu nome e devoção.”

            O bom do Gonçalo nem queria acreditar no que lhe tinha acontecido. Foi logo ter com a sua gente e contou-lhes a extraordinária aparição que tivera. Desde logo, todos decidiram que iriam fazer a igreja em honra de São João Baptista.

 

Fonte: Frei João Mariano de Nossa Senhora do Carmo  Fonseca (Séc.s  XVIII - XIX)

 



publicado por Francisco Galego às 00:01
Segunda-feira, 20 de Junho de 2016

O SÍTIO DE S. PEDRO NA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR (III)

 

FOGO NAS EIRAS DO ROSSIO

 

 “No dia 21 do corrente pelas 3 horas da tarde manifestou-se o fogo nas eiras públicas do Rossio de S. Pedro desta vila … naquele local havia próximo de 3 mil a 4 mil móios de trigo … sendo o Sr. administrador do concelho o primeiro que se apresentou no sítio do fogo à testa do qual se conservou…para evitar que o fogo se comunicasse aos mais celeiros contíguos, que não seriam menos de 800.

Não sendo menos dignos de iguais encómios e felicitações os mui nobres proprietários que correram de pronto ao lugar do incêndio… e ainda mais se deve ao geral da povoação que, ouvindo tocar o sino da câmara, abandonaram as suas casas, correndo da melhor vontade e voto próprio a acudir a um tão inesperado incidente…tornando-se muito distintos por esta ocasião os serviços prestados pelos senhores: subdirector da alfândega José das Dores; os artistas José António de Bastos, José Mendes da Mota, e Dâmaso de Albuquerque; os trabalhadores Manuel dos Santos Valadim, José Duarte, Manuel das Chagas e outros muitos cujos nomes ignoramos (…)”

 “A subscrição aberta pelo bondoso chefe da administração pública Sr. António César Lima Leitão em favor do infeliz António Rodrigues Valente a quem o fogo manifestado na eira no dia 21 do corrente reduzira à maior desgraça e miséria a quem o infortúnio havia roubado por meio das chamas, cerca de 20 moios e trigo.

Havendo 800 milheiros de trigo na eira, logo a fatalidade escolheu ser o do mais pobre que havia de arder. Devorando cerca de 20 moios de trigo que ficaram reduzidos a cinzas.          

O fogo foi lançado por descuido e pouca atenção. Ao que parece, alguém meteu uma caixa de fósforos no colete e, com o calor do sol, estes incendiaram-se.

Também, a força militar estacionada actualmente nesta terra é tão diminuta que não serve para qualquer eventualidade de maior alcance. Neste caso, apenas compareceram no incêndio 8 homens e 1 sargento, porque o resto do pessoal estava de serviço. E é com esta força disponível que se podem policiar entre 3 a 4 mil pessoas?

Não nos podemos conformar que, numa terra como Campo Maior onde já estiveram dois regimentos, se coloque agora um destacamento de 25 baionetas.”

(A VOZ DO ALEMTEJO, Nº 258 e 259, 25 e 29 de Setembro de 1863)

 



publicado por Francisco Galego às 00:30
Quarta-feira, 15 de Junho de 2016

O SÍTIO DE S. PEDRO NA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR (IV)

 

“Existem algumas indicações de que, já antes do começo da Primeira Grande Guerra, tinham existido grupos de rapazes que ensaiavam os primeiros chutos na bola aproveitando as esplanadas dos antigos fortes do Cavaleiro e do Ribeirinho, o fosso terraplanado que viria a ser o Jardim das Viúvas,onde actualmente se situava  o Lar Betânia e que é agora infantário , a terra batida do espaço onde se construiu o Jardim da Avenida,ou o Campo do Rossio, quando não estava ocupado com as eiras, pois era aí que a população fazia a debulha dos cereais e o apuro da palha. Este campo do Rossio foi arranjado pela Câmara, para a prática do futebol no começo dos anos vinte e foi o campo normalmente utilizado pelos grupos da terra quando disputavam entre si desafios ou quando recebiam grupos de terras vizinhas, principalmente Elvas, Portalegre ou Badajoz.

O campo que não dispunha de balizas fixas – improvisavam-se como dois paus a servir de postes ligados por uma corda a fazer de trave – nem sequer possuía as medidas regulamentares; mas foi o único espaço disponível para a prática do futebol até se tornar possível a utilização do Campo Capitão César Correia, no início dos anos 40.” (P. 19 do livro: Sporting Clube Campomaiorense – Das origens à actualidade (1926 – 2001), por F. Galego e J. Folgado)



publicado por Francisco Galego às 00:03
Sexta-feira, 10 de Junho de 2016

http://fotos.sapo.pt/amkPMcVKOlDrZFAONLiz/

DESENHO DA PORTA DE S. PEDRO

(SEGUNDO DESENHO DO ARQUIVO MILITAR DE LISBOA)

A porta de S. Pedro, ficava sutuada no lado Norte

da fortaleza de Campo Maior.

Não se conhece exactamente quando terá sido construida.

Pelo estilo verifica-se que é mais recente do que

a Porta de S. Maria, ou Porta da Vila

localizada no lado Sul.

Existem documentos que comprovam isto

porque a  referem com o nome de Porta Nova.

Foi demolida em 1908.

 

LOCALIZAÇÃO PORTA S. PEDRO.jpgA PORTA DE S. PEDRO LOCALIZAVA-SE NO FINAL DESTA RUA

E DAVA ACESSO AO LARGO QUE ENTÃO SE CHAMAVA LARGO DA CARREIRA,

HOJE DITO LARGO  DOS CARVAJAIS

 



publicado por Francisco Galego às 00:02
Domingo, 05 de Junho de 2016

 

 O SÍTIO DE S. PEDRO NA HISTÓRIA DE cAMPO MAIOR

– Um projecto não concretizado

 

Até ao século XIX, os enterramentos eram feitos no interior das igrejas, nos adros, nos terrenos envolventes, nas cercas dos conventos, ou seja, em Campo Santo.

Num documento que relata a explosão do paiol da pólvora em 1732, que quase destruiu a vila de Campo Maior, indicam-se claramente quais foram os locais de enterramento, nessa época:

- Na Igreja Matriz enterram-se 76 pessoas de comunhão e 28 crianças pequenas;

- No Convento de S. Francisco, 17 crianças pequenas;

- No Hospital de S. João de Deus, 6 soldados e uma criança pequena;

- Na Misericórdia, enterrou-se apenas o seu provedor Francisco Pires Cotão que foi a pessoa principal diante do Regimento de Cavalaria e um sargento de Infantaria.

No século XIX começaram a surgir medidas a condenar esse costume, considerado contrário à saúde pública. Em Portugal, foi com o governo de Costa Cabral, mais tarde foi agraciado com o título de Marquês de Tomar, que foi aprovada uma lei de Novembro de 1845, a qual, além de várias disposições de carácter tributário, determinava que os enterramentos passassem a ser feitos em cemitérios, fora das povoações, como medida de protecção da saúde pública.

A reacção das populações, principalmente no Norte do país, conduziu a revoltas que culminaram num período de grande agitação. Em 1846, a chamada revolução da Maria da Fonte que fez cair o governo de Costa Cabral, serviu de prólogo à Patuleia que lançou o país na guerra civil em 1847.

Mas, em Campo Maior, a questão dos enterramentos nas igrejas já se tinha colocado muito antes. Numa acta da Câmara de 23 de Agosto de 1834, é referido um “Acórdão em Câmara Municipal” em que se estabelecia: “Entendendo esta Câmara às diferentes representações que tem feito o Médico deste Concelho, e a que têm continuado nesta vila diferentes moléstias epidémicas, as quais (têm) tanto mais graduação quanto menos polícia há, e que o enterramento dos corpos humanos nas Igrejas, é de muito prejuízo à saúde pública em todo o tempo, e muito especialmente em tempo de epidemias, determina esta Câmara que, de hoje em diante, não se enterre corpo algum humano nas Igrejas, e sim no cemitério que será interinamente a cerca do Extinto Convento de Santo António desta vila; cujo acórdão obriga a todas as pessoas que hajam de morrer sem atender a hierarquias – porque a lei é igual para todos (Carta Constitucional) –, nem tão pouco a moléstia.”

O projectado Cemitério de S. Pedro:

Uma acta da Câmara de 31 de Agosto de 1836 refere a arrematação da obra do cemitério e a construção do mesmo junto à ermida de S. Pedro

Na acta da sessão da Câmara de 28 de Outubro de 1836, ficou registado que:

“Respondeu-se à Circular Nº 13 que trata sobre os cemitérios, expondo-se que, por falta de meios, se não tem concluído a construção do Cemitério Público; porém que já se acha principiado, com uma grande parte da parede feita. E todos os materiais juntos, e espera-se ficar pronto de tudo até ao dia 30 de Novembro próximo; e que, neste concelho, não há mais povoações em que hajam de se fazer mais cemitérios públicos.”

Contudo, houve muitos protestos da população contra a localização do cemitério, por medo de que este fosse inquinar as boas águas da fonte e chafariz de S. Pedro, e a obra esteve embargada. O problema do cemitério foi sofrendo adiamento e só estaria completamente resolvido em 1859 com a escolha de novo local, junto à Horta do Paraíso. As actas da câmara vão dando conta desse adiamento, pois o terreno que já tinha sido murado para o cemitério passou a ser arrematado em hasta pública para ser cultivado.

Na acta de 17 de Setembro de 1851 consta o seguinte: “Acto de arrematação do terreno do cemitério de S. Pedro feita a José Augusto de Miranda Cayolla por tempo de um ano pela quantia de14$400 réis.

Na acta da sessão da Câmara de 24 de Setembro de 1853:

“Não se arrematou Vale Morto, nem o Cemitério de São Pedro, por não haver lanço que conviesse a esta Câmara; por isso, ficou adiada para a sessão do 1º dia do futuro mês de Outubro. Para ir novamente à praça para o fim de se obter maior lanço.”

O Cemitério do paraíso:

O último enterramento feito no cemitério da cerca de São Francisco, foi o de Aurora Pereira em 14 de Dezembro de 1859 e o primeiro no Cemitério do Paraíso foi o de Maria do Carmo em 17 de Dezembro de 1859, segundo os assentos de óbitos da Freguesia de S. João Baptista.

            Mas, uma lembrança coeva particular refere que:

            “(…) no dia 15 de Dezembro de 1859, deu começo o Cemitério do Paraíso, extramuros desta vila de Campo Maior, sendo a primeira pessoa sepultada nele o filho do Morgado José Augusto Cayolla (mas ocultamente).

 



publicado por Francisco Galego às 00:04
Segunda-feira, 30 de Maio de 2016

O SÍTIO DE S. PEDRO NA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR (II)

 

“Neste sítio há uma Ermida do Apóstolo S. Pedro…

 (…) A Igreja de S. Pedro é uma Ermida feita de paredes de terra e de muito pobre arquitectura sem que tenha demonstração (de que) pudesse nunca ter mais avultados princípios. A qual se reedificou nos nossos tempos, porque no da Guerra da Aclamação (Restauração) padeceu grande ruína. As colunas (grandes pedras que se encontram neste lugar) que ainda se descobrem, mostram que o lugar tinha extensão porque há três anos que andando um lavrador lavrando uma pequena parcela de terra que está defronte do chafariz, descobriu uma sepultura de que tirou tijolos, para se aproveitar deles, de notável grandeza e qualidade de barro e fica este sítio em bastante distância da Igreja de S. Pedro. (Estêvão da Gama, p. 29 e 30)

            “(…) A Ermida …a qual é de grande romagem dos moradores às quintas-feiras da Quaresma, com indulgência plenária (tem na parede do lado esquerdo da nave, uma imagem de São Pedro). A Imagem é pintada a fresco na parede, em hábito pontifical e se conserva no mesmo estado, como refere o Dr. Novaiz, acrescendo à sua ponderação a circunstância da Guerra da Aclamação, que durou 28 anos, esteve exposta à inclemência dos tempos por se arruinar a Igreja e não teve nenhuma diminuição aquela Imagem, não tendo sido retocada, nem necessitar de nenhum benefício da arte.

            Neste sítio estão as colunas de que já se fez menção e outros sinais de edifícios. Há pouco tempo, a ermitoa que hoje existe achou uma moeda de ouro de tamanho de uma de seis vinténs, mas muito delgada e com um bocado menos na circunferência. Porém, de uma parte estão as letras bem formadas e se lê nelas Toleto Pios, cuja moeda se acha em poder de Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, Governador desta Praça...”

(Estêvão da Gama, p. 61)     

 



publicado por Francisco Galego às 00:03
Quarta-feira, 25 de Maio de 2016

 

 

s350x255.jpgFOTOGRAFIA ANTIGA

 

FONTE E ASSENTO.jpgA FONTE COM O SEU BEBEDOURO PARA ANIMAIS

(Repare-se na antiga fachada do Assento Militar de Provisões de Boca)

 

s351x255.jpg

 FOTOGRAFIA ACTUAL

(Sem o tanque-bebedouro para os animais, mas com um laguinho e um repuxo ao lado)

 

É uma fonte interior às muralhas seiscentistas mas, por estar localizada numa entrada importante da vila, apresentava a dupla função de fonte e de bebedouro para os animais. Mas o tanque destinado a esta última função foi recentemente demolido.

A fonte propriamente dita ainda se encontra no mesmo local, mas esteve associada a uma estrutura muito recente de carácter meramente decorativo que foi há pouco tempo retirada.

Enfim! ...As judiarias que se fazem ao PATRIMÓNIO ... E algumas reparações, para recuperar o que ainda não se perdeu.



publicado por Francisco Galego às 00:04
Sexta-feira, 20 de Maio de 2016

s353x255.jpgA FONTE

s354x255.jpgO BEBEDOURO PARA OS ANIMAIS

 

Das três fontes exteriores – de S. Pedro, das Negras e Fonte Nova - que rodeiam Campo Maior, será provavelmente, a de construção mais recente. Daí a razão do nome. Temos, contudo, de relativizar o seu carácter de novidade, pois que, já em documentos do século XVIII, aparece designado o ribeiro que lhe está adjacente como o Ribeiro da Fonte Nova, o qual tinha a interessante função de abastecer a lagoa que então existia entre os baluartes de S. João e de Santa Cruz.

 

Nesta fonte, a tríplice função estava bem testemunhada, antes de ter sido destruido o tanque de lavagem das roupas. Existe ainda uma estrutura que é a fonte propriamente dita, abastecida por um cano que vem de uma distância de cerca de um quilómetro no caminho de Degolados, sendo visíveis ainda as arcas de água;da fonte, a água escorre para um grande bebedouro destinado aos animais; deste a água era encaminhada para o tanque de lavagem de roupa que foi destruido e o local foi coberto por uma construção que agora é a sede do "Núcleo dos Combatentes".



publicado por Francisco Galego às 00:09
Quarta-feira, 18 de Maio de 2016

 

s352x255.jpg

 

É a mais recente das fontes de Campo Maior. Está datada de 1954. Contudo, é bem provável que perto deste local tenha existido uma outra fonte, associada ao extinto e desaparecido convento de S. João de Deus, que abrigava o hospital militar de Campo Maior, nos séculos XVII e XVIII.

Ainda hoje é visível uma fonte no pátio de acesso à casa que ocupa parte do terreno que pertencia ao convento e que fica entre as ruas de S. João, Santa Cruz, Visconde de Seabra e Vasco Sardinha.



publicado por Francisco Galego às 00:07
Aqui se transcrevem textos, documentos e notícias que se referem à vida em Campo Maior ao longo dos tempos
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